perspectivas

Terça-feira, 11 Junho 2013

O Prémio Camões mereceu Mia Couto

Filed under: cultura,Portugal — O. Braga @ 8:48 am
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A única coisa boa que aconteceu ontem, nas celebrações do dia 10 de Junho de 2013, foi a atribuição do Prémio Camões a Mia Couto. Foi feita justiça. Diria eu que foi o Prémio Camões que mereceu Mia Couto.

A visita da Presidente (com “e“; A PresidentE) do Brasil, Dilma Roussef, seria positiva se não sentíssemos que por detrás dela estivesse uma agenda política de alienação da cultura e da língua portuguesas segundo o ideário político do brasileiro Marcos Bagno.

E, em Elvas, os assobios e apupos ao Chefe-de-estado foram lamentáveis. Há o tempo profano de apupar e o tempo sagrado do silêncio e do respeito. Quando um povo não consegue ver a diferença entre o sagrado e o profano, perdeu a sua espiritualidade.

Sábado, 11 Maio 2013

Mia Couto e o ‘May Be Man’

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 10:40 am
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Existe o “Yes man”. Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar.
O May be man vive do “talvez”. Em português, dever-se-ia chamar de “talvezeiro”. Devia tomar decisões. Não toma. Sim­plesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um “talvez” não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio.

A diferença entre o Yes man e o May be man não está apenas no “yes”. É que o “may be” é, ao mesmo tempo, um “may be not”. Enquanto o Yes man aposta na bajulação de um chefe, o May be man não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior.

mia couto malangatana webSem chegar a ser chave para nada, o May be man ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniên­cia. Mas o May be man não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideolo­gia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se “comissão”. Há quem lhe chame de “luvas”. Os mais pequenos chamam-lhe de “gasosa”. Vivemos uma na­ção muito gaseificada.

Governar não é, como muitos pensam, tomar conta dos interesses de uma nação. Governar é, para o May be Man, uma oportunidade de negócios. De “business”, como convém hoje, dizer. Curiosamente, o “talvezeiro” é um veemente crítico da corrupção. Mas apenas, quando beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, patriótica e enqua­dra-se no combate contra a pobreza.

Mas a corrupção, em Moçambique, tem uma dificuldade: o corrup­tor não sabe exactamente a quem subornar. Devia haver um manual, com organograma orientador. Ou como se diz em workshopês: os guidelines. Para evitar que o suborno seja improdutivo. Afinal, o May be man é mais cauteloso que o andar do camaleão: aguarda pela opi­nião do chefe, mais ainda pela opinião do chefe do chefe. Sem luz verde vinda dos céus, não há luz nem verde para ninguém.

O May be man entendeu mal a máxima cristã de “amar o próximo”. Porque ele ama o seguinte. Isto é, ama o governo e o governante que vêm a seguir. Na senda de comércio de oportunidades, ele já vendeu a mesma oportunidade ao sul-africano. Depois, vendeu-a ao portu­guês, ao indiano. E está agora a vender ao chinês, que ele imagina ser o “próximo”. É por isso que, para a lógica do “talvezeiro” é trágico que surjam decisões. Porque elas matam o terreno do eterno adiamento onde prospera o nosso indecidido personagem.

O May be man descobriu uma área mais rentável que a especulação financeira: a área do não deixar fazer. Ou numa parábola mais recen­te: o não deixar. Há investimento à vista? Ele complica até deixar de haver. Há projecto no fundo do túnel? Ele escurece o final do túnel. Um pedido de uso de terra, ele argumenta que se perdeu a papelada. Numa palavra, o May be man actua como polícia de trânsito corrup­to: em nome da lei, assalta o cidadão.

Eis a sua filosofia: a melhor maneira de fazer política é estar fora da política. Melhor ainda: é ser político sem política nenhuma. Nessa fluidez se afirma a sua competência: ele sai dos princípios, esquece o que disse ontem, rasga o juramento do passado. E a lei e o plano servem, quando confirmam os seus interesses. E os do chefe. E, à cau­tela, os do chefe do chefe.

O May be man aprendeu a prudência de não dizer nada, não pensar nada e, sobretudo, não contrariar os poderosos. Agradar ao dirigen­te: esse é o principal currículo. Afinal, o May be man não tem ideia sobre nada: ele pensa com a cabeça do chefe, fala por via do discurso do chefe. E assim o nosso amigo se acha apto para tudo. Podem no­meá-lo para qualquer área: agricultura, pescas, exército, saúde. Ele está à vontade em tudo, com esse conforto que apenas a ignorância absoluta pode conferir.

Apresentei, sem necessidade o May be man. Porque todos já sabíamos quem era. O nosso Estado está cheio deles, do topo à base. Podíamos falar de uma elevada densidade humana. Na realidade, porém, essa densidade não existe. Porque dentro do May be man não há ninguém. O que significa que estamos pagando salários a fantasmas. Uma for­tuna bem real paga mensalmente a fantasmas. Nenhum país, mesmo rico, deitaria assim tanto dinheiro para o vazio.

O May be Man é utilíssimo no país do talvez e na economia do faz-de-conta. Para um país a sério não serve.


Texto de Mia Couto. Respigado aqui.

Sexta-feira, 12 Abril 2013

José Saramago segundo Fernando Pessoa

Filed under: cultura,Ut Edita — O. Braga @ 10:55 am
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Passado algum tempo depois da morte de José Saramago, e se olharmos ao que se publica nos blogues e na comunicação social acerca dele e da sua obra, resta pouco. Não tarda nada, cai no esquecimento. E a razão para esse esquecimento é a de que, apesar do Nobel da literatura, Saramago foi aquilo a que Fernando Pessoa chamou de “um génio do seu tempo”, que não é propriamente génio, mas antes “talento sem espírito”:

“O espírito divide-se em três tipos — espírito propriamente dito, raciocínio e crítica; o talento em dois tipos — capacidade construtiva e capacidade filosófica; o génio é de um só tipo — originalidade.” — Fernando Pessoa, “Erostratus”

Tem mais génio e espírito Mia Couto, por exemplo, que nunca recebeu um prémio literário português nem é Nobel, do que José Saramago.

jose samago vintage 221 webNa década de 1980 comprei e li o livro de Saramago “Viagem a Portugal”. Ali havia talento, mas não génio nem espírito. O talento de José Saramago residia na sua capacidade construtiva e menos na capacidade filosófica que era sofrível; o seu conteúdo não era original, porque era, no fundo, uma narrativa descritiva das viagens de José Saramago em Portugal, e porque o estilo da escrita não era original porque emulava, de certa forma, os escritores realistas portugueses. Ali havia talento na construção mas não no raciocínio, e havia a “vontade firme de um pedante” (Fernando Pessoa).

Na obra de Saramago da década 1990 não há propriamente originalidade. A única obra de facto com algum vislumbre de originalidade ideológico é o “Ensaio sobre a Cegueira” — porque a ideia da “Jangada de Pedra” não é nova e remonta aos iberistas do século XIX —, mas o estilo propriamente dito não tem nada de original e positivo. Quando Saramago elimina a pontuação, não se trata de originalidade de estilo — porque a originalidade obedece a regras básicas de racionalidade e de respeito pela língua — mas de pedantismo ditado por uma firme vontade.

Tem mais génio e espírito Mia Couto, por exemplo, que nunca recebeu um prémio literário português nem é Nobel, do que José Saramago.

Domingo, 5 Junho 2011

O prémio Camões merece Mia Couto

Filed under: cultura,Livros,poesia — O. Braga @ 2:46 pm
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Formou-se, no FaceBook, um grupo que sugere o prémio Camões para Mia Couto.

«A elite intelectual portuguesa tem andado “cega” em relação à obra literária de Mia Couto. O escritor moçambicano é um dos melhores intérpretes actuais da língua portuguesa no mundo, e tem sido, de certa forma, desprezado pelos responsáveis pela atribuição do prémio Camões.

O estilo da prosa de Mia Couto toca a genialidade porque introduz na língua portuguesa uma originalidade que é a prerrogativa e a distinção da arte que não se aprende, mas que é “ingénita” (para utilizar a expressão de Kant) — genialidade essa que não pode ser alargada a outros campos da actividade humana. Mia Couto reinventou a língua portuguesa e de tal forma que, depois dele, a nossa língua já não pode ser a mesma.

Por uma questão de justiça, vamos “abrir os olhos” à elite intelectual portuguesa que se recusa a constatar a realidade do fenómeno literário que é Mia Couto.»

Quinta-feira, 17 Junho 2010

Mia Couto na Feira do Livro do Porto

Filed under: Livros — O. Braga @ 9:59 pm
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Mia Couto vai estar amanhã, dia 18 de Junho, na Feira do Livro do Porto no stand da editora Caminho (agora pertence ao grupo Leya), pelas 18:30 horas. Quem tiver livros para um autógrafo, tem uma oportunidade.

Sexta-feira, 13 Junho 2008

Vamos ter que proibir os livros de Mia Couto

Inquirido sobre a sua raça, respondeu:

– A minha raça sou eu, João Passarinheiro. Convidado a explicar-se, acrescentou:
– Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia.

(Extracto das declarações do vendedor de pássaros.)
Do Livro “Cada Homem é uma Raça”, de Mia Couto

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