perspectivas

Quarta-feira, 20 Fevereiro 2013

A mitificação da ciência e a demitificação da morte

“No âmbito da medicina actual, a situação é deveras problemática: no esforço de apagar do seu horizonte o sofrimento e a morte, a ciência médica investe na Técnica que está para além das suas possibilidades. Max Weber escreveu que a ciência médica não coloca a questão de se, e quando, a vida vale a pena ser vivida, omitindo a crise de identidade do médico perante o problema dos doentes terminais.

A medicina parece não poder resolver os problemas com que se confronta senão transformando um problema ético num problema técnico. — Sofia Reimão (página 168 do livro mencionado em rodapé).


forneira de Jean-François_Millet1/ O problema é, de facto, complexo, mas a responsabilidade da actual situação recai naqueles que, ao longo de várias gerações, e principalmente desde finais do século XVIII a esta parte, foram moldando a cultura antropológica do Ocidente, transformando a ciência num mito ao mesmo tempo que a morte era demitificada (“demitificar” não é a mesma coisa que “desmitificar”, e/ou “desmistificar”). A longo dos últimos dois séculos, a morte foi sendo demitificada na proporção directa da mitificação da ciência. Hoje, damo-nos conta dos erros culturais acumulados e da responsabilidade não só da comunidade científica desde o Iluminismo, mas também da responsabilidade das elites políticas e da ruling class em geral.

2/ Durante o século XX, principalmente nele, a mitificação da ciência acelerou-se, ao mesmo tempo que a demitificação da morte foi sendo imposta indirectamente na cultura antropológica a Ocidente mediante um combate feroz, levado a cabo pela ruling class e ao longo de gerações, não só contra todos os tipos de tradições, mas também tendo em vista a construção ontológica do Homem Novo, partindo do princípio de que é possível alterar a natureza fundamental do ser humano.

3/ Na sequência do Iluminismo, as elites passaram a acreditar no progresso e na perfectibilidade progressiva do ser humano enquanto tal. A mente humana, incluindo a volição e a razão, teriam a potencialidade de progresso. Por entre a ruling class do século XIX e grande parte do século XX, acreditava-se no “futuro da razão” e no inevitável progresso e avanço da mente humana. O progresso tornou-se numa lei da natureza que colocava em causa a própria natureza humana. O resultado dessa mundividência progressista foi dantesco: centenas de milhões de mortos, vítimas das revoluções progressistas e do movimento revolucionário em geral, e apenas no século XX.
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Domingo, 17 Fevereiro 2013

A ética do sentimento, de Schopenhauer a Emmanuel Levinas

“As relações humanas interpessoais são importantes para avaliar as circunstâncias a morte; na verdade, a minha mortalidade, a minha condenação à morte, a minha morte constituem a absurdidade que torna possível a gratuitidade da minha responsabilidade pelo outro.

Esta proposição pode ser lida na página 124 do livro de Sofia Reimão (ver nota em rodapé), e reflecte o pensamento do francês Levinas e, alegadamente, o pensamento de Gabriel Marcel que não conheço. Mas vamos ver se a proposição é verdadeira por reductio ad absurdum.
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Sábado, 13 Novembro 2010

“Hereafter”, o último filme de Clint Eastwood

O último filme de Clint Eastwood, “Hereafter” (não sei qual é a tradução do título do filme a ser adoptada em Portugal, mas provavelmente será qualquer coisa como “O dia em que o Sol se pôs na Cornualha”) será, pelo que consta, estreado em Portugal a 20 de Janeiro de 2011.

Estive a ler a crítica do filme e soube que o seu tema é a vida espiritual após a morte. É uma história tripla, da experiência “perto-da-morte” de uma jornalista francesa durante um Tsunami, de um rapaz britânico que procura o seu irmão gémeo, e a de um médium espiritualista que contacta o Além-espaço-tempo. Porém, consta que durante todo o filme a palavra “Deus” nunca é pronunciada, ou, seja, o filme versa o tema da vida após a morte mas sem Deus.

Seria interessante analisar a complexidade das razões que leva à criação de um produto cultural (um filme) em que o tema é a vida espiritual após a morte, e em que Deus está completamente ausente. Parece um paradoxo mas existem razões detectáveis para este fenómeno.

Desde logo, o niilismo europeu; o filme também tem que ser vendido na Europa. A coisa funciona mais ou menos assim: as múltiplas experiências humanas “perto-da-morte” impedem até a ciência de fechar os olhos ante o fenómeno; e já que não podemos ignorar a realidade, então vamos encará-la sempre com a margem máxima de niilismo possível. E é assim que se chega à vida espiritual após a morte sem Deus.

Depois, temos as influências negativas de duas ideologias políticas que se combatem mutuamente com uma ferocidade inaudita: o neo-ateísmo e o integrismo islâmico. O filme de Clint Eastwood tentou passar por entre os pingos da chuva, ficando imune às críticas dos neo-ateístas quando não se refere a Deus, e ficando bem na fotografia política quando, não se referindo a Deus, acaba por não se referir a Alá como um símbolo do fundamentalismo religioso.

E por último, a ausência de Deus numa vida após a morte entronca no mito ocidental acerca dos monismos religiosos orientais. A ideia que o ocidente faz do Budismo e o Hinduísmo é totalmente errada. Por exemplo, no Budismo o fervor religioso é comparável ao dos peregrinos portugueses em Fátima que percorrem o perímetro do santuário de joelhos. Ao contrário do que a cultura New Wave ocidental adoptou como certo, o Budismo não é só uma filosofia mas é essencialmente uma religião no sentido puro e duro.

No meio disto tudo, e se alguma coisa terá que mudar na Igreja Católica não é o celibato dos padres ou a extensão do sacerdócio a mulheres. Talvez o que mereça alguma mudança é a adaptação da doutrina católica às experiências humanas, o que significa que a ideia tradicional católica segundo a qual a alma humana não existia antes do ser humano nascer terá que ser revista face às próprias experiências humanas já estudadas pela ciência.

Domingo, 15 Agosto 2010

A morte não pode ser a traição do amor

A morte de António Feio e de Bettencourt Resendes, com apenas dois ou três dias de intervalo, impressionou-me também porque os dois eram homens relativamente novos — o primeiro tinha 55 anos e o segundo 58. E digo “também” devido à proximidade temporal dos dois infaustos eventos, para além de a morte nos parecer um absurdo que transforma a própria vida noutro absurdo.

O Homem moderno segue Brecht nos seus versos : “Como vos pode tocar o medo / Vocês morrerão com todos os animais / E, depois, não há nada.” Esta é uma visão de uma ínfima parte da totalidade, sendo que essa ínfima parte é a própria humanidade e a condição humana. O antropocentrismo moderno, como em outros antropocentrismos do passado, consiste em tomar essa pequena parte pelo Todo. É perfeitamente razoável e racional pressupor que, do ponto de vista da Totalidade, a situação seja diferente.

A visão de Brecht significa a traição ao amor — segundo a concepção de Gabriel Marcel. Brecht trai o amor, porque não é possível a um ser humano que ama outro conceber a sua transformação em Nada, porque o amor encerra em si uma espécie de promessa de eternidade, e amar um ser humano significa dizer: não morrerás! Sendo o Homem experimentado como algo infinitamente valioso, a ideia de que a morte o transforma em Nada é a recusa a posteriori desse amor.

Contudo, é a visão de Brecht que tende a prevalecer hoje, por via da acção das religiões políticas. Uma visão puramente materialista e utilitarista da realidade leva-nos a encarar a vida como uma espécie de absurdo de Sísifo carregando a pedra todos os dias para o cimo da montanha. E assim, passamos todos a trair o amor que tínhamos antes da morte das pessoas que amávamos; transformamo-nos todos em traidores e hipócritas em potência.

Uma visão materialista da realidade não pode ser justificada, defendida e fundamentada racionalmente, senão quando ela faz referência ou retira inferências de uma ética teísta e transcendental. A ética materialista que se mantém hoje é apenas uma corruptela da ética cristã, à espera da traição do amor através da morte.

Sexta-feira, 19 Setembro 2008

A ciência acorda para a realidade

Filed under: Religare — O. Braga @ 11:23 pm
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Cientistas ingleses e americanos estudam as “experiências fora do corpo” de pessoas que estiveram no limiar da morte. Eu próprio sou testemunha de uma experiência dessas.

Some people report being able to soar out of their bodies and look down on themselves and medical staff.
The study at 25 UK and US hospitals will include doctors placing images on shelves that are only visible from the ceiling to test the theory.
Dr Sam Parnia, an intensive care doctor who is heading the study, said: “If you can demonstrate that consciousness continues after the brain switches off, it allows for the possibility that the consciousness is a separate entity.”

Scientists study ‘out of body experiences’

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