perspectivas

Domingo, 27 Setembro 2015

A “literatura feminina”

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 9:40 am
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“Acordei à uma da manhã para chorar, despi-me e nua, sentado na cama, chorei.”

Imaginem que eu tinha escrito este post, muitas pessoas pensariam que eu tinha ensandecido, que andava a tomar a pílula (Prozac), ou que estava a escrever de um campo de refugiados sírios em Munique.

A mesma frase, porém, no feminino, não choca. Pelo contrário, estimula a imaginação. Porquê?

o Quim e a literatura no feminino

¿Por que razão “a mesma frase, no feminino, não choca”?


acordei-nua-e-chorei

Em primeiro lugar, ninguém coloca o despertador para a uma da manhã, para chorar. Pode-se acordar à uma da matina por acaso, e depois apetecer chorar. Mas a nudez não é a condição do choro: não é preciso que alguém se ponha nu para poder chorar — nem sequer numa mulher: poderíamos alegar que ela estivesse “com o penso” para acordar à uma da manhã para chorar nua — mas seria irracional: normalmente, uma mulher “com o penso” não se põe nua em cima dos lençóis, a não ser que use tampão.

Portanto, a mesma frase dita no feminino, choca porque não tem nexo. E dita no masculino também choca, quanto mais não seja porque é uma frase muito gay; mas choca sobretudo porque não tem nexo que alguém (seja homem ou mulher) acorde propositadamente à uma da matina e que precise de se despir para depois chorar.

E são as próprias mulheres que acordam à uma da manhã para chorarem nuas, que denunciam o sexismo.

Quarta-feira, 24 Julho 2013

Para Rui Tavares, o futuro é uma certeza, e a língua portuguesa deve ser simplificada

Neste texto de Rui Tavares, se o lermos com atenção, fica claro e explicito de que é legítimo cada um escrever como quiser; e cabe ao Estado regular a “escrita oficial” que pode ser diferente da “escrita real”. Ou seja, cada um deve escrever conforme fala, o que significa potencialmente a implosão da língua portuguesa culta.

“Quem tem de obedecer ao acordo em primeiro lugar são os próprios Estados que o assinaram. Eu escrevo e continuarei a escrever da forma como quiser sem punição do Estado (na verdade, muitas vezes são os poderes privados que interferem: eu escrevo sempre “estado” com minúscula, e tanto este jornal como a minha editora costumam alterar para maiúscula). Mas reconheço legitimidade ao Estado [maiúscula introduzida pelo editor para confirmar declaração anterior] para escolher uma ortografia para os seus actos escritos, nomeadamente para que as leis estejam escritas de forma homogénea. O primeiro objecto do acordo será, nesse sentido, o Diário da República. O resto da sociedade só segue se quiser.”

Esta concepção de Rui Tavares acerca da língua portuguesa é, pelo menos em parte, coincidente com a do brasileiro Marcos Bagno. Ou seja, para ele não existe, de facto, um português correcto. Em vez disso, existe o Acordo Ortográfico que os Estados assinaram, e depois existe o português que cada um escreve ou quer escrever – e as duas versões da língua não têm que ser necessariamente coincidentes. Exigir ao cidadão a utilização de um português correcto passa a ser uma atitude bafienta, reaccionária ou salazarista.

A adopção da visão de Marcos Magno por Rui Tavares é confirmada no resto do texto, desde logo quando ele escreve que o Acordo Ortográfico “facilita-nos a vida”. Um dos argumentos de Magno é que a escrita deve facilitar a vida a quem escreve; a escrita deve ser fácil e simples, e mesmo simplificada, reduzida a um basismo essencial.

A argumentação de Rui Tavares resume-se à necessidade de um certo nivelamento por baixo. A falácia da mediocridade é o seu ponto mais forte: se há pessoas que têm maior dificuldade em aprender a escrever a língua culta, então que se acabe com a língua culta escrita e etimologicamente ligada ao latim e ao grego.

Esta visão da cultura assusta. E mais assusta, em Rui Tavares, a certeza absoluta que ele tem do futuro. Por causa de gente que sempre teve a certeza do futuro é que as hecatombes humanitárias e as decadências sócio-culturais têm acontecido.

[ ficheiro PDF do texto de Rui Tavares]

Segunda-feira, 22 Abril 2013

Dois verbetes sobre o Padre António Vieira

Filed under: cultura,Livros — O. Braga @ 7:58 am
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Fernando Pessoa considerou o Padre António Vieira o maior escritor de língua portuguesa, embora não tivesse explicado a razão dessa sua escolha.

“O início da publicação da obra completa do Padre António Vieira constitui uma magnífica notícia para todos os cultores da língua portuguesa, onde quer que eles se encontrem.”

Obra Completa do Padre António Vieira


“O grande pregador da língua portuguesa, Padre António Vieira (1608 – 1697), e o renomeado poeta da língua inglesa, T.S. Eliot (1888 – 1965), estão separados por séculos de distância. Contudo, eles têm certas semelhanças em suas biografias: os dois, por exemplo, tornaram-se célebres no além mar. Vieira, sendo português, fez-se soteropolitano e Eliot, americano, abraçou o espírito inglês.”

A morte e a vida em Pe. Antonio Vieira e T.S. Eliot

Sexta-feira, 12 Abril 2013

José Saramago segundo Fernando Pessoa

Filed under: cultura,Ut Edita — O. Braga @ 10:55 am
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Passado algum tempo depois da morte de José Saramago, e se olharmos ao que se publica nos blogues e na comunicação social acerca dele e da sua obra, resta pouco. Não tarda nada, cai no esquecimento. E a razão para esse esquecimento é a de que, apesar do Nobel da literatura, Saramago foi aquilo a que Fernando Pessoa chamou de “um génio do seu tempo”, que não é propriamente génio, mas antes “talento sem espírito”:

“O espírito divide-se em três tipos — espírito propriamente dito, raciocínio e crítica; o talento em dois tipos — capacidade construtiva e capacidade filosófica; o génio é de um só tipo — originalidade.” — Fernando Pessoa, “Erostratus”

Tem mais génio e espírito Mia Couto, por exemplo, que nunca recebeu um prémio literário português nem é Nobel, do que José Saramago.

jose samago vintage 221 webNa década de 1980 comprei e li o livro de Saramago “Viagem a Portugal”. Ali havia talento, mas não génio nem espírito. O talento de José Saramago residia na sua capacidade construtiva e menos na capacidade filosófica que era sofrível; o seu conteúdo não era original, porque era, no fundo, uma narrativa descritiva das viagens de José Saramago em Portugal, e porque o estilo da escrita não era original porque emulava, de certa forma, os escritores realistas portugueses. Ali havia talento na construção mas não no raciocínio, e havia a “vontade firme de um pedante” (Fernando Pessoa).

Na obra de Saramago da década 1990 não há propriamente originalidade. A única obra de facto com algum vislumbre de originalidade ideológico é o “Ensaio sobre a Cegueira” — porque a ideia da “Jangada de Pedra” não é nova e remonta aos iberistas do século XIX —, mas o estilo propriamente dito não tem nada de original e positivo. Quando Saramago elimina a pontuação, não se trata de originalidade de estilo — porque a originalidade obedece a regras básicas de racionalidade e de respeito pela língua — mas de pedantismo ditado por uma firme vontade.

Tem mais génio e espírito Mia Couto, por exemplo, que nunca recebeu um prémio literário português nem é Nobel, do que José Saramago.

Domingo, 5 Junho 2011

O prémio Camões merece Mia Couto

Filed under: cultura,Livros,poesia — O. Braga @ 2:46 pm
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Formou-se, no FaceBook, um grupo que sugere o prémio Camões para Mia Couto.

«A elite intelectual portuguesa tem andado “cega” em relação à obra literária de Mia Couto. O escritor moçambicano é um dos melhores intérpretes actuais da língua portuguesa no mundo, e tem sido, de certa forma, desprezado pelos responsáveis pela atribuição do prémio Camões.

O estilo da prosa de Mia Couto toca a genialidade porque introduz na língua portuguesa uma originalidade que é a prerrogativa e a distinção da arte que não se aprende, mas que é “ingénita” (para utilizar a expressão de Kant) — genialidade essa que não pode ser alargada a outros campos da actividade humana. Mia Couto reinventou a língua portuguesa e de tal forma que, depois dele, a nossa língua já não pode ser a mesma.

Por uma questão de justiça, vamos “abrir os olhos” à elite intelectual portuguesa que se recusa a constatar a realidade do fenómeno literário que é Mia Couto.»

Quarta-feira, 23 Junho 2010

A estupidez do seguidismo intelectualóide

Este senhor é o protótipo do intelectualóide estúpido, por duas razões: em primeiro lugar porque generaliza ao [implicitamente] comparar José Saramago, por exemplo, com escritores de esquerda como Gabriel Garcia Marquez, Urbano Tavares Rodrigues, Harold Bloom ou Pablo Neruda; e em segundo lugar porque separa o homem da sua obra, destituindo a obra-de-arte de um qualquer nexo causal.
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Quinta-feira, 3 Junho 2010

Encontro com a literatura eslovena

Filed under: cultura,poesia — O. Braga @ 8:06 am
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O poeta e escritor Casimiro de Brito apresentou ontem, em Vila Nova de Gaia, um colóquio dedicado à literatura eslovena, patrocinado pela câmara municipal, e com o apoio do Leitorado de Língua e Cultura Eslovena da FLUL. A sala do auditório do remodelado Arquivo Municipal (antigo tribunal de Gaia) estava bem composta, mas poderia eventualmente estar completa se eventos destes tivessem uma divulgação, digamos, mais abrangente.
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Sexta-feira, 25 Julho 2008

Leitura para férias ― Raul Brandão

Filed under: Livros — O. Braga @ 8:15 pm
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Raul Brandão

Raul Brandão

Para quem aprecia literatura de tipo “existencialista” ― Camus, Sartre ― temos um escritor português que viveu o princípio do século 20 e que escreveu num estilo “existencialista” muito antes da literatura do “existencialismo” aparecer nos escaparates nos anos 50 e 60.

«Todos se defendem. Por isso existe uma certa grandeza em repetir todos os dias a mesma coisa. O homem só vive de detalhes e as manias têm uma força enorme: são elas que nos sustentam.» (“Húmus”, 1917)

Contudo, Raul Brandão explora o conceito de “absurdo” pela via de uma escrita elaborada, e não por uma via concentrada numa concepção estritamente filosófica. Diria que Brandão tenta seguir o estilo e forma (não o tipo de conteúdo romanesco) de Dostoievski no que de niilista e existencialista o escritor russo teve.

Segunda-feira, 7 Abril 2008

Os escritores e os “Bloggers de Papel”

O “Jornal de Notícias” oferece agora, junto com a compra do jornal, um livro de bolso com a obra de um “grande autor português”; este domingo calhou-me “A Cidade e As Serras” do Eça.

No mesmo domingo, vi a Rita Ferro na RTP2 a criticar os escritores portugueses da contemporaneidade, e o António Lobo Antunes em particular; dizia ela que o “Antunes escreve muito bem, mas já não sabe escrever um livro”, e que “uma coisa é escrever bem, outra coisa é saber escrever um livro”. O que a Rita quis dizer é que se o Eça vivesse hoje, já não saberia escrever um livro e não venderia um só exemplar: o Eça escreve bem, mas não sabe escrever um livro (que seja vendável). Para que se escreva um livro hoje, não é necessário – nem mesmo aconselhável – que se escreva bem; o que interessa é que se conte uma história com grande economia vocabular. A arte da escrita é hoje a redução da língua a um código repetitivo e padronizado que se escore num alfabeto de poucas letras, de tipo ADN, com muita “merda” e “filhos-da-puta” à mistura. E assim, toda a gente escreve livros – e estou de acordo com a Rita – e toda a gente tem o estatuto de “escritor”, incluindo ela própria e a Mónica Sintra. A massificação do ensino resultou numa literatura medíocre: existem mais pessoas a comprar livros e a financiar as editoras, e outras compram o JN e colocam os clássicos portugueses intactos na estante lá de casa.
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