perspectivas

Segunda-feira, 15 Junho 2015

O misticismo no Cristianismo

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 7:15 am
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Analisemos a seguinte proposição:

The Christian of tomorrow will be a mystic, or not a Christian at all.”

(“O cristão do futuro será um místico, ou então não será cristão”)


Antes de mais temos que saber o que significa “místico”, ou misticismo.

mestre-eckhartDepois de definirmos misticismo, constatamos que a proposição supracitada é falsa, porque o misticismo é um fenómeno subjectivo que surge da religião que é, por definição, intersubjectiva. Reduzir a religião à subjectividade é negar o próprio conceito de religião. Dizer que que religião cristã se confinará ao misticismo é afirmar o fim da própria religião cristã.

Seja por exemplo o misticismo budista — aquele que é praticado ou experimentado nos conventos do Tibete. Esse misticismo não sobreviveria sem a religião popular budista (a religião do povo), que tem dogmas, divindades, santos e ritos como outra religião qualquer. Basta o exemplo budista para verificarmos que a asserção em epígrafe é falsa.

Por fim, a história do misticismo na cristandade demonstra uma clara tendência para o panteísmo — ou seja, a preferência pela imanência e pelo monismo, em detrimento da transcendência que caracteriza a doutrina do catolicismo desde a Antiguidade Tardia.

Segunda-feira, 17 Junho 2013

Com a quântica, o Iluminismo chegou ao fim (2)

Em aditamento ao verbete anterior sobre este mesmo tema , constatamos que Kant reduziu a metafísica à axiomática, quando definiu a metafísica como “nada mais que uma filosofia sobre os primeiros fundamentos do nosso conhecimento” . Esta definição negava a metafísica medieval ou escolástica que possuía um cariz místico e/ou religioso, e, na maior parte dos casos, na Idade Média a metafísica apontava para uma realidade transcendente (não confundir com o conceito de “transcendental” de Kant, que era, de facto, imanente) à condição humana.

O prémio Nobel da Física, Wolfgang Pauli (*), volta ao misticismo da metafísica da Idade Média:

«O leigo pensa habitualmente que, quando diz “realidade”, fala de algo que é conhecido de forma evidente, enquanto a mim me parece que a tarefa mais importante e mais difícil do nosso tempo consiste em trabalhar na elaboração de uma nova concepção da realidade. É isto que tenho em mente quando sublinho sempre que a ciência e a religião têm de ter alguma coisa a ver uma com a outra.»

O prémio Nobel da Física, Erwin Schrödinger, parecia falar como o monge medieval Mestre Eckhart:

«O mundo observado é apenas uma aparência; na realidade, nem sequer existe. A filosofia dos Vedas tentou ilustrar este seu dogma fundamental através de várias metáforas.»

O físico alemão Hans-Peter Dürr, felizmente ainda vivo, justifica a relação estreita entre a metafísica e a religião:

«A Física e a transcendência designam apenas domínios diferentes da mesma realidade, que vão da camada mais baixa, onde ainda nos é possível objectivar completamente, até uma camada superior, na qual a visão se abre para as partes do mundo sobre as quais só se pode falar em metáforas.»

Poderia passar aqui muito mais tempo a citar físicos do século XX, como por exemplo Louis deBroglie, Max Born, Eddington, David Bohm, Fritjof Capra, Max Planck, Albert Einstein, e muitos outros, que se expressaram de uma forma tal que colocam em causa o conceito kantiano de metafísica. Werner Heisenberg afirmou o seguinte:

«A teoria quântica é um exemplo maravilhoso de que podemos ter entendido os factos com toda a clareza e, apesar disso, ao mesmo tempo, sabemos que só podemos falar sobre eles através de imagens e metáforas. Sabemos que, na religião, se trata necessariamente de uma linguagem em imagens e metáforas que podem representar precisamente aquilo que se pretende dizer. E, neste ponto, o meu conceito de verdade tem ligação com aquilo que as religiões pretendem dizer. Penso que é possível pensar muito melhor todos estes nexos desde que se entendeu a teoria quântica.»

Estamos já muito longe da noção kantiana de metafísica como “nada mais que uma filosofia sobre os primeiros fundamentos do nosso conhecimento”. Segundo estes cientistas actuais e actualizados, ciência e religião entroncam na metafísica. E, no entanto, o mundo ainda não compreendeu a importância desta nova descoberta em relação à realidade: continuamos a ter uma classe política que vive ainda no tempo do Iluminismo, uma comunidade científica que recusa reconhecer publicamente o óbvio muitas vezes por receio da política, um Direito Positivo que continua a negar a importância da lei natural na feitura das leis, partidos políticos que fazem do Positivismo o alicerce da sua ideologia, intelectuais que falam de tudo menos desta nova realidade como o diabo foge da cruz, em suma, andam as elites todas com as respectivas cabeças enfiadas na areia como avestruzes.

(segue um verbete sobre as implicações da quântica na nossa forma de pensar)

(*) citado em “Die andere Hälfte der Waherheit”, Jürgen Audretsch, Munique, 1992.

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