perspectivas

Segunda-feira, 29 Dezembro 2014

O conceito absurdo de “crime público”

O João Miranda escreve aqui um verbete com que estou de acordo embora por razões diferentes das dele. Ou melhor: estou de acordo com o João Miranda em relação a determinados princípios, embora não esteja de acordo com a teoria que o João Miranda desenvolve a partir desses princípios.

Por exemplo: ¿o que é “crime público”?

Se existe o conceito de “crime público”, é porque existe, em contraposição, o “crime privado”. E parece que, a existir o “crime privado”, este não é tratado como “crime público”. Ora, o crime é sempre público, ou então não é crime. “Crime público” é uma redundância!, um pleonasmo. É como “subir para cima” ou “descer para baixo”. Só podem coexistir “crime público” e “crime privado” se a Lei for esquizofrénica.

Qualquer crime propriamente dito pode ser denunciado por qualquer pessoa — não seria necessário que se criasse uma tautologia jurídica para esse efeito. Só não denuncia um crime, de que tenha conhecimento, quem não o quer denunciar: é uma questão cultural, e não propriamente jurídica.

Os legisladores — os políticos — pensam que podem mudar a cultura antropológica através da manipulação absurda da linguagem. Desejo-lhes muito sucesso!

Por outro  lado, estou de acordo com o João Miranda quando ele diz (por outras palavras) que a lei deve ser abstracta e universal, e que os factos não criam normas (embora as normas possam criar factos) — seguindo, aliás, o princípio da negação da falácia naturalista.

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Domingo, 7 Dezembro 2014

O João Miranda defende uma igualdade cínica

Filed under: bovinotecnia — O. Braga @ 8:41 pm
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O João Miranda tem, em relação à igualdade, uma relação esquizofrénica: normalmente acha que as pessoas não são todas iguais — e eu concordo! —, mas por vezes defende a ideia marxista de igualdade de meios e condições de existência.

“O governo introduziu um quociente familiar para determinação do rendimento colectável no calculo do IRS. Se bem percebi o rendimento de um casal passa a dividir por 2+0.3N em que N é o número de filhos. Num sistema de impostos progressivos, o resultado desta alteração é o aumento de transferências de quem não tem filhos para quem os tem. O que implica um agravamento das perversões causadas pela progressividade.”

mijando no copoOu seja, o governo de Passos Coelho — honra lhe seja feita! — passou a considerar que uma criança, que é um ser humano, vale 30% do valor de um adulto. E o João Miranda acha que é muito, que uma criança inserida no contexto familiar deveria valer zero em matéria de impostos.

Ou seja, o João Miranda considera que quando o governo atribui o valor de 30% de humanidade a uma criança está a conceder um privilégio à sua família — e não um direito.

Para o João Miranda, a igualdade perante a lei exigiria que a criança valesse zero em termos de dedução nos impostos. O conceito de “igualdade liberal” já é, neste caso, inconveniente para o João Miranda — porque a igualdade de direitos, segundo o liberalismo, não significa que todos tenham o mesmo poder ou as mesmas características, mas antes que têm uma dignidade igual. E retirar qualquer valor a uma criança é retirar a dignidade a um ser humano, independentemente de este pode pagar impostos, ou não.

O conceito de “igualdade” do João Miranda parece-me mais do tipo marxista, embora virado do avesso. Há ali um marxista apóstata!. É uma igualdade social ou de condições, uma espécie de igualitarismo marxista enviesado e do reviralho.

Ainda vou ver o João Miranda defender a eutanásia para os outros — porque, para ele, nunca!: pimenta no cu dos outros é chupa-chupa! — em nome da necessidade de limitar as transferências de fundos públicos de uns para outros.

Ou, como dizia o poeta Óscar Wilde: “O cínico é aquele que conhece o preço de tudo, mas não sabe o valor de nada”.

Sábado, 20 Setembro 2014

O João Miranda e a Raquel Varela

Filed under: bovinotecnia — O. Braga @ 8:24 pm
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Perante uma mundividência absurda sobre a realidade, o João Miranda argumenta com cinismo. Face ao absurdo, só o cinismo faz algum sentido. Eu não simpatizo com Karl Marx, mas ele tinha razão quando dizia que pessoas como o João Miranda têm uma “moral de merceeiro”.

Não passa pela cabeça do João Miranda que terá havido outras razões, para além das razões de contabilidade de mercearia, para que escoceses votassem sim ou não à independência da Escócia.

A única diferença entre o João Miranda e, por exemplo, a Raquel Varela, é a concepção que os dois têm do Estado; de resto, são iguaizinhos: reduzem toda a realidade à economia. O João Miranda é uma espécie de “comunista do reviralho”.

Tanto um como a outra vêem a realidade de uma forma determinista (mas em nome da “liberdade” !) — uma vez que (toda) a realidade é determinada absolutamente pela economia. O futuro está determinado; não existe escapatória para os “amanhãs que cantam”, de um lado e doutro. Ambos defendem o fim da História, cada um à sua maneira. O futuro é uma certeza e o passado é uma incerteza; a moral é invertida em nome desse determinismo. O João Miranda e a Raquel Varela fazem parte do mesmo problema, e não são solução para nada.

Sexta-feira, 4 Julho 2014

O João Miranda, a liberdade e a opressão da mulher

 

O João Miranda concebe a sua subjectividade como um facto objectivo e científico; e depois diz que “a objectividade dos outros é subjectiva”.

duas faces da mesma moeda web

Vamos ver o que conseguimos “tirar” deste texto do João Miranda — porque o discurso dele é sinuoso, uma espécie de lengalenga que mistura propositadamente alhos com bugalhos no sentido de parecer original.

Talvez por que o João Miranda não se importaria de ver gajas nuas a andar na rua, também não vê problema em ver gajas tapadas com Burka. Para ele, uma gaja nua na rua é “expressão de liberdade”. Não lhe passa pela cabeça que uma gaja nua na rua seja oprimida: pelo contrário, ela anda nua na rua porque é livre! A liberdade, segundo o João Miranda, tem destas coisas: tanto pode dar para se andar nua como com Burka.

Ou, se interpretarmos o texto do João Miranda de outra maneira: a mulher muçulmana que usa Burka, sendo oprimida, fica entregue à sua sorte no seu ambiente privado e familiar, para gáudio da maioria da população que “fica satisfeita com ela própria” por não ver mulheres com Burka na rua. As mulheres que usam Burka — segundo o João Miranda — “são empurradas para um gueto”.

Nesta segunda interpretação — e em contraposição à primeira que se baseia na “liberdade” — é falta de liberdade (opressão) da mulher que é colocada em equação. Com os textos do João Miranda temos sempre que analisar a “coisa” e o seu contrário.

Se seguirmos o raciocínio do João Miranda, e se o levarmos até às últimas consequências, a proibição da excisão feminina conduz as mulheres muçulmanas para um gueto — para gáudio da maioria da população que “fica satisfeita com ela própria” por saber que não existem mulheres com o clitóris amputado.

Sexta-feira, 8 Novembro 2013

A narrativa bovinotécnica do João Miranda

 

A economia não pode ser vista em termos de “keynesianos” contra os “não-keynesianos”, e vice versa. A economia não é razão especulativa ou abstracta: a economia é um fenómeno real da actividade humana que envolve pessoas reais, de carne e osso. As doutrinas económicas, sejam quais forem, têm todas a sua importância relativa, mas não deixam de ser, todas elas, apenas doutrinas e nada mais do que isso.

Tudo o que é objectivo é composto por factos, e os factos estão interligados entre si (nexo causal). Por exemplo, é um facto que a economia portuguesa enfraqueceu com a entrada no Euro: aquilo que parece ser um aumento do PIB (depois da entrada no Euro) é apenas um inflacionamento dos números decorrente da entrada do país em um sistema com uma moeda forte, por um lado, e por outro lado, resultado do endividamento sistémico do Estado. E a economia portuguesa enfraqueceu porque a indústria de mão-de-obra intensiva, que predominava na década de 1990, quase desapareceu e não foi substituída por outro tipo de indústria com alta produtividade — e daí o Estado português ter-se endividado, ano após ano na década de 2000, para assim evitar uma recessão económica que causaria escândalo entre os portugueses.

Ou seja, o endividamento do Estado português foi a “muleta” de uma opção política e monetária que consistiu em adiar a resolução dos problemas reais da economia portuguesa para as calendas (“empurrar para a frente, com a barriga”).

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Terça-feira, 27 Agosto 2013

A burrice do João Miranda

O João Miranda é um case study de burrice blogosférica:

«Os mesmos que criticavam António Borges por defender descidas de salários defendiam a descida do valor do dinheiro, isto é, saídas do euro, baixa do juros do BCE e desvalorização do euro.

O ódio a António Borges era apenas uma manifestação de ignorância. Nunca perceberam o que ele dizia para o poderem odiar com conhecimento de causa.»

Para o João Miranda, existe uma relação directamente proporcional entre salários, por um lado, e câmbio monetário, por outro lado. Isto é de uma burrice de todo o tamanho! E mais burro é o João Miranda quando, na sequência do seu raciocínio asnal, chama os outros de “ignorantes”: é de uma burrice elevada ao quadrado.

Numa economia, não conta apenas o câmbio da moeda, mas também o nível de preços. E, como em todas as coisas, uma economia vale aquilo que dão por ela. Manter uma economia sob o signo de uma moeda forte e a todo o custo, é tão dogmático como foi dogmática a política económica de planificação soviética.

Domingo, 14 Setembro 2008

A ética do desejo

O João Miranda parte de uma premissa errada:

Tanto os progressistas como os conservadores continuam a acreditar que o casamento é necessário.

Alguém acredita que os progressistas (libertários de direita e de esquerda, isto é, neoliberais e ala esquerda do PS e Bloco de Esquerda) acreditam que “o casamento é necessário”? O João Miranda está a tentar enganar quem? Então o casamento não é necessário para mim (que sou “progressista” e “libertário”) e já é para os outros (a escumalha)?

E depois passa ao “casamento” à la carte:

As regras do casamento e do divórcio devem ser decididas pelos noivos no dia do casamento e não pelo Estado quando o partido do Governo sente necessidade de impor os seus valores à sociedade. Uma pluralidade de valores exige uma pluralidade de contratos de casamento.

Em nome da “pluralidade” vai-se destruindo a unicidade e universalidade ética absolutamente necessárias a uma sociedade; o homenzinho ou é ignorante ou malicioso. Gente desta é perigosa porque em nome da “liberdade” vão legitimando a “ética do desejo” : segundo eles, ética não é mais do que a súmula dos desejos das pessoas que constituem a sociedade ― é a mesma ética que legitimou o nazismo e o comunismo na fase de instalação dos regimes. Se o desejo do cidadão for esdrúxulo e ilegal, há que criar leis que normalizem ética e legalmente a excentricidade do desejo, “desde que não viole o resto da lei” (corrupção progressiva, paulatina e indolor da legalidade ética), e assim se vão mudando as leis rumo à particularização infinitesimal da ética, por forma a acomodar todas as tendências na sociedade, sejam elas as mais aberrantes; e com o desenrolar do processo de involução ético-cultural, acaba-se por se mudarem as leis para que o desejo de uma “minoria activa” se sobreponha a uma “maioria indiferente”, e por mais monstruoso que seja esse “desejo” pretensamente “libertário”, passa a ser legal em nome da “liberdade”.
Esta é “a inversão revolucionária do sujeito e do objecto”: utiliza-se a lógica para inverter os seus valores e premissas, é a lógica ética e legal do partido holandês que defende a legalização da pedofilia. É o utilitarismo levado ao um grau de cinismo tal que se torna execrável.

Por causa do acumular de gente desta é que o país chegou onde chegou. E enquanto esta gente tiver tribuna privilegiada, a coisa tende a piorar.


Adenda: a contradição do João Miranda é notória: aqui já não defende o casamento à la carte. É confome os dias, ou conforme dá jeito; “uma no cravo, outra na ferradura”; ora implicitamente a favor do Bloco negando-o explicitamente, ora explicitamente contra o Bloco contemporizando implicitamente: o melhor é alistar-se de vez — as relações de “amor/ódio” também dão em casamento.

Actualização: sobre a tolerância libertária que acomoda tudo e todos, ler isto (via).

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