perspectivas

Sexta-feira, 23 Agosto 2013

É ciência, estúpido!

« “Demos tantos saltos na década de 1960. Havia uma certa audácia e confi ança, e tivemos entretanto uma falta de confi ança”, afirmou Ann Druyan na convenção Comic-Con Internacional, que teve lugar em Julho, em San Diego, nos Estados Unidos. “Parte dessa falta traduzse num retrocesso em direcção ao medo, à ignorância, à superstição, ao pensamento mágico. A nível cultural existem ciclos, onde as pessoas estão prontas para se abrirem [ao conhecimento] e andarem para a frente, e ciclos em que regridem. Acho que estamos prontos para voltar ao caminho, essa é a mensagem de Cosmos.”

(…)

Sabe-se pouco sobre a nova série. O trailer, de três minutos e 24 segundos, mostra Neil deGrasse Tyson numa nave espacial que, de acordo com o astrofísico, pode viajar para o passado e para o futuro consoante o seu pensamento. A nave é a nova versão do veículo onde Sagan se movia na série original. Vêem-se ainda planetas, estrelas, uma descida a Marte, mas também o oceano terrestre, uma seara e uma árvore. Há imagens que parecem mostrar a fisiologia humana e os microrganismos.»

Colocar um ser humano em uma nave espacial a “viajar para o passado e para o futuro consoante o seu pensamento” não é pensamento mágico nem superstição. É ciência, estúpido!

Domingo, 14 Abril 2013

Hegel e Averróis

Filed under: filosofia,gnosticismo,Quântica,Ut Edita — orlando braga @ 6:12 pm
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S e olharmos para a essência do pensamento metafísico de Averróis (o “intelecto, agente separado”) verificamos que coincide com a essência do pensamento metafísico de Hegel (o “Espírito do Mundo em marcha”). O “intelecto, agente separado” de Averróis, e o “Espírito do Mundo em marcha” de Hegel, para além de terem uma essência idêntica, anulam a individualidade humana que fica reduzida à estrutura (Eidos) da História. Não admira que a metafísica de Hegel resultasse no marxismo. As mesmas razões que serviram para refutar Averróis, servem para refutar Hegel.

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Domingo, 19 Agosto 2012

O pensamento de Antero de Quental em um minuto

Filed under: cultura,filosofia,Ut Edita — orlando braga @ 7:52 am
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O pensamento de Antero de Quental repele-me, como o azeite repele a água, tanto do ponto de vista formal, como do de conteúdo.
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Quarta-feira, 29 Fevereiro 2012

A mentira ‘segura e profunda’ de Espinoza

Filed under: ética,filosofia — orlando braga @ 3:06 pm
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Ainda em relação a um postal anterior sobre a ética de Espinoza:

Podemos aplicar à ética de Espinoza o princípio do poeta Aleixo exarado nesta quadra: “P’rá mentira ser segura / e atingir profundidade / tem que trazer à mistura / qualquer coisa de verdade”. Espinoza é perigoso porque a sua “mentira é segura” porque transporta consigo algumas verdades empíricas.

Vamos dar aqui um pequeno exemplo da mentira segura e profunda de Espinoza.

“O bom é o que nós sabemos com certeza ser útil.” — Espinoza, “Ética”, IV

Vamos fazer de conta de que não existe nesta proposição de Espinoza um sofisma naturalista, e passar adiante: o que significa “sabemos com certeza”? Como é possível “saber com certeza”?

Simplesmente, não é possível ter a “certeza de saber”, porque o saber — no sentido de “conhecimento racional” — não é compatível com a certeza. Um cientista [naturalista] não pode dizer, por exemplo: “eu tenho a certeza de que não existe o Bosão de Higgs”; ou “eu tenho a certeza de que a idade do universo é de cerca de 14 mil milhões de anos-luz”. Como é que, em termos estritamente racionais — repito: em termos estritamente racionais —, se pode ter a certeza de alguma coisa?!

Toda a ética de Espinoza parte de princípios irracionais como o deste exemplo e, surpreendentemente, em nome da razão…! É nesta “razão irracional” de Espinoza que reside a “mentira segura e profunda”, porque a “mentira” espinoseana transporta consigo uma qualquer verdade empírica [nota: uma “verdade empírica” não é uma “certeza”]; e é, neste caso, a partir dessa verdade empírica — que não é uma certeza — que Espinoza constrói a “certeza do conhecimento” daquilo que é “útil”, e portanto, “bom”.


Na minha opinião, as obras de Maquiavel, Espinoza, Hume e Nietzsche deveriam ser objecto de edições anotadas [a exemplo das edições anotadas da Constituição Portuguesa], de modo a impedir que incautos leitores fizessem uma interpretação errada desses textos.


A partir de um princípio falacioso [neste caso, como poderia mencionar muitos outros] e, portanto, errado, Espinoza espraia a sua perversidade ética, e em nome da ética…!

Neste caso concreto, Espinoza serve-se da proposição falaciosa supracitada para relativizar “racionalmente” as noções de bem e de mal.

Espinoza diz que “a realidade é perfeita”. Entenda-se aqui “realidade” como sendo “Natureza”. Portanto, segundo Espinoza, a Natureza é perfeita. E porque é que a Natureza é perfeita? Espinoza diz que a Natureza é perfeita porque coincide com a “perfeição divina” [Deus sive Natura]; e quando, por exemplo, dizemos que “Hitler foi um monstro”, a alegada monstruosidade de Hitler explica-se pelas leis universais da Natureza que — segundo Espinoza — coincidem com Deus. Portanto, segundo o “príncipe dos filósofos”, a “putativa” monstruosidade de Hitler faz parte da natureza de Deus.

Segundo Espinoza, o facto de alguém dizer que “Hitler é um monstro” deve-se a uma deficiência de análise que se prende com uma “norma exterior” [ao objecto analisado] que se afasta da realidade [Hitler, neste caso] considerada.

Existe neste conceito de Deus sive Natura um gnosticismo invertido [relativamente ao gnosticismo da antiguidade tardia] que não deixa, por isso, de ser uma forma de gnosticismo. Enquanto que na antiguidade tardia o gnosticismo separava radicalmente a Natureza, por um lado, da transcendência, por outro lado, e reduzia a realidade concreta à imanência — Espinoza também separou radicalmente a Natureza, da transcendência, eliminando radicalmente esta última; e transformou toda a realidade — incluindo Deus — em pura imanência: estava aberto o caminho ideológico para Hume, Nietzsche, Richard Dawkins e Peter Singer.

Terça-feira, 26 Julho 2011

Sobre a ética estóica

Eu sou avesso à utopia. O termo “utopia” foi cunhado por Tomás Moro a partir do grego “ou” (privativo) + “topos” (o lugar), e que significa “aquilo que não é de nenhum lugar”; porém, pelo facto de não ser de nenhum lugar, não significa que o utopista não pretenda que esse lugar exista realmente. A utopia é a descrição concreta da organização de uma sociedade ideal que é, por isso, considerada pelo utopista como sendo factível. Não quero dizer com isto que seja proibido, ao Homem, sonhar; o que é necessário é distinguir entre imaginação criativa, por um lado, e a imaginação imaginativa, por outro lado; entre o sonho que tem em conta a realidade, e aqueloutro que pretende negar a própria realidade a partir da qual se constrói.
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Quarta-feira, 11 Maio 2011

A manifestação do sagrado e os softwares do nosso cérebro (2)

Filed under: filosofia — orlando braga @ 7:08 pm
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Quando os ateus dizem que “Deus não existe”, não deixam de ter alguma razão. De facto, Deus como objecto que se apresenta a um sujeito, não existe. Quando dizemos que “Deus existe”, apenas usamos uma figura de linguagem — um simbolismo — que facilita a nossa compreensão de Deus, que é, de facto, “o Ser que se encontra de ambos os lados na divisão sujeito/objecto” (Karl Jaspers). Ora, este Ser não “existe”, mas é antes a causa da existência.

Se é verdade que o nosso pensamento não pode compreender Deus — assim como a ciência não pode compreender nem explicar a “realidade em si” de que se falou no último postal, mas apenas descrevê-la a partir do seu exterior —, podemos, contudo, tentar definir Deus.
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Quarta-feira, 30 Março 2011

O erro de Espinoza (2)

Espinoza foi um homem que viveu e morreu sem grandeza porque não conseguiu ser diferente de uma árvore — não conseguiu vislumbrar a sua condição de miserável.

Quando Stephen Hawking, no seu último livro, afirmou que a causa do universo era o próprio universo, nada mais fez do que seguir, grosso modo, a metafísica de Espinoza. A diferença essencial é a de que Stephen Hawking baseia-se no conceito de Multiverso para justificar a infinitude material do espaço-tempo, enquanto que Espinoza concebia o universo como infinito porque não tinha os meios científicos suficientes para saber que, afinal, o universo teve um princípio e que, por isso, é finito.
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Segunda-feira, 28 Março 2011

O erro de Espinoza

Filed under: filosofia — orlando braga @ 7:14 am
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Espinoza foi o avô do positivismo de Comte e do utilitarismo de Bentham.

Se, em um ensaio de Espinoza, substituíssemos o termo “Deus” por “universo”, teríamos, por exemplo e grosso modo, um ensaio filosófico de Carl Sagan ou de Stephen Hawking, e se substituíssemos o termo “Deus” por “natureza”, teríamos um ensaio filosófico do neurologista António Damásio ou do zoólogo Richard Dawkins.
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Terça-feira, 22 Março 2011

Os bispos gnósticos de Coimbra e de Lisboa

Numa altura em que a igreja anglicana, pela primeira vez em séculos, se aproxima das posições tradicionais da Igreja Católica, a Igreja Católica portuguesa parece adoptar a Nova Teologia de Bonhoeffer — imanente e secular. Depois do cardeal patriarca de Lisboa ter defendido o gaymónio, temos agora o bispo de Coimbra a patrocinar cedências ao novo culto do bezerro de ouro.
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Quinta-feira, 23 Dezembro 2010

A teoria das propensões, de Karl Popper (1)

Para qualquer pessoa minimamente actualizada e que se preocupe com a realidade, não é possível ignorar pelo menos três tipos de situações, digamos assim, a ver :

  • as conclusões da física quântica;
  • a teoria das propensões, de Karl Popper;
  • o estatuto e o papel da consciência em conexão com os dois itens anteriores.

No que respeita à física quântica, é possível a qualquer pessoa interessada ter uma noção básica acerca das suas conclusões, e sem entrar na linguagem formal da matemática. A ideia de que a quântica é só entendível pelos físicos não corresponde totalmente à verdade.

A “teoria das propensões” de Karl Popper baseia-se nas conclusões da física quântica, e difere dos positivistas, construtivistas e outros críticos — tradicionalmente defensores de um determinismo da natureza — quando demonstra não só que esse determinismo cientificista não existe, como demonstra que as possibilidades de ocorrência de acontecimentos futuros não são um mero produto subjectivo decorrente de eventuais lacunas do conhecimento humano, mas antes são um fenómeno objectivo e concreto.

O terceiro item — o estatuto e o papel da consciência — não é aflorado por Karl Popper neste contexto, mas foi reconhecido como sendo importante por muitos físicos quânticos, entre eles alguns laureados com o Nobel da física. O que se defende é que a consciência interage a nível quântico e contribui decisivamente para moldar as “possibilidades pesadas” (utilizando a terminologia de Karl Popper) que são aquelas cuja propensão para a actualização ou realização se torna mais forte.
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Terça-feira, 29 Junho 2010

Os monismos seculares (2)

A assunção de algumas posições éticas niilistas por parte de pessoas ligadas à Igreja católica, como são os casos do Bispo Januário Torgal Ferreira, do Padre Carreira das Neves ou do Frade Domingues (para mencionar apenas alguns), dão-nos a ideia de que como a ética cristã pode ceder perante as pressões de um mundo ocidental em grave crise de valores.

Eu passei alguns poucos anos a estudar as religiões, não como uma obrigação, mas como um passatempo. Antes da Era industrial, os monges cristãos inventaram o 3 X 8 : 8 horas de contemplação, meditação e oração, 8 horas de trabalho e 8 horas de sono. A Era industrial substituiu as primeiras 8 horas pelo entretenimento que consome a cultura e evacua-a. Eu não tenho nada contra o entretenimento, mas prefiro passar as 8 horas em que não trabalho nem durmo, a saber de coisas que não deito fora.
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Terça-feira, 11 Maio 2010

A menina que parou no tempo

Brooke Greenberg é uma menina de 17 anos (à esquerda, na foto, na companhia da sua irmã Carly, com 13 anos e à direita). Com 17 anos, estaria perto da maioridade mas ainda gatinha e não fala, ou seja, tem a idade real de 1 ano. Ver a notícia no Times. Os cientistas não têm certezas sobre a causa do não-envelhecimento de Brooke, atribuindo possíveis e hipotéticas causas à estrutura do ADN; de facto, Brooke manteve-se 17 anos com idade de 1 ano, e com um envelhecimento seja extremamente lento. Ela parou no tempo.
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