perspectivas

Quarta-feira, 10 Abril 2013

Rousseau, a atomização da sociedade e os totalitarismos gnósticos do século XX

O

problema começou antes de Rousseau. O problema começou no seio da própria Igreja Católica com a absurda “querela dos universais”, que meteu os franciscanos ao barulho a favor do conceito absurdo de nominalismo. Antes disso, os franciscanos Fraticelli andaram de candeias às avessas com o poder temporal quando defenderam o Poder absoluto do Papa. Os franciscanos estiveram metidos no pior da Igreja Católica (ainda pior do que os Jesuítas).

A Reforma protestante minou profundamente a autoridade. É irónico que um protestante do século XIX venha queixar-se da ausência de autoridade na cultura coeva, porque a Reforma foi o primeiro grito de revolta contra a autoridade.

Os ideólogos da Razão de Estado de finais do século XVI e século XVII opuseram o poder absoluto do rei ao poder absoluto do Papa defendido pelos franciscanos dois séculos antes. Dos ideólogos da Razão de Estado surgiu Hobbes — o primeiro hipóstata teórico do absolutismo de Estado. Locke, na segunda metade da sua vida filosófica, não esteve muito longe de Rousseau. Rousseau não foi original em nada excepto na criação abstrusa e absurda do conceito de “vontade geral” que não tem qualquer origem na realidade política e sociológica. A “vontade geral” é uma forma de permitir a discricionariedade e o absolutismo, até sob a capa da democracia.

…as ideias têm consequências

A origem simbólica do Bom Selvagem, de Rousseau, está no Génesis bíblico e no conceito de Éden (o paraíso na terra). Por aqui podemos fazer uma ideia da complexidade do problema. O que Rousseau fez foi utilizar um símbolo judaico-cristão e fazer dele uma leitura literal, e tão literal como era aconselhado pela própria Igreja Católica daquele tempo. Rousseau não fez uma exegese a partir dos símbolos de Adão e Eva: limitou-se a transcrever literalmente a noção de paraíso na terra que o próprio Génesis encerra em si.

A diferença é que o Mal — a simbologia da Serpente —, segundo Rousseau, passou a ser a sociedade entendida como comunidade (“O inferno são os outros” — Jean-Paul Sartre), enquanto que o Mal bíblico foi invertido e passou a ser o Bem, que segundo Rosseau, é o conhecimento no sentido prometaico.

Esta inversão da significação de um mesmo símbolo levou a que o Bem passasse oficialmente a ser o conhecimento prometaico que absolutiza o indivíduo (Rousseau seguiu o princípio da autonomia de Kant, mas em vez de dotar o indivíduo de responsabilidade, criou o conceito de “vontade geral” para anular politicamente a própria responsabilidade individual, anulando a componente kantiana do “cidadão-legislador”), por um lado, e por outro lado a comunidade passou a ser o Mal que necessita da liderança “sábia” e firme — através do conceito abstracto de “vontade geral” — de uma elite (gnóstica) que transformasse o voto popular em discricionariedade “sapiente” na acção política.

“Pode dizer-se não que há tantos pareceres como homens, mas tantos como associações. (…) É portanto essencial, se a vontade geral pode exprimir-se, que não haja sociedades parciais dentro do Estado, e cada cidadão pense apenas por si; tal é o sublime e único sistema estabelecido pelo grande Licurgo”. (“Contrato Social” de Rousseau)

Como podemos verificar, Rousseau defende, através do conceito de “vontade geral”, a atomização da sociedade e a instituição dos totalitarismos do século XX. Há quem diga que ele não teve culpa — como há quem diga que Nietzsche não teve culpa do surgimento do nazismo — mas, para mim, isso é treta. As ideias têm consequências.

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Sábado, 28 Abril 2012

A Esquerda inteligente, a Direita neoliberal amestrada, e o retrocesso de Kant a Hobbes

“Um governo que fosse fundado sobre o princípio da benevolência para com o povo — tal o do pai para com os seus filhos, quer dizer, um governo paternal —, onde, por consequência, os sujeitos, tais filhos menores, incapazes de decidir acerca do que lhes é verdadeiramente útil ou nocivo, são obrigados a comportar-se de um modo unicamente passivo, a fim de esperar, apenas do juízo do chefe do Estado, a maneira como devem ser felizes, e unicamente da sua bondade que ele o queira igualmente — um tal governo, digo, é o maior despotismo que se pode conceber.”

— Kant [“Teoria e Prática”]


A Direita [neoliberal] portuguesa é uma Direita alienada, manietada e controlada pela Esquerda.

Depois da queda do muro de Berlim, a Europa foi, digamos, “kantiana” por um período aproximado de dez anos; e devido à reconversão e à reciclagem ideológica do marxismo clássico em neomarxismo [que é uma mescla com o marxismo cultural que deu no chamado “politicamente correcto”], por um lado, e por outro lado, devido ao desaparecimento — ou ao afastamento da vida política — dos antigos lideres europeus da Direita, a Europa retrocedeu a Hobbes.


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Quarta-feira, 7 Setembro 2011

Não há saída para a cultura ocidental

Neste blogue tenho escrito bastante sobre Hobbes porque me parece que a cultura (antropológica e intelectual) europeia actual — e por maioria de razão, também em Portugal — está cada vez mais a adoptar os princípios éticos exarados no “Leviatão”. Hobbes é muitíssimo mais perigoso do que Maquiavel, porque enquanto este último descartou a religião da sua teoria ética (e, portanto, não enganou ninguém), aquele pretendeu incluir o conceito de “poder divino” na sua teoria ética eminentemente anti-cristã na sua essência, conforme podemos ler no “Leviatão”.

O professor João César das Neves tem aqui um artigo excelente, porque sucinto e de fácil entendimento, acerca da evolução da cultura e da ética a partir da Reforma até à actualidade, cuja leitura irá ajudar o leitor a perceber melhor este postal. A verdade é que a Europa (e a União Europeia) não tem saída, porque é impossível uma ordem social e/ou ética sem Deus.
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Terça-feira, 6 Setembro 2011

Ainda sobre a dicotomia maniqueísta entre “nacionalismo” e “democracia”

No decorrer da discussão sobre a pretensa dicotomia existente entre “nacionalismo” e “democracia”, uma pessoa dita “nacionalista” escreveu um comentário no FaceBook mais ou menos deste teor: “a democracia implica o relativismo dos valores, enquanto o nacionalismo implica o absoluto de valores”.
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Segunda-feira, 29 Agosto 2011

A herança ética de Espinoza

“Nós não desejamos uma coisa pelo facto de a julgarmos boa, mas julgamo-la boa porque a desejamos.”
— Espinoza [Ética]

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Segunda-feira, 22 Agosto 2011

Hobbes, a inversão da ética aristotélica, e a fundamentação dos totalitarismos (2)

Eu estou de acordo com este texto que me surgiu deste comentário. Gostaria, porém, de acrescentar algumas ideias.

O princípio da separação de poderes é, como o próprio nome indica, um princípio, isto é, tem uma característica para-axiomática que determina a montante a própria concepção de Estado. Um princípio desvela um valor; existe um valor apriorístico (ou um conjunto de valores) encerrado em um determinado princípio.

Para que um princípio tenha aplicação prática eficaz — como é, neste caso, o princípio da separação de poderes —, ele tem que ser aceite a priori por todas as partes envolvidas como sendo um valor universal e racionalmente fundamentado. E é aqui, por exemplo, que a política e o direito positivo se ligam à ética que lhes está a montante. Portanto, o princípio da separação de poderes não pode ser visto como algo susceptível de negociação permanente e provisória, e dependendo do Zeitgeist hegeliano: antes, o princípio da separação de poderes é um valor que tem que ser aceite a priori e em detrimento (ou em sacrifício) dos interesses próprios das entidades políticas envolvidas.

Eis um exemplo claro de como a ética está a montante da política, e de como a subversão dos valores éticos pode minar não só a política como também o próprio Estado.


O Estado não foi inventado por Hobbes ou por Maquiavel, e muito menos é um produto exclusivo do Iluminismo. O que Hobbes fez — em conjunto com outros teóricos do absolutismo e da Razão de Estado negativa (como por exemplo, Jean Bodin, ou Gabriel Naudé que tem a célebre frase que “num golpe-de-estado, a execução precede a sentença”) — foi subverter a ética vigente para fundamentar o absolutismo de Estado e, portanto, uma forma de totalitarismo.

Naturalmente que as ideias de Hobbes influenciaram, em muito, Rousseau, e o conceito abstracto desde último de “vontade geral” tem muito de influência hobbesiana. E, como, sabemos, o Contrato Social foi a “bíblia” dos jacobinos. Quando falamos de Rousseau, não podemos apagar o fantasma de Hobbes que o assombrou.


Por último, há um pequeno detalhe em acrescento ao primeiro postal que queria salientar.

A ética vigente e anterior a Hobbes, e que era legado da Grécia clássica, privilegiava os fins últimos em detrimento dos fins próximos. Escreve Aristóteles: “se há, nas nossas actividades, algum fim que desejemos por si mesmo, e outros só por causa dele, e não escolhemos indefinidamente uma coisa em vista de uma outra, é claro que tal fim não poderá ser senão o bem, o Soberano Bem” [Ética a Nicómaco, I, 1, 1094 a 20].

Hobbes inverteu também este princípio aristotélico, e passou a privilegiar os fins próximos e desprezou literalmente os fins últimos.

Isto significa que, para Hobbes, e pelo facto de não haver um fim último em que o desejo se possa fixar, a sabedoria humana passou a ser destituída de qualquer valor, por um lado, e, por outro lado, a posse duradoura de um bem não implica o contentamento do ser humano, o que significa que este carácter indefinido do desejo hobbesiano traduz-se numa busca indefinida dos meios para obter esse mesmo desejo, o que implica a noção de uma busca ininterrupta do Poder (seja qual for a forma de poder) e do seu aumento incessante, ávido e sem limites. É assim que Hobbes se serve da inversão ética para fundamentar o absolutismo!

A sociedade ocidental (principalmente europeia) caminha rapidamente para um sistema político que é uma vergôntea de Hobbes, na medida em que a inversão ética do filósofo inglês afirma-se, cada vez mais, na nossa sociedade actual.

Domingo, 21 Agosto 2011

Hobbes, a inversão da ética aristotélica, e a fundamentação dos totalitarismos

O problema político da sociedade ocidental é, antes de mais, um problema ético. A dificuldade que encontramos hoje, na nossa sociedade, é que praticamente ninguém se dá conta de que antes da política está a ética, e por isso discute-se a política como se fosse a causa e não um efeito; e é muito difícil contrariar esta tendência.

Não foi por acaso que Hobbes inverteu totalmente a ética de Aristóteles para poder, assim, sustentar a tese absolutista do seu leviatão. Qualquer ideologia política tem que começar por subverter a ética vigente, porque sem essa subversão apriorística o seu conteúdo doutrinal, meramente político, não vale nada.

Hobbes foi de tal modo um indivíduo intelectualmente limitado (para não dizer, burro), que o próprio materialista, relativista moral e ateu Bertrand Russell escreveu o seguinte a seu respeito: “(…) tem graves defeitos, que não permitem pô-lo na primeira fila. Não suporta subtilezas e tem grande tendência para cortar o nó górdio. As suas soluções são lógicas mas pecam por omissão de factos não enquadráveis” [História da Filosofia Ocidental]. Se o próprio relativista Russell se refere assim ao seu compatriota Hobbes, podemos fazer uma ideia do perfil da criatura.

Se a ética define a política, Maquiavel e Hobbes inverteram a ética para poderem impôr determinadas ideias políticas, e a nossa sociedade é hoje o produto de todo um desenvolvimento histórico e ideológico que se seguiu a essa inversão.

Aristóteles escreveu [Metafísica, L, 1072 a 24-30] que “nós desejamos uma coisa por ela nos parecer boa — e não, por a desejarmos, é que nos parece boa”. Ou seja, o que Aristóteles quer dizer é que, embora nós desejemos o que nos parece bom, o julgamento moral é distinto do desejo da pessoa.

Hobbes inverteu este princípio ético e moral de Aristóteles como nunca ninguém — nem sequer Maquiavel! — tinha feito antes. Essa inversão consiste em afirmar, como fez Hobbes, que o princípio da avaliação ética é exclusivamente o “sujeito agente” (o que revela o relativismo moral), indexando assim e de uma forma exclusiva, os valores morais ao mero desejo do agente humano enquanto indivíduo.

Foi por via desta inversão da ética de Aristóteles que Hobbes construiu a sua doutrina política absolutista e totalitária expressa no Leviatão — ou seja, a doutrina politica do Leviatão de Hobbes não seria possível sem esta inversão ética, o que significa que qualquer totalitarismo, desde o tempo de Hobbes, passou a depender do relativismo moral — que atomiza a sociedade — para se poder impôr.

Por simples dedução, podemos, por isso, concluir que o actual relativismo moral que avança e impera na nossa sociedade, terá como “possibilidade pesada” a constituição de um novo totalitarismo. Para podermos manter a nossa democracia e a nossa liberdade, temos que combater o relativismo ético-moral que se expande cada vez mais: a liberdade e a democracia dependem de um realinhamento com a ética de Aristóteles; e se há coisa de que não tenho dúvida, é disto.

Segunda-feira, 26 Julho 2010

Consequências do Tratado de Lisboa

« Austria is also on the verge of introducing a new and draconian anti terrorism law that is so loosely worded that virtually anyone who criticises governments can be classified as a terrorist. »

Jane Burgermeister

Quinta-feira, 28 Janeiro 2010

A teologia civil de Hobbes na União Europeia do leviatão

As obras de Eric Voegelin não existem publicadas em Portugal. Em 2002, a editorial Vega (Lisboa) publicou “As religiões políticas” e “A nova ciência da política”, mas em pequenas edições que esgotaram rapidamente. Acontece que a editora Vega faliu entretanto, e portanto eventuais reedições dos livros de Eric Voegelin não se realizarão tão cedo. A alternativa será mandar vir os livros de Eric Voegelin do Brasil, mas para além do tempo de espera (no mínimo 3 meses), o preço dos livros quadruplica.

A justificação para a não existência dos livros de Eric Voegelin (ou a obra de Frithjof Schuon, que também não existe publicada em Portugal) no mercado português, não pode ser atribuída somente à lei da oferta e da procura. Existem critérios editoriais ideológicos e não puramente comerciais. Se soubermos quem controla o mundo editorial em Portugal, saberemos os verdadeiros critérios de edição que estão para além da lei da oferta e da procura.


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Segunda-feira, 14 Dezembro 2009

Leo Strauss, o modernismo e a democracia directa

A “intrusão” da democracia directa na democracia representativa, através de um sistema misto que condicione esta última, tem o condão de restringir a discrecionariedade política dos governantes, responsabilizar os governados, e de criar uma aristocracia natural e não-hereditária.

Uma das características do chamado “neoconservadorismo” ― de onde deriva o termo “neocon” do conservadorismo pós-moderno que foi o esteio das políticas dos Bush pai e filho ―, é o de considerar que é possível combater a revolução jacobina e as suas réplicas contemporâneas com outro tipo de revolução, criando-se um “conservadorismo revolucionário”, o que, na minha opinião, é auto-contraditório. Em Leo Strauss podemos verificar essa tendência.

Neste postal no Mídia sem Máscara podemos ver a expressão do “conservadorismo revolucionário” de Strauss, e é sobre assunto que versa o meu comentário.
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Domingo, 13 Dezembro 2009

Até quando teremos uma Direita na Europa?

« At least eight Russo-German families in Salzkotten, Germany, have suffered heavy fines and now their fathers have been sentenced to prison, because they have refused to send their elementary school-age children to mandatory sexual education classes. »

Germany Jails Eight Christian Fathers for Removing Children from Sex-Ed Class

Para o governo alemão de Angela Merkel, que se diz de “direita”, as crianças são propriedade do Estado ― e agora imaginem o que não faria a esquerda alemã contemporânea cada vez mais radical. A “direita” de Angela Merkel parece-me “muito à esquerda” para meu gosto: ou a direita alemã e europeia evoluiu para a esquerda, ou eu sempre fui um radical de direita e nunca me tinha dado conta disso. Parece-me que foi a direita europeia que se esclerosou e perdeu as suas referências da democracia cristã do pós-guerra, e de tal forma que a diferença entre a esquerda e a direita consiste ― ou pode ser resumida ― em uma mera questão da colectivização (ou não) da economia.

A pergunta que eu faço é a seguinte: é possível a uma direita sustentar por muito tempo uma política económica específica [a que evoluiu do liberalismo clássico do século XIX] sem uma filosofia que sirva de suporte a essa política económica?
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Domingo, 6 Dezembro 2009

Hobbes, os costumes e o delírio interpretativo

Filed under: ética,cultura,filosofia — O. Braga @ 9:22 pm
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Vamos a Hobbes e aos costumes.
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