perspectivas

Quarta-feira, 8 Fevereiro 2017

O José António Saraiva está a ficar senil

 

“A escrita é uma convenção.”José António Saraiva

A ideia (estruturalista/estruturalismo) segundo a qual a escrita é um conjunto de sinais (convenção) que podem ser mudados por decreto-lei e a bel-prazer pelas elites políticas, é uma barbaridade modernista.

A convenção opõe-se à Natureza.

Uma convenção é o resultado de um acordo explícito ou tácito; em epistemologia, uma convenção é uma regra imposta livremente (Poincaré). O problema destas definições é o de que não é racionalmente possível separar completamente uma língua escrita, por um lado, da sua etimologia, por outro lado: a convenção opõe-se à natureza, e a etimologia é a natureza da língua (escrita).

Além disso, toda a convenção pressupõe já a linguagem etimológica, e por isso mesmo pressupõe já a sociedade natural.

E convém não confundir “convenção”, por um lado, com “convencionalismo”, por outro lado.

Em filosofia política, o convencionalismo é a ideia absurda segundo a qual todas as instituições e práticas humanas são o resultado de convenções, sem qualquer contribuição da Natureza (“O homem é a medida de todas as coisas → Protágoras). É a partir da ideia de “convencionalismo” que o José António Saraiva diz que a escrita é apenas um conjunto de sinais aleatoriamente seleccionados (Saussurre) — quando, em boa verdade, a escrita de uma língua culta é um conjunto de símbolos.

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Sexta-feira, 25 Março 2016

A resposta do papa-açorda Francisco a Marcelo Rebelo de Sousa

 

A língua portuguesa deixa de ser língua de trabalho na Cúria Romana. Toma lá, ó Marcelo!,  para não te armares em “católico”.


marcelo-e-papa-1

Sexta-feira, 19 Fevereiro 2016

Não vamos exagerar na pureza da língua; ou então acabemos com a república

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 10:21 am
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Um leitor escreveu-me criticando o facto de eu ter escrito “a juiza”, e não “a juiz”.

Mas se consultarmos os dicionários portugueses segundo a reforma de 1945, já aparece “a juíza”. Eu tenho vários dicionários portugueses (e um brasileiro) com a reforma de 1945, e o feminino de “juiz” já lá está.

O problema é o de saber se devemos voltar ao tempo de antes da reforma de 1911, no tempo em que phoda se escrevia com ph. Eu até concordaria com a obliteração de todas as reformas desde que a república fosse obliterada com elas.

Claro que podemos dizer “senhora doutora juiz” (soa melhor, ao ouvido). Mas a verdade é que, com a reforma de 1945, iniciou-se a destruição da língua portuguesa. E segundo essa reforma, “a juiza” é legal.

Domingo, 2 Novembro 2014

O fenómeno brasileiro do verbo “suponhetar”

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 8:59 am
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Suponhetemos” que não tivesse existido a migração da Corte portuguesa e a intervenção pombalina:

“Se não fosse pela migração da corte lusitana e a intervenção pombalina, poderíamos ter sido o maior país a desenvolver, de forma homogênea, uma língua indígena.”

Rosa Virgínia Mattos e Silva, autora de “O Português são dois”.

É certo que “Mattos Silva” parece ser um nome tupi-guarani. Mas suponhetemos que “Mattos Silva” era um nome português: nesse caso, teríamos que suponhetar que seria mais conveniente às virgo rosarum brasileiras mudar de nome.

No Brasil, o verbo “suponhetar” é muito utilizado pelas elites políticas e académicas. Por exemplo:

“Vamos suponhetar que, em lugar de o Brasil ter sido colonizado pelos portugueses, tivesse sido colonizado pelos ingleses”.

Quando o brasileiro suponheta, transforma a realidade de uma forma mais escorreita. Suponhetando, não é necessário trabalhar com afinco para a transformar. A elite brasileira, através do suponhetamento da História, vai tornando reais os acontecimentos que suponhetadamente nunca aconteceram.

Terça-feira, 23 Setembro 2014

Para quem escreve estado em vez de Estado

Filed under: cultura — O. Braga @ 6:55 pm
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Talvez seja um pouco antiquado, mas não percebo por que razão se escreve, nos blogues e em alguma imprensa, Estado com letra minúscula (estado). Reparem na seguinte frase:

“Olhem o estado a que o estado chegou!: já não há estado em bom estado…”

Na minha escola primária aprendi a escrever assim:

“Olhem o estado a que o Estado chegou!: já não há Estado em bom estado…”

A diferença, na escrita, entre “estado” e “Estado” leva a uma maior clareza na escrita, para além de tornar a compreensão da leitura da frase muita mais rápida. Quando dois substantivos homófonos se escrevem da mesma maneira, caminhamos para a subjectividade da língua.

Alguém poderá dizer: existem outros casos semelhantes, por exemplo, pia, são, canto, penso, cedo — mas estes homógrafos são verbos!, ao passo que “estado” e “Estado” são substantivos. Eu também faço a distinção escrita entre “banco”, por um lado, e “Banco”, por outro lado — porque são ambos substantivos.

“Entrei num Banco e sentei-me num banco”; ¿ou “entrei num banco e sentei-me num banco”?

A reforma ortográfica de 1973 e o Acordo Ortográfico de 1990 têm vindo a escangalhar a língua portuguesa.

Segunda-feira, 18 Agosto 2014

Fernando Pessoa escrito segundo a novilíngua brasileira

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 7:44 pm
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“Depois qe as últimas xuvas deixaram o séu e ficaram na terra — séu limpo, terra úmida e espelhenta — a clareza maior da vida qe com o azul voltou ao alto, e na frescura de ter avido água se alegrou em baixo, deixou um séu próprio nas almas, uma frescura sua nos corasões.

Somos, por pouco qe o qeiramos, servos da ora e das suas cores e formas, súditos do séu e da terra. Aqele de nós qe mais se embrenhe em si mesmo, desprezando o qe o serca, esse mesmo se não embrenha pelos mesmos caminhos quando xove do qe quando o séu está bom. Obscuras transmutasões, sentidas talvez só no íntimo dos sentimentos abstratos, se operam porqe xove ou deixou de xover, se sentem sem qe se sintam porqe sem sentir o tempo se sentiu.

Cada um de nós é vários, é muitos, é uma prolixidade de si mesmos. Por isso, aqele qe despreza o ambiente não é o mesmo qe dele se alegra ou padece. Na vasta colónia do nosso ser á gente de muitas espécies, pensando e sentindo diferentemente. Neste mesmo momento, em qe escrevo, num intervalo legítimo do trabalho oje escaso, estas poucas palavras de impresão, sou o qe as escreve atentamente, sou o qe está contente de não ter nesta ora de trabalhar, sou o qe está vendo o séu lá fora, invizível de aqi, sou o qe está pensando isto tudo, sou o qe sente o corpo contente e as mãos ainda vagamente frias. E todo este mundo meu de gente entre si alheia projeta, como uma multidão diversa mas compacta, uma sombra única — este corpo qieto e escrevente com qe reclino, de pé, contra a secretária alta do Borges onde vim buscar o meu mata borrão, qe lhe emprestara.”

— Fernando Pessoa, “Livro do Desassossego”


Agora pergunto: um cidadão que necessita que a língua seja “simplificada” para aprender a ler e a escrever, ¿irá entender minimamente o que Fernando Pessoa escreveu?! Vem daqui a resposta:

“Quando algumas dessas regras forem simplificadas, haverá uma economia de tempo (250 horas-aula) e dinheiro (R$ 2 biliões por ano) e um aprendizado mais eficaz e prazeroso. Pode-se prever uma forte redução nos índices de analfabetismo e na taxa de rejeição ao estudo da língua, simultaneamente fortalecendo a inclusão social. E mais: a quantidade de cidadãos plenamente alfabetizados (capazes de ler e produzir textos mais profundos) pode ser multiplicada por dois, três, quatro ou cinco.

Isso significa dizer que na mesma proporção crescerá o número de leitores e autores, permitindo uma produção literária, intelectual e científica jamais vista, criando saber e riqueza suficientes para colocar estrategicamente nossos povos e países em estágio muito superior de respeito e influência internacionais.”

Ernani Pimentel (professor e presidente do Centro de Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa no Brasil)

¿Alguém acredita nisso?!

Sábado, 16 Agosto 2014

O Brasil prepara-se para impôr um novo Acordo Ortográfico

 

“A Comissão de Educação (CE) do Senado debate uma nova reforma ortográfica propondo uma maior “simplificação” da Língua Portuguesa. De acordo com nota divulgada no site do presidente da comissão, senador Cyro Miranda (PSDB-GO), a ideia é excluir o “h” inicial de palavras como “homem e “hoje”, abolir o “ch” substituído pelo “x”, como em “flecha” e, ainda, substituir “x” e “s” por “z” nas palavras com esse som, como “exemplo” e “analisar”. O “ç” seria outra norma da língua com os dias contados, com a “educação” passando a ser escrita como “educasão”.”

Comissão de “Educasão” do Senado estuda abolir “h” e “ç” do Português

No Brasil, a língua portuguesa não faz parte da cultura. Por isso é que o Brasil é um anão literário — não produz literatura na proporção da sua população, quando comparado com Portugal, por exemplo — já nem falando nos Estados Unidos.

O problema é que Portugal está a adoptar o princípio do divórcio brasileiro entre a cultura e a língua. Se, por exemplo, o Brasil adoptar o Tupi como língua oficial, os políticos portugueses secundariam imediatamente essa adopção.

Nós não temos políticos: temos invertebrados1, gente sem planta nenhuma, “gente menor” como dizia o professor José Hermano Saraiva; gente moralmente miserável que vende a História e a Cultura do seu país por um prato de lentilhas. Nós não temos políticos: temos um conjunto de “Josés de Vasconcelos”.

“Omem”, “qeijo” | Novo acordo ortográfico propõe suprimir letras de palavras

Onra aos omens onestos

Nota
1. O Pedro Santana Lopes bem pode limpar as mãos à parede!

Quinta-feira, 7 Agosto 2014

“Supracitado” segue a norma do latim

Filed under: cultura — O. Braga @ 11:24 am
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No meu dicionário da TEXTO EDITORA, que é anterior ao famigerado Acordo Ortográfico, podemos ler: supra-axilar, supraciliar, supracitado, supracitar, supradito, suprajacente, suprajuraico, suprajurássico, supralunar, supramencionado, supramundano, supranatural, supranaturalismo, supranaturalista, supranormal, supranumerário, supra-renal, supra-sensível, supra-sumo, supratorácico, supratranscrito. E também tem “supremacia” e “supremo”, que têm a mesma base etimológica.

Agora façam o favor de ler este texto: → É “supra citado” ou “supracitado”? Porquê? — e depois voltem aqui.


1/ Imaginem agora que em vez de se escrever “supra-sumo”, se escreve “sumo supra” — como a autora do texto parece defender. Ou que em vez de se escrever “supranormal”, se possa escrever “normal supra”. Absurdo, não é? E por quê?

“Supra” é um advérbio de lugar, mas não se limita a adverbiar o concreto: também adverbia o abstracto — por exemplo, “supranormal”, “supranatural”.

Por outro lado, o advérbio de lugar (concreto ou abstracto) segue a prefixação latina dos advérbios de lugar (por exemplo, do latim “praedicta”/“praedictus”, ou “supradicta” ou “supradictus” no masculino, que significam “dito acima”). Note-se que, já no latim, o advérbio e o verbo eram aglutinados: no latim não existia, em linguagem corrente, tal coisa como “dicta prae”, ou “dicta supra”.

Ou seja, o facto de o advérbio de lugar (neste caso, “supra”) estar colocado antes do adjectivo ou do verbo, deve-se à tradição latina que a língua portuguesa seguiu por via etimológica. Portanto, é “supracitado”, e não “citado supra”, porque o português correcto segue a etimologia latina.

2/ A utilização do advérbio “supra” pertence à norma culta da língua — o que não significa que se tenha que escrever “supra” em itálico por ser, como é alegado, uma palavra alienígena em relação ao português.

Poderíamos escrever, em vez de “supracitado”, “sobrecitado” (que não existe nos meus dicionários); ou em vez de “supranatural”, poderíamos seguir a norma menos culta ou corrente e escrever “sobrenatural”; ou em vez de “suprajacente”, poderíamos escrever “sobrejacente”.

Portanto, o advérbio “supra” não é apenas um termo do latim (que, alegadamente se deveria escrever em itálico): também pertence ao português correcto por via da norma culta da língua.

3/ Não faz sentido escrever “sub jacente”; ou “jacente sub”. Escreve-se “subjacente” porque lhe subjaz o verbo latino “subjacere”.

4/ No latim, supradico, is, ere, dixi, dictum, é um verbo transitivo. “Supradictu” está no ablativo (e no pretérito perfeito), e assume a função de adjectivo com “supradictus” ou “supradicta” no feminino.

Por isso é que o “supra” vem antes do “dicta””: é um verbo! No latim não existe o verbo “dicta supra”…

5/ Faz muita falta estudar latim. Eu tive dois anos lectivos de latim e hoje penso que foi pouco tempo.

Quinta-feira, 24 Julho 2014

Portugal deve ponderar a saída da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa)

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 5:38 pm
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«Adriano Moreira, antigo presidente do CDS e especialista em Relações Internacionais, considera “absolutamente inaceitável” a inclusão da Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O “regime político” ditatorial, a sua “relação com os direitos do homem” e a fraca presença da língua portuguesa no país configuram um “desvio” à essência da CPLP, diz Adriano Moreira à Renascença.

“A CPLP é um valor tão importante para o futuro português que tudo aquilo que ofenda a essência do pensamento que organizou a CPLP pode prever-se que põe em risco interesses portugueses fundamentais porque muda a natureza da organização”, defende.»

Admitir a Guiné Equatorial na CPLP é “inaceitável”, diz Adriano Moreira


A CPLP (Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa) foi criada essencialmente para unir os países de fala portuguesa e, por isso, para a defesa da língua portuguesa no contexto internacional. Ora, o que acontece é que o Brasil, que apoiou e patrocinou a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, tudo tem feito não só para destruir o padrão culto da língua portuguesa, como tenta destruir os próprios fundamentos da organização quando a afasta dos seus propósitos originais.

Veja o leitor o seguinte quadro: o Brasil ostenta o argumento dos seus “200 milhões” para impôr a entrada da Guiné Equatorial na CPLP — mas contribui tanto como Portugal para a organização. Ou seja, o Brasil quer mandar na CPLP sem pagar mais por isso: é um pouco como o Zé Carioca: entra no baile de costas, fingindo que está saindo.

brasil cplp web

Dentro deste contexto, Portugal deve seriamente ponderar a sua saída da CPLP, ao mesmo tempo que se impõe desde já a revogação do Acordo Ortográfico tupiniquim.

Terça-feira, 24 Junho 2014

“Quinze magníficos séculos” de língua portuguesa

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 8:21 pm
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Com a devida vénia, transcrevo um texto de Fernando Venâncio publicado aqui:

«A norma linguística brasileira, tão marcada como a conhecemos, é, paradoxalmente, uma criação portuguesa. Ao impedir a imprensa em território brasileiro até inícios do século XIX, ao não ter fundado no Brasil uma só universidade (quando a Espanha, em finais de Quinhentos, já fundara várias no continente americano), ao ter permitido ‒ e bem ‒ o desenvolvimento, durante séculos, de uma chamada ‘língua geral’ ao longo da costa do Brasil, Portugal objectivamente estimulou o desenvolvimento de uma norma linguística brasileira.

Certo: nós podemos ler sem problema de maior a imprensa e a ficção brasileiras, e eles podem ler as nossas. Uma percepção ‘culta’ e tolerante não tropeça nas diferenças. Mas, para o consumidor comum, sobretudo o brasileiro, as diferenças são decisivas. O mercado livreiro português ainda admite, em certas circunstâncias, uma edição brasileira de literatura inglesa, espanhola ou outra. Mas o mundo brasileiro da edição não comercializa nenhuma tradução (literária ou técnica) europeia. O consumidor brasileiro não está disposto a pagar um livro técnico, de divulgação, ou de ficção, com a nossa sintaxe, o nosso léxico, a nossa semântica, a nossa fraseologia. Ele sente-os como marcas estrangeiras, e, para ele, são-no efectivamente. O Acordo Ortográfico não veio, nem virá, modificar nada neste cenário. A euforia inicial dos editores portugueses com o Acordo já se esvaiu, e eles sabem-se hoje enganados, descobrindo por si mesmos aquilo que os linguistas desde há dezenas de anos lhes afiançavam: que a questão não era ortográfica mas essencialmente linguística, e que só na cabeça dos ideólogos unitaristas, existia, ou existe, uma ‘norma internacional’ do português.

Insisto: Portugal nunca desenvolveu, menos ainda impôs, uma observância gramatical ou vocabular a que o Brasil deveria submeter-se para ser aceite e respeitado. Ainda que o quisesse ‒ e sabiamente não o quis ‒ não teria tido êxito.

Esse precedente brasileiro deve ser encarado como da maior relevância para o português em África. Ele oferece todo o espaço para que os países africanos de expressão oficial portuguesa desenvolvam, e mesmo estimulem, normas próprias. Não há motivos para recear uma ‘desagregação’ da língua portuguesa, como fazem os ideólogos unitaristas portugueses, e mesmo alguns brasileiros, saudosos da bela ordem gramatical europeia, ela própria um produto histórico de doutrinários do século XVIII, que ‒ como qualquer norma linguística ‒ nada tem de sagrado, de ‘natural’, de intrinsecamente correcto, que nos proporciona decerto uma confortável segurança, mas que é menos estável do que pudera supor-se. Sim, também a norma do português europeu está, ela própria, em movimento.

O Brasil avança hoje, pois, na dianteira da defesa de uma norma própria, a chamada «norma urbana culta» (surpreendentemente homogénea num tão imenso território), e são os melhores linguistas que sustentam essa dinâmica. A linguística brasileira assume, decididamente, o português como língua pluricêntrica. Assim poderão fazer, daqui em diante, os sábios de outros países, acolhendo, gerindo e até estimulando normas próprias, desatendendo as quimeras de um português ‘ideal’, que é, se virmos bem, uma fantasmagoria. Atentemos, antes, em mais essa originalidade da língua portuguesa, uma das suas virtudes também, que é a de ser descentralizada, e não refém de uma qualquer prepotência académica centralizadora.

Em suma: sobre o conjunto da língua portuguesa agem, saudavelmente, forças centrífugas, o que vem sendo assinalado até por linguistas portugueses, com destaque para Ivo Castro, da universidade de Lisboa, porventura o mais conceituado de todos, que fala numa «pulsão separativa» do português. São forças, essas, que nenhuma medida poderia contrariar, muito simplesmente porque ninguém, linguistas incluídos, saberia que medidas tomar para conservar uniforme o português. A realidade linguística é demasiado complexa para se dobrar a acções voluntaristas. Tudo o que podemos, e devemos, é tentar gerir essa realidade complexa e em movimento, alertando, sim, para tendências pontuais que reputemos menos merecedoras de estímulo. Globalmente, porém, as derivas são inelutáveis, irreversíveis mesmo, e nem um nem dez Acordos Ortográficos reaproximarão, um centímetro que seja, as normas do português já tão definidas ‒ normas que, mais que ortográficas, são fonológicas, gramaticais, lexicais, fraseológicas. Claro: a nossa linguagem ‘culta’ é ainda muito homogénea. Simplesmente, o idioma é bem mais do que o conservador jargão dos intelectuais. Vendo bem, o padrão português europeu acha-se, no Brasil, num processo de reelaboração, tal como, há séculos, no Sul de Portugal, o modelo nortenho e galego foi, ele também, reelaborado, para produzir esse mesmo padrão português europeu.

Não há, autenticamente, motivos para alarme. Tudo quanto estruturalmente nos distingue, e sempre distinguiu, de qualquer outro idioma está para durar. Nada, no espaço da língua portuguesa, ameaça as sete vogais tónicas, a preferência pelos ditongos decrescentes, os nossos produtivos e sugestivos sufixos, a extrema condensação das formas (só, nó, dó, pó / vir, voar / cor, dor), o emprego do infinito pessoal e do futuro do conjuntivo, a resposta em eco («Sabes? Sei»), mais os muitos vocábulos ‒ e são largas centenas de substantivos, de adjectivos, de verbos ‒ exclusivos nossos, bastantes deles enxertados no rico latim da velha Galécia.

Nenhuma deriva africana, brasileira ou portuguesa atentará contra esse sistema linguístico criado há mil e quinhentos anos. Ele, esse sistema, está de pedra e cal. É essa armação, essa firme arquitectura, que nos mantém, e manterá, juntos por muito tempo ainda. Os nossos pés estão em cima de quinze magníficos séculos de idioma.»

Terça-feira, 15 Abril 2014

O Brasil e a arbitrariedade da língua

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 7:04 pm
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«[Pergunta] Li no livro de estilo de um grande jornal brasileiro que a palavra «caráter» forma o plural em «caracteres» (assim mesmo, com «c» antes de «t»). Como se explica esta alteração?

[Resposta] Não é uma alteração que afete globalmente os países em que o português tem estatuto oficial. Antes parece tratar-se de uma especificidade brasileira que está há muito fixada no próprio Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras (ver também o Dicionário Houaiss).»


Agora, pergunto eu: ¿como é possível um cidadão dominar uma língua que se afastou da sua raiz etimológica? Como é possível conhecer bem o presente sem ter uma noção do passado? E como é possível que se caia no ridículo de o singular de um substantivo não seguir a regra etimológica, mas, por outro lado, o plural do mesmo substantivo já seguir essa regra?!

Sábado, 15 Março 2014

A síntese é a verdade

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 5:36 am
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troxe pra voçê


«A poesia é filosofia sem lógica, e por isso é que é difícil de a entender. Ah!, poesia!, a quanto obrigas! E quanta ingratidão por ti se padece!:

“Pega
Troxe pra voçê
Te adoro
Viu”

São metáforas da Poiesis da vida e da dialéctica da construção do Devir; é a mudança em gestação, rumo à Verdade que coincide com a síntese da oposição dos contrários. “Pega / Troxe pra voçê / Te adoro / Viu” é uma expressão do Zeitgeist que contém em si o mundo inteiro.»

(José Manuel Pureza)

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