perspectivas

Segunda-feira, 27 Maio 2013

Fernando Pessoa e o liberalismo

«Um povo, sobretudo se se sentiu oprimido, pode a princípio simpatizar com o movimento liberalista; mas, tarde ou cedo, de desconfiar dele, passa a odiá-lo. O caso é simples. Ou o liberalismo segue o seu caminho lógico e justo, ou não o segue.

Se o segue, entra, mais tarde ou mais cedo, em conflito com privilégios que a ele, povo, tocam já de perto, porque privilégios todos os têm, reais ou esperados.

Se não o segue, que é o que em geral acontece – dada a impossibilidade radical da operação do liberalismo e os atritos que quotidianamente encontra ao tentar existir – vai o liberalismo gradualmente desviando-se do seu primitivo intuito, porventura sincero, e torna-se uma mera arma de espoliação para os políticos sem escrúpulos, modo de viver dos Lloyd Georges e dos Clemenceaux da charlatinice política internacional.

Mero implemento de ambiciosos, quando não positivamente de ladrões, o liberalismo acaba por despertar as iras do povo, quando o caso se não dê de no povo, por decadente, já não haver a possibilidade sã da ira legítima.

fernando-pessoa-teixeira-cabral-png-web.png O caso é pois, que, sendo assim anti-egoísta, o liberalismo é radicalmente anti-popular. Para se ser “liberal” é preciso ser-se inimigo do povo, não ter contacto nenhum com a alma popular, nem a noção das noções instintivas que lhe são naturais e queridas. Teoria, de resto, originada por emissários da aristocracia inglesa, no seu conflito com a velha monarquia; espalhada, depois, por homens de letras franceses, mais como arma contra a Igreja que contra o Ancien Regime, o liberalismo ainda hoje se conserva fiel à sua origem extra-popular.

Hoje, porém, são os transviados do povo quem teoriza – os infelizes que saíram do povo e, perdido o contacto em ele e com os seus instintos naturais, não subiram, porém, a nenhuma das aristocracias que o esforço pode conquistar, eternos intermédios da vida social, sem cultura verdadeira, sem posição conquistada, sem valor interna ou externamente definido. Escravos de todas as invejas e de todas as falências, o seu subconsciente indisciplinado espontaneamente os leva a colaborar em quanto seja obra de dissolução social, traidores naturais a tudo, excepto à sua própria incompetência para tudo. Tão triste e débil época é a nossa que as próprias teorias falsas desceram de categoria nas pessoas dos seus sequazes.

Feito, assim, por quem ou não é povo, ou já não sabe sentir como povo, que admira que este sistema venha eivado de todos os vícios anti-instintivistas, de todas as raivas anti-naturais?

Ainda se o liberalismo compensasse o ser anti-egoístico com o ser, de qualquer forma, um aspecto do sentimento patriótico; se, por exemplo, a teoria liberal tivesse por base o ser aplicada só a uma determinada nação – a dos seus teóricos – com o fim, absurdo mas explicável, de dar a essa nação a superioridade, pelo “gozo da liberdade”, sobre todas as outras, até certo ponto, talvez o liberalismo equilibraria o mal que lhe advém da outra parte da sua tese.

Mas se há traço característico do liberalismo é o de ser extensivo a toda a humanidade, de ser uma panaceia universal. E, assim, nem esta defesa absurda que fosse, lhe resta.

O assunto comportaria, a não ter que limitar-se, uma série muito mais extensa de considerações, entre as quais a menos interessante não seria, por certo, a demonstração de que um povo são é espontaneamente aristocratista ou monárquico; de que nunca um povo foi liberal ou democrático; de que nunca um povo defendeu, de seu, senão os seus egoísmos, indivíduo a indivíduo, a sua pátria, colectivamente; que nunca, nunca, excepto por doença da sociedade, ou perversão da decadência, os seus “direitos” as suas “justiças” foram assunto por que um homem do povo desse esforço de se levantar de um banco ou de tirar as mãos das algibeiras.»

— Fernando Pessoa, Do Sufrágio Político e da Opinião Pública.

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Sábado, 25 Maio 2013

O reaccionarismo de Fernando Pessoa

“Ser revolucionário é servir o inimigo. Ser liberal é odiar a pátria. A Democracia Moderna é uma orgia de traidores.” Fernando Pessoa

Eu, que me considero reaccionário, ao ler Fernando Pessoa fico corado. Há passagens dele que fazem lembrar Nicolás Gómez Dávila. Fernando Pessoa é tão reaccionário que considerou que Salazar, ao tirar partido do movimento revolucionário para subir ao Poder, é também uma vergôntea deste. Dizer que Salazar foi uma espécie de revolucionário só pode vir de uma mente ultra-reaccionária.

Já se viu alguém de esquerda citar a prosa de Fernando Pessoa? É muito raro. Até os escritores e artistas de esquerda cobrem hoje Fernando Pessoa com um véu de ignorância. O ódio do politicamente correcto a Fernando Pessoa é de tal modo que lhe querem mesmo destruir a língua com este Acordo Ortográfico.

Sexta-feira, 24 Maio 2013

A palhaçada de Miguel Sousa Tavares

Filed under: A vida custa,Esta gente vota — O. Braga @ 4:03 pm
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Eu não li a entrevista de Miguel Sousa Tavares em que alegadamente este chamou Cavaco Silva de “palhaço”, e apenas li a notícia aqui, aqui e aqui. Desde logo, os palhaços no circo têm dignidade, e por isso seria mister dizer-se que Cavaco Silva é um palhaço fora do circo. Eu estou perfeitamente à vontade para falar disto porque não votei nas eleições presidenciais, tal era a indigência política ou intelectual dos candidatos.

Portanto, Miguel Sousa Tavares teria razão se tivesse dito aquando das últimas eleições presidenciais que Cavaco Silva era um palhaço fora do circo. Mas dizer hoje que Cavaco Silva é um palhaço não acrescenta nenhuma solução ao problema em que se transformou a realidade política portuguesa.

Miguel Sousa Tavares (assim como José Pacheco Pereira) faz parte do problema: uma série de palhaços fora do circo a chamar “palhaços” uns aos outros.

Miguel Sousa Tavares confunde o pedido de resgate, por um lado, com as condições do resgate aceites pelo Partido Socialista, por outro lado. Por exemplo, um empréstimo pedido por um cidadão a um Banco não significa que o contrato seja necessariamente usurário, irracional ou prepotente, e para isso é que os empréstimos são negociados. E quando um resgate é aceite e assinado pelo Partido Socialista praticamente sem qualquer negociação, e sabendo o Partido Socialista que já tinha perdido as eleições, a assinatura deste resgate com a Troika parece ter sido uma armadilha política herdada por Passos Coelho.

O mal não foi o pedido de resgate entendido em si mesmo; o mal foi assinar praticamente de cruz os termos de um regaste. Por exemplo, a Irlanda bateu o pé e não seguiu o mesmo critério de submissão canina adoptado pela classe política portuguesa — e não consta que os políticos no poder na Irlanda sejam radicais de esquerda.

Não devemos fazer juízos psicológicos acerca de outrem. Em vez disso devemos perguntar: o que eu faria se estivesse no lugar de Cavaco Silva? Ou ainda: com António José Seguro na oposição, o que eu faria estando no lugar de Cavaco Silva? Temos aqui um enorme problema. E talvez por isso é que seja necessário “brincar aos generais” — mas com generais a sério.

Quinta-feira, 16 Maio 2013

As elites portuguesas defendem o fim de Portugal como país

Filed under: Política — O. Braga @ 12:57 pm
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Miguel Cadilhe disse ontem, num programa de televisão, que é preciso vender o ouro do Banco de Portugal para fazer as reformas do Estado. Isto significaria o abandono definitivo da possibilidade de um dia Portugal voltar a ter uma moeda nacional, porque uma moeda nacional sem algum suporte em ouro — por mais que os keynesianos digam que não — não é minimamente credível.

Ou seja, parece-me que (à excepção de alguns economistas de nomeada, mas de esquerda), os economistas de “direita” vêem com bons olhos a eliminação radical de qualquer possibilidade de um dia Portugal poder vir a ter uma moeda nacional.

Não passaria pela cabeça de François Hollande, por exemplo, vender o ouro nacional francês para pagar a dívida de França; ou pela cabeça de Rajoy vender o ouro nacional espanhol para pagar a dívida de Espanha; etc., etc.. Mas pela cabeça das nossas elites já lhes passa a venda do ouro do Banco de Portugal, porque o que se pretende não é apenas pagar dívidas: o que realmente se pretende é criar as condições de eliminação radical de qualquer possibilidade de Portugal abandonar o Euro, mesmo que isso signifique a extinção de Portugal como país e até como nação.

As elites portuguesas estão vendidas a interesses estrangeiros. E se elas são de “direita”, então eu não sou.

Adenda:

Há que negociar com os credores, em vez de desatar a vender o ouro.
O que essa gente não quer é exactamente negociar com os credores. E porquê? Porque “negociar com os credores”, para a elite, é sinónimo de “afrontar os credores”. Os credores não podem ser afrontados com qualquer tentativa de negociação da dívida.
O crédito é sempre necessário, em maior ou menor grau. O que não é necessário é a submissão canina aos credores. E a nossa elite é uma canzoada vendida a donos estrangeiros.

Sexta-feira, 3 Maio 2013

O que eles dizem para não tocar no assunto da saída de Portugal do Euro !

“Proponho que o Estado imponha temporariamente um regime de despesa privada obrigatória. Nesse regime os titulares de depósitos bancários dispõem, no máximo, de seis meses para gastar uma fracção do saldo na compra de bens e serviços em território nacional. Findo esse prazo, do montante ainda por gastar é transferida para o Tesouro a parte que corresponde à taxa média actual de IVA e de impostos específicos. Na prática, não há qualquer transferência porque não haverá nenhum montante por gastar ao fim de seis meses. Esta é uma solução equilibrada, dado que quanto maior é o saldo, maior é a responsabilidade e a capacidade de relançar a economia. Cada um é livre de comprar o que quiser, desde que seja em território nacional e até ao prazo limite, mas deve saber que a compra de um bem ou serviço importado não aumenta o PIB.”

Regime de despesa privada obrigatória é a solução

strait-jacket-euro-sex webA saída de Portugal do Euro não é um bem, ou uma coisa boa: é uma necessidade. Eu não fico feliz e contente por defender aqui a saída de Portugal do Euro: apenas constato um “estado de necessidade” — Notrecht, na linguagem de Hegel, e para que um alemão perceba o que se quer dizer.

Naturalmente que a saída de Portugal do Euro é assunto tabu para os economistas e para a classe política, em geral. E porquê?

Porque a permanência desastrosa de Portugal no Euro é muito boa para as elites: a classe política sai beneficiada do Euro com as prebendas e sinecuras da União Europeia, por um lado, e por outro lado, uma classe de sibaritas composta por “grandes empresários” e banqueiros agravam, a cada dia que passa, as desigualdades sociais consolidadas pelo eurofascismo que justifica uma putativa “interrupção voluntária da democracia” (IVD).

Se é verdade que com o Euro não temos inflação, temos todavia com ele algo pior: um despotismo político eurofascista que impõe uma canga insuportável de impostos que elimina a classe média e que agudiza as diferenças sociais, e que atira o exercício da democracia para as calendas gregas ou para o tempo do “nunca mais”.

Se o povo está condenado a retroceder à idade da pedra e a ser pobre, então que seja pobre com dignidade, e que mande esta classe política e os vendilhões da Pátria subservientes ao IV Reich para a dimensão escatológica adequada. Mal por mal, que venha o Escudo e a liberdade.

Sábado, 27 Abril 2013

O PNR e a nacionalidade

Filed under: Política,Portugal — O. Braga @ 6:36 am
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Lendo o ideário do PNR, fui anuindo benevolentemente até que esbarrei com este trecho:

“A desvalorização total daquilo que é nosso e nos identifica, face ao que vem de fora e nos descaracteriza, é vergonhosa. É de tal modo grave que, aos poucos, nos torna a nós próprios, os verdadeiramente estranhos no nosso Pais e na nossa Civilização Europeia. Esta situação não é só derivada da imigração descontrolada, mas também, da atitude imposta e generalizada em todas as áreas que desvaloriza a nossa cultura, produção e direito para dar valor ao estrangeiro em geral, criando situações inconcebíveis de preferência de opções sociais a estrangeiros, de valorização artística e cultural externa criando uma amálgama tal que nada já é nada e tudo é permitido desde que as directrizes sejam as da multi-culturalização e de um vazio total de conteúdo tradicional e nacional. Com sinal contrário a esta ordem estabelecida, defendemos vigorosamente a preservação e valorização da nossa unidade étnico-cultural.”

Numa altura em que os portugueses emigram em massa, criticar a imigração só pode ser interpretado da seguinte forma: ou, segundo o PNR, os portugueses deveriam ser proibidos de emigrar (para que o trecho fosse coerente), ou os portugueses têm direitos que mais nenhum outro povo tem.

Uma nação é uma comunidade natural em que cada indivíduo se inscreve em função do seu nascimento, da existência de uma História, de uma língua e de uma cultura antropológica comuns.

pnr logoA nação (e, por isso, a nacionalidade) é, por definição e natureza, imposta ao indivíduo por nascimento. Mas o indivíduo pode mudar de nação e de nacionalidade — é livre de adquirir outra nacionalidade que não a original. Neste caso, o indivíduo tem a possibilidade de escolher entre a nação originária e uma outra nação de adopção que raramente deixará de ser adoptiva enquanto prevalecer nele a memória da cultura e a língua da nação de origem.

Portanto, temos dois tipos de nacionalidade: 1/ a que decorre da comunidade de origem, e 2/ a que pode decorrer de um contrato em relação a determinados princípios fundamentais celebrado com uma determinada comunidade nacional diferente da originária e de emigração.

Um imigrante de segunda geração já nasceu em Portugal, e por isso preenche o primeiro requisito da nacionalidade: o nascimento. E depois, em função da aprendizagem da língua nacional através do ensino escolar, e mediante o entrosamento em relação à cultura antropológica comum nacional, acaba por preencher os outros requisitos da nacionalidade.

Estou de acordo com a ideia de que a imigração incontrolada não só não resolve o problema económico e demográfico português (os emigrantes de segunda geração acabam por mimetizar a cultura nacional e também não se reproduzem, por um lado, e por outro lado não está provado que os imigrantes sejam mais produtivos no trabalho do que os portugueses), como pode criar guetos que fracturem a unidade cultural da sociedade. Mas esta ideia faz parte do senso comum (toda a gente com “dois dedos de testa” sabe disto), e por isso acho um exagero que se faça desta ideia um ponto fundamental de um ideário de um partido político.

Quarta-feira, 10 Abril 2013

Pátria é feminino

Filed under: feminismo — O. Braga @ 7:36 pm
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Na nossa língua, dizemos e escrevemos “a Pátria”, e não “o Pátria” — embora a palavra Pátria venha do latim masculino “Pater” (pai). A Pátria tem mais a ver com a mulher do que com o homem — se é que tem grande coisa a ver com o homem. A Pátria é o nosso Lar.

Quando o homem defende A Pátria, nada mais faz do que defender a preponderância do feminino na sociedade. A defesa da Pátria, por parte do homem, por exemplo, nas Forças Armadas, é a defesa da essência feminina da nação (outro termo feminino: A Nação).

Ora, o que está a acontecer é que a ideia intrinsecamente feminina de Pátria está a ser sujeita a uma obliteração radical por parte da Esquerda e, paradoxalmente, em nome da afirmação feminista da mulher.

«Eu considero o fenómeno chamado feminismo muito perigoso, porque as organizações feministas proclamam uma pseudo-liberdade da mulher, que, em primeiro lugar, deve aparecer fora do casamento e fora da família.

O homem tem o seu olhar para o exterior — ele tem que trabalhar, ganhar dinheiro — e a mulher deve estar focada no interior, onde estão as crianças, onde a está o lar. Se esta função importantíssima da mulher é destruída, então tudo será destruído — a família, ou se quiserem, A Pátria.

Não é por acaso que chamamos à Rússia A Pátria

— patriarca Vladimir Kirill, chefe da Igreja Ortodoxa Russa, citado aqui.

Quarta-feira, 16 Julho 2008

Exercício de memória: a República passou de moda?

Terra da Pátria!
Querida terra,
Liberta e altiva!
Na paz, na guerra
A alma idolatre-a,
Para ela viva.

Nosso chão pátrio,
Terra querida,
Sempre liberta!
De um mundo às átrio,
Nunca vencida,
Por ti ― alerta!

Terra sagrada
Da Pátria amada,
Sê triunfante!
Pequeno e forte,
Até à morte
Avante! Avante!

“Coral de Tripúdio”, de Teófilo Braga (1843 ― 1924), um republicano dos sete costados

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