perspectivas

Sexta-feira, 10 Maio 2013

A racionalidade da História e da Vida

José Pacheco Pereira faz aqui uma confusão entre racionalidade (da História) e racionalismo (da História).

“Eu não tenho a certeza que a história não seja fundamentalmente irracional, até por outras razões. Basta que se abandone qualquer transcendência (*), qualquer destino manifesto, qualquer variante hegeliana da História com H grande, seja marxista, seja cristã (como em Teilhard de Chardin) . Tira-se a teleologia e ficam os humanos com o ónus de fazerem a história, ficando os humanos, é o que se vê.”

Reconhecer uma racionalidade na História é equivalente (isto é uma analogia!, e não uma comparação) a reconhecer a presença de um designer na feitura da célula que é a base da vida. O que se passa é que o facto de se reconhecer a presença de um designer na criação da vida (na célula) não significa, para a ciência, que se tenha que identificar esse designer. Existe uma racionalidade de um designer na construção da célula, e ponto final — porque é impossível, para a ciência, determinar quem é esse designer.

Saber quem é o designer da vida não faz parte dos atributos da ciência, embora esta reconheça o facto insofismável segundo o qual é matematicamente impossível, por exemplo, que vinte blocos de aminoácidos se juntem, na natureza e de forma espontânea, para formar uma simples proteína — e pior ainda se tivermos em consideração a formação de um sistema irredutivelmente complexo, como é por exemplo, o cílio da célula eucariótica, ou o flagelo bacterial, ou o sistema de coagulação do sangue, ou o olho dos vertebrados, etc., etc..

Da mesma forma que a ciência actual e actualizada diz que a vida teve, na sua origem, a influência racional de um designer inteligente, mas não se imiscui na especulação racionalista que consista em identificar esse designer, podemos dizer também que a História tem uma base racional mas não devemos especular e/ou racionalizar sobre o fundamento dessa base racional — porque é impossível determinar as características dessa racionalidade histórica. E aquilo que o marxismo e outras doutrinas fizeram, em relação à História, foi racionalizar, e não raciocinar.

A base racional da História, por um lado, e a identificação do designer da célula, por outro lado, pertencem à teologia, e não à filosofia e/ou à ciência respectivamente. Enquanto não aprendermos a separar estas áreas e atribuindo a todas elas uma dignidade intrínseca própria, caímos nas religiões políticas que caracterizam a mentalidade actual: vemos hoje o cientismo que é a manipulação da ciência pelas ideologias políticas; vemos o Historicismo — que é uma forma de milenarismo — que consiste na redução de toda realidade à imanência mediante um racionalismo irracional; e vemos a teologia misturada com o presentismo paradigmático da ciência.

(*) À moda hegeliana, José Pacheco Pereira confunde transcendência com imanência. Para Hegel (influenciado pela Cabala e pelas ideias cabalísticas de Jaques Böhme e de Schelling), como para outros hegelianos como por exemplo, Karl Marx ou Heidegger, a imanência é sinónimo de transcendência que foi assim erradicada da mundividência moderna. A modernidade voltou aos gregos, fazendo de conta (irracionalmente, mas em nome do racionalismo) de que 1500 anos de história das ideias posteriores simplesmente não existiu.

Segunda-feira, 22 Abril 2013

A principal diferença entre Bento XVI e João Paulo II, por um lado, e Francisco I, por outro lado

Se quisermos saber a origem da mente revolucionária, teremos que estudar a história dos Fraticelli da Idade Média.

Desde a Idade Média que existem duas mundividências distintas, a que correspondem duas correntes doutrinais diferentes, por assim dizer, dentro da Igreja Católica. Estas duas correntes são, quer queiramos quer não, irreconciliáveis. A primeira é a chamada corrente “intencionalista”, que foi iniciada no século XI por Abelardo, e adoptada em surdina pelos franciscanos e Fraticelli (e por Joaquim de Fiore), e que mais tarde, no século XVI, esteve na origem da Reforma protestante.
À segunda corrente podemos chamar de “tomista” (de S. Tomás de Aquino) embora as suas origens sejam anteriores, por exemplo em João de Salisbúria ou em Hugo de S. Victor.

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Sexta-feira, 20 Julho 2012

A autonomia do indivíduo e a desconstrução da família nuclear (2)

Estava eu a ler um texto sobre a Lei Natural [em inglês] segundo S. Tomás de Aquino, quando me lembrei de escrever qualquer coisa sobre o assunto, e ainda a propósito da política absolutista da autonomia do indivíduo — ou política dos direitos humanos, sendo lógico que os direitos humanos não podem ser, em si mesmos, uma política.

Desde logo, fica-me a ideia de que a Lei Natural de S. Tomás de Aquino não é exactamente a mesma Lei Natural de Santo Agostinho e do apóstolo Paulo [este assunto fica para o próximo verbete]. E toda esta história da Lei Natural [com excepção da visão tomista da Lei Natural] se relaciona com o gnosticismo e, consequentemente, mais tarde na História, com o cientismo [ou talvez possamos chamar-lhe “positivismo degradado”].

Eric Voegelin definiu assim o gnosticismo:

“O gnosticismo é um sistema de crenças que nega e rejeita a estrutura da realidade, particularmente a realidade da natureza humana, e substitui-a por um mundo imaginário construído por intelectuais gnósticos e controlado por activistas gnósticos.” — Eric Voegelin, “A Nova Ciência da Política”, 1952

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Sexta-feira, 26 Agosto 2011

Vem aí o cometa Elenin e o fim do mundo … !

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 2:36 pm
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A aproximação do cometa Elenin tem vindo a ser objecto de estimação dos milenaristas que já anunciam o fim escatológico e o dia do juízo final já para Setembro ou Outubro deste ano.
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Domingo, 31 Julho 2011

Não é possível uma ética universal sem Deus (3)

O Milenarismo

Falar do quiliasmo e do milenarismo em um postal é loucura (quiliasmo e milenarismo não são sinónimos, embora estejam interligados). Não obstante — e tendo eu seguido o conselho do Papa Bento XVI e ter adoptado a Bíblia para leitura neste Verão —, deparei-me com alguns textos bíblicos que explicam, em grande parte, a emergência do movimento revolucionário. Dou alguns exemplos.

“Nós, porém, devemos dar continuidade graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, pois Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação na santificação do Espírito e na fé da verdade” — Paulo, (2 Tes., 2,13).

Calvino não diria melhor que S. Paulo!
Vemos aqui o quiliasmo — o determinismo gnóstico dos predestinados, eleitos ou pneumáticos — que, com o messianismo milenarista, está na base do desenvolvimento do movimento revolucionário já na Idade Média.
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Domingo, 19 Junho 2011

O absurdo da comparação entre o marxismo e o catolicismo

Aquilo que ficou conhecido como Milenarismo é anterior ao Cristianismo — já existia antes deste. O fenómeno cultural milenarista acompanhou também o Cristianismo nos seus primeiros tempos e ao longo da sua história até hoje (como uma ideologia parasita). Porém, não podemos dizer que o milenarismo cristão faz parte da essência do Cristianismo ou da doutrina da Igreja Católica — como está implícito aqui; só quem não faz a mínima ideia do que está a dizer pode fazer essa analogia entre a filosofia cristã e a filosofia marxista.
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Sexta-feira, 12 Novembro 2010

A herança judaica da nossa concepção da História

Filed under: cultura,filosofia — O. Braga @ 6:44 pm
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O tempo histórico linear é uma herança do Judaísmo. Em mais nenhuma outra cultura do mundo existia um sentido histórico linear, marcado por um qualquer tipo de messianismo. Em praticamente todas as culturas — e ainda hoje, em muitas delas, apesar da “colonização” judaico-cristã — o tempo é cíclico. A maior parte das culturas — incluindo a cultura romana — tinha como paradigma o tempo primordial (Ó Tempora! Ó Mores!).
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Domingo, 20 Dezembro 2009

O cristianismo e o milenarismo

Um dado que muita gente que se diz “cristã” não compreende, é que o cristianismo foi definido pelo seu fundador (Jesus Cristo) como uma religião de progresso individual no sentido de progresso interior do indivíduo, e não uma religião de cariz eminentemente colectivista como é, por exemplo, o Islão. O cristianismo introduziu a novidade da Graça Divina como sendo uma dádiva de Deus que se dirige ao indivíduo.
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