perspectivas

Domingo, 12 Junho 2016

O libertarismo de Esquerda é uma treta

 

“Entre um mundo sem qualquer forma de coerção e outro em que alguma (por vezes, muita) coerção é compensada por certos serviços e bens, a esmagadora maioria das pessoas preferirá o segundo”.

O nó górdio do libertarianismo

Os dados estatísticos dizem que a esmagadora maioria das mulheres preferem “a coerção do Estado compensada por certos serviços e bens”, e que uma minoria de homens tem essa preferência. Não quero com isto dizer que as mulheres não sejam “pessoas”: quero dizer que as “pessoas” são do sexo masculino ou do sexo feminino, e que os interesses dos dois sexos são diferentes.

Em qualquer seita, como em qualquer sociedade, um dos “segredos” do Poder está no controlo das mulheres: controlem as mulheres e os homens (em geral) seguem-nas de forma canina, mesmo que não concordem com elas. O que se passa hoje é que o controlo das mulheres é realizado através do fomento de uma “indisciplina cultural feminina”: a mulher é controlada (pela Esquerda) deixando-a em “roda livre”, porque se sabe que a mulher sacrifica a sua liberdade em favor da segurança do “guarda-chuva” do Estado.

A “liberdade da mulher”, propalada pela Esquerda, é apenas a tendência da mulher de se sujeitar ao Estado. igualdade-diversidade

Até há pouco tempo, eu pensava que a democracia fosse um sistema político racional — ou, pelo menos, mais racional do que os outros. Mas hoje verifico que a democracia conduz à negação da democracia, na medida em que o corolário do “caminho democrático para o socialismo” (porque as mulheres são maioritárias na sociedade e têm direito a voto, e porque o protagonismo das mulheres na política tem vindo a aumentar) significa, a prazo, a negação da democracia na medida em que o indivíduo se vai diluindo no colectivo.

Naturalmente que a Esquerda dita “libertária” diz que defende os “direitos do indivíduo” — o que nos causa alguma confusão: ¿como é possível que o Bloco de Esquerda, por exemplo, defenda os “direitos do indivíduo” e, simultaneamente, tenha uma visão colectivista da sociedade?

O reconhecimento social de toda a espécie de “direitos” e “liberdades” tem como contraponto o retraimento narcísico dos indivíduos e o seu desinteresse pela coisa pública, em que, finalmente, a omnipresente encenação da liberalização dos costumes encobre uma propensão para o mimetismo, um seguidismo, e um conformismo sem precedentes. Ou seja, o “libertarianismo” sob tutela do Estado pode levar ao anonimato e à indistinção do indivíduo — e a Esquerda sabe disso.

O que a Esquerda “libertária” está a criar é um aumento progressivo da tutela da organização burocrática do Estado em que, por um lado, se afirma a singularidade do indivíduo, mas por outro lado, esse indivíduo é concebido de forma abstracta e em um anonimato generalizado. Quando o Bloco de Esquerda diz que defende os “direitos do indivíduo”, nada mais faz do que aumentar o poder do Estado sobre o indivíduo — o que é uma contradição em termos.

Portanto, o libertarismo de Esquerda é uma treta.

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Quarta-feira, 14 Janeiro 2015

O libertarismo é um puritanismo

 

O Rui Ramos escreve aqui um artigo ambíguo, ambivalente e até contraditório — porque o fundamento de que parte o seu (dele) raciocínio não é claro e inteligível.

Antes de mais, convém dizer que nada está acima da crítica; nem o Papa. As religiões são susceptíveis de crítica, como é óbvio. Mas temos que definir “crítica”, porque de outro modo não sabemos do que estamos a falar — como acontece com o texto do Rui Ramos.

Em segundo lugar, convém dizer que o homicídio é um acto social- e espiritualmente condenável.


“Crítica” não é a mesma coisa que “humilhação”.

O Rui Ramos não deveria confundir “liberdade de expressão” com “liberdade de excrementação”. Também existe a liberdade de borrar as paredes com grafiti, o que não significa que essa liberdade de excrementação seja necessariamente consentânea com o bom-senso. O bom-senso pode ser definido como o juízo prudente e saudável baseado na simples percepção das situações e dos factos – juízo esse que concede à sociedade um nível básico de julgamentos e de conhecimentos que lhe permita viver de uma forma razoável e segura.

A crítica pode ser, no sentido comum, “denúncia vigorosa” ou “contestação”. Mas é sobretudo a análise dos fundamentos de qualquer coisa ou de qualquer ideia. A crítica remete para uma actividade especial da razão: fazer divisões, discernimentos e juízos. A crítica é também a razão na sua dimensão jurídica: aparece como censor e juiz, separando o trigo do joio, distinguindo o verdadeiro do falso, o bom do mau.

Quando a crítica não obedece a estes critérios, não é crítica: é humilhação. E a humilhação é sempre uma característica de um qualquer puritanismo. A humilhação de outrem é uma característica do puritanismo politicamente correcto.

Diz o Rui Ramos que “o limite da liberdade é a lei”.

Bem, se assim for, na lei da selva, então a liberdade é ilimitada; mas isso não é liberdade, mas antes é libertinagem. Basta que o Código Penal seja reduzido apenas à  condenação do homicídio para que a liberdade seja concebida como um conjunto de actos gratuitos. Longe vão os tempos do Iluminismo e de Kant, que dizia que a liberdade é simultaneamente negativa (a pessoa livre de coacção) e positiva (o cidadão legislador).

Hoje, o libertarismo que o Rui Ramos defende é uma vergôntea do puritanismo que ele próprio critica nos outros: o puritanismo libertário tem a sua própria austeridade e rigidez de princípios que passa, por exemplo, pela sistemática humilhação irracional de outrem — e não pela crítica propriamente dita que deve ser sempre racional.

¿Podemos criticar, por exemplo, o Alcorão? Claro que sim! — mas por razões objectivas, e não com o propósito de humilhar. Uma “crítica” não significa “humilhação”, porque a humilhação é sempre irracional, e a crítica é racional.

Quarta-feira, 7 Janeiro 2015

É tudo a mesma trampa!

 

O blasfemo de serviço critica a Ana Gomes. A diferença é que uns são pela austeridade e os outros não. Ponto final. De resto é a mesma trampa: para eles, a política resume-se à  economia. A Direita vai para o Poder para confirmar as políticas de Esquerda — excepto na economia: em tudo o resto, são iguais.

Na direita são liberais, e na esquerda, libertários. São irmãos gémeos desavindos.

Um liberal é alguém que só pensa no seu ventre, e um libertário é alguém que só pensa no seu baixo-ventre. Os liberais e os libertários formaram, ao longo de décadas, uma aliança política que caracteriza a diarreia mental e a fornicação psicológica a que temos estado sujeitos desde Maio de 1968.

Eu não aprecio a Marine Le Pen, nomeadamente porque se ela chegar ao Poder, haverá um reforço do laicismo em França. Sou pelo secularismo, e não pelo laicismo (são conceitos diferentes).

Mas “o acúmulo de muitos anos de más políticas de imigração, a cobardia face aos ataques à nossa liberdade e aos princípios da nossa civilização travestida de «tolerância» humanista, a subserviência temerosa a um falso respeito pelas convicções alheias, compensado pelo profundo desrespeito pelas nossas” — tudo isso faz parte daquilo que não é da área da economia que diferencia liberais e libertários.

Sexta-feira, 17 Maio 2013

Uma errata para um verbete sobre o conservantismo

Filed under: Política,Ut Edita — O. Braga @ 6:28 am
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Vamos fazer um breve fisking de um texto publicado aqui, como segue:

“ [características do conservadorismo] descrença em modelos racionalistas que ignoram o facto de que os homens são governados mais pelas emoções que pela razão;”

Não devemos confundir “emoção”, por um lado, com “intuição”, por outro lado. A intuição é uma forma de inteligência, e portanto, uma forma de razão. E se houve alguém que se apoiou quase exclusivamente na emoção (nas paixões) para justificar o comportamento humano foi David Hume, o pai do cepticismo moderno. E dizer que Hume foi conservador é um preciosismo.

“Em minha interpretação da leitura dos textos conservadores, eis o que ficou de mais relevante: uma cautela contra tudo que é extremista e utópico; a preferência por reformas graduais em vez de saltos revolucionários;”

Uma reforma pode ser extremista, independentemente de ser utópica ou não. Extremismo e utopia não são sinónimos nem podem ser colocados num mesmo plano. Por exemplo, em relação à sua época, o Cristianismo foi extremista. Um conservador pode ser extremista sem ser utópico, dependendo das circunstâncias.

“Há em todo conservador uma boa dose de respeito pelo árduo processo de tentativa e erro ao longo dos tempos, que serviu para moldar instituições úteis a nossa sobrevivência. E o mais importante: tais instituições nem sempre podem ser perfeitamente compreendidas pela nossa razão. O liberal Friedrich Hayek tinha postura semelhante, apesar de não se considerar conservador.”

O segundo parágrafo é absolutamente falso; aliás, entra em contradição com o primeiro parágrafo.
O processo de “tentativa e erro” é um processo científico, e portanto racional. É aqui que está a contradição entre o primeiro e o segundo parágrafos.

Hayek adoptou o cepticismo de David Hume. Não há um liberal qualquer que se atreva a desmentir isto, ou então não sabe o que diz. O cepticismo de David Hume é o cepticismo moderno, que também influenciou, por exemplo, Bertrand Russell. Em contraponto, o conservador é um céptico no sentido grego (no sentido socrático), o que é uma coisa totalmente diferente.
Por outro lado, Hayek juntou, na sua teoria, um certo optimismo utópico de Kant ao cepticismo de Hume — o que é uma contradição em termos, porque Kant não fez outra coisa senão colocar em causa Hume.

“Para Hayek, faltava aos conservadores a coragem de aceitar as mudanças não programadas pelas quais novas conquistas humanas irão surgir.”

Há aqui uma confusão entre conservantismo, por um lado, e tradicionalismo, por outro lado. Um conservador pode não concordar com algumas tradições, por razões éticas. Para um conservador, os valores da ética devem ser universais, fundamentados racionalmente, intemporais, e facilmente distinguíveis nas suas características principais. Para um conservador, sendo realista, os valores existem por si mesmos e não decorrem de uma qualquer utilidade prática.

Por exemplo, eu não concordo com a tradição islâmica da excisão feminina. E também não concordo com o aborto livre que já se vai tornando uma tradição na Europa: de certa forma, também existe uma tradição liberal ou de esquerda, e um conservador não concorda necessariamente com essas tradições.

E, por outro lado, há que definir “mudança” para sabermos do que estamos a falar. É absolutamente falso que, a um conservador propriamente dito e consciente, lhe falte “a coragem de aceitar as mudanças não programadas pelas quais novas conquistas humanas irão surgir”.

Isso nos remete ao outro ponto de divergência entre liberais radicais e conservadores: estes são, via de regra, mais pessimistas. Para Rothbard, por exemplo, a “atitude adequada ao libertário é a de inextinguível optimismo quanto aos resultados finais”, enquanto o “erro do pessimismo é o primeiro passo descendente na escorregadia ladeira que leva ao conservadorismo”.

Há distinguir “pessimismo” de “realismo”. O pessimismo é a atitude de espírito que consiste em pensar que, no mundo em que se vive, a soma dos males é superior à soma dos bens. Ora, um conservador não pode pensar assim sob pena de não o ser, porque por muito mal que exista no mundo, ele vê esse mal como uma mera ausência de bem. Normalmente os liberais perguntam: “porque é que existe o mal no mundo?”; enquanto o conservador pergunta ao liberal: “e porque é que você não pergunta por que existe o bem?”

O pessimismo pode ser revolucionário (no sentido de ser não-conservador), como por exemplo em Schopenhauer que via o mundo como absurdo; e o mesmo se se passou com Nietzsche que foi um pessimista e de conservador tinha quase nada, e passa-se com os existencialistas que fazem também a apologia do absurdo.

O conservador não vê o mundo como absurdo: pelo contrário, ele vê um fundamento racional no mundo. O conservador é realista em dois sentidos diferentes mas que se conjugam nele: 1/ é realista no sentido em que tende a valorizar a realidade como um dado a considerar, por não ser possível proceder de outro modo; e 2/ o conservador, à semelhança do matemático, é realista quando afirma que existe uma realidade independente do pensamento e do espírito humano.

Em outras palavras: até que ponto a “morte de Deus” não abriu espaço para o nascimento do “Deus Estado” e, com ele, dos totalitarismos modernos? Não tenho a pretensão de saber a resposta, mas reconheço que há aqui uma importante divergência entre liberais e conservadores. Se estes afirmam a religião como garantidora do tecido social, aqueles preferem a defesa secular das liberdades.

Não podemos confundir secularismo — que os conservadores também defendem — com laicismo — que muitos liberais defendem. Um conservador não tem nenhum problema em relação ao secularismo. Aliás, a história da Igreja Católica na Europa é — salvo raros momentos de radicalismos — a de um certo equilíbrio notável entre o poder secular e o poder religioso, ao contrário do que se passou por exemplo no mundo islâmico, ou mesmo na Rússia cristã ortodoxa.

Há conservadores seculares, como Oakeshott. Mas talvez seja um ponto fraco do conservadorismo moderno esta enorme dependência da religião. Talvez a filosofia, as artes e a literatura possam substituir a religião neste encanto pelo mistério do universo, nesta contemplação pelo desconhecido, eterno e indizível. Mas talvez os conservadores, apelando para o argumento utilitarista da fé, tenham um ponto quando alegam que, sem o freio religioso, as massas demandarão algum outro “Pai” em seu lugar.

Quem escreveu isto é burro. Ou seja, é tipicamente um liberal. Se o homo sapiens sapiens existe na Terra há pelo menos 75 mil anos e sempre teve religião, o burro revolucionário e liberal vem dizer que hoje, devido a uma e qualquer putativa mutação genética no ser humano que de facto não existe, “a religião é substituível”. Fernando Pessoa dizia que “a religião não só é a condição da liberdade eficaz do pensamento, como é a condição da função hígida do pensamento”. Duvido que o liberal típico consiga perceber o que Fernando Pessoa quis dizer.

O texto é longo e é um exemplo de um conjunto de meias-verdades, por um lado, e por outro lado é uma narrativa. Ora, um texto filosófico deve ser sucinto quanto baste, evitar o gongorismo e não contar estórias; e deve ser preciso nos termos que usa e não incorrer na falácia da anfibolia.

Terça-feira, 7 Maio 2013

Os sofismas acerca do casamento e sobre a liberdade

 

Aqui há tempos escrevi um verbete com o título “Afinal, há ateus inteligentes”. Gostaria de sublinhar que se tratou de um título corrosivo, por assim dizer, porque para além de haver vários tipos ou categorias de inteligência e não apenas um tipo, não tenho nenhuma razão objectiva para afirmar que as várias categorias de inteligência dependem da adesão à religião. Ou seja, incorri voluntariamente numa falácia non sequitur.

Hoje, através do Twingly.com, descobri esta referência a esse verbete. Mas antes de mais, convido-vos a ler este discurso do liberal inglês Nick Clegg (PDF), que faz parte do actual governo “conservador” liderado por David Cameron. E vou explicar por que a minha divergência em relação aos liberais (de esquerda ou de direita) é de fundo, ou seja, é fundamental.

Nick Clegg, como todos os liberais de direita, é a favor de um Estado mínimo, por um lado, e por outro lado é a favor da autonomia radical do indivíduo (neste último aspecto coincide com os liberais de esquerda). Por “autonomia radical do indivíduo” entende-se (também) a libertação do indivíduo em relação aos determinismos naturais que são a condição da sua existência.

Porém, a contradição da direita liberal (que não existe na esquerda liberal!) é a de que para se conseguir a autonomia radical do indivíduo, os liberais de direita precisam da intervenção e intrusão do Estado na vida privada do indivíduo. Por exemplo, quando Nick Clegg defende a ideia da criação de infantários gratuitos (pagos pelo Estado) para todas as crianças a partir dos 18 meses de idade, no sentido de “libertar” as mães da chatice de aturar os filhos, por um lado, e por outro lado para permitir que as mães possam trabalhar na fábrica ali ao lado, em vez de ter que aturar a criancinha em casa.

Tudo o que seja pré-determinado pela natureza é detestado pelos liberais (de esquerda e de direita). É nisto que consiste a autonomia radical do indivíduo: a putativa libertação de quaisquer amarras naturais. A diferença é a de que enquanto os liberais de esquerda são coerentes e defendem abertamente que um Estado forte deve intervir para “libertar o indivíduo de si próprio” (como se fosse possível que a libertação do indivíduo de si próprio possa vir do exterior do indivíduo), os liberais de direita defendem uma contradição em termos: um Estado mínimo, por um lado, e a intervenção desse Estado mínimo como garantia da autonomia radical do indivíduo, por outro lado. Aliás, verificamos essa contradição da direita liberal no que respeita à salvação dos Bancos falidos: um liberal de direita que se preze é contra o Estado, mas é a favor que o Estado salve os Bancos privados, socializando as dívidas privadas (bovinotecnia).

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Terça-feira, 30 Abril 2013

Cria-se uma situação de facto para forçar uma norma na lei

A lei deve ser geral e abstracta; deveria ser assim mas já não é. A decadência do Direito na Europa acontece quando sistematicamente se adequa a norma ao facto. A adequação sistemática da norma do direito ao facto seja este natural, social ou cultural, é uma característica dos totalitarismos: por exemplo,os nazis não fizeram outra coisa: fabricavam factos sociais para depois os “legitimar” por lei.

Desde Hitler que sabemos que os movimentos políticos libertários são totalitários por natureza.

A fabricação de factos sociais é conseguida através do mimetismo cultural, por um lado, e por outro lado através da valorização desses factos fabricados, na cultura antropológica. Por exemplo, na Alemanha, os defensores de práticas sexuais com animais (os zoófilos) organizaram-se em um movimento político que tem por objectivo exactamente a criação de um facto sócio-cultural: por um lado, o movimento político zoófilo alemão pretende valorizar, na cultura antropológica, a prática do sexo com animais; e por outro lado, pretende criar um mimetismo cultural na sociedade que faça aumentar o número de aderentes à causa, mesmo de muitas pessoas que nunca lhes terá passado pela cabeça ter sexo com animais, ou de pessoas que não tendo sexo com animais terão muita pena dos zoófilos “discriminados pela lei”.

Michael Kauch web

O deputado libertário e homossexualista Michael Kauch

Portanto, cria-se um facto que se transforme progressivamente em fenómeno social, e a partir desse facto criam-se novas normas expressamente adequadas a esse facto em particular. A partir deste princípio, tudo é possível, dependendo apenas da força política do fenómeno social criado pelo facto. Baseado neste princípio de adequação da norma ao facto, os nazis instituíram na lei a condição dos judeus como sub-humanos.

O movimento político homossexual insere-se neste fenómeno de subversão das regras fundamentais do Direito quando promove a adequação da norma ética e legal ao facto. O fenómeno social invertido parte desses dois princípios: valorização (e celebração) da homossexualidade na cultura antropológica, por um lado, e por outro lado a promoção de um mimetismo cultural que transforme um facto em um fenómeno social de larga escala e que “justifique” a adequação da norma ética e legal a esse facto (como aconteceu no nazismo).

Justifica-se essa subversão dos princípios do Direito com a necessidade de reconhecimento de alegados “direitos negados” pela sociedade — por exemplo, o direito da afirmação cultural do povo alemão, segundo o nazismo —, ou seja, os “direitos humanos” transformam-se numa política em si mesma, e cujo corolário a médio ou longo prazo será a negação de direitos básicos de uma parte substancial da sociedade.

Na Alemanha, os nazis eram uma ínfima parte da população, mas conseguirem arrastar todo um povo para uma situação de degradação moral e humana. Para isso, 1/ os nazis criaram factos políticos, sociais e culturais; 2/ valorizaram esses factos através dos me®dia e da política; 3/ criaram um fenómeno de mimetismo cultural que promoveu o apoio ideológico do nazismo por toda a sociedade; e finalmente 4/ adequaram as normas aos factos, criando uma monstruosidade totalitária em nome da defesa da liberdade.


Na actual Alemanha temos um exemplo dos “direitos humanos” como política — porque a História repete-se, embora com outros conteúdos, mantendo-se a forma — com o deputado libertário alemão Michael Kauch. A visibilidade política e social do deputado é um amplificador cultural e social de um facto criado que se transforma, por mimetismo cultural, em um fenómeno social que, por sua vez, obriga o Direito a adequar a norma ao facto, contando, para esse efeito, com o formalismo processual do Direito Positivo afastado de qualquer lógica e racionalidade real e extrínseca (por exemplo, totalmente divorciado da lei natural): o mesmo formalismo processual e burocrático do Direito que permitiu o holocausto judeu.

Desde Hitler que sabemos que os movimentos políticos libertários são totalitários por natureza.

Domingo, 12 Agosto 2012

Os libertarianismos

A diferença entre os libertários de Esquerda [por exemplo, Bloco de Esquerda] e os libertários de Direita [por exemplo, o PSD do Pernalonga] diz respeito apenas e só ao papel a desempenhar pelo Estado na economia. No que diz respeito à ética, são idênticos.


Domingo, 22 Janeiro 2012

A crítica neoliberal ao Distributismo

Nesta crítica neoliberal ao Distributismo, vemos duas citações, uma de Hayek e outra de Von Mises, que raiam o cinismo: em suma, a lógica das citações é a seguinte: “se a minha avó não tivesse existido, eu não existiria”.
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Sábado, 1 Outubro 2011

Habermas aceita a “utilidade” da religião

Nem de propósito em relação ao um postal anterior, em que falei de Habermas e do seu “liberalismo deontológico”, vem agora à luz uma nova “viragem” do marxista alemão: parece que ele agora considera a religião uma coisa útil para a sociedade. Habermas, que era um anti-utilitarista, agora passou a ser um utilitarista pelo menos no que diz respeito à religião, uma vez que ele acredita que as religiões transcendentais são falsas, mas úteis.
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Sexta-feira, 30 Setembro 2011

Uma outra liberdade

Falei de Hans Kelsen e do positivismo no Direito, mas o problema vem de trás. Ao ler este postal, percebemos que nos países onde foi historicamente mais forte a influência do liberalismo utilitarista, os juízes de Direito detêm hoje um poder quase discricionário, num sistema legal que perdeu praticamente a sua dimensão axiológica e ética.

O problema começou, pelo menos, no século XVII, quando a ética liberal impôs-se como uma simples ética de coexistência, eliminando da ética a questão do sentido da vida e da existência. A ética liberal é uma “ética do rebanho” que atomiza os “animais” em função dos seus interesses egoístas, por um lado, e, por outro lado, remete coercivamente a questão do sentido da vida e da existência — e da “vida boa” segundo Aristóteles — para o foro privado e íntimo de cada cidadão, eliminando-a da ética que é, ou deve ser, universal. A ética liberal transformou o ser humano em um animal num redil.

Quando falamos em liberalismo, talvez fosse mais correcto falar em libertarismo, porque existem libertários de direita e de esquerda e, normalmente, o liberalismo está associado apenas aos libertários de direita. A diferença essencial entre um libertário de esquerda (por exemplo, Francisco Louçã) e um outro de direita (por exemplo, Passos Coelho), é que o primeiro defende a atomização do cidadão face ao Estado, e o segundo defende a atomização do cidadão face ao mercado. Ambos defendem, embora de maneiras diferentes, o cidadão atomizado e uma “ética de rebanho”.

A ética liberal do rebanho, que se impôs progressivamente a partir do século XVII, e que separou, na ética, o Justo, por um lado, e o Bem, por outro lado, evoluiu e conduziu mais tarde ao positivismo do Direito de Hans Kelsen e do Círculo de Viena que, em corolário, retirou, do Direito, a própria ética, em nome de uma pretensa “neutralidade ética pluralista” liberal que realmente não existe, conforme muito bem demonstraram, por exemplo, Alasdair MacIntyre e/ou Charles Taylor. A ética liberal do rebanho é hoje defendida não só pelos acólitos de Hayek (à direita), mas também pelo chamado “liberalismo deontológico” (Habermas, Von Apel, etc.) que é de Esquerda (é uma mistura explosiva de Kant com o positivismo e com o marxismo cultural).

A verdadeira liberdade (ou a “autonomia real”, conforme a terminologia de Charles Taylor) decorre da construção intersubjectiva (em uma lógica de interacção positiva entre os indivíduos) da identidade societária. A ética liberal do rebanho, por um lado, e o Direito Positivo que eliminou a ética axiológica, por outro lado, atomizaram o indivíduo e conduziram à morte da política, como podemos ver hoje nas sociedades ocidentais: a ética e a política vão sendo paulatinamente substituídas pelo poder discricionário e quase plenipotenciário do juiz.

A ética liberal do rebanho faz com que os cidadãos caiam na heteronomia (ou seja, passamos a ser todos “Joaquins” ou membros do rebanho), que era aquilo que, de início, a ética liberal monológica alegava que queria evitar: sob a pressão de novos preconceitos, de modas, das imagens me®diáticas e da ditadura do mercado, ou das ideologias estabelecidas e politicamente correctas, o cidadão passa a efectuar escolhas que não sabe justificar e com argumentos que não são verdadeiramente livres porque são desconectados da sociedade como um Todo, e da sua cultura antropológica e histórica.

O liberalismo retirou-nos a liberdade.

Terça-feira, 31 Maio 2011

Afinal, o Estado não é neutral

Parece que já avançamos qualquer coisa, porque o Samuel concorda que é impossível ao Estado ser neutral em matéria de moralidade. Isto significa que a primeira proposição abordada neste postal, segundo a qual “a moralidade de uma acção não é passível de ser objecto de controlo coercivo pelo Estado”, é falsa, porque de uma forma positiva (acção) ou negativa (omissão), o Estado está sempre presente na formatação da moralidade.
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Sobre a fusão sinistra da religião política hayekiana e o Estado

« Quando o episteme (conhecimento científico) está arruinado, os homens não param de falar sobre a política; mas agora expressam-se em modo de doxa (opinião) »

― Eric Voegelin, “Nova Ciência da Política”


Convém dizer ao Samuel que uma pessoa não passa automaticamente a ter razão ao escrever um texto longo e com algum empastelamento ideológico. Aborrece-me que eu fale de uma situação em concreto e me respondam com o conteúdo inteiro de uma enciclopédia; e aborrece-me porque o empastelamento ideológico torna quase impossível o debate de ideias. Enfim, vou tentar abordar aqui as linhas fundamentais do seu postal.
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