perspectivas

Sexta-feira, 2 Setembro 2011

Leibniz e o bêbedo de Locke (salvo seja)

Em termos de metafísica (e também da ética), a história depois de Jesus Cristo e até ao fim da Idade Clássica, resume-se em três nomes: Santo Agostinho, S. Tomás de Aquino, e Leibniz.

Estes três são diferentes entre si mas complementam-se. E depois temos uma segunda linha de pensadores, como por exemplo Anselmo de Aosta, uma parte de Pascal, o próprio Locke na sua primeira fase, Erasmo, Nicolau de Cusa, e poucos mais.
Ao entramos pela Idade Moderna adentro, a coisa complica-se, e até ao século XX só Kant se salva (parcialmente). A partir do século XX surgiram alguns pensadores metafísicos de relevo, como por exemplo Schiller, Husserl, Karl Jaspers, Louis Lavelle, e pouco mais do que isto.


No seu “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, Locke invoca o exemplo do bêbedo que se alcooliza ainda que saiba que coloca em risco a sua saúde: o bêbedo não pode parar de beber em função da prevalência do desejo sobre o entendimento (o juízo). A partir deste exemplo, Locke generaliza: “aquilo que leva a vontade a agir não é o maior bem, como se supõe vulgarmente, mas antes uma inquietação presente (desejo) e, regra geral, a que é mais premente. Podemos dar-lhe o nome de desejo, que é efectivamente uma inquietação do espírito”.

A posição de Locke é pessimista: o homem verga-se perante o desejo e não há razão que o valha. Este pessimismo foi posteriormente seguido por Hume, pelos utilitaristas ingleses, e até pelo neoliberalismo de Hayek.

Leibniz retoma o exemplo do bêbedo de Locke e aplica-lhe a fórmula de S. Tomás de Aquino (que por sua vez já vinha de Santo Agostinho, nas “Confissões”):

DESEJO → VONTADE → JUÍZO → LIBERDADE

Segundo Leibniz — cuja ética não é normativa, mas sim prescritiva —, o que prejudica o bêbedo de Locke “não é a inquietação, que nem sempre é desprazer, mas muitas vezes uma percepção sensível em que se torna difícil distinguir o que faz pender mais para um lado do que para outro”. Ou seja, é a escolha (o juízo, ou o entendimento) do objecto de desejo em si mesmo que se torna importante (os fins últimos de Aristóteles), e não a simples procura, em si mesma — muitas vezes, infindável —, do objecto do desejo (os fins próximos, como defendiam Locke e Hobbes, sendo que este último inverteu a ética aristotélica).

Leibniz dá o exemplo do frade jesuíta que gostava da “pinga”, e que por isso acrescentava, todos os dias, um pingo de cera na sua taça por onde bebia o vinho. E à medida que os dias passavam, a cera acumulava-se na taça e, assim, a quantidade de vinho ia sendo cada vez menor. Para Leibniz, a experiência atesta a possibilidade de deslocar o objecto de desejo negativo ou prejudicial, para um outro objecto mais sublime e aliciante.

Se escolhemos muitas vezes o pior, “é porque pressentimos o bem nele contido”, sem sentirmos o mal que esconde: o problema moral é uma questão de condução ou orientação do desejo, através da qual as energias do desejo são transferidas para um objecto bom ou para uma boa representação do divino.

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