perspectivas

Quinta-feira, 12 Março 2015

Os monismos orientais e ocidentais

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:52 am
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A filosofia taoísta — que está subjacente ao Taoísmo, que é uma religião, convém não esquecer — é perigosa porque a sua interpretação ocidental (talvez errada) não distingue a realidade macroscópica, por um lado, da realidade quântica ou microscópica, por outro  lado.

O idealismo alemão baseou-se nitidamente no Taoísmo e no Budismo (desde Schopenhauer, Lessing, Schelling, Hegel, até ao romântico Nietzsche, sendo que este último também se inspirou no Hinduísmo), com os resultados que se conhecem: Hegel esteve na base da imanência do materialismo dialéctico marxista, e quer queiramos ou não, o nazismo foi um idealismo com forte influência de Nietzsche.

A ideia taoísta segundo a qual “só existe uma realidade” (o Uno) que se confunde nas nossas representações do mundo, nega a própria Realidade que é intrinsecamente múltipla. Aliás, não é possível definir a “Realidade”. A ideia de que só existe uma realidade é, em si mesma, uma negação da realidade macroscópica (objectiva) em que vive o ser humano; e esta negação está na base filosófica do niilismo moderno ocidental que se desmultiplicou em várias correntes ideológicas.

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Sexta-feira, 27 Maio 2011

Apontamento acerca dos Vedas e do Hinduísmo

Mircea Eliade, no seu livro “Aspectos do Mito”, definiu o mito da seguinte forma: “o mito é uma história sagrada; relata um acontecimento que teve lugar no tempo primordial”. No mesmo livro, Eliade faz a distinção entre histórias verdadeiras e/ou sagradas (mitos) e histórias falsas e/ou profanas (fábulas), que coexistiam diferenciadas nas chamadas sociedades arcaicas ou tradicionais.
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Quinta-feira, 5 Agosto 2010

Realismo quântico em oposição ao monismo

A filosofia de Amit Goswami é um monismo, e portanto apenas uma das possíveis interpretações quânticas. A concepção quântica que eu defendo é mais realista do que idealista (note-se que o realismo não é exclusivamente materialista no sentido positivista), e não é de todo panteísta como parece ser a concepção de Amit Goswami.

Amit Goswami diz que “o universo é auto-consciente através de nós”. Eu digo que existem vários níveis de consciência e que a nossa (humana) é apenas uma delas. Portanto, é um exagero dizer-se que “o universo é auto-consciente através de nós”. A manutenção do universo no espaço-tempo exige um tipo de consciência que “observe” todo o universo — e que faça as escolhas de todas as possibilidades — e não apenas uma parte dele. A essa consciência chamamos de Deus.

É notável como um Padre da patrística, Orígenes, defendeu a ideia de que “o Logos mantém o universo quando contempla constantemente o Pai”. Já nessa altura Orígenes estabelecia a diferença entre os diversos graus de consciência. Talvez por isso ele tivesse sido considerado herético pela Igreja Católica no Concílio de Niceia.

À excepção desta pequena grande divergência que me opõe a uma concepção monista da mundividência quântica, estou em geral de acordo com Amit Goswami.

Terça-feira, 29 Junho 2010

Os monismos seculares (2)

A assunção de algumas posições éticas niilistas por parte de pessoas ligadas à Igreja católica, como são os casos do Bispo Januário Torgal Ferreira, do Padre Carreira das Neves ou do Frade Domingues (para mencionar apenas alguns), dão-nos a ideia de que como a ética cristã pode ceder perante as pressões de um mundo ocidental em grave crise de valores.

Eu passei alguns poucos anos a estudar as religiões, não como uma obrigação, mas como um passatempo. Antes da Era industrial, os monges cristãos inventaram o 3 X 8 : 8 horas de contemplação, meditação e oração, 8 horas de trabalho e 8 horas de sono. A Era industrial substituiu as primeiras 8 horas pelo entretenimento que consome a cultura e evacua-a. Eu não tenho nada contra o entretenimento, mas prefiro passar as 8 horas em que não trabalho nem durmo, a saber de coisas que não deito fora.
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Sábado, 26 Junho 2010

Os monismos seculares

Quando lemos ou ouvimos gente como Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa ou Manuel Alegre, não podemos nunca esquecer de que se trata de gente religiosa — mas de uma religião diferente (ou mesmo, em alguns casos, de uma corruptela gnóstica) do Cristianismo.

1. À medida em que o Cristianismo se foi afirmando como nova religião, verificam-se nele duas características essenciais: o universalismo abrangente (que não existe tanto no Judaísmo mas existe mais no Islão) e o carácter individual da fé (que existe mais no Judaísmo mas que é limitado no Islão).

No Judaísmo, o carácter formal dos ritos (limitações na alimentação, circuncisão, etc) limita a sua universalidade. O Islão, com excepção talvez do Islão espanhol tardio, não trouxe impulsos de individualização comparáveis aos do Cristianismo europeu e ocidental — que é diferente do Cristianismo oriental ou ortodoxo. O papel determinante da comunidade dos fiéis no Islão (a Umma) e o sistema legal islâmico (a Sharia) fizeram recuar, a partir do século IX da Era cristã, o processo de individualização que é uma das características marcantes das religiões universais.
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Quarta-feira, 16 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (6)

Já vimos duas características do gnosticismo antigo: a sua raiz anticósmica e o unanimismo como exigência de pertença. Também falámos das diferenças entre as religiões superiores e as religiões universais. (more…)

Sexta-feira, 4 Julho 2008

A crítica das religiões ― uma opinião

A crítica sistemática à religião surgiu na Europa cristã, principalmente com o advento do Iluminismo, e não aconteceu noutros continentes e em outras religiões (pelo menos com os mesmos contornos). Provavelmente, a razão porque o ateísmo soteriológico se instalou na Europa estará ligada a uma maior tolerância do Cristianismo em relação à crítica do que a manifestada por outras religiões e culturas.

Nem todos os chamados “iluministas” foram contra o Cristianismo (Kant não foi), mas quase todos os iluministas manifestaram um anti-teísmo que se confundiu, muitas vezes, com um anti-clericalismo feroz ― mas nem por isso a elite iluminista deixou de ser religiosa. Augusto Comte, por exemplo, fez do Positivismo uma espécie de religião monista.

A crítica da religião que se desenvolveu a partir do Iluminismo resultou no surgimento de perspectivas religiosas como alternativas seculares que enfraqueceram o nível de individualização do ser humano (como aconteceu com o Modernismo) dando azo a que questões próprias do indivíduo ― a doença, a culpa, a morte, etc. ― passassem a ser abordadas como tabu ou tivessem recebido uma solução niilista.

Na esteira de Espinoza seguiram os iluministas que deram depois origem a Feuerbach, Nietzsche, Engels, Marx ― todos eles construiriam alternativas religiosas monistas ao monoteísmo cristão. O panteísmo de Espinoza é um monismo que desembocou no naturalismo soteriológico iluminista: a nova religião da “não-religião” ― que era sempre conforme a razão subjectiva de cada um dos novos gurus que se pretendiam basear em conhecimentos comprováveis para justificar a sua nova utopia. De certo modo, com o Iluminismo aconteceu um retrocesso na evolução religiosa (decadência), uma vez que o monismo é historicamente anterior ao monoteísmo.

As religiões monoteístas (Cristianismo, Islamismo e Judaísmo ― e a religião Bahai também é um monoteísmo sincrético) baseiam-se na “revelação transcendental”, enquanto que as religiões monistas perfilham o conceito de “conhecimento sagrado” mais ou menos aliado a um panteísmo naturalista. O Confucionismo e o Taoísmo são monismos. Para além dos monismos e dos monoteísmos, existem religiões panenteístas, como o Siquismo e o Budismo moderno com a sua conjugação de Samsara e Nirvana. Finalmente, temos as religiões dualistas, como o Parsismo e o Hinduísmo. Contudo, o dualismo está mais ou menos presente nos outros tipos de religião, e o Cristianismo distingue-se das outras religiões monoteístas pela existência da Trindade (Deus, Logos e Espírito), herdada do grego Plotino (neoplatonismo) e consagrada por S. Agostinho (ele próprio um dualista).

O que o Iluminismo fez foi tentar substituir ― através de uma elite intelectual controlada pela seita maçónica dos Illuminati ― o monoteísmo cristão por monismos seculares prenhes de manifestações religiosas. O materialismo moderno é a forma radicalmente secular do monismo. As utopias radicais modernas são fórmulas religiosas monistas que traduzem novas doutrinas da salvação da humanidade, mas como em todos os monismos não existe um Deus pessoal que possa comprometer o indivíduo, as tentativas de criação do Homem Novo acabam por cair num niilismo, não abrindo qualquer perspectiva de esperança humana.

Embora criticada pelos diferentes monismos utópicos seculares, o Cristianismo continua a desempenhar um papel fundamental (embora mais discreto) na Europa actual em campos em que a religião revelada é competente ― por exemplo, a questão do sentido ― de forma tal que não é de esperar o fim das religiões no futuro, conforme apregoado e defendido pela soteriologia ateísta.

Imagem daqui.

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