perspectivas

Terça-feira, 19 Março 2013

O governo “conservador” inglês pretende “regular” a liberdade de expressão dos blogues

Filed under: cultura — O. Braga @ 12:47 pm
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O governo (anti) conservador de David Cameron, através da sua maioria no parlamento britânico, criou uma Entidade Reguladora da liberdade de expressão na Internet. Segundo o jornal inglês The Guardian, os blogues britânicos que não se inscreverem na Entidade Reguladora britânica serão fortemente penalizados com coimas.

Longe vão os tempos da Inglaterra como modelo político do mundo livre e iluminista. A Inglaterra entra hoje, cada vez mais, no obscurantismo do nepotismo político.

Terça-feira, 5 Março 2013

O partido “conservador” inglês prepara saída da Convenção Europeia dos Direitos Humanos

David Cameron está a perder base social de apoio com a história da imposição do “casamento” gay (imposto pelo Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos”) contra a esmagadora maioria da opinião do povo inglês; e depois de uma derrota estrondosa numa eleição local — e com a vitória do partido de Nigel Farage, o UKIP (United Kingdom Independent Party) — , dois ministros “conservadores” preparam uma reforma legislativa que pretende retirar a Inglaterra da influência política do Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos”.

A imprensa britânica exulta, mas falta saber se a notícia é mais um “bluff” de David Cameron que, à semelhança por exemplo de José Sócrates, é um mestre em prestidigitação política. A ser verdade a intenção dos conservadores em sair da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, a própria iniciativa de David Cameron de impor o “casamento” gay ao povo pode estar comprometida.

“Les tabloïds exultent. Le Daily Mail évoque un «triomphe» et «un grand jour pour la justice britannique» ; le Daily Express salue d’avance l’abolition d’une législation «honnie» sur les droits de l’homme. Deux ministres conservateurs de David Cameron se sont engagés dans la voie d’un retrait de la Convention européenne des droits de l’homme, retranscrite dans le droit local par une loi de 1998. Chris Grayling, le ministre de la Justice, a assuré qu’un gouvernement conservateur issu des urnes en 2015 reviendrait sur cette loi. La ministre de l’Intérieur, Theresa May, préparerait, pour sa part, l’introduction de cette réforme dans le programme tory pour 2015.”

via Le Figaro – International : La surenchère antieuropéenne de Londres.

Roger Scruton e a análise do partido conservador inglês

O filósofo inglês Roger Scruton escreve aqui um artigo acerca da tentativa dos conservadores ingleses em reformar o partido conservador, alegadamente para “resolver um problema de imagem em relação ao público pós-moderno”, e “acompanhar a mudança social”. No fundo, o que Roger Scruton critica é a tentativa de transformar o partido conservador inglês em um partido de esquerda, tornando a política inglesa num feudo do pensamento único esquerdista e politicamente correcto.

roger scruton daguerre webOs ideólogos da reforma do partido conservador inglês — tal como acontece aqui com os “submarinos” no CDS/PP de Paulo Portas — colocam a religião de parte e subestimam a soberania do país, ou seja, seguem à letra dois princípios fundamentais da acção política de esquerda. Na cultura antropológica, os “conservadores” ingleses seguem a estratégia política de fractura social, por exemplo, com o apoio ao “casamento” gay. Ou seja, as diferenças fundamentais e tradicionais entre o partido conservador e o partido trabalhista esbatem-se, abrindo espaço político para uma maior radicalização da esquerda inglesa.

Contra a postura dos reformadores do partido conservador, como é o caso, por exemplo, de David Cameron, Roger Scruton identifica o conceito de “modernização” com o conceito de “presentismo”; “modernização”, segundo a cultura intelectual actual, parece significar a eliminação da História e do passado histórico. E se o partido conservador se moderniza segundo este conceito, perderá o seu apoio social e será extinto.

Por outro lado, Scruton constata que o partido conservador não soube lidar com a retórica da igualdade, que caracteriza a esquerda. A retórica da igualdade não tem nada a ver com a verdade na política, mas apenas com sofismas, com a manipulação emocional e com o populismo de esquerda. A retórica da igualdade é a premissa de todo e de qualquer argumento da esquerda. O argumento da igualdade transformou-se na condição de qualquer proposição política de esquerda, a que se juntou a retórica esquerdista da liberdade — sendo que as duas retóricas esquerdistas, a da igualdade e da liberdade, são contraditórias, porque a partir do momento em que a liberdade é efectiva, esta entra em conflito invariavelmente com a igualdade.

A actual retórica política de esquerda é — nas palavras de Scruton — “simples, persuasiva e falsa”: é a prevalência cultural da doxa que Platão denunciou nos sofistas gregos, em detrimento do episteme da teoria do conhecimento que “já não consegue silenciar os gritos da retórica esquerdista do igualitarismo a qualquer custo”. A falácia esquerdista da “soma-zero”, que diz que a razão por que alguns são ricos é porque outros são pobres, já não pode ser destruída pelas teorias económicas da escola austríaca. A retórica sentimental esquerdista e simplista da “compaixão” destrói e corrói o conceito de justiça da lei comum, segundo Burke, e corrompe a defesa de Hegel em relação à família natural e às corporações da sociedade civil. A batalha política actual trava-se entre o sentimento da esquerda e a razão da direita.

Na medida em que modernização se identifica com presentismo, a retórica de esquerda incute no cidadão comum a ideia de Carpe Diem: “o que interessa é viver o dia de hoje, porque amanhã estaremos todos mortos”. Modernizar significa esquecer o passado e ignorar o futuro. “Nenhum de nós pagará pela desbunda dos empréstimos e gastos do Estado e pelos desregramentos na economia, e portanto, vamos gozar o presente porque a morte é certa. E quem vier atrás de nós que feche a porta.” Perante esta retórica esquerdista — diz Scruton —, os conservadores perderam a batalha, porque não têm nenhum argumento, que seja popular, contra ela. Na medida em que a retórica se relaciona com as aparências (doxa) e não com a verdade (episteme), qualquer argumento que contrarie a lógica “carpe Diem” epicurista da esquerda, está condenado ao fracasso.

Em nome da igualdade esquerdista, uma geração inteira de jovens ingleses vulgariza-se e perde qualidade. A modernização identificada com o presentismo e com a retórica carpe Diem, reduziu o nível de poupança das famílias inglesas a quase zero e o aumentou astronomicamente o nível de endividamento das famílias. Há 25 anos, as três profissões mais desejadas pelos jovens ingleses eram as de professor, economista e médico; hoje, as três profissões mais desejadas pelos jovens ingleses são as de futebolista, estrela rock e actor de telenovela. A decadência actual da sociedade inglesa não é uma mera “teoria da conspiração da direita”: antes, baseia-se em factos culturais concretos e em indicadores económicos objectivos e científicos.

Associada à retórica política populista de esquerda, está a desconstrução esquerdista de um ideal de sociedade e da sua ordem, e que dividiu o povo para poder reinar. A História inglesa foi desconstruída e passou a ser uma razão para se ter vergonha de ser inglês. Conclui Scruton que o conservadorismo inglês actual está morto. E concluo eu — e não Scruton — que a Europa, e não só a Inglaterra, está numa encruzilhada entre dois tipos de regimes políticos: ou um totalitarismo europeísta à esquerda que se agiganta a nossos olhos, ou um autoritarismo nacionalista à direita que seja um obstáculo seguro a esse totalitarismo.

Sexta-feira, 8 Fevereiro 2013

Efeitos da privatização progressiva do sistema de serviços de saúde em Inglaterra

Filed under: ética,economia,religiões políticas — O. Braga @ 3:40 am
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« Then the media asks “Will people start to lose their trust in the NHS?” Well, they already did, a long time ago. The latest furore is about patients in Stafford Hospital, whose quest for acceptance as a Foundation Hospital saw it pay more attention to funding than to patient care.

The alert was raised when a man went in for a routine colonoscopy, had his bowel perforated and died within hours in agony. The hospital did not accept that its duty had been breached.

Between 2005 and 2008, up to 1,200 patients died at this hospital, unnecessarily according to some reports. These are not total deaths, they are the number of deaths which should have been avoided. »

via British Health: From Nightingale to Nightmare – English pravda.ru.

O velho Aristóteles escreveu, na “Ética a Eudemo”, que “a ciência e o dinheiro não têm uma unidade comum de medida”; no tempo dele não havia hospitais, mas se os houvesse, possivelmente diria também que os cuidados de saúde e o dinheiro não têm uma unidade comum de medida.

A Inglaterra é pioneira das PPP (Parcerias Público-privadas) na área da saúde e hospitais. Para além disso, diversa legislação inglesa criou, ao longo das últimas duas décadas, um sistema de saúde para pobres — de que faz parte o Stafford Hospital onde ocorreram milhares de mortes por incúria, desde 2005 — e um outro sistema de saúde para ricos, pago a peso de ouro pelos utentes que podem pagar.

Entretanto, o governo não-conservador de David Cameron prepara a total privatização do serviço de saúde inglês. Se, com duas classes diferenciadas de sistemas de saúde, a situação em Inglaterra é má, imaginem agora um único sistema de saúde que tenha “o dinheiro como medida”.

Quarta-feira, 23 Janeiro 2013

O “casamento” gay põe fim à monarquia inglesa

paul flynn web“A child of a ‘royal gay marriage’ should be an heir to the throne, even if the child is not genetically connected to the royal line, an MP says.

Labour MP Paul Flynn wanted to change the Succession to the Crown Bill so that an adopted child or one conceived using insemination would become monarch.

Mr Flynn told The Sunday Times: “The amendment is to future-proof the legislation to ensure that every conceivable situation is catered for.”

via MP wants child of ‘royal gay marriage’ to get crown | News | The Christian Institute.

O deputado trabalhista inglês Paul Flynn declarou em uma entrevista ao Sunday Times que o regime multissecular de sucessão da coroa britânica terá que ser alterado, por via da legalização do “casamento” gay.

Assim, a criança de um “casamento gay real” (sic) deverá herdar o trono inglês, mesmo que essa criança não seja geneticamente ligada à linha real sucessória: poderá ser adoptada ou gerada por procriação medicamente assistida.

Está à vista o que a maçonaria pretende sem o confessar aos ingleses: acabar com a monarquia em Inglaterra.

Quarta-feira, 9 Janeiro 2013

A maçonaria francesa, os não conservadores ingleses, e o casamento anfíbio

Um anfíbio é um animal vertebrado cuja fêmea põe ovos que são posteriormente e exteriormente fertilizados pelo macho. É o caso, por exemplo, do sapo; ou da sapatão. Ora, o ser humano, por sua própria natureza, não é anfíbio; mas hoje é politicamente correcto dizer que é.

casamento anfíbio webAtravés do ministro maçon Manuel Valls, o governo socialista francês de François Hollande, totalmente controlado pela maçonaria jacobina como não havia memória desde a I Guerra Mundial, criou um organismo a que deu o nome de Observatório Nacional do Secularismo, que alegadamente tem a função de reprimir a livre expressão das religiões na praça pública.

E o ministro da educação do governo francês Vincent Peillon, também ele maçon inveterado, tenta agora impôr a rei da rolha nas 8.300 escolas católicas francesas acerca da discussão do casamento anfíbio, ou seja, a maçonaria jacobina francesa, através do próprio governo francês, proíbe a discussão pública do casamento anfíbio, transformando o ministro da educação num comissário político.

Entretanto, em Inglaterra, uma lista assinada por de cerca de 700.000 cidadãos a favor do casamento humano — e por isso, contra o casamento anfíbio — e apresentada no parlamento inglês está a ser totalmente ignorada pelo não-conservador David Cameron(também ele obrigado à maçonaria inglesa), para além de que uma esmagadora maioria dos deputados Tories estarem contra o seu próprio líder.

Quem se mete com maçonaria, leva! A maçonaria é a própria democracia.

Domingo, 9 Dezembro 2012

Desperdício de vinho do Porto

Estudantes da universidade inglesa de Durham publicaram um vídeo no Youtube em que aparecem a despejar garrafas de vinho do Porto pela cabeça abaixo.

A este exercício cultural de protesto, os estudantes chamam de “Porting” — em contraponto a outro exercício cultural de protesto também publicado em vídeo pelos estudantes da universidade de Newcastle que consiste em despejar uma garrafa de leite pela cabeça abaixo e com o nome de “Milking”.

Os estudantes de Durham justificam o Porting em vez do Milking alegadamente devido à alergia à lactose. É desta gente que sairá a futura elite de Inglaterra — e da Europa.

porting

http://youtu.be/mOtK_kTx6d4

( via )

Sábado, 8 Dezembro 2012

Governo “conservador” inglês pretende obrigar a Igreja Católica a “casar” fanchonos

«The Government has turned back on its promise not to allow same-sex marriages in church.»

via Govt goes back on word over gay marriage in church | News | The Christian Institute.

casamento sixties webSegundo um áudio da BBC (Bolshevik Broadcasting Corporation) que pode ser escutado na ligação supracitada, o governo “conservador” — “conservador de tipo Adolfo Mesquita Nunes” — de David Cameron deu o dito pelo não dito: primeiro, tinha dito que as confissões religiosas não seriam obrigadas a celebrar “casamentos” entre duas avantesmas nos seus respectivos templos ou igrejas. Mas agora, o governo “conservador” britânico mudou de opinião e já diz que vai apoiar — jurídica e financeiramente — as confissões religiosas que realizem “casamentos” entre pares nas suas igrejas, o que significa que o governo britânico não vai apoiar jurídica e financeiramente as confissões religiosas que não o façam (discriminação de tratamento ou “tolerância repressiva” segundo Marcuse).

A linguagem de David Cameron, que pode ser ouvida no áudio, é perfeitamente orwelliana quando diz o seguinte:

«Por ser absolutamente a favor do casamento, é que eu sou a favor do “casamento” gay.»

Esta proposição é contraditória, ou seja, induz em “pensamento duplo”, porque não é razoável definir o casamento apenas como uma espécie de amizade permitida pela polícia. O casamento é, por sua própria natureza, heterossexuado, e não heterossexual e/ou homossexual. O termo “casamento heterossexual” é tautológico, e o termo “casamento homossexual” é absurdo. O casamento é heterossexuado.

Portanto, não é possível ser a favor do casamento e simultaneamente ser a favor do “casamento” gay — e a prova empírica disto é que nas sociedades em que o “casamento” gay foi legalizado, o casamento (heterossexuado) vai deixando de fazer parte da cultura antropológica (por exemplo, em Portugal).

Nos cidadãos ingleses mais inteligentes, a linguagem orwelliana de David Cameron do “pensamento duplo” induz uma dissonância cognitiva, que pode conduzir, a prazo, a uma revolta (“o retorno do pêndulo histórico à sua posição natural”), ou pode conduzir a um baixar-de-braços do povo que permita uma instauração paulatina de um novo tipo de totalitarismo.

Das duas, uma: ou David Cameron é estúpido ou é um indivíduo imbuído de um espírito totalitário.

Adenda: A ler, sobre este assunto: Gay marriage given the green light for weddings in churches

Sexta-feira, 23 Novembro 2012

Sinais dos tempos…

Filed under: A vida custa,cultura,Esta gente vota,Tirem-me deste filme — O. Braga @ 8:25 pm
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Police cordoned off the section of road in the heart of Westminster after the man mounted the equestrian statue earlier today.

The unnamed man was spotted waving his arms and striking up various positions on the statue, which is a life size memorial to Prince George, the first Duke of Cambridge.

via Whitehall closed off after naked man mounts statue of Duke of Cambridge – Telegraph.

Domingo, 18 Novembro 2012

Professores primários ingleses que não promovam o “casamento” gay nas escolas serão despedidos

«Primary school teachers could face the sack for refusing to promote gay marriage once same-sex unions become law, a minister has signalled.»

via Primary school teachers 'could face sack' for refusing to promote gay marriage – Telegraph.

Não chega legalizar: há que promover e celebrar!

Quarta-feira, 14 Novembro 2012

O governo “conservador” inglês vai eliminar os capelães militares

«Military chaplains who do not support same-sex marriage could be dismissed under Government plans, a former Defence Minister has warned.

Sir Gerald Howarth, who served as a Defence Minister until September this year, made his concerns known in a letter to Defence Secretary Philip Hammond.

Sir Gerald cautioned that a chaplain who was also a Church of England minister could be “disciplined or dismissed” for preaching in support of traditional marriage.»

via Military chaplains threatened by bid to redefine marriage | News | The Christian Institute.

Os capelães militares do exército britânico que não apoiem o “casamento” gay, ou que mencionem, nas homilias, partes da Bíblia de crítica ao comportamento homossexual, ou que defendam nas homilias o princípio do casamento natural entre uma mulher e um homem — irão ser dispensados do serviço de capelania pelo governo “conservador” britânico.

Isto significa, na prática, que o serviço religioso de capelania militar irá ser abolido no Reino Unido pelo governo “conservador” de David Cameron — porque é impossível a um sacerdote não ser um sacerdote: trata-se de uma impossibilidade objectiva, uma negação do princípio de identidade (A = A), tal como acontece com a negação do princípio de identidade implícita nos relacionamentos homossexuais.

Quinta-feira, 6 Setembro 2012

O Estado-de-polícia (2)

Vimos no último verbete como o Estado-de-polícia surgiu na Alemanha do século XVII, no seguimento do movimento político europeu dos teóricos da Razão de Estado do século XVI protagonizado, nomeadamente, por Jean Bodin, em oposição à tese franciscana, dos séculos anteriores, do poder absoluto do Papa. O absolutismo político do soberano, que se desenvolveu plenamente em França — e em Inglaterra até ao terceiro quartel do século XVII [até à revolução inglesa que destituiu Cromwell] — , surgiu em oposição à tese franciscana medieval do poder absoluto do Papa.

O intenção deste verbete é tentar fazer uma analogia — e não uma comparação! — entre o Estado-de-polícia alemão dos século XVII e século XVIII, com o que se passa hoje em Inglaterra.

O Camaralismo alemão, entendido como o desenvolvimento natural da teoria da Razão de Estado de Bodin, por um lado, e da sua adequação às características luteranas da Alemanha mediante a construção do conceito de Estado-de-polícia ou Wohlfahrtsstaat, por outro lado, é o prelúdio do que chamamos hoje de “Estado burocrático” que, apenas aparentemente, se opõe ao Estado de Direito liberal. Esta oposição entre o Estado-de-polícia e o Estado de Direito liberal é apenas aparente porque, em última análise, o desenvolvimento e evolução natural do Estado de Direito liberal parece descambar regularmente em um qualquer Estado-de-polícia, ou mesmo num totalitarismo [Alemanha, 1933].

A evolução do Camaralismo alemão e do Wohlfahrtsstaat é complexa, e não cabe aqui desenvolver o tema. Basta dizer que existiram duas teses ou teorias principais: a primeira, protagonizada pelo teórico camaralista Ludwig von Seckendorf (1626 – 1692), e a segunda pelo polémico teórico político austríaco Johann Heinrich Gottlob von Justi (1720 – 1771). que elevou o Camaralismo clássico segundo Seckendorf, a uma metafísica política.

O Estado-de-polícia pode ser resumido nos três seguintes conceitos de Christian Wolff: securitas, tranquilitas et sufficientia vitae. A securitas é a segurança em relação ao exterior; a tranquilitas é a segurança interior do Estado, e a sufficientia vitae é a imposição coerciva estatal do modelo de felicidade e do modo de vida dos súbditos.

Num Estado-de-polícia não existe propriamente uma religião de Estado: antes, o Estado é a própria religião.

Quando um país tem uma religião de Estado (por exemplo, o estatuto actual da Igreja Católica em Itália), a religião coexiste com o Estado mas aquela não se confunde com este. No Estado-de-polícia — como aconteceu na Alemanha da Wohlfahrtsstaat — o próprio Estado é constituído como uma religião imanente à sociedade, e de tal forma que, no seu ensaio Ideen zu einem Versuch, die Gränzen der Wirksamkeit des Staats zu bestimmen, o filósofo prussiano Wilhelm Humboldt (1767 – 1835) recusou radicalmente qualquer pretensão do poder público a intervir no sentido do “bem positivo” dos súbditos — nos âmbitos da saúde, da riqueza, educação, moralidade, assistência, etc.. E Kant já tinha anteriormente escrito no seu ensaio Teoria e Prática (1793):

“Um governo que fosse fundado sobre o princípio da benevolência para com o povo — tal o do pai para com os seus filhos, quer dizer, um governo paternal —, onde, por consequência, os sujeitos, tais filhos menores, incapazes de decidir acerca do que lhes é verdadeiramente útil ou nocivo, são obrigados a comportar-se de um modo unicamente passivo, a fim de esperar, apenas do juízo do chefe do Estado, a maneira como devem ser felizes, e unicamente da sua bondade que ele o queira igualmente — um tal governo, digo, é o maior despotismo que se pode conceber.”

O que se passa hoje em Inglaterra é uma versão contemporânea do Estado-de-polícia em que o secularismo de Estado se assume como uma religião de Estado que impõe coerciva e repressivamente um certo tipo de moralidade a toda a sociedade, por um lado, e em que o próprio Estado é elevado ao estatuto de deidade religiosa. Vemos como o Estado de Direito liberal, que até há pouco tempo existia em Inglaterra, evoluiu rapidamente para um Estado-de-polícia. Este fenómeno de evolução do Estado de Direito liberal para o Estado-de-polícia parece ser uma tendência actual em toda a Europa.

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