perspectivas

Sexta-feira, 3 Maio 2019

A “pessoa”, como princípio de diferenciação cultural que caracteriza a singularidade da Europa (1)

 

A Cristina Miranda diz aqui aquilo que eu já resumi (neste espaço) da seguinte forma: a diferença entre o Bloco de Esquerda, por um lado, e os liberais portugueses, por outro lado, reduz-se à (concepção da) economia. Em tudo o resto são semelhantes, são compagnons de route do movimento revolucionário que conduzirá inevitavelmente a um novo tipo de totalitarismo.

« [os liberais portugueses] são uma espécie de “bloco de esquerda” nas liberdades individuais e no progressismo, mas liberais “não-socialistas” na economia.»

Lamento mas a Direita nunca governou em Portugal


A redução da realidade inteira à economia é uma característica própria de indigentes intelectuais, ou então de marxistas (o que vai dar no mesmo).

O “dilema” dos liberais portugueses é o de que não é possível (em termos práticos) defender o liberalismo na economia ao mesmo tempo que se defende uma cada vez maior (e multifacetada) intervenção do Estado na sociedade (ou seja, defender o liberalismo económico e, simultaneamente, defender a negação crescente e progressiva do liberalismo político).

Os liberais portugueses vivem em uma situação política de contradição insanável. Os liberais portugueses caíram numa armadilha ideológica que os conduzirá inexoravelmente à sua (deles) morte política.

E a armadilha ideológica colocada pela Nova Esquerda (a que se seguiu à queda do muro) consiste na ideia segundo a qual “é preciso cada vez mais intervenção do Estado na sociedade para assim defender uma cada vez maior afirmação da liberdade do indivíduo”. Mas os liberais portugueses não vêem a contradição do propósito da Esquerda.

Uma crescente e cada vez maior intervenção do Estado na sociedade não pode obviamente conduzir a uma maior liberdade individual, mas antes conduz à anomia e ao isolamento do indivíduo face a um Estado plenipotenciário  — ou seja, conduz ao prelúdio de um novo tipo de totalitarismo que tem como desígnio o fascismo chinês.

Não é por acaso que o fascismo chinês é o modelo político defendido pelas elites mundialistas para as diferentes regiões do planeta, e a União Europeia é uma clara tentativa impôr na Europa um fascismo político à imagem da China (sinificação).

A discussão deste assunto é prolixa: os liberais portugueses, salvo excepções, têm um baixo Coeficiente de Inteligência. Discutir com eles é “chover no molhado”.

Sexta-feira, 27 Maio 2016

Estou sintonizado com o “Diabo”

 

O dinheiro dos impostos é usado para pagar juros de investimentos especulativos, para salvar bancos que tiveram gestões catastróficas e que canalizaram rios de dinheiro para a economia de casino ocidental, ou para sustentar negociatas privadas distorcendo um mercado que deveria ser livre, aberto e igual.

O que se passa com os colégios privados, com os chamados “contratos de associação”, é um escândalo. O dinheiro dos impostos de todos os cidadãos é canalizado para financiar os estudos de jovens, que nada pagam nesses colégios quando existem escolas públicas, pagas também com os nossos impostos, que se situam nas vizinhanças desses colégios. O que é estranho é que esses colégios recebem mais dinheiro por turma do que as escolas públicas”.

Pagar lucro com os impostos de todos

Eu já tinha escrito aqui algo parecido. Em Portugal só existem partidos de esquerda.

Domingo, 8 Maio 2016

Quando os liberais se transformam em burocratas de Esquerda

 

Se as organizações conservadoras (ou liberais) imitam a Esquerda na procura e na recepção do dinheiro dos contribuintes, tornar-se-ão como a Esquerda também noutros modos: orientar-se-ão para servir interesses e valores dos políticos e dos burocratas, e não os valores e interesses dos liberalismos político e económico.

Tenho assistido ao espectáculo de liberais defendendo o financiamento do Estado às escolas privadas. Por exemplo, o João Távora escreveu o seguinte: “O monopólio do ensino público pelo Estado tem como objectivo último o controlo da república sobre a educação dos portugueses”.

Mas não é verdade! Por exemplo, Portugal é o único país da Europa que permite o Ensino Doméstico (Home Schooling). Temos um enquadramento legal muito liberal no que diz respeito ao Ensino. O que se passa, na realidade, é que a carga de impostos é de tal forma pesada que os portugueses têm que se sujeitar à mediocridade do Ensino público que têm.

Portanto, o que liberais e conservadores têm que fazer é lutar contra a carga de impostos que asfixia os portugueses e que só serve os interesses políticos da Esquerda. É essa a guerra — e não pedir financiamentos ao Estado para sustentar instituições privadas.

¿Por que é o Conraria critica os liberais?

Filed under: Política — O. Braga @ 12:52 pm
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“Liberalismo” é um termo vago que actualmente caracteriza realidades diferentes ou misturadas. Por isso convém distinguir entre liberalismo político, saído da filosofia dos “direitos naturais” (jusnaturalismo) exposta por John Locke (principalmente na sua primeira fase), por um lado, e o liberalismo económico, por outro lado.

O primeiro — o liberalismo político — é a forma abstracta e racional de um individualismo moderado, proposto por Locke e ligado à oposição a qualquer tipo de absolutismo ou totalitarismo, e tem a sua expressão no “Espírito das Leis” de Montesquieu (1748) com a teoria da separação de poderes. O liberalismo político de Locke faz do sujeito individual um ser dotado de direitos inalienáveis (propriedade, liberdade, etc.) e a fonte e o centro das relações sociais.

Este liberalismo político de Locke foi criticado por Rousseau que insistiu que a liberdade civil é impossível sem igualdade económica (igualdade social). Locke esteve na origem do liberalismo, e Rousseau (através do conceito de "Vontade Geral") esteve na origem do jacobinismo.

O liberalismo económico teve origem nos economistas ingleses e franceses do século XVII, também eles influenciados por Locke, e mais tarde sistematizado por Adam Smith.

A este liberalismo económico chamamos de “liberalismo clássico”: é um princípio associado ao liberalismo político, e segundo o qual as leis do mercado devem continuar a ser livres, pois são naturais (por exemplo, a lei da oferta e da procura), e dependem delas mesmas o equilíbrio entre a produção, a distribuição e o consumo (conforme Adam Smith: “Não é da benevolência do talhante, do cervejeiro ou do padeiro que nós esperamos o nosso jantar, mas do cuidado que eles têm com o seu próprio interesse” — “Riqueza das Nações”).

Em Adam Smith existia o sentido do dever social (v. “Teoria do Direito”); o mundo das regras (tradicionais) e das leis era, para Adam Smith, o verdadeiro significante do mundo afectivo ligado ao fundamento da economia: as paixões humanas naturais. Ao contrário do que defendeu Kant (“A Paz Perpétua”), Adam Smith era céptico acerca da possibilidade de o comércio (por si só) abolir a guerra entre as nações (“Riqueza das Nações”), porque aquele que, na sociedade liberal, não tivesse outra coisa senão as suas mãos para trabalhar, não poderia viver a obrigação do “sobre-trabalho sem lucro” senão contrapondo-lhe a violência.

Adam Smith tinha preocupações sociais, nomeadamente mediante o seu conceito de “simpatia”.

Como podemos verificar, o liberalismo (tanto político ou económico) escorava-se no jusnaturalismo (Lei Natural). O liberalismo clássico limita o conceito de “igualdade” à igualdade dos direitos naturais: não se trata de igualdade social que supõe que o Estado intervém para “corrigir” o jogo livre da sociedade civil, o que é interpretado pelo liberalismo como sendo funesto para a liberdade.

É neste sentido que me considero um liberal.

Em contraponto, a Esquerda confunde “igualdade”, por um lado, e “identidade” (as pessoas são idênticas umas às outras), por outro lado.


Mas aquilo a que hoje se chama “liberalismo” não é liberalismo no sentido clássico, uma vez que o Direito Natural é negado por muitos ditos “liberais”. Ao novo e actual conceito de liberalismo, chamamos de “neoliberalismo”.

“’Demasiado capitalismo’ não significa a existência de muitos capitalistas, mas antes significa a existência de poucos capitalistas” — G. K. Chesterton

A linha que separa o liberalismo clássico do neoliberalismo (actual) é muito ténue e difícil de identificar. Contudo, algumas características do neoliberalismo são:

  • Preponderância de um Marginalismo radical, com uma supremacia avassaladora do subjectivismo em total detrimento do bem-comum;
  • Tendência para defender a sinificação de zonas do globo (por exemplo, União Europeia);
  • Desprezo pelo Direito Natural (tal como acontece com a esquerda radical);
  • A negação do Estado-Nação (tal como acontece com a esquerda internacionalista), e submissão do poder político nacional ao poder financeiro internacional;
  • Submissão do Estado de Direito às leis do mercado: para o neoliberalismo, o Estado de Direito não se justifica em si mesmo: só se justifica o Estado de Direito para que as leis de mercado na sociedade se imponham de forma ilimitada, em que tudo é passível de vender e de comprar (incluindo a dignidade humana). Para o neoliberalismo, o Estado de Direito é um simples meio, e não um fim em si mesmo.
  • Império do positivismo no Direito (tal como acontece com a esquerda radical): o Direito é (segundo o neoliberalismo) totalmente arbitrário e independente de fundamentos metajurídicos (por exemplo, as tradições de uma sociedade). Neste sentido, e tal como acontece com a esquerda, o neoliberalismo segue o princípio da "Vontade Geral" de Rousseau, e já não o liberalismo de Locke.

Portanto, verificamos que existem pontos em comum entre a esquerda e o neoliberalismo. Por isso é que o Conraria critica os liberais clássicos (os herdeiros de Adam Smith) que defendem a primazia do Direito Natural e o fundamento metajurídico das leis.

Terça-feira, 1 Março 2016

A necessidade dos mecanismos de democracia participativa

Filed under: Política — O. Braga @ 12:24 pm
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Os liberais portugueses vão-se dando conta da importância da “guerra cultural” traduzida, por exemplo, no caso da tentativa de proibição da publicação do livro do Henrique Raposo. Até há pouco tempo, os liberais consideravam as chamadas “questões fracturantes” como simples matéria de opinião; cheguei mesmo a ler no Blasfémias, escrito pelo João Miranda e a propósito do "casamento" gay, que a instituição do casamento deveria ser abolida porque se tratava de um assunto que diz respeito estritamente ao indivíduo e que o Estado não tinha nada a ver com isso.

Não é demais recordar Edgar Morin:

« (…) a lógica do liberalismo político leva-o a tolerar ideias ou movimentos que têm como finalidade destruí-lo. A partir daí, perante a ameaça, o liberalismo está condenado, quer a tornar-se autoritário, isto é, a negar-se ― provisória ou duradouramente ― a si mesmo, quer a ceder o lugar à força totalitária colocada no poder por meio de eleições legais (Alemanha, 1933) »

voteAntes de “arrotarem postas de pescada”, os liberais deveriam ter uma boa noção das ideias de Gramsci acerca da importância da cultura antropológica e das “questões fracturantes”. E deveriam defender a todo o custo os mecanismos de democracia participativa (referendos) em relação a essas questões.

Quando eu vejo os liberais a confraternizar canina- e afavelmente com radicais de esquerda em programas de televisão, evitando que todo o custo não ofender o politicamente correcto — como se a confrontação de ideias fosse um pecado original —, não admira que se comece a proibir a publicação de livros perfeitamente inócuos e apenas porque o autor é A ou B. Os radicais preocupam-se imenso com as figuras públicas, ou seja, as que têm acesso aos me®dia; vêem a política como uma matéria de elites, em que o povo não é tido nem achado.

Por outro lado, os Cunservadores em geral também são contra os referendos; não se dão conta de que estão a promover o radicalismo de Esquerda. Ou então, sabem que o fazem e colaboram na política de terra queimada, tentando extremar posições na esperança de uma conflagração política final.

O povo tem que ser responsabilizado pelas decisões políticas em áreas como a economia ou a cultura (costumes), para o mal ou para o bem. Há que correr o risco e dar a voz ao povo através de referendos, mesmo que a afluência às urnas seja pequena.

Há que combater a ideia politicamente correcta segundo a qual “os direitos individuais não são referendáveis” — ideia essa que é muito conveniente para a agenda totalitária dos radicais. Temos que ser radicais contra os radicais, defendendo a democracia participativa. E afirmar que a ideia de que “o povo é burro e ignorante e que, por isso, não pode ser ouvido em matérias de governança”, é característica de um novo tipo de totalitarismo que nos está paulatinamente a ser imposto.

Temos que criar, na sociedade portuguesa, um senso-comum (que não existe, porque a sociedade está, também ela, fracturada) que passe pela valorização dos mecanismos da democracia participativa.

Segunda-feira, 28 Dezembro 2015

A Maria João Marques é como “umas e outras”

 

Lamento contrariar a Maria João Marques, mas ela não é igual a mim. E graças a Deus! Teria um imenso desgosto se eu fosse igual à Maria João Marques — não só por ela ser mulher, mas sobretudo por ela ser a Maria João Marques.

Nem os animais irracionais são iguais uns aos outros. Dois cães da mesma raça não são iguais. O conceito de igualdade reduz o ser humano a uma criatura infra-animal. Nem duas bactérias são iguais entre si. A igualdade transforma o ser humano em um átomo ou em uma partícula elementar sub-atómica.

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Sexta-feira, 3 Abril 2015

Professores universitários ingleses defendem que deveria ser legal matar uma criança nascida

 

« Parents should be allowed to have their newborn babies killed because they are “morally irrelevant” and ending their lives is no different to abortion, a group of medical ethicists linked to Oxford University has argued.

The article, published in the Journal of Medical Ethics, says newborn babies are not “actual persons” and do not have a “moral right to life”. The academics also argue that parents should be able to have their baby killed if it turns out to be disabled when it is born.

The journal’s editor, Prof Julian Savulescu, director of the Oxford Uehiro Centre for Practical Ethics, said the article’s authors had received death threats since publishing the article. He said those who made abusive and threatening posts about the study were “fanatics opposed to the very values of a liberal society”. »

Killing babies no different from abortion, experts say

Eis o resultado da teoria ética darwinista, naturalista e utilitarista de Peter Singer.

baby-bornMuitos idiotas dizem que Karl Marx não foi co-responsável pelos Gulag soviéticos; ou que Nietzsche não foi co-responsável pelo nazismo, são os mesmos idiotas que dizem que o utilitarismo exacerbado de Peter Singer não é co-responsável pelo infanticídio.

Peter Singer não deveria apenas ser forçado a deixar a universidade: deveria ser preso e julgado por um novo crime a criar no ordenamento jurídico internacional: “crime contra a humanidade em potência” — porque as ideias têm consequências. Peter Singer pode ser comparado a um clérigo radical islâmico que defende o assassinato de pessoas inocentes: o lugar dele é na prisão.

Mas não só: professores de “filosofia”, como por exemplo o Rolando Almeida, que defendem publicamente as ideias de Peter Singer, deveriam ser forçados a abandonar o ensino. A tolerância tem os limites da misericórdia em relação ao ser humano: a impiedade em relação ao ser humano não pode ser, de modo nenhum, tolerada.

A liberdade de expressão tem limites. Por exemplo, não podemos tolerar  liberdade de expressão racista do Ku Klux Klan; assim como não podemos tolerar a liberdade de expressão de gente que segue a ideologia de Peter Singer. Não se trata, aqui, de um “politicamente correcto” da minha parte: trata-se da defesa da inviolabilidade da vida do ser humano, o que é uma questão metafísica que vai para além da ética exclusivamente humana e da política.

Se ter o direito de defender publicamente o assassínio de crianças nascidas faz parte do liberalismo político, então tratemos urgentemente de acabar com ele.

Domingo, 29 Março 2015

O Instituto Ludwig Von Mises Brasil e o marxismo cultural

 

“Trata-se aqui de uma utopia cujo carácter é mais negativo que positivo pois, diversamente da utopia clássica (Platão, Tomás Moto, Campanella, Fourier) que prescrevia, às vezes pormenorizadamente, a forma da cidade ideal, concentra-se sobretudo na crítica dissolvente da sociedade real.

O carácter negativo da nova utopia é evidente no movimento conhecido por Escola de Frankfurt. Iniciou-se este na Alemanha, em Frankfurt, quando, em 1931, o “Instituto de Investigação Social” passou a ser dirigido por Max Horkheimer (nascido em 1895) e tem os seus maiores representantes mas pessoas de Theodor W. Adorno e Herbert Marcuse.”

→ extracto do livro XIV da “História da Filosofia” de Nicola Abbagnano, § 865, com o título “Utopia Negativa”

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Terça-feira, 24 Março 2015

O paradoxo liberal da autonomia

Filed under: ética,Política — O. Braga @ 5:34 pm
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Charles Taylor apresenta-nos o paradoxo da diferença entre a autonomia formal e a autonomia real.

A autonomia formal é a dos liberais que separaram o conceito de Bem, por um lado, do de Justiça, por outro (os herdeiros de Kant) — o grupo dos liberais pode ir, por exemplo, do Insurgente ao Jugular, cada um à sua maneira. A única preocupação os liberais é a coexistência da quasi-infinitude de noções de Bem, negando, portanto, qualquer possibilidade de legitimidade de um reconhecimento público universal dos valores. Os liberais dizem:

“Cada um tem a sua ética” (atomização da sociedade em nome da autonomia).

Para os liberais, o domínio da Justiça é alegadamente “universal”, mas já o domínio do Bem é particular e privado (Habermas, por exemplo, ou Hayek: vai dar ao mesmo); mas dizem os liberais que o seu conceito universal do “justo” é “neutro” em relação às concepções de Bem e aos estilos de vida que o exprimem (“neutralidade ético-simbólica”). Por exemplo, quando ouvimos os liberais dizer:

“O “casamento” gay ou a adopção de crianças por pares de invertidos não interfere com a minha vida privada. Problema deles!”

Por outro lado, os liberais entendem o “universal” (na Justiça) como uma simples forma ou processo de determinação da norma prática — ou seja, os paradigmas axiológicos e teleológicos da ética e do político são substituídos pelo paradigma jurídico (pelo processo de promulgação de leis do Direito Positivo).

Porém, (contra os liberais) o conceito liberal de “universal” (na Justiça) não é realmente neutro. Trata-se de uma falácia liberal. Por exemplo, a interpretação liberal dos direitos do homem abstrai o ser humano de qualquer determinação histórica: a construção de qualquer concepção acerca do “justo” insere-se sempre em um contexto de uma tradição prática específica que é portadora de critérios racionalizados de um ponto de vista prático. A razão prática é histórica. E o universal liberal não é neutro porque obedece a uma tradição liberal individualista que, como qualquer tradição prática, possui os seus próprios parâmetros de justificação racional.

O universalismo liberal é uma tradição, e por isso não pode ser neutro.

Os liberais, ao separarem o problema da justa coexistência (Justiça), por um lado, das questões relativas ao sentido da vida (o Bem) através do processualismo liberal (processo de promulgação do Direito Positivo), esquecem-se que o exercício da autonomia do indivíduo supõe a aquisição de mediações culturais específicas assim como instrumentos práticos de reflexão que permitam escolher a orientação mais apropriada para vida do indivíduo. Por outras palavras, a autonomia do indivíduo implica a intersubjectividade cultural e o pensamento crítico em relação a qualquer questão do sentido da vida.

O paradoxo liberal da autonomia é o de que, na ausência da intersubjectividade cultural e do pensamento crítico, os indivíduos caem na heteronomia que os liberais julgavam poder evitar: sob pressão dos preconceitos das modas, das imagens me®diáticas ou das ideologias paradigmáticas de cada época, os indivíduos podem efectuar escolhas que não sabem justificar com argumentos, e por isso não são verdadeiramente livres.

Ora, a aquisição da intersubjectividade cultural e do pensamento crítico não depende simplesmente da responsabilidade privada “de cada um” defendida pelos liberais através do formalismo do Direito Positivo: ela depende também e sobretudo da responsabilidade de todos, porque é determinada igualmente por condições sociais, económicas e educativas que traduzem escolhas sociais.

Sábado, 21 Março 2015

Ou se é liberal ou não

Filed under: Política,Portugal — O. Braga @ 6:33 am
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Quando os liberais (de Direita) da nossa praça são confrontados com a Lista Fiscal VIP, entram em dissonância cognitiva — como acontece com a Helena Matos.

Os liberais fundamentam o seu conceito de “igualdade” na igualdade perante a lei que se opõe aos privilégios — o que não significa que todos tenham o mesmo Poder ou as mesmas características, mas significa que todos têm uma dignidade igual.

Ora, raciocinando como um liberal, diria eu que, por exemplo, o primeiro-ministro tem uma dignidade igual ao Zé da Esquina. Por isso, o primeiro-ministro tem o mesmo direito do Zé da Esquina a não ver a sua vida privada — neste caso, fiscal — vasculhada e divulgada na praça pública. E é em nome dessa putativa igualdade na dignidade que a Helena Matos defende a ideia de que deveria haver uma Lista Fiscal VIP, para assegurar que o primeiro-ministro tenha os mesmos direitos que o Zé da Esquina tem.

Ora, aqui é que está o sofisma da Helena Matos: é que o Zé da Esquina não tem qualquer garantia ao direito de não ter a sua vida fiscal vasculhada; a diferença é que o vasculho não sai publicado nos jornais — e portanto ela mistura aqui dois planos diferentes do problema: o vasculho propriamente dito, de que ninguém está livre neste país, por um lado, e a publicação do vasculho que atinge as figuras públicas. Mas não é porque o Zé da Esquina não é figura pública que o vasculho se torna justificado.

O vasculho da vida fiscal privada do Zé da Esquina traduz-se, por exemplo, no acesso a ficheiros do fisco por parte de entidades privadas — que não pertencem ao Estado — na cobrança de dívidas, devidas ou indevidas; e como o acesso aos tribunais é caro, o vasculho fiscal da vida do pobre Zé da Esquina traduz-se numa cobrança coerciva, com ou sem razão; ou então o vasculho fiscal generalizado permite que uma entidade privada possa obter informações acerca da vida fiscal privada de um candidato a seu empregado: o que é preciso é ter alguém amigo na repartição de Finanças para fornecer a informação.

Ou seja, a filosofia política liberal não deveria permitir que existisse qualquer tipo de vasculho; ou então, toda a gente tem o direito a ser vasculhada. Mas não é isto que a Helena Matos defende.

Numa sociedade sem uma tradição democrática forte; em que ainda existem fortes resquícios estalinistas na política; em que a maçonaria se transformou em uma associação de malfeitores que mina a política e que sustenta, em grande parte, o tráfico de influências; em que os me®dia que temos fomentam, no povo, todos os dias, uma cultura da coscuvilhice e da inveja — nesta sociedade não há liberalismo político que aguente. Ou então, a ser-se coerentemente liberal, mesmo na merda da sociedade que temos, há que correr o risco de não admitir qualquer Lista Fiscal VIP.

Sábado, 17 Janeiro 2015

Os liberais Carlos Abreu Amorim, Ana Gomes e Boaventura Sousa Santos

 

Ontem à noite vi o debate entre o Carlos Abreu Amorim e Ana Gomes na TVI24. As posições de cada um face ao terror do Charlie Hebdo são baseadas nas posições clássicas do liberalismo de direita, por um lado, e no liberalismo de esquerda (também chamado “libertarismo” na Europa, e nos Estados Unidos de “liberalism”).

O liberalismo de direita — ou seja, para o Carlos Abreu Amorim — consiste na crença numa só verdade universal segundo a qual todas as pessoas têm direitos (jurídicos) iguais 1. E embora existam culturas diferentes, todas elas estão em conformidade com essa verdade universal única 2  — incluindo o Islão. Para as pessoas da direita-liberal, o “pecado” maior é a negação esta verdade universal única, e o seu corolário é o de que todas as pessoas são capazes de seguir essa verdade.

O libertarismo de esquerda  3 — ou Ana Gomes, ou Boaventura Sousa Santos — consiste na crença numa igualdade substantiva e moral da humanidade (relativismo moral: todas as culturas são igualmente válidas). O liberalismo de esquerda rejeita a noção de verdade universal única dos liberais de direita, porque essa verdade seria superior às outras verdades, e porque as pessoas que acreditem nessa verdade se sentiriam superiores e tentariam dominar as outras (marxismo cultural e a noção de “domínio”).

Para o liberalismo de esquerda, todas as verdades, todas as pessoas, todas as culturas, todas as religiões (incluindo a Macumba, o Satanismo e o Candomblé] têm que ser tratadas de forma igual. Para a esquerda liberal, o “pecado” mais grave é imaginar que alguém possa estar na posse da verdade e que possa esperar que outras pessoas dêem a anuência a essa verdade.

Corolário: a direita liberal pensa que a esquerda liberal comete o maior “pecado”, e vice-versa. Mas é o princípio da igualdade que lhes é comum.

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Domingo, 3 Agosto 2014

A ambiguidade política do liberalismo em relação a Israel

 

 

“A Faixa de Gaza é um gigantesco gueto onde se amontam 1,7 milhões de pessoas num pequeno território sem recursos. Os seus habitantes são refugiados ou seus descendentes expulsos de territórios ocupados por Israel nas últimas décadas.”

Da miséria humana

Naturalmente que se esconde o facto de nenhum país árabe ou islâmico vizinho de Israel ter aceitado acolher os seus “irmãos” árabes palestinianos; e pior: a Jordânia, por exemplo, até os expulsou! Mas ninguém fala nisso: preferem acusar Israel.

Os liberais preferem alinhar com a Esquerda em tudo, excepto nas folhas Excel da economia.

“Face a uma ofensiva militar israelita, os civis não tem escapatória possível. Não há lado nenhum onde um refugiado se possa refugiar.”

A julgar pela opinião liberal, Israel deveria levar com os mísseis lançados de Gaza e ficar “quietinho para não levar mais no focinho”. Os liberais querem um Estado de Israel masoquista. Aliás, os liberais não sabem para que serve o Estado senão para salvar os Bancos privados da falência: para os liberais, são as folhas Excel da economia que dão algum sentido ao Estado quando a Banca privada está em apuros.

Convém lembrar os liberais de alguns factos e notícias recentes, (clique nas imagens) a ver:

liberais1

liberais2

liberais3

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