perspectivas

Quarta-feira, 19 Junho 2013

Com a quântica, o Iluminismo chegou ao fim (4)

Das descobertas da física quântica decorrem algumas consequências para a teoria do conhecimento, o mesmo quer dizer, para a forma como vemos o mundo.

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Com a quântica, o Iluminismo chegou ao fim (3)

Sócrates: Ainda bem que o encontro, amigo Kant!, pois acabam de me dizer que você foi o precursor do Positivismo de Augusto Comte e do neopositivimo do Círculo de Viena. O que é que você tem a dizer acerca disso?

Kant: Sobre a identificação de Comte comigo não estou nada de acordo, porque ele defendeu ideias opostas às minhas: sempre fui contra o dogmatismo religioso e contra o fideísmo ideológico (Ler “A Paz Perpétua”), e defendi a ideia segundo a qual os limites do conhecimento e da ciência que são incompatíveis com o cientismo do Positivismo.

Já no que diz respeito ao neopositivimo, é um pouco diferente. O neopositivimo, tal como eu, defendeu que aquilo que não é do domínio da ciência é ilusão ou produto da imaginação. Mas, em contraponto, eu sublinhei a importância da subjectividade no processo de conhecimento, ao passo que o neopositivimo baniu completamente a subjectividade da teoria do conhecimento. Portanto, não considero que quem lhe disse isso tenha totalmente razão.

Sócrates: Mas você delimitou a possibilidade do conhecimento humano numa época em que o espaço e o tempo eram considerados absolutos, ao passo que hoje, através das inferências retiradas de observações, sabemos que o espaço e o tempo tiveram um princípio com o Big Bang…

Kant: De qualquer forma, mesmo segundo os conceitos actuais de espaço e tempo, a possibilidade de conhecimento humano mantém-se limitada negativamente, em função da própria finitude do universo e, por isso, da finitude do espaço e do tempo. Se eu tivesse vivido hoje, seria ainda mais fácil defender a tese do limite negativo da possibilidade do conhecimento, porque se o próprio universo tem um limite existencial, é razoável que o ser humano esteja limitado pelos limites do próprio universo. O limite da finitude do universo é a condição da possibilidade do conhecimento finito do ser humano.

Sócrates: mas a ciência também descobriu os quanta, seja através do formalismo matemático, seja mediante experiências em laboratório. Qual é a sua opinião acerca da quântica?

Kant: Pois é: os quanta vieram baralhar a minha teoria toda, embora eu já tivesse defendido, na minha crítica da razão pura, o princípio objectivamente válido segundo o qual toda a quantidade é composta por partes e, por isso, a matemática é assim justificada como pertencendo ao domínio da experiência.

O meu erro foi considerar que o conhecimento diz respeito apenas e só a uma realidade objectiva e material. As leis da natureza que formulamos hoje, através da quântica, em relação às partículas elementares já não tratam das partículas elementares em si mesmas, mas antes do nosso conhecimento acerca das partículas elementares. Portanto, a ideia da realidade objectiva das partículas elementares desapareceu de uma maneira estranha…

Paradoxalmente, parece que Leibniz tinha alguma razão com o seu conceito de “mónada”, ou que voltamos ao tempo de Demócrito, só que desta vez essas teorias são sustentadas pelo formalismo matemático e por experiências laboratoriais que confirmam o desaparecimento da realidade objectiva das partículas elementares… confesso que estou confuso.

Sócrates: Você nunca foi “grande espingarda” em metafísica, e os quanta já entram pela metafísica adentro. Salvou-se, na sua teoria, uma lógica esplêndida, uma psicologia notável e uma ética razoável. Portanto, penso que o seu tempo de vida não foi perdido. Até depois, Kant!

Kant: Adeus, Sócrates!

Segunda-feira, 17 Junho 2013

Com a quântica, o Iluminismo chegou ao fim (2)

Em aditamento ao verbete anterior sobre este mesmo tema , constatamos que Kant reduziu a metafísica à axiomática, quando definiu a metafísica como “nada mais que uma filosofia sobre os primeiros fundamentos do nosso conhecimento” . Esta definição negava a metafísica medieval ou escolástica que possuía um cariz místico e/ou religioso, e, na maior parte dos casos, na Idade Média a metafísica apontava para uma realidade transcendente (não confundir com o conceito de “transcendental” de Kant, que era, de facto, imanente) à condição humana.

O prémio Nobel da Física, Wolfgang Pauli (*), volta ao misticismo da metafísica da Idade Média:

«O leigo pensa habitualmente que, quando diz “realidade”, fala de algo que é conhecido de forma evidente, enquanto a mim me parece que a tarefa mais importante e mais difícil do nosso tempo consiste em trabalhar na elaboração de uma nova concepção da realidade. É isto que tenho em mente quando sublinho sempre que a ciência e a religião têm de ter alguma coisa a ver uma com a outra.»

O prémio Nobel da Física, Erwin Schrödinger, parecia falar como o monge medieval Mestre Eckhart:

«O mundo observado é apenas uma aparência; na realidade, nem sequer existe. A filosofia dos Vedas tentou ilustrar este seu dogma fundamental através de várias metáforas.»

O físico alemão Hans-Peter Dürr, felizmente ainda vivo, justifica a relação estreita entre a metafísica e a religião:

«A Física e a transcendência designam apenas domínios diferentes da mesma realidade, que vão da camada mais baixa, onde ainda nos é possível objectivar completamente, até uma camada superior, na qual a visão se abre para as partes do mundo sobre as quais só se pode falar em metáforas.»

Poderia passar aqui muito mais tempo a citar físicos do século XX, como por exemplo Louis deBroglie, Max Born, Eddington, David Bohm, Fritjof Capra, Max Planck, Albert Einstein, e muitos outros, que se expressaram de uma forma tal que colocam em causa o conceito kantiano de metafísica. Werner Heisenberg afirmou o seguinte:

«A teoria quântica é um exemplo maravilhoso de que podemos ter entendido os factos com toda a clareza e, apesar disso, ao mesmo tempo, sabemos que só podemos falar sobre eles através de imagens e metáforas. Sabemos que, na religião, se trata necessariamente de uma linguagem em imagens e metáforas que podem representar precisamente aquilo que se pretende dizer. E, neste ponto, o meu conceito de verdade tem ligação com aquilo que as religiões pretendem dizer. Penso que é possível pensar muito melhor todos estes nexos desde que se entendeu a teoria quântica.»

Estamos já muito longe da noção kantiana de metafísica como “nada mais que uma filosofia sobre os primeiros fundamentos do nosso conhecimento”. Segundo estes cientistas actuais e actualizados, ciência e religião entroncam na metafísica. E, no entanto, o mundo ainda não compreendeu a importância desta nova descoberta em relação à realidade: continuamos a ter uma classe política que vive ainda no tempo do Iluminismo, uma comunidade científica que recusa reconhecer publicamente o óbvio muitas vezes por receio da política, um Direito Positivo que continua a negar a importância da lei natural na feitura das leis, partidos políticos que fazem do Positivismo o alicerce da sua ideologia, intelectuais que falam de tudo menos desta nova realidade como o diabo foge da cruz, em suma, andam as elites todas com as respectivas cabeças enfiadas na areia como avestruzes.

(segue um verbete sobre as implicações da quântica na nossa forma de pensar)

(*) citado em “Die andere Hälfte der Waherheit”, Jürgen Audretsch, Munique, 1992.

Com a quântica, o Iluminismo chegou ao fim (1)

«Toda a possibilidade cai não só quando há uma contradição intrínseca, que é o aspecto lógico da impossibilidade, mas também quando não há um material, um dado que se possa pensar.

Que exista uma possibilidade e, contudo, não haja nada real, é contraditório, dado que se não existe nada, não é dado nada que seja pensável, e existe contradição se todavia se pretende que qualquer coisa é possível.» – Emanuel Kant, in “Único Argumento Possível para a Existência de Deus” (1763)

O que é que Kant diz aqui?

Em primeiro lugar, a possibilidade de uma coisa – ou a possibilidade da existência de uma coisa – deixa de fazer sentido quando existe uma contradição intrínseca – segundo o princípio de contradição e o princípio de identidade – que anula essa possibilidade. Por exemplo, uma coisa não pode ser, e não ser, simultaneamente; ou, X não pode ser igual a X e simultaneamente diferente de X. A contradição, segundo Kant, anula a possibilidade.

Em segundo lugar, Kant diz que quando não há um material – ou seja, matéria, ou um dado deduzido da existência material – então não existe nada que seja pensável; e, por isso, o que não é pensável então não é possível. Para Kant, o real, neste contexto, é um dado que se possa pensar: e o pensamento geral do Iluminismo considerava que só se poderia pensar a matéria e os “conceitos sensíveis”. Hegel foi mais ou menos da mesma opinião de Kant (e dos outros iluministas), quando afirmou que “o real é racional, e o racional é real” : nada mais errado, se reduzirmos o “racional” ao princípio da não-contradição aplicada ao mundo do raciocínio humano.

A física quântica destruiu, sem dó nem piedade, o Iluminismo. O Iluminismo – e todo o seu legado cultural até aos nossos dias – está totalmente roto, mas muita gente ainda não se deu conta disso (incluindo a maçonaria).

Ao contrário do que Kant afirmou, a nível quântico, é a contradição intrínseca que permite a possibilidade, ou melhor, é um facto que a contradição intrínseca não só não anula a possibilidade, como é a condição da própria possibilidadenão se trata aqui da contradição extrínseca, ou entre duas entidades (por exemplo, a contradição entre tese e antítese, à moda hegeliana) mas da contradição intrínseca a uma mesma e só entidade.

A nível quântico, a complementaridade do “vector de estado” (ou “função de onda”) é, em si mesma contraditória, porque as partículas elementares aparecem alternada ou simultaneamente (estado misto) em dois estados distintos: ou são partículas/corpúsculos, e portanto têm massa e são propriamente matéria, e/ou aparecem em modo de ondas que não têm massa, e por isso não podem ser consideradas matéria.

E é da própria natureza contraditória da função de onda quântica (ou vector de estado) que surge a possibilidade, não só da ocorrência de eventos, mas também a possibilidade da própria existência da Forma das coisas que, através da força entrópica da gravidade, permitem, por assim dizer, à “matéria organizada”.

A quântica demonstrou que o real não é só o material, porque se assim fosse a onda quântica não seria real. Acontece que a onda quântica, embora não tendo massa, é tão real quanto a partícula que tem massa. Portanto, uma coisa não deixa de ser real por não ser matéria propriamente dita.

Kant – à semelhança de quase todos os iluministas, com poucas excepções como por exemplo Leibniz ou Lambert – reduziu a realidade ao empirismo da condição humana, ou seja, mutilou a visão humana acerca da realidade, fazendo com que os princípios da lógica que regem a vida quotidiana do ser humano – que é apenas uma parte da realidade – se aplicassem à realidade inteira. Seria como se alguém pusesse uns antolhos em cada ser humano, como se faz com os burros.

Naturalmente que segundo a concepção kantiana do mundo, Deus não tem um lugar objectivo (sublinho, para evitar protestos: objectivo). Mas, segundo essa mesma mundividência iluminista, a onda quântica também não tem um lugar objectivo na realidade. E a contradição lógica (porque a onda quântica é uma coisa, e simultaneamente não é essa mesma coisa) intrínseca da função de onda quântica é para Kant, e para o Iluminismo em geral, uma impossibilidade objectiva.

A conclusão que retiramos da autêntica destruição substantiva do Iluminismo pela quântica é a de que não devemos limitar ou reduzir o conceito de realidade a uma noção de realidade. E por isso não podemos afirmar peremptoriamente – como afirmam os positivistas, por exemplo – que um conceito não pode ser absoluto. A possibilidade de um conceito poder ser absoluto está sempre em aberto, desde que não usemos antolhos.

(este verbete segue noutro)

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