perspectivas

Segunda-feira, 27 Junho 2016

O politicamente correcto diz que a moral católica reprime a sexualidade

 

O jornal Púbico publica um artigo da autoria da jornalista Ana Cristina Pereira, com o título “A prostituição diz muito sobre a sociedade”, que aborda o episódio das “Mães de Bragança”.

O artigo é uma crítica cultural ao homem/marido [de Bragança, neste caso — mas extensível ao marido em geral], e uma tentativa de vitimização da esposa, por um lado, e por outro lado incute a ideia da prostituta como uma espécie de “instrumento de revolução cultural”. E o corolário dessa revolução cultural está expresso no fim do texto, no seguinte trecho:

«Algumas mulheres [de Bragança] “começaram a deixar esturricar a comida, a tolerar os buracos nas meias dos maridos, a desleixar-se nas tarefas domésticas”, garante o sociólogo. Arranjaram tempo para frequentar salões de beleza, cuidar mais da sua imagem. E “a estabilidade matrimonial começou a ceder à influência de novas correntes socioculturais, propensas à valorização dos enlaces efectivos eróticos e não apenas à dos vínculos patrimoniais”.»

Naturalmente que uma “revolução” pressupõe, no pensamento mitológico da nossa actual cultura, uma melhoria e um progresso [entendido como “lei da Natureza”] em relação a condições anteriormente existentes. Mas o mais espantoso, no artigo, é a utilização sistemática da falácia da generalização: qualquer caso particular é generalizado em nome da “ciência social” de um tal José Machado Pais.
O corolário da tese ideológica do texto é a necessidade de precarização dos laços do casamento em nome da libertação da mulher; e, por outro lado, “quando um homem casado vai ao bar de alterne é sinal de quebra de estabilidade conjugal, diz o investigador”. E, a ida do homem [em geral, o que constitui uma falácia da generalização] ao bordel significa [segundo o artigo] “um afrouxar da ordem moralista ou repressiva” — e aqui está, na berlinda, a moral católica.

Ou seja, segundo o artigo, a existência de prostitutas até é uma coisa boa conquanto vá contra “a moral católica sexualmente repressiva”.


prostit-imNo século XV, e nas cidades da Europa, o bordel contribuía para a manutenção da paz social, e neste sentido, era uma “instituição católica”. Em meados do século XVI, o papado, para responder às críticas protestantes [Reforma], sentiu-se forçado a emitir uma defesa deste tipo [“o bordel contribui para a manutenção da paz social”] para justificar a existência dos “banhos públicos” em Roma. Ou seja, ao contrário do que dizem implicitamente a “jornalista” e o “sociólogo”, a moral católica não reprimia a prostituição [na Idade Média]; e a atitude tolerante de Salazar em relação à prostituição reflecte essa tradição católica medieval — que depois foi contrariada pela Contra-Reforma que, no fundo, imitou a Reforma.

A repressão [política] da prostituição iniciou-se com a Reforma protestante; e, de certo modo, essa “repressão sexual” foi imitada pela Contra-Reforma católica através da influência dos jesuítas na Igreja Católica. Em geral — e não só em relação às prostitutas —, antes da Reforma, as relações sexuais aconteciam frequentemente antes da actual “idade adulta” [21 anos]. A Igreja Católica medieval instituiu a figura cultural do padrinho de baptismo, que impedia que um homem mais velho pudesse ter relações sexuais com uma jovem afilhada com quem tinha um “relacionamento espiritual”; e era vulgar [na Idade Média] que uma menina pudesse ter vários padrinhos de baptismo: só depois da Reforma e da Contra-Reforma, o padrinho de baptismo passou a ser um só, e a sua figura foi desvalorizada pelo protestantismo.

Em consequência da repressão da prostituição, a partir do século XVII, (e da repressão sexual em geral), os casamentos passaram a realizar-se mais tarde na vida das pessoas, por um lado, e por outro lado, a idade dos nubentes passou a ser semelhante.


Não estou aqui a defender a prostituição; o que eu quero dizer é que é falso que a Igreja Católica tenha sempre reprimido a prostituição — porque os católicos medievais já tinham compreendido, mesmo sem dados científicos objectivos, que a mulher produz 400 óvulos durante toda a sua vida, ao passo que o homem produz biliões de espermatozóides. É a p*ta da realidade!

Domingo, 19 Junho 2016

Anselmo Borges e os podres da Igreja Católica

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 11:06 am
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Parece que, para o Anselmo Borges, a Igreja Católica anterior ao Concílio do Vaticano II, só tem defeitos. Depois do Vaticano II, “o Sol nasceu para a Igreja Católica e para a humanidade”, os amanhãs passaram a cantar, a realidade transmutou-se por intermédio de uma fé metastática.

Anselmo Borges faz de conta que não sabe que o único “progresso” que existe, de facto, está na ciência. Falar em “progresso da sociedade” é demagogia política: por exemplo, se a escravatura tradicional foi abolida, criaram-se entretanto outras formas modernas de escravatura que não são menos perversas. Vou dar aqui um exemplo.

Na Idade Média, os mendigos andavam livres nas ruas das povoações e cidades; e quando pediam esmola a um rico burguês ou a um nobre, quem lhes dava a esmola pedia em troca uma oração pela sua alma. Ou seja, a mendicidade era uma profissão socialmente útil, porque quem dava esmola recebia qualquer coisa em troca.

A partir do momento em que a Reforma retirou à penitência religiosa, por um lado, e à acção moral individual, por outro lado, a sua importância tradicional medieval, o Estado tomou conta da vida dos indivíduos.

E como a mendicidade não acabava, o Estado passou a restringir a liberdade dos mendigos naquilo a que Foucault chamou de “Grande Encarceramento”: os mendigos deixaram de ser úteis à sociedade, e passaram a ser reprimidos e encarcerados. Através da rotulagem do “pobre” e de sinais distintivos afins, a caridade católica da Idade Média que se caracterizava por um modo de relação, transformava-se, no mundo moderno dos “direitos humanos” do Estado, em um modo de segregação.

E Anselmo Borges chamaria a isto “progresso”. A ideia de que “o progresso é uma lei da natureza” é própria de uma mente doente.

Domingo, 27 Outubro 2013

As análises históricas deve ser feitas em contexto

 

Uma qualquer análise às origens do nazismo não pode prescindir do contexto histórico e político, ou seja, não devemos considerar as correntes ideológicas nacionalistas alemãs, a partir da Reforma de Lutero, sem ter em conta a realidade política e efectiva daquilo a que se veio a tornar, na segunda metade do século XIX e com Bismarck, no “Segundo Reich” na Alemanha.

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Terça-feira, 19 Junho 2012

O Rerum Natura, volta e meia, chafurda na mentecapcia

“Na Idade Média os deficientes físicos e mentais eram frequentemente vistos como possuídos pelo demónio e eram queimados como as bruxas.”

via De Rerum Natura: Steven Hawking um exemplo de superação.

O Hélio Dias, colaborador do blogue Rerum Natura, deve ter a ideia da Idade Média deixada pelo filme “O Nome da Rosa”, segundo o livro homónimo de Umberto Eco; mas não deve ter lido o livro, porque este último não trata exactamente o deficiente mental da forma como o filme faz. De qualquer modo, é sempre bom ver um colaborador do blogue De Rerum Natura transformar-se num medievalista, mesmo que não faça a mínima ideia do que está a escrever.

Contudo, gostaria de dizer ao Hélio Dias que a estória d’“O Nome da Rosa” não se passou na realidade. Eu sei que custa aceitar — que o Hélio vai ficar desiludido como uma criança ficaria a quem se retirasse o chupa-chupa —, mas é verdade: “O Nome da Rosa” é apenas uma ficção de um medievalista que, talvez por ser comunista, tenha atribuído uma pontinha de maldade adicional aos franciscanos medievais [porque estes, na sua esmagagora maioria, não eram santos).

O que o Hélio Dias está a fazer — coisa que o blogue Rerum Natura frequentemente faz! — é enganar os seus leitores. O Hélio Dias é um aldrabão.

O que o Hélio Dias não pode dizer — porque é mentira — é que na Idade Média cristã se praticava o infanticídio. Não é verdade. O Hélio Dias é mentiroso. E mesmo tratando-se de deficientes mentais adultos, também não é verdade que eles fossem lançados à fogueira, a não ser no filme de Umberto Eco.

É verdade que os doentes mentais eram isolados da sociedade, e atirados para hospícios em condições sub-humanas. Isto é verdade. Mas o mesmo faziam os regimes marxistas do século XX que o Hélio Dias parece admirar tanto…! Pelo menos, os medievais têm a desculpa de não possuírem meios técnicos que lhes permitissem tratar melhor os deficientes mentais.

A época em que se pratica o infanticídio é a época que o Hélio Dias defende e pugna: a época da ciência.

Esta época do racionalismo e da ciência é a época do infanticídio, e não a Idade Média. Esta é a época do retorno ao racionalismo utilitarista grego que matava as crianças nascidas com deficiência, coisa aliás defendida pelo próprio Aristóteles.

Pois, é: “vês o argueiro que não existe no olho alheio para não veres a trave que tens no teu”. Mas em relação aos brasileiros do sistema, eu dou um desconto: estamos a lidar com gente que não tem a mínima noção do que diz.

O que o Hélio Dias não diz talvez porque não saiba — e mesmo que soubesse não diria — é que quando os médicos ingleses verificaram a doença de Stephen Hawking, deram-lhe pouco tempo de vida; e não diz, também, que a comunidade médica inglesa considera, em surdina, a sobrevivência até hoje de Stephen Hawking como sendo um milagre, pelo menos à luz dos conhecimentos actuais da ciência médica. O meliante prefere dizer que os deficientes, em geral, eram frequentemente queimados vivos na Idade Média.

Sexta-feira, 13 Janeiro 2012

A mulher na Idade Média

Filed under: cultura,Europa — O. Braga @ 8:02 am
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“Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque sois todos um só em Jesus Cristo.” — S. Paulo, Carta aos Gálatas, 3, 28

A Idade Média tem sido muito maltratada pelos ideólogos e pela política contemporâneos. Vivemos em um tempo estranho, em uma cultura em que a mulher-objecto é considerada mais livre e feliz do que a mulher medieval. Obviamente que falamos aqui de Ética e do Direito — ou seja, de valores humanos —, e não propriamente da técnica ou da ciência; de resto, a ciência e a técnica não têm voz activa e determinante na definição da ética e da dignidade humana.

Joana D'Arc

Primeiro, com o Renascimento [o surgimento da proto-burguesia mercantil], e depois a partir do fim do século XVI com os teóricos do Estado moderno, o Direito Romano voltou em força à estrutura do Direito europeu — a estrutura e os princípios do Direito Romano beneficiavam claramente a classe mercantil ou proto-burguesa. Os estatutos do homem e da mulher afastaram-se, então, um do outro; existiu, de facto, um nexo causal claro entre a reentrada do Direito Romano na Europa e a perda de poder da mulher na sociedade.

Não significa isto que o Direito Romano tivesse desaparecido totalmente do edifício jurídico medieval, mas tinha sido obnubilado pelo Direito Canónico da Igreja Católica Apostólica Romana. E com o Renascimento, em primeiro lugar, e depois com os teóricos do Estado moderno, o estatuto da mulher na sociedade europeia foi penalizado; aconteceu, de facto, um retrocesso. E foi por isso que, com o surgimento do Direito Positivo a partir de fins do século XIX, passou a confundir-se o estatuto da mulher na Idade Média com o da Idade Moderna.

A partir de finais do século XIX e princípio do século XX, e com o advento da positividade do Direito [Neopositivismo, Círculo de Viena], a influência do Direito Romano na estrutura do Direito europeu passou paulatina e novamente, por assim dizer, para um plano secundário, e advém deste facto a sensação de maior liberdade e independência da mulher. O Direito passou, em crescendo, a adequar a norma ao facto, devido à ausência de uma sólida fundamentação ética das normas, tal como tinha acontecido no passado. O Direito Positivo afastou-se da infra-estrutura do Direito Romano, por um lado, e do suporte ético cristão e católico, por outro lado, e passou a reger-se pelas ideologias políticas predominantes em cada época.

Há mesmo medievalistas [por exemplo, Umberto Eco] que dizem que, na Idade Média, as mulheres, em termos gerais, [por exemplo, nos conventos] praticavam mais a leitura do que os homens. A influência da mulher na sociedade medieval era não só enorme, mas essencialmente era decisiva e positiva. Hoje, a mulher tem também uma enorme influência na sociedade mas nem sempre pelas melhores razões.

Quando, hoje, alguns “intelectuais” e “escritores” dizem, por exemplo, que o estatuto da mulher muçulmana actual é equivalente ou semelhante ao estatuto da mulher europeia medieval, estão a dizer uma barbaridade. Esta comparação não tem qualquer fundamentação na realidade. E quando se diz que, do ponto de vista existencial [existência, vida, valores, ética], a mulher actual é mais livre e feliz do que a mulher medieval, comete-se um erro de falta de perspectiva histórica, porque de facto essa afirmação não corresponde à verdade.

Quarta-feira, 9 Novembro 2011

José Mattoso acerca de S. Tomás de Aquino


“O rigor lógico, a agudeza da inteligência e a vastidão dos conhecimentos permitem-lhe construir um sistema filosófico extremamente coerente e realista a partir dos princípios aristotélicos.

Todavia, o método escolástico infunde-lhe uma inegável frieza. O recurso maciço às definições, distinções e citações dificilmente poderia emocionar qualquer auditório. A sua obra consulta-se, mas não se lê. Para usar os termos de Bloom [Harold], tem força intelectual mas falta-lhe o fulgor estético.”

— José Mattoso, referindo-se a S. Tomás de Aquino, in “Memória & Sabedoria”, pág. 189, Edições Húmus, 2011 [os sublinhados são meus, e os parêntesis também]

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Segunda-feira, 15 Agosto 2011

“A culpa é da democracia” (2)

O Renascimento marca a explosão do gnosticismo cristão recalcado e reprimido desde Constantino. O Renascimento fez ressurgir as ideias clássicas (greco-romanas) à luz da formidável metafísica cristã, ou seja, coloca o classicismo greco-romano fora de contexto e interpreta-o anacronicamente. O Renascimento é um processo de criação de uma ucronia multifacetada que deu lugar à proliferação das utopias políticas modernas e contemporâneas.
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Sexta-feira, 24 Dezembro 2010

Sobre a crítica presentista à Idade Média

O discurso anti-medieval é auto-contraditório.

Por um lado, critica-se, tout cours, a acção do Homem na História e, mais grave, analisa-se a história medieval à luz da situação contemporânea (falácia lógica de Parménides).
Por outro lado — e ao mesmo tempo que se critica a acção do Homem na História — adopta-se o princípio epicurista de retirar (de uma forma exclusivista) as conclusões teóricas, da prática, ou seja, a teoria é vista apenas e só como uma ilação da praxis.

Estas duas posições acima referidas, quando assumidas simultaneamente, são contraditórias: eu não devo criticar a acção do Homem na História ao mesmo tempo que retiro — de uma forma exclusivista — da acção do Homem a teoria que me move. A primeira situação (criticar a acção do Homem na História) pressupõe uma teoria prévia à acção e a liberdade da análise teórica; a segunda situação (retirar, de uma forma exclusivista, as conclusões teóricas, da prática) impõe a ditadura da acção (a ditadura da praxis) sobre a teoria.

Nota: quem critica — de uma forma irracional e presentista — a Idade Média, deseja instalar hoje uma Idade Me®dia.

Sexta-feira, 25 Dezembro 2009

José Rodrigues dos Santos, a peste negra e a ciência

Na entrevista dada recentemente por José Rodrigues dos Santos ao Milton (ou Nilton?) no seu programa da RTP2, JRS falou na peste negra medieval correlacionada com o alegado facto de o homem medieval recorrer às escrituras religiosas para explicar o mundo. (more…)

Domingo, 30 Dezembro 2007

Dissertação sobre o fundamentalismo anti-teísta e a elite estupidificada

“No caso de Dawkins – e intra-muros, no caso de Saramago – assistimos a dois casos típicos de desonestidade intelectual. Ambos são intelectualmente desonestos na sua sanha irracional anti-religiosa.”

(texto com 1690 palavras)
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