perspectivas

Terça-feira, 2 Julho 2013

A Escolástica do século XX

José Pacheco Pereira fala-nos aqui da “Escolástica do século XX”.

A dogmatização dos direitos humanos, transformando-os em uma forma de fazer política, para além de repudiar o que há de bom e positivo nas tradições, é a causa do aumento da tutela da organização burocrática (por exemplo, na cúpula do leviatão da União Europeia), em que a afirmação retórica, obsessiva e repetida da singularidade das pessoas concretas é acompanhada pela sua equivalência abstracta num anonimato generalizado; e em que o reconhecimento social de todas as espécies de direitos – “casamento” gay, adopção de crianças por pares de invertidos, eutanásia “a pedido do freguês”, aborto livre “porque sim”, pedofilia como “orientação sexual”, teoria de género, feminismo, etc. – e liberdades tem como contraponto o retraimento narcísico dos indivíduos e o seu desinteresse pela coisa pública (ou seja, diminuição da coesão social), e em que a omnipresente encenação política de liberalização dos costumes esconde a propensão para um mimetismo na cultura antropológica, um seguidismo e um conformismo sem precedentes que abre caminho a uma nova forma de totalitarismo.

Exceptuando alguns poucos pensadores medievais católicos – como, por exemplo, Anselmo de Aosta ou S. Tomás de Aquino -, a Escolástica, em geral, passou o tempo a discutir o sexo dos anjos. De um modo semelhante, também existiu uma Escolástica no século XX, que já vinha da revolução francesa, da utopia positivista que evoluiu para o socialismo francês pela mão do utilitarismo de Bentham, e que teve em Karl Marx o seu corolário.

Paradoxalmente, a religião que Karl Marx criticou deu origem a um Ersatz da religião, a uma religião política imanente e moderna que também teve os seus relapsos, os seus “protestantes” e a sua “Reforma”: mas sempre a discutir o sexo dos anjos. O que se passa hoje, em grande parte da Europa e nomeadamente em França , é, de facto, o retorno às origens da Escolástica moderna; uma espécie de “vira o disco e toca o mesmo”.

José Pacheco Pereira fala de “humanismo” e de “anti-humanismo”. Mas ¿o que significa “humanismo”?

O termo “humanismo” sofreu tantas definições que já não se sabe bem o que é. O próprio marxismo ortodoxo, que se dizia “anti-humanista”, acabou por reclamar a herança do humanismo e, por isso, paradoxalmente, ser também – embora involuntariamente – “humanista”. Se considerarmos “humanismo” aquilo que saiu do Iluminismo – porque também existe um outro “humanismo” que saiu do Renascimento, para além do “humanismo” do personalismo cristão, e etc. -, esse humanismo iluminista é sinónimo de racionalismo; mas racionalismo não é a mesma coisa que racionalidade; mas durante muito tempo pensou-se que os dois conceitos eram equivalentes.

Dizia Albert Camus que “Nietzsche era grego e Karl Marx, cristão”. O que separa, realmente, Karl Marx do Cristianismo é a ausência de um fundamento último da teoria. Ou seja, o marxismo é construído sem alicerces na metafísica, sem uma axiomática que o prenda ao Real; neste sentido, é uma espécie de Escolástica medieval invertida ou do avesso.

Do racionalismo humanista do iluminismo, muitas vezes irracional, não poderíamos esperar outra coisa senão a construção do “Homem abstracto”, por exemplo, mediante uma “política dos direitos humanos” criticada profeticamente por Marcel Gauchet em princípios da década de 1980.

Existe aqui um paradoxo: os “direitos humanos”, assumidos como uma política em si mesma, diluiu qualquer tipo de humanismo – incluindo o personalismo cristão que sempre foi concreto (pelo menos em tese) por sua própria natureza. Vivemos numa época de paradoxos decorrentes de uma racionalização política que é, no fundo, uma tentativa (propositada!) de irracionalizar a sociedade e a cultura.

Os paradoxos da relação entre indivíduo e sociedade, por um lado, e por outro lado entre o indivíduo e o Estado, são mitigados (aparentemente) pela invocação ritualizada (por exemplo, pelo socialismo dos Khmers Rosa de François Hollande ) da liberdade, e da igualdade entendida como uma aplicação prática de uma espécie de ideologia de Procrustes.

A dogmatização dos direitos humanos, transformando-os em uma forma de fazer política, para além de repudiar o que há de bom e positivo nas tradições, é a causa do aumento da tutela da organização burocrática (por exemplo, na cúpula do leviatão da União Europeia), em que a afirmação retórica, obsessiva e repetida da singularidade das pessoas concretas é acompanhada pela sua equivalência abstracta num anonimato generalizado; e em que o reconhecimento social de todas as espécies de direitos – “casamento” gay, adopção de crianças por pares de invertidos, eutanásia “a pedido do freguês”, aborto livre “porque sim”, pedofilia como “orientação sexual”, teoria de género, feminismo, etc. – e liberdades tem como contraponto o retraimento narcísico dos indivíduos e o seu desinteresse pela coisa pública (ou seja, diminuição da coesão social), e em que a omnipresente encenação política de liberalização dos costumes esconde a propensão para um mimetismo na cultura antropológica, um seguidismo e um conformismo sem precedentes que abre caminho a uma nova forma de totalitarismo.

Foi nisto que desembocou a “Escolástica do século XX”.

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Sábado, 30 Março 2013

Um exemplo de humanismo pagão politicamente correcto

“Educado por uma tribo de padres e ateus ecuménicos, capazes de se porem de acordo sobre princípios éticos que jamais precisaram de adjectivar, nunca vi a Fé ou a sua ausência como fronteiras entre as pessoas. Filho de Deus e do Homem ou apenas do segundo, lembramos hoje a morte de alguém que nos disse para amar o Outro como a nós mesmos.

E alguns responderão que ultrapassaram a meta estabelecida – amaram filhos, netos, pais, avós, amigos ou amantes mais do que a si mesmos. Não o nego. A minha profissão é escutar, certas histórias de vida desconhecem palavras como egoísmo, ressentimento, vingança, sobranceria. Mas como Humanidade, herdeira no seu todo de tão magnífico sonho, esquivo por alheio à nossa natureza, em que as sombras pedem meças à luz, não estivemos à altura de tão grande Paixão.

Bom seria que não nos refugiássemos na auto-piedade estática do remorso ou na indiferença cómoda de quem não acredita. Olhemos em volta. Para tentar mudar um cisco deste mundo, mecanicamente selvagem mas com donos de carne e osso, que tritura os mais fracos para “os proteger”, não é preciso acreditar em Deus – basta crer que ainda somos capazes da mais elementar decência solidária.”Boa Páscoa, gente.

O humanismo — para muitos idiotas do Renascimento, do Iluminismo e actuais — é o retorno acrítico aos templos clássicos e à cultura grega, mesmo sabendo que Aristóteles defendeu abertamente o infanticídio (o assassínio de crianças já nascidas). O humanismo — no sentido adoptado por esses idiotas que pensam uma moral sem Deus —, para além de ser um anacronismo, é um retorno à barbárie. O humanismo pagão é sinónimo de barbárie.

O curandeiro gayzista da RDP

O curandeiro gayzista da RDP

De Aristóteles e dos seus contemporâneos devemos retirar aquilo que é bom e positivo — e foi isso que a Igreja Católica fez durante a Idade Média e com a Escolástica —, mas os idiotas pensam que humanismo é a transcrição literal para actualidade dos fundamentos de uma cultura de uma sociedade de deuses antropomórficos. Julgam, esses idiotas, que sem o Deus da Bíblia é possível a aceitação social — anterior aos princípio do interesse próprio — dos valores fundamentais de uma ética que devem ser, por definição, universais (o que não significa que sejam unânimes), intemporais, racionalmente fundamentos e facilmente distinguíveis nos seus aspectos fundamentais.

O teórico ateu americano J. L. Mackie defendeu a ideia segundo a qual a validade de uma moral universal (uma moral para toda a sociedade) deveria idealmente impor-se através da hipótese da existência de um Deus que, dispondo do conhecimento sobre a hierarquia de valores que o ser humano não tem, pudesse ajudar o ser humano a distinguir a hierarquia dos valores e assim adoptar um modo de vida “mais útil” para si próprio. Segundo o ateu Mackie, Deus não seria nenhum tirano que exigisse do ser humano comportamentos absurdos, mas apenas exigiria deste apenas o que seria efectivamente melhor para ele. Mackie estava, de facto, preocupado com a restrição racional do princípio do interesse próprio, mas como ele não acreditava em Deus, e apesar da sua razoabilidade, colocou a sua teoria de parte.

Quando um burro carregado de livros e munido de um alvará de inteligência não consegue perceber o autêntico milagre que é a própria existência da Natureza e do universo (o Ser), não há “decência solidária” que o valha. E o mais grave é que consegue enganar outros idiotas como ele.

Sexta-feira, 15 Janeiro 2010

A tragédia humana no Haiti

Filed under: Religare — O. Braga @ 5:28 pm
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A terra tremeu no Haiti e a tragédia entrou pelas nossas casas adentro. Dezenas de milhares de mortos são estimados, famílias desfeitas, sobreviventes que lutam pela sobrevivência; um povo desesperado que não consegue sequer agora pensar no futuro. No Haiti vive-se um eterno presente, porque o passado é um inferno que se quer esquecer e o futuro não tem nome.

Em momentos de aflição como o que se vive no Haiti, reaparece a nossa alma neolítica; quando o chão treme violentamente debaixo dos nossos pés, deixamos por momentos de acreditar na ciência e na técnica; duvidamos do racional e do irracional. Apenas nos resta, nesses momentos em que a realidade objectiva parece desabar à nossa volta, a fé no arracional e no super-racional.

O arracional é tudo aquilo que não é racional nem irracional, como é o caso do Ser e da Existência. Perante uma tragédia daquela dimensão reduzimos a nossa realidade ao Ser e à Existência que, aparentemente sem razão de ser, são e não deixam de ser. E do arracional somos transportados para o super-racional que está presente em toda a criação e do qual deriva a arracionalidade da existência e do ser. E é por isso que, em uma situação-limite daquela natureza, rezamos nós como rezam os haitianos, para que possamos re-apreender o mito que tudo engloba ― o racional, o irracional, o arracional e o super-racional ― e sem o qual não podemos viver.

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