perspectivas

Sexta-feira, 2 Julho 2010

Sobre o Ser e o Não-ser

« O Panteísmo imanentista é uma filosofia interessante e sedutora na medida em que defende que Deus gerou o Universo a partir da sua própria substância e, deste modo, não o criou a partir do Nada. O Universo é gerado e não criado. Assim, parece ficar resolvido e ultrapassado o problema do Nada.

É que do Nada não pode surgir alguma coisa a não ser que o Nada seja tratado como sendo alguma coisa. A criação a partir do Nada, quer seja por Deus quer seja pelo Acaso dos ateus materialistas, levanta uma contradição lógica, pois o Nada para “ser” Nada não pode ser “alguma coisa” e do verdadeiro Nada nada sai ou se produz ou se cria. O Nada é a ausência e a impossibilidade da Existência. Deste modo, é filosoficamente sedutor ver o Mundo como derivado da substância do próprio Deus, conquanto ele não seja Deus. »

Sérgio Sodré

Para resolver este problema, temos que invocar Parménides e Platão. Para o primeiro (no poema “Da Natureza”), “O Ser é, e o Não-ser não é”. Isto parece tautológico, mas não é. Se o Ser é a única coisa que pode ser pensada e dita, ele (o Ser) existe em contraposição ao Não-ser. O mesmo salienta Platão (no “Sofista”): é preciso que exista o Não-ser se quisermos conceber a existência do Ser — isto é, se quisermos pensar, falar, etc.. Para Platão, dizer o que é uma coisa, é dizer o que ela não é.
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Terça-feira, 25 Março 2008

Parménides

Filed under: Religare — O. Braga @ 5:26 pm
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parmenides.jpg Não foi por acaso que Nietzsche gostava dos filósofos pré-socráticos e detestava os que surgiram com Sócrates: foi a partir de Sócrates que se formatou a filosofia ética que contribuiu para a consolidação do cristianismo como religião de massas. Presume-se mesmo que Platão terá viajado pelo oriente médio e terá tido contacto com filosofias orientais, como a budista, para além de ser seguro que ele terá vivido no Egipto que embora já decadente, mantinha ainda alguma da substância da sua civilização e da sua religião do culto da morte.
Uma das razões por que Nietzsche gostava dos pré-socráticos é que estes terão constituído, de certa maneira, o “despertar dos mágicos” no sentido da iniciação filosófica tal qual era entendida pelos europeus, e eram por isso facilmente passíveis de serem criticados à luz dos conhecimentos que Nietzsche já dispunha na sua época. Existia em Nietzsche uma necessidade de se assumir em superioridade em relação ao que o rodeava – um sentimento de superioridade que revelava um profundo complexo de inferioridade. Esse mesmo sentimento de superioridade impedia-o de admirar os pós-socráticos porque foram estes que introduziram a sistematização da ética e da moral como um elemento decisivo da filosofia europeia, e para Nietzsche, qualquer submissão a uma ética ou moral que não fosse regida por uma dinâmica da lei do mais forte, constituía um sinal de fraqueza humana inaceitável.
Eu considero que Nietzsche (mera opinião pessoal) terá sido não só o pai do ateísmo filosófico moderno, como o verdadeiro precursor do materialismo filosófico antropocêntrico que irradiou mais tarde para o marxismo, existencialismo e neoliberalismo. Antes dele, Voltaire ou Rousseau eram anti-clericais mas não eram anti-religiosos, e o pai do racionalismo moderno, Descartes, era mesmo um devoto cristão.
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Quarta-feira, 26 Dezembro 2007

A falácia de Parménides

Filed under: Religare — O. Braga @ 7:50 pm
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(Nietszche e Deschner)


Parménides foi um filósofo grego conhecido por defender a ilusão da passagem do tempo, e a “falácia de Parménides” consiste em analisar o passado à luz dos conhecimentos que temos hoje. A “falácia de Parménides” é exactamente o que um bom historiador evita quando faz uma análise histórica.
Sabemos que D. Afonso VI, quando vinha das caçadas nos arredores da capital, se divertia a alvejar os marinheiros empoleirados nos mastros dos navios ancorados na doca de Lisboa. Sabemos que D. João II matou com as suas próprias mãos o seu cunhado, já não falando em D. Pedro que mandou tirar pelas costas o coração do assassino da sua Inês.
Não podemos olhar para o passado e analisar este tipo de actos à luz da nossa moral actual e do nosso Direito, porque entretanto a filosofia evoluiu e com o advento da revolução francesa, surgiram personalidades como Voltaire e Rousseau (entre muitos outros) que contribuíram decisivamente para moldar e instituir o Estado de Direito que temos hoje, em que a lei é aplicável a todos (ou assim se diz). No tempo de D. Pedro, a lei não era a mesma para a nobreza e para o povo, e portanto, os deveres também não eram os mesmos. Quando analisamos um período da História, temos que perceber primeiro o ambiente cultural e ético-moral em que se desenrolam os factos históricos.

Karlheinz Deschner deu-se ao trabalho de escrever oito volumes com o título “História Criminal do Cristianismo”. Se olharmos a História da Humanidade sob o prisma de Deschner, em vez de “História Universal”, deveríamos passar a chamá-la de “História Criminal”; só assim Deschner poderia ter alguma coerência. Richard Dawkins utiliza também frequentemente a falácia de Parménides na análise histórica, quando é necessário atacar a Igreja Católica moderna à luz dos conceitos medievais da ICAR – que confunde com “cristianismo”.

Karlheinz Deschner foi um soldado ferido várias vezes e a quem foi oferecida uma cruz de guerra nazi por bravura no campo de batalha. Talvez ele se devesse preocupar mais com a falácia de Parménides aplicada ao povo alemão como sendo “o povo que alterna entre a dança e a guerra”.

Sobre Nietzsche ler: “O profeta do anticristo”

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