perspectivas

Sexta-feira, 9 Agosto 2013

Santo Agostinho desconstrói o Positivismo

Um dos figurões do neopositivimo foi Rudolfo Carnap, que ficou célebre por ter transformado o Direito Positivo na total aberração discricionária, arbitrária e elitista que vemos hoje através de muitas leis absurdas emanadas da assembleia da república. Por outro lado, Santo Agostinho é hoje considerado uma figura ultrapassada, fora de moda e mesmo ridícula, uma espécie de Velho da Montanha que “só pensa coisas velhas”.santo-agostinho-300-web.jpg

O neopositivimo de Carnap – e dos seus compagnons de route do Círculo de Viena – é hoje (ainda) o paradigma do pensamento válido, mesmo que alguém negue esse paradigma. O neopositivimo está de tal forma arreigado à forma de pensar do homem moderno que é muito difícil eliminar a sua influência.

Segundo Carnap, tudo aquilo que está para além da objectividade deve ser considerado necessariamente como absurdo ou como um problema aparente. E só aquilo que é percebido pelos sentidos pode ser considerado conhecimento seguro. E, no campo da ciência propriamente dita, o neopositivimo abraça o conceito segundo o qual “a significação é a verificação”, e, por isso, tudo que não pode ser verificado não tem significado.

Santo Agostinho coloca os neopositivistas numa situação muito delicada, e apenas utilizando a lógica. “¿Quem sou eu?” – pergunta Santo Agostinho.

Em primeiro lugar, sou sempre eu a pensar alguma coisa acerca de mim próprio. Por isso, sou logicamente sempre mais do que aquilo que penso de mim mesmo, uma vez que me dividi: por um lado, sou aquilo que penso sobre mim, ou seja, sou o conteúdo do meu pensamento; mas, por outro lado, sou aquele que pensa esse mesmo conteúdo.

O conteúdo do pensamento é um objecto – é uma coisa -, mas o pensamento activo desse conteúdo não é um objecto. Por um lado, eu sou um objecto em relação a mim mesmo, na medida em que sou uma coisa acerca da qual eu penso; mas, por outro lado, sou sujeito que pensa sobre si próprio. O conteúdo do meu pensamento acerca de mim próprio é incompleto, e por isso não é suficiente para me definir: sou sempre mais do que aquilo que penso sobre mim.

Perante este raciocínio de um indivíduo do século V d.C., os neopositivistas – os modernos, em geral – fazem figura de estúpidos. Aliás, são mesmo estúpidos, porque nem sequer podem aparecer no mundo que eles próprios definiram.

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Sábado, 3 Agosto 2013

A porcaria dos livros de filosofia que se vendem por aí

Quando se diz, num livro sobre a Teoria do Conhecimento, que em Descartes existia uma “dúvida céptica”, fico sem saber se quem escreveu o livro não sabe o que escreveu, ou se sabe e tenta alterar conceitos básicos da Teoria do Conhecimento.

1bertrand-russell-300-web.jpg A dúvida de Descartes era uma “dúvida metódica”, e não uma “dúvida céptica”. Qualquer pessoa com um mínimo dos mínimos de conhecimento de filosofia e de Teoria do Conhecimento – como é, por exemplo, o meu caso – tem a obrigação de saber isto.

A “dúvida céptica” é aquela que conclui pela impossibilidade de se decidir entre uma coisa ou outra. Talvez o melhor intérprete da “dúvida céptica” do século XX tenha sido Bertrand Russell (na imagem). A “dúvida metódica” – protagonizada por Descartes – é aquela que consiste em procurar todas as causas possíveis de erro, e é aquela que fundamenta o método científico.

2 Depois, o texto do “filósofo” que escreveu “aquilo” fala em “conhecimento a priori”, por um lado, e, por outro lado, no contexto do “conhecimento a priori”, o texto refere-se a Descartes.

É impróprio falar, em Descartes, de “conhecimento a priori”, porque Descartes parte apenas de conhecimentos geométricos e de hipóteses físicas (o ser humano é visto por Descartes, do ponto de vista físico, como uma espécie de máquina, com tubos e roldanas, etc.). Seria como se disséssemos que em Hobbes também existiu um “conhecimento a priori” acerca do ser humano – o que é absurdo. Só podemos falar propriamente de “conhecimento a priori” em Kant.

Em Kant, encontramos os “juízos analíticos a priori” – por exemplo, uma definição: “o ser humano é um animal bípede, dotado de inteligência e de linguagem”. Temos aqui, segundo Kant, um “juízo analítico a priori”.

Depois, e segundo Kant, temos os “juízos sintéticos a posteriori”, que decorrem exclusivamente da experiência empírica. Ora, como sabemos, do empirismo só resultam soluções empíricas.

E temos também – segundo Kant – os “juízos sintéticos a priori”, que englobam a matemática e a física, e que se formam independentemente de qualquer experiência e mediante uma intuição intelectual obrigatória.

3 O “filósofo” que escreveu “aquilo” especula em torno dos conceitos de “facto”, de “questão de facto”, e de “tautologia”, como segue:

« As verdades da razão pura, as proposições que sabemos serem válidas independentemente de toda a experiência, são-no em virtude da sua falta de conteúdo factual. Dizer que uma proposição é verdadeira a priori é dizer que é uma tautologia. E as tautologias, embora possam servir para nos guiar na nossa demanda empírica do conhecimento, não contêm em si mesmas qualquer informação sobre qualquer questão de facto. »

Um facto é algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência através da experiência. Acontece que essa experiência pode ser, ou subjectiva, ou intersubjectiva. Por uma experiência ser apenas subjectiva (e que pode ser produto da intuição), não deixa de ser um facto!, embora um “facto subjectivo”. Quando falamos em “factos objectivos”, queremos dizer, mais propriamente, “factos intersubjectivos”.

Uma “questão de facto” não significa necessariamente e apenas “conhecimento empírico objectivo”. Ademais, as tautologias são essenciais porque enunciam as leis lógicas – os axiomas da lógica, que não são físicos, são tautológicos: por exemplo, o princípio de identidade, A = A – sem as quais o pensamento e o discurso seriam incoerentes. Ou seja, sem as “tautologias das leis da lógica”, não seria possível saber sequer o que é uma “questão de facto” – e por aqui se vê a estupidez de quem escreveu aquela merda!

Domingo, 11 Dezembro 2011

Desconstruindo uma desconstrução

Filed under: ética,filosofia — O. Braga @ 3:11 pm
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O termo “meta-ética” é um neologismo que pretende colocar em pé de igualdade, se não todos, pelo menos os sistemas éticos mais defendidos ao longo da História. E a partir de uma putativa igualdade valorativa a priori entre diversos sistemas éticos, faz-se prevalecer sobre todos os outros, na cultura intelectual, o sistema ético do Zeitgeist — aquele que está na moda entre as elites académicas. O termo “meta-ética” é absurdo, porque se existe uma “meta-ética”, então também poderá existir uma “meta-meta-ética” ou uma “pré-meta-ética”, e assim por adiante até ao infinito.

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Segunda-feira, 26 Setembro 2011

Diálogo de surdos

“Mesmo que os axiomas da teoria [de Newton] seja formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma elevada ordem do mundo objectivo que não se podia esperar de maneira alguma.” — Albert Einstein

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A inteligência míope do pragmatista

Filed under: A vida custa,Esta gente vota,filosofia — O. Braga @ 10:13 am
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Para um pragmatista, as coisas existem porque existem, e não se fala mais nisso. Ele não duvida daquilo que é objectivo; porém, duvida da própria dúvida, o que o transforma, de uma forma objectiva, no maior incrédulo que pode existir.

O pragmatista é um esperto que coloca orgulhosamente em causa a inteligência humana; é um especialista na constatação do simples e do óbvio, transformando-os na negação do complexo. A inteligência míope do pragmatista é a sua razão de ser.

Terça-feira, 18 Janeiro 2011

A metafísica negativa europeia (2)

Ou aparece uma nova elite cultural que encoste a ciência à parede, confrontando-a com as suas próprias contradições, ou a Europa política está condenada a mergulhar na pura insignificância — seja através da construção de um leviatão europeu totalitário, seja através de um novo ciclo de conflitos.

“Metafísica negativa” é sinónimo de “niilismo”. O niilismo é uma forma de expressão metafísica, embora negativa (a metafísica que recusa a metafísica). A Europa foi, no passado recente e ainda é hoje, o centro de onde irradia o niilismo para todo o mundo ocidental. O que se passa hoje, por exemplo, nos Estados Unidos de Obama e no Brasil de Dilma, teve e tem origem na Europa.

Depois que Descartes afirmou o Cogito, e no seguimento do francês, Kant defendeu a ideia de “sujeito puro”. O Iluminismo foi, em Kant, a afirmação (more…)

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