perspectivas

Sábado, 27 Agosto 2016

Convém misturar Giordano Bruno com Newton

Filed under: filosofia — O. Braga @ 1:16 pm
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O Carlos Fiolhais gosta de misturar coisas, principalmente quando uma das coisas misturadas é logicamente inconsistente mas adequa-se a uma determinada ideologia que ele perfilha. Neste caso, o Carlos Fiolhais mistura, no mesmo texto, o Giordano Bruno e Newton. A essencial diferença entre os dois é que Newton via Deus como transcendente em relação às leis da natureza e ao universo (embora Deus seja interventivo em relação ao universo), enquanto que o Giordano Bruno era um panteísta (panteísmo).

Vemos aqui um artigo que nos diz (por inferência) que Newton estava correcto e que Giordano Bruno estava errado:

“After measuring alpha in around 300 distant galaxies, a consistency emerged: this magic number, which tells us the strength of electromagnetism, is not the same everywhere as it is here on Earth, and seems to vary continuously along a preferred axis through the Universe,” said Webb.

The implications for our current understanding of science are profound. If the laws of physics turn out to be merely “local by-laws”, it might be that whilst our observable part of the Universe favors the existence of life and human beings, other far more distant regions may exist where different laws preclude the formation of life, at least as we know it.”

Our Solar System "Is in a Unique Place in the Universe — Just Right for Life"

A “solução” panteísta de Giordano Bruno (e mais tarde de Espinoza, ou de Hegel) é uma forma de naturalismo; perante a assertividade da mundividência de Newton, o Carlos Fiolhais entra em uma dissonância cognitiva que tem que ser compensada pelo panteísmo do mártir naturalista Giordano Bruno.

É conhecida a polémica entre Leibniz e Newton, em que o primeiro defendia a ideia segundo a qual Deus criou o universo de uma vez por todas e depois retirou-se do mundo — ao passo que Newton defendia a ideia segundo a qual, sendo que Deus transcende o universo (é “exterior” ao universo), mas contudo Ele age constantemente (em termos de tempo cósmico) no universo apesar das leis da natureza por Ele definidas, e que sem a intervenção constante de Deus no universo não poderia haver a ordem e uma determinada constância das leis da natureza que permitem a existência da vida.

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Terça-feira, 8 Maio 2012

A ciência que “salva as aparências” [4]

Newton terá sido o maior nome da ciência da Europa depois de Jesus Cristo. Einstein, comparado com Newton e tendo em conta as diferentes épocas e contextos em que ambos viveram, era um neófito. Por exemplo, é costume dizer-se que Einstein foi original porque introduziu o valor do observador independente na investigação científica; contudo, isto é falso, porque foi Newton o primeiro a introduzir o papel do observador independente em ciência.

Poderíamos também falar na genialidade de Leibniz, mas este foi essencialmente um matemático e um filósofo, e não um físico como Newton. Newton acrescentou a física à filosofia e à matemática, e neste sentido foi mais completo do que Leibniz.

A maioria das pessoas que estudou Newton apenas conhece os resultados do seu trabalho — por exemplo, as leis do movimento e a mecânica. Mas desconhece como Newton desenvolveu o seu trabalho e, na minha opinião, esse desconhecimento é promovido intencionalmente pelo ensino. Temos um ensino que pretende esconder dos alunos as causas ou as razões da genialidade de Newton [e não só de Newton]. E há várias razões para essa postura do ensino actual.

Aquilo que a ciência actual considera como sendo uma “teoria” — por exemplo, a teoria do Multiverso —, para Newton era uma “hipótese”.

Para Newton, uma “teoria” é composta por relações de invariância entre termos [conceitos] referentes a qualidades manifestadas na realidade empírica, ou seja, relações deduzidas dos fenómenos mas que não deixam de ter um suporte experimental na realidade dos fenómenos. Em contraponto, para Newton, uma “hipótese” é um conjunto de afirmações sobre termos [conceitos] que designam “qualidades ocultas” para as quais não há [ainda] processo de medida conhecido.

Por exemplo, Newton afirmou que ao ter estabelecido a teoria da atracção gravitacional e o seu modo de actuação, elaborou uma “teoria” da atracção gravitacional. Mas referiu-se às teses cartesianas de explicação em termos de vórtices de éter como sendo meras “hipóteses” que, aliás, não estavam em concordância como o movimento observado dos planetas.

Hoje, a ciência considera qualquer hipótese como sendo uma teoria. Stephen Hawking escreve um livro em que aventa a hipótese do universo ter surgido do Nada, e a ciência refere-se a essa hipótese como sendo uma “teoria”. Em nome da ciência, Richard Dawkins escreve um livro defendendo a ideia de que Deus não existe, e a ciência transforma essa hipótese em teoria. Isto já não é ciência: é política pura e dura.

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