perspectivas

Quarta-feira, 11 Maio 2011

A manifestação do sagrado e os softwares do nosso cérebro (2)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:08 pm
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Quando os ateus dizem que “Deus não existe”, não deixam de ter alguma razão. De facto, Deus como objecto que se apresenta a um sujeito, não existe. Quando dizemos que “Deus existe”, apenas usamos uma figura de linguagem — um simbolismo — que facilita a nossa compreensão de Deus, que é, de facto, “o Ser que se encontra de ambos os lados na divisão sujeito/objecto” (Karl Jaspers). Ora, este Ser não “existe”, mas é antes a causa da existência.

Se é verdade que o nosso pensamento não pode compreender Deus — assim como a ciência não pode compreender nem explicar a “realidade em si” de que se falou no último postal, mas apenas descrevê-la a partir do seu exterior —, podemos, contudo, tentar definir Deus.
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Terça-feira, 29 Junho 2010

Os monismos seculares (2)

A assunção de algumas posições éticas niilistas por parte de pessoas ligadas à Igreja católica, como são os casos do Bispo Januário Torgal Ferreira, do Padre Carreira das Neves ou do Frade Domingues (para mencionar apenas alguns), dão-nos a ideia de que como a ética cristã pode ceder perante as pressões de um mundo ocidental em grave crise de valores.

Eu passei alguns poucos anos a estudar as religiões, não como uma obrigação, mas como um passatempo. Antes da Era industrial, os monges cristãos inventaram o 3 X 8 : 8 horas de contemplação, meditação e oração, 8 horas de trabalho e 8 horas de sono. A Era industrial substituiu as primeiras 8 horas pelo entretenimento que consome a cultura e evacua-a. Eu não tenho nada contra o entretenimento, mas prefiro passar as 8 horas em que não trabalho nem durmo, a saber de coisas que não deito fora.
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Terça-feira, 4 Agosto 2009

Que Deus lhes valha!

Filed under: ética,cultura,filosofia,Religare — O. Braga @ 12:08 am
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Os argumentos ateístas são tão frágeis do ponto de vista filosófico que metem dó. Repare-se na seguinte proposição: “a posição ateísta, em si mesma, não é positiva, não possui qualquer conteúdo, pois não representa algo, mas apenas a ausência de algo”.

A partir do momento em que “alguma coisa é”, deixa de ser possível falar-se de “prova de ausência” do que quer que seja. A partir do momento em que qualquer coisa exista, a ciência só pode eventualmente fazer prova de que essa coisa existe, e não pode provar que outra coisa qualquer ― em função da existência da primeira coisa ― não existe. A ciência nunca pode fazer prova da não-existência do que quer que seja.

Por outro lado, o argumento ateísta contra a religião baseia-se no teísmo, em que Deus é tratado como um objecto na divisão relacional sujeito-objecto. Ora o englobante nunca pode ser objecto do englobado. O Cristianismo primitivo ― o da patrística ― e outras religiões, são panenteístas e não teístas. O ateísmo parte de um pressuposto errado na sua análise.

«Ao contrário de outros ismos – como cristianismo, judaísmo, espiritismo, xintoísmo, hinduísmo, islamismo –, o ateísmo não é um estilo de vida nem uma doutrina dotada de um corpo de conhecimentos ou princípios (…)»

Temos aqui uma enunciação de princípios. Quando se diz que “o ateísmo não tem princípios”, estamos a definir os princípios do ateísmo. A própria ideia de “uma classificação acerca do posicionamento ou estado intelectual do indivíduo em relação à ideia de Deus” é ela própria uma tomada de posição de princípio. Isto é tão básico que até um mau aluno do ensino secundário pode entender; porém, o irracionalismo ateísta é levado muito a sério.

Segundo o texto, um dos princípios do ateísmo é a “classificação” segundo a qual “aquilo que os ateus fazem das suas vidas não é levado em consideração absolutamente (de forma absoluta). Isto significa a expressão de um princípio no qual o relativismo moral é absoluto, ou seja, parte-se de um princípio contraditório em si mesmo. Embora contraditório em si mesmo, não deixa de ser um princípio ― trata-se de um princípio absurdo. O absurdo nada mais é que a lógica corrompida.

Quando se diz que o ateísmo “logicamente não incorpora qualquer espécie de valores, princípios morais ou noções de ética”, continuamos no campo dos princípios. Diz-se, por conseguinte, que o ateísmo tem como princípio “a não incorporação de qualquer espécie de valores, princípios morais ou noções de ética”.

Não há como fugir ao facto de ser ― a lógica dá sempre prioridade ao Ser e de tal modo que até a negação do ser é uma forma de ser; o mal é apenas o bem corrompido. A própria negação de uma ordem moral significa o reconhecimento implícito de que essa ordem existe: não podemos negar senão aquilo que existe.

Quinta-feira, 10 Julho 2008

Thomas Huxley estava errado (1)

“Não devia depender da nossa escolha quais as quantidades que são observáveis, mas essas quantidades deveriam ser dadas, deveriam ser-nos indicadas pela teoria.”

― Albert Einstein

O Novo Ateísmo naturalista, que nos afiança que nada mais existe do que a matéria atómica e que o nosso pensamento é fruto dos átomos que constituem as propriedades neuro-fisiológicas (a estrutura dos neurónios e o “Epifenomenalismo” de Thomas Huxley e Darwin) é a maior fraude consentida pela ciência, e que se reforçou a partir do momento em que o darwinismo (segundo Dawkins) foi admitido ― com todos os seus elos perdidos e metodologias falhadas ― como fazendo parte do sentido da formação primordial do Universo. Qualquer físico quântico e/ou um matemático contemporâneo sabem que Richard Dawkins é um charlatão que tem vendido muitos livros, ao mesmo tempo que atestam que as religiões em geral são sínteses de formas primitivas de antever o que se perscruta como sendo a realidade científica, filosófica e religiosa.
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Sexta-feira, 4 Julho 2008

A crítica das religiões ― uma opinião

A crítica sistemática à religião surgiu na Europa cristã, principalmente com o advento do Iluminismo, e não aconteceu noutros continentes e em outras religiões (pelo menos com os mesmos contornos). Provavelmente, a razão porque o ateísmo soteriológico se instalou na Europa estará ligada a uma maior tolerância do Cristianismo em relação à crítica do que a manifestada por outras religiões e culturas.

Nem todos os chamados “iluministas” foram contra o Cristianismo (Kant não foi), mas quase todos os iluministas manifestaram um anti-teísmo que se confundiu, muitas vezes, com um anti-clericalismo feroz ― mas nem por isso a elite iluminista deixou de ser religiosa. Augusto Comte, por exemplo, fez do Positivismo uma espécie de religião monista.

A crítica da religião que se desenvolveu a partir do Iluminismo resultou no surgimento de perspectivas religiosas como alternativas seculares que enfraqueceram o nível de individualização do ser humano (como aconteceu com o Modernismo) dando azo a que questões próprias do indivíduo ― a doença, a culpa, a morte, etc. ― passassem a ser abordadas como tabu ou tivessem recebido uma solução niilista.

Na esteira de Espinoza seguiram os iluministas que deram depois origem a Feuerbach, Nietzsche, Engels, Marx ― todos eles construiriam alternativas religiosas monistas ao monoteísmo cristão. O panteísmo de Espinoza é um monismo que desembocou no naturalismo soteriológico iluminista: a nova religião da “não-religião” ― que era sempre conforme a razão subjectiva de cada um dos novos gurus que se pretendiam basear em conhecimentos comprováveis para justificar a sua nova utopia. De certo modo, com o Iluminismo aconteceu um retrocesso na evolução religiosa (decadência), uma vez que o monismo é historicamente anterior ao monoteísmo.

As religiões monoteístas (Cristianismo, Islamismo e Judaísmo ― e a religião Bahai também é um monoteísmo sincrético) baseiam-se na “revelação transcendental”, enquanto que as religiões monistas perfilham o conceito de “conhecimento sagrado” mais ou menos aliado a um panteísmo naturalista. O Confucionismo e o Taoísmo são monismos. Para além dos monismos e dos monoteísmos, existem religiões panenteístas, como o Siquismo e o Budismo moderno com a sua conjugação de Samsara e Nirvana. Finalmente, temos as religiões dualistas, como o Parsismo e o Hinduísmo. Contudo, o dualismo está mais ou menos presente nos outros tipos de religião, e o Cristianismo distingue-se das outras religiões monoteístas pela existência da Trindade (Deus, Logos e Espírito), herdada do grego Plotino (neoplatonismo) e consagrada por S. Agostinho (ele próprio um dualista).

O que o Iluminismo fez foi tentar substituir ― através de uma elite intelectual controlada pela seita maçónica dos Illuminati ― o monoteísmo cristão por monismos seculares prenhes de manifestações religiosas. O materialismo moderno é a forma radicalmente secular do monismo. As utopias radicais modernas são fórmulas religiosas monistas que traduzem novas doutrinas da salvação da humanidade, mas como em todos os monismos não existe um Deus pessoal que possa comprometer o indivíduo, as tentativas de criação do Homem Novo acabam por cair num niilismo, não abrindo qualquer perspectiva de esperança humana.

Embora criticada pelos diferentes monismos utópicos seculares, o Cristianismo continua a desempenhar um papel fundamental (embora mais discreto) na Europa actual em campos em que a religião revelada é competente ― por exemplo, a questão do sentido ― de forma tal que não é de esperar o fim das religiões no futuro, conforme apregoado e defendido pela soteriologia ateísta.

Imagem daqui.

Sexta-feira, 30 Maio 2008

Do Budismo ao Cristianismo (2)

Filed under: Religare — O. Braga @ 5:41 pm
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A ler: Do Budismo ao Cristianismo (1)

A fragilidade lógica do ateísmo é pouco relevante por ser um fenómeno elitista ocidental contemporâneo que, exportado à força pelo marxismo, está em extinção. A única questão interessante é saber porque coisas tão simples foram escondidas aos sábios e inteligentes e reveladas aos pequeninos.”

― João César das Neves, Diário de Notícias de 26 de Maio de 2008

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