perspectivas

Segunda-feira, 29 Abril 2019

O axioma da “razão suficiente”

Filed under: Europa — O. Braga @ 10:24 pm
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“Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.”

Leibniz  

É praticamente unânime a consideração segundo a qual Leibniz e Newton foram dos europeus com mais elevado QI da História.

O princípio da “razão suficiente” [de Leibniz] é simplesmente genial, desde logo porque não se poderia deduzi-lo da experiência: este axioma foi e será sempre válido. A verdade deste axioma é intemporal: a sua verdade existe numa dimensão intemporal da consciência, na qual a Razão participa.

Ou seja, é pressuposta a validade daquilo que só deve ser comprovado pela dedução — independentemente do modo como os axiomas lógicos [que não são físicos!] surgiram ao longo da evolução humana, a validade desses axiomas transcende a realidade humana.


A ler:


“Mesmo que os axiomas de uma [qualquer] teoria [cientificamente válida] sejam formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma elevada ordem do mundo objectivo, que não se podia esperar de maneira alguma. ”

→ Albert Einstein, “Worte in Zeit Und Raum”, 1992, pág. 92, Bonn.

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Sábado, 27 Agosto 2016

Convém misturar Giordano Bruno com Newton

Filed under: filosofia — O. Braga @ 1:16 pm
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O Carlos Fiolhais gosta de misturar coisas, principalmente quando uma das coisas misturadas é logicamente inconsistente mas adequa-se a uma determinada ideologia que ele perfilha. Neste caso, o Carlos Fiolhais mistura, no mesmo texto, o Giordano Bruno e Newton. A essencial diferença entre os dois é que Newton via Deus como transcendente em relação às leis da natureza e ao universo (embora Deus seja interventivo em relação ao universo), enquanto que o Giordano Bruno era um panteísta (panteísmo).

Vemos aqui um artigo que nos diz (por inferência) que Newton estava correcto e que Giordano Bruno estava errado:

“After measuring alpha in around 300 distant galaxies, a consistency emerged: this magic number, which tells us the strength of electromagnetism, is not the same everywhere as it is here on Earth, and seems to vary continuously along a preferred axis through the Universe,” said Webb.

The implications for our current understanding of science are profound. If the laws of physics turn out to be merely “local by-laws”, it might be that whilst our observable part of the Universe favors the existence of life and human beings, other far more distant regions may exist where different laws preclude the formation of life, at least as we know it.”

Our Solar System "Is in a Unique Place in the Universe — Just Right for Life"

A “solução” panteísta de Giordano Bruno (e mais tarde de Espinoza, ou de Hegel) é uma forma de naturalismo; perante a assertividade da mundividência de Newton, o Carlos Fiolhais entra em uma dissonância cognitiva que tem que ser compensada pelo panteísmo do mártir naturalista Giordano Bruno.

É conhecida a polémica entre Leibniz e Newton, em que o primeiro defendia a ideia segundo a qual Deus criou o universo de uma vez por todas e depois retirou-se do mundo — ao passo que Newton defendia a ideia segundo a qual, sendo que Deus transcende o universo (é “exterior” ao universo), mas contudo Ele age constantemente (em termos de tempo cósmico) no universo apesar das leis da natureza por Ele definidas, e que sem a intervenção constante de Deus no universo não poderia haver a ordem e uma determinada constância das leis da natureza que permitem a existência da vida.

Quarta-feira, 19 Junho 2013

Com a quântica, o Iluminismo chegou ao fim (4)

Das descobertas da física quântica decorrem algumas consequências para a teoria do conhecimento, o mesmo quer dizer, para a forma como vemos o mundo.

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Sábado, 15 Setembro 2012

Sobre a correspondência entre Leibniz e Clarke

Filed under: filosofia,Ut Edita — O. Braga @ 10:40 am
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A correspondência entre Gottfried Wilhelm Leibniz e o inglês Samuel Clarke [amigo de Isaac Newton] começou com uma missiva enviada por Leibniz a SAR a Princesa de Gales, em 1715, que, por sua vez, a enviou a Clarke, e desta forma iniciou-se a famosa correspondência entre os dois.

A correspondência é extensa e aborda várias áreas, mas ao contrário do que ficou assente naquela época, foi Leibniz que, em termos gerais, ganhou o debate, embora em algumas temáticas tanto Newton [por intermédio de Clarke] como Leibniz estivessem muito próximos. Porém, a correspondência for menos marcada por divergências das ideias de um e de outro, do que por uma certa animosidade pessoal entre Leibniz e Newton.
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Quinta-feira, 15 Setembro 2011

A crença no cepticismo

Descobri em um artigo na Internet uma frase escrita por um “filósofo” naturalista americano (não me lembro agora do nome dele) que diz o seguinte:

“Não acredito na ciência; a ciência é a única defesa em relação às crenças”.

O dito “filósofo” pensa ter afirmado uma grande coisa, mas não se deu conta de que a segunda parte da sua proposição contradiz a primeira.

Enquanto a ciência não se convencer de que não pode reduzir o conhecimento humano ao que se passou apenas depois da revolução burguesa de 1789, talvez comece a entrar pelo bom caminho.

Leibniz tem uma pergunta e uma proposição lapidares: “Por que há algo, em vez de nada?”; e : “nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente”.

Se “há algo em vez de nada”, é impossível Não-Ser e é impossível não crer em alguma coisa — quanto mais não seja, tem que se crer que não se crê. Isto é tão básico que até um filósofo naturalista terá capacidade de compreender…

A “razão suficiente” não é apenas uma causa natural. A “razão suficiente” é algo intrinsecamente racional, ou seja, inteligente; e é a razão pela qual “há algo em vez de nada”.

Se perguntarem a um cientista contemporâneo se sabe quem foi Leibniz, ele provavelmente responderá que o cálculo infinitesimal foi “inventado” por Newton.

Sexta-feira, 2 Setembro 2011

Leibniz e o bêbedo de Locke (salvo seja)

Em termos de metafísica (e também da ética), a história depois de Jesus Cristo e até ao fim da Idade Clássica, resume-se em três nomes: Santo Agostinho, S. Tomás de Aquino, e Leibniz.

Estes três são diferentes entre si mas complementam-se. E depois temos uma segunda linha de pensadores, como por exemplo Anselmo de Aosta, uma parte de Pascal, o próprio Locke na sua primeira fase, Erasmo, Nicolau de Cusa, e poucos mais.
Ao entramos pela Idade Moderna adentro, a coisa complica-se, e até ao século XX só Kant se salva (parcialmente). A partir do século XX surgiram alguns pensadores metafísicos de relevo, como por exemplo Schiller, Husserl, Karl Jaspers, Louis Lavelle, e pouco mais do que isto.


No seu “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, Locke invoca o exemplo do bêbedo que se alcooliza ainda que saiba que coloca em risco a sua saúde: o bêbedo não pode parar de beber em função da prevalência do desejo sobre o entendimento (o juízo). A partir deste exemplo, Locke generaliza: “aquilo que leva a vontade a agir não é o maior bem, como se supõe vulgarmente, mas antes uma inquietação presente (desejo) e, regra geral, a que é mais premente. Podemos dar-lhe o nome de desejo, que é efectivamente uma inquietação do espírito”.

A posição de Locke é pessimista: o homem verga-se perante o desejo e não há razão que o valha. Este pessimismo foi posteriormente seguido por Hume, pelos utilitaristas ingleses, e até pelo neoliberalismo de Hayek.

Leibniz retoma o exemplo do bêbedo de Locke e aplica-lhe a fórmula de S. Tomás de Aquino (que por sua vez já vinha de Santo Agostinho, nas “Confissões”):

DESEJO → VONTADE → JUÍZO → LIBERDADE

Segundo Leibniz — cuja ética não é normativa, mas sim prescritiva —, o que prejudica o bêbedo de Locke “não é a inquietação, que nem sempre é desprazer, mas muitas vezes uma percepção sensível em que se torna difícil distinguir o que faz pender mais para um lado do que para outro”. Ou seja, é a escolha (o juízo, ou o entendimento) do objecto de desejo em si mesmo que se torna importante (os fins últimos de Aristóteles), e não a simples procura, em si mesma — muitas vezes, infindável —, do objecto do desejo (os fins próximos, como defendiam Locke e Hobbes, sendo que este último inverteu a ética aristotélica).

Leibniz dá o exemplo do frade jesuíta que gostava da “pinga”, e que por isso acrescentava, todos os dias, um pingo de cera na sua taça por onde bebia o vinho. E à medida que os dias passavam, a cera acumulava-se na taça e, assim, a quantidade de vinho ia sendo cada vez menor. Para Leibniz, a experiência atesta a possibilidade de deslocar o objecto de desejo negativo ou prejudicial, para um outro objecto mais sublime e aliciante.

Se escolhemos muitas vezes o pior, “é porque pressentimos o bem nele contido”, sem sentirmos o mal que esconde: o problema moral é uma questão de condução ou orientação do desejo, através da qual as energias do desejo são transferidas para um objecto bom ou para uma boa representação do divino.

Domingo, 3 Abril 2011

Leibniz e a quântica (2)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 6:19 am
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«A doutrina segundo a qual o mundo é formado por objectos cuja existência é independente da consciência, revela estar em desacordo com a mecânica quântica e com os factos estabelecidos através da experiência.»

Bernard D’Espagnat, físico e filósofo da ciência (escrito publicado na revista Scientific American , em Novembro de 1979)

Na minha opinião, Leibniz foi um dos maiores filósofos do tempo depois de Cristo. Leibniz foi, no seu tempo, alvo de chacota por parte dos idiotas enciclopédicos franceses e de Voltaire, mas demonstra-se hoje através da quântica que as teorias de Leibniz não são tão risíveis quanto parecem à primeira vista.
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Sexta-feira, 1 Abril 2011

Leibniz e a quântica

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:38 am
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“Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.”

(Leibniz)

Para que seja possível um jogo de xadrez é necessário o respectivo tabuleiro, as peças e as regras do jogo (a facticidade); das regras do jogo, decorrem os movimentos possíveis das peças dentro do tabuleiro (possibilidade); e o jogo precisa de jogadores (consciência). Temos, pois: facticidade, possibilidade e consciência. Retomaremos mais adiante o exemplo do jogo de xadrez.

Leibniz fez a distinção entre “verdade de razão” e “verdade de facto”. Por exemplo, é uma verdade de razão que o Homem é um ser bípede, detentor de inteligência, de uma linguagem e de cultura; mas é uma verdade de facto que cada homem é um ser individualizado e particular. A esta individualização das coisas, Leibniz chamou de “substância individual”.
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Sexta-feira, 7 Agosto 2009

A importância de Leibniz no futuro da filosofia quântica

«A simples presença de uma substância, ainda que animada, não basta para a percepção. Um cego, e até um distraído, não vê. É preciso explicar [às pessoas] como a alma percebe o que está fora dela.»

Gottfried Wilhelm von Leibniz ― segunda carta ao filósofo inglês Clarke

Leibniz é essencial para se poder construir uma filosofia quântica que extrapole os parâmetros delimitadores da pura Física ― ele é essencial para uma nova teoria metafísica e espiritualista baseada nas recentes descobertas da quântica. A Física quântica apenas constata factos, ou através da observação ou através do formalismo da lógica matemática; perante a incompreensibilidade das conclusões a que chegou, a Física quântica entra numa espécie de “singularidade” através da qual constata que as leis da Física entram em colapso ― e não consegue explicar esse facto.

Observem este vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=ZtXGq2I4ZI8
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Terça-feira, 6 Maio 2008

A liberdade do universo, segundo Leibniz

Filed under: Religare — O. Braga @ 1:52 pm
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Leibniz (1646 – 1716) terá sido uma das mentes mais engenhosas de todos os tempos. Contudo, tinha alguns defeitos detestáveis; por exemplo, embora fosse honesto e zeloso da propriedade dos outros, era também um sovina de primeira água. Consta que nunca dava esmolas e que quando se casava uma donzela, era seu costume oferecer um único presente de núpcias que consistia num enunciado de máximas úteis, que incluía o conselho de nunca deixar de se lavar diariamente, principalmente as partes íntimas, “agora que tinha marido”.

A inteligência de Leibniz foi muito invejada no seu tempo (principalmente pelos empiristas ingleses e pelos jacobinos franceses) e foi muito criticada a sua “filosofia popular” – uma espécie de colecção de aforismos filosóficos elaborados de forma a serem compreendidos pela aristocracia semi-analfabeta da época. Um dos aforismos da sua filosofia popular foi o de que “este é o melhor dos mundos possíveis”, ao que o inglês Bradley acrescentou o comentário irónico “e tudo nele é um mal necessário”, fazendo referência maliciosa à polémica de Leibniz com Espinosa.
A figura do Dr. Pangloss de Voltaire é baseada em Leibniz, e por isto podemos fazer a ideia do que a sociedade intelectual do seu tempo pensava sobre a sua personalidade. Contudo, não podemos esquecer que o cálculo infinitesimal foi descoberto por Leibniz em 1675, publicando a sua obra em 1684, e gerando uma célebre polémica com Newton sobre a autoria da descoberta, sendo que Newton publicou a mesma teoria matemática em 1687.
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