perspectivas

Sexta-feira, 24 Agosto 2012

Algumas ideias acerca de David Hume

A filosofia moral ou ciência da natureza humana pode ser tratada de duas maneiras diferentes, cada uma delas tem o seu mérito peculiar e pode contribuir para o entretenimento, instrução e reforma da humanidade”.

É assim que David Hume começa o seu ensaio “Investigação Acerca do Entendimento Humano” [Editora Nova Cultura, São Paulo, 1989, página 63 (1)]. Hume reduziu a moral à natureza humana, o que significa que (para David Hume) os valores morais não existiriam, em si mesmos, se o ser humano não existisse. Ou, por outras palavras, segundo David Hume, os valores que presidem à ética e à moral — por exemplo, o valor da justiça — são apenas epifenómenos da existência humana, e não realidades ideológicas em si mesmas. O realista Nicolau Hartmann colocou posteriormente as ideias de Hume no sítio onde deveriam estar e de onde nunca deveriam ter saído: segundo Hartmann, os valores da ética e da moral (2) existem por si mesmos — por exemplo, o valor da justiça existe por si mesmo e não é dedutível de uma qualquer utilidade; e, conclui Hartmann, existem provavelmente muitos valores éticos e morais que o ser humano ainda não descobriu.
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Domingo, 25 Setembro 2011

G. E. Moore e o conceito de Bem

Dos filósofos modernos, G. E. Moore é um dos mais importantes (na linha de Sidgwick, de quem foi aluno), aproximando-se bastante das teses realistas de Nicolau Hartmann, embora, como este, aquele não pudesse levar a sua teoria ética até às suas últimas consequências porque o realismo de ambos não o permitiu.

Vou servir-me da diferença conceptual entre Bem e Bom, segundo Moore, para fazer uma analogia entre os conceitos de Deus e de Divino; mas antes, vou abordar a noção de “falácia naturalista” segundo G. E. Moore — noção que é muito importante na ética contemporânea.


Se a todos os homens crescem pêlos na cara, não podemos deste facto deduzir a norma segundo a qual todos os homens deveriam ter barba. E quem defende, por exemplo, a tese ética segundo a qual todos os homens deveriam ter barba, incorre na “falácia naturalista” (segundo Moore). Isto significa que os factos não fundamentam quaisquer normas, embora as normas possam criar os factos.


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Quinta-feira, 10 Dezembro 2009

O estado da ética

Temos ouvido sistematicamente gente inteligente ― como o professor Adriano Moreira ― falar insistentemente na necessidade dos “valores”. O que são os “valores”?

Com a actual crise financeira, tem-se falado muito de necessidade de ética. A crise do capitalismo está estritamente ligada à perda de normas vinculativas que faz regredir os seres humanos cada vez mais ao princípio do egoísmo através de um círculo vicioso: a perda de valores causa o recrudescimento da mentalidade individualista que causa mais perda de valores, rumo à irracionalidade e à decadência. Perante este fenómeno, alguns (a esquerda) defendem uma maior intervenção do Estado na sociedade, o que daria azo a que os cidadãos deixassem de ser controlados pela sua consciência e passassem a ser sujeitos a uma repressão através da acção policial estendida não só ao comportamento individual como em relação ao seu próprio pensamento. Uma maior intervenção do Estado na sociedade, no seguimento desta crise de valores, significaria o reconhecimento da impossibilidade de ver o ser humano senão como um animal irracional. Portanto, a solução para o problema está antes numa cultura moral razoável e segura e de responsabilização dos cidadãos.

valoresAs estruturas tradicionais da sociedade civil entraram em colapso, e entre elas a mais importante: a família. A religião começa a ser perseguida pelo Estado, nuns países mais do que noutros: a nossa sociedade ultrapassou já o limiar da pobreza em termos religiosos e ideológicos. Pela primeira vez desde que a História é escrita ― e mesmo na pré-história ― os jovens são educados e socializados sem uma cosmovisão.

Temos ouvido sistematicamente gente inteligente ― como o professor Adriano Moreira ― falar insistentemente na necessidade dos “valores”. O que são os “valores”? Eles referem-se à ética ― que é a disciplina filosófica que fundamenta as normas. Porém, se os valores não estão enraizados na tradição de uma sociedade, terão que ser fundamentados. E aqui começa o problema.

Desde logo, os valores morais devem ter uma validade universal, o que parece ser impossível numa sociedade pluralista, em que cada um reclama para si próprio o direito à “sua ética”. Para que os valores tenham uma validade universal ― numa sociedade pluralista ― terão que ser fundamentados racionalmente, na medida em que os valores morais não podem ser rejeitados por qualquer pessoa, porque se assim fosse não seriam universais. Para que não seja possível relativizar os valores morais, eles têm que possuir uma validade intemporal, o que significa que eles seriam comparáveis às leis da natureza. As leis da natureza existem independentemente do ser humano, são sempre válidas e quem as desrespeitar causa a si próprio um problema grave, mesmo que não seja controlado por alguém.

Em resumo: os valores morais devem ser universais, fundamentados racionalmente, ter uma validade intemporal e serem identificáveis nas suas características principais.
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