perspectivas

Sábado, 26 Novembro 2016

Traduzir é interpretar; mas interpretar não é necessariamente uma exegese ou uma hermenêutica

 

O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada escreveu a propósito de uma tradução da Bíblia de um tal Frederico Lourenço:

« Mais grave é, contudo, a sua tentativa de fazer da Bíblia o fundamento escriturístico de uma moral relativista, a opor à doutrina tradicional cristã que, pelo contrário, se baseia na objectividade e universalidade do bem e do mal. Segundo Lourenço, “uma das frases-chave do Novo Testamento” (pág. 360) é a afirmação de Cristo, reportada por João no seu Evangelho: “Eu não julgo ninguém” (Jo 8, 15).

Se se tiver em conta que Jesus Cristo dá a prioridade ao mandamento novo, que desdobra no preceito do amor a Deus e ao próximo, parece algo arbitrária a relevância dada, pelo tradutor, ao princípio por ele erigido em “uma das frases-chave do Novo Testamento”. Será que, deste modo, se pretende fazer crer que a verdadeira religião cristã a ninguém julga, não propõe nenhum credo de verdades reveladas, não compreende um código moral de condutas a realizar ou a evitar?! Se assim for de facto, o tradutor estaria a insinuar que a verdadeira Igreja de Cristo, ao contrário da católica, dever-se-ia abster de qualquer discurso ou atitude condenatória, em prol de uma teoria e prática subjectivista que, na realidade, se poderia reduzir ao moderno slogan “vive e deixa viver”. »

Em primeiro lugar, é irrelevante que o tradutor considere como vãs superstições ou fantasias, as crenças e as convicções dos católicos e cristãos em geral — se essas crenças influenciam a cultura intelectual ou antropológica a ponto de determinarem a orientação da História. A distinção entre a “subjectividade dos crentes”, por um lado, e a “objectividade científica” do tradutor e investigador, por outro lado, está hoje posta de lado, porque a alegada “objectividade do tradutor/investigador”, pretensamente agnóstico e neutro, não é senão outra forma (em outro nível) de subjectividade.

Em segundo lugar: quando se faz uma tradução (e, portanto, uma interpretação) há que ter em conta a diferença entre “transcrição fonémica”, que é a que transmite a percepção própria dos falantes de uma determinada língua, por um lado, e, por outro lado, a “transcrição fonética” que descreve a interpetação de um som, em detalhe, e em termos técnicos e linguísticos que os falantes dessa língua (muitas vezes) nem sequer têm consciência.

Os Antropólogos adoptaram as terminologias “-émica” e – “-ética” para distinguir o conhecimento ou a experiência dos falantes da língua em uma determinada obra a traduzir (a experiência “-émica” dos insiders da cultura antropológica), por um lado, contra conhecimento científico ou tradução de investigadores externos (no caso vertente, o Frederico Lourenço, ou o “-ético” dos outsiders), por outro lado.

Em relação à cultura bíblica (que tem cerca de dois mil anos), Frederico Lourenço é um outsider.

Este facto não constituiria nenhum problema se os leitores da tradução do Lourenço fossem capazes de distinguir entre os dois níveis de interpretação (a “-émica” e a “-ética”) — o que não me parece o caso: a tradução do Lourenço pretende contribuir (na linha ideológica do papa Chiquinho) para minar dois milénios de cultura “-émica” e antropológica da Bíblia.

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Sábado, 19 Novembro 2016

Ensinando o Pai-Nosso ao Padre jesuíta Gonçalo Portocarrero de Almada

 

“I protest against the power of mad minorities to treat the majority as if it were another minority. But still more do I protest against the conduct of the majority if it surrenders its representative right so easily”. → G. K. Chesterton


“Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa!” [Mateus, 18, 1-8]


Depois destas duas citações, vou citar o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada:

“O que é, ou não, natural tem muito que se lhe diga. Sem entrar no fundo da questão, pode-se dizer que é natural o que se observa na generalidade das pessoas e que, por isso, se atribui à natureza humana. Ora, no mundo inteiro, cerca de 97% da humanidade sente-se atraída pelo sexo oposto: pode-se dizer portanto que, em termos sociológicos, essa é a tendência mais natural, sem que o seu contrário seja anormal. Neste sentido, o celibato, que contraria uma inclinação generalizada, não é tão natural quanto o casamento, sem que por isso seja nenhuma anormalidade. Ser superdotado também não é natural, embora seja, como é óbvio, excelente”.

Ou seja, para o Padre, “há tendências mais naturais do que outras”. Naturalmente que se ele comparar o ser humano com o peixe-palhaço, chegará à conclusão de que a ideologia de género é natural.

Por outro lado, o Padre compara a “não-naturalidade” do celibato — que é um esforço que contraria o desejo de um fim próximo, em função do desejo de um fim último: ou seja, o celibato é uma virtude —, por um lado, com a “não-naturalidade da homossexualidade”, por outro lado — como se a homossexualidade fosse também uma “virtude não-natural”.


Mais adiante, o Padre escreve:

“A propósito, esclareça-se que a Igreja não reprova a tendência homossexual, nem muito menos as pessoas – algumas, por certo, católicas – que, por vezes contra a sua vontade e com grande sofrimento, se reconhecem nessa situação. O que a Igreja reprova são os comportamentos contrários ao que, segundo a Bíblia, entende ser o recto uso da sexualidade humana, sejam esses actos praticados por um homem ou uma mulher, uma pessoa solteira ou casada, com tendência homossexual ou heterossexual”.

Isto seria o mesmo que o Padre dissesse: a igreja não reprova a tendência psicopata do assassino em potência: o que a Igreja Católica reprova é o acto do homicídio”. Obviamente é falso. O Padre cai na casuística que os jesuítas inventaram e que o papa Chico utiliza de forma adestrada na destruição da doutrina católica.

A verdade, o que o Padre jesuíta Gonçalo Portocarrero de Almada escamoteia, é a seguinte: a Igreja Católica condena, em graus e termos diferentes e como é lógico, a tendência homossexual e o acto homossexual.

É falso dizer que “a Igreja não reprova a tendência homossexual”, porque isso seria afirmar que a Igreja Católica aprova o conatus gay, o que teria como consequência a impossibilidade lógica de condenar o próprio acto homossexual.

Domingo, 31 Julho 2016

Diz o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada: “Casa roubada? Porta escancarada!”

 

Sai a notícia nos jornais segundo a qual uma dúzia de portugueses foram apanhados a roubar bicicletas em Amesterdão. ¿Será que todos os portugueses na Holanda são ladrões de bicicletas? Claro que não! O bom-senso diz-nos que não devemos generalizar. Mas, se eu fosse holandês, e se me visse perante um português na rua, eu colocaria um cadeado na minha bicicleta; chama-se a isso “prudência”, que também faz parte do “bom-senso”.

Mas o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada diz que eu não tenho razão.

Sendo eu holandês, e perante um português qualquer identificado por mim na rua, diz o Padre Portocarrero de Almada que eu devo sempre confiar que esse português (que eu não conhecia) não é um ladrão de bicicletas; e por isso, perante a sua presença, eu não devo colocar o cadeado na minha bicicleta. E se eu não confiar a segurança da minha bicicleta na presença do tal português, sou um holandês xenófobo (diz o Gonçalo Portocarrero de Almada).

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O povo diz que “casa roubada, trancas à porta!”; o Padre Portocarrero de Almada diz que o povo (e eu também) é burro: o ditado deve ser alterado: “casa roubada, porta escancarada” — porque ele (o Padre) é que o licenciado em direito e filosofia; ele tem dois alvarás de inteligência. G. K. Chesterton tinha razão quando escreveu que “sem a educação e o ensino para todos, somos colocados numa situação horrível e de perigo mortífero de termos que levar a sério as pessoas cultas” (que são as tais que têm alvarás de inteligência).

Ou seja, o bom-senso é reaccionário, xenófobo, “fassista”, homofóbico, sexista, racista, etc.. E o senso comum deve ser contrário ao bom-senso; o princípio natural da auto-conservação deve ser abolido.

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Eu não vou aqui entrar na análise das comparações que o Padre Portocarrero de Almada fez entre a Jihad, por um lado, e Hitler e Mao Tsé Tung, por outro lado — porque são absurdas. Poderei fazê-lo noutro verbete, porque, como escreveu Olavo de Carvalho, “a mente humana é constituída de tal forma que o erro e a mentira podem sempre ser expressos de maneira mais sucinta do que a sua refutação. Uma única palavra falsa requer muitas para ser desmentida.”

Sábado, 4 Julho 2015

Richard Dawkins dá razão ao Padre Gonçalo Portocarrero de Almada

 

O Ludwig Krippahl diz que não tem alma. Cada um pensa de si o que quiser. Convém contudo dizer que, segundo a ontologia aristotélica que influenciou o Cristianismo, os animais têm alma, embora não tenham espírito (autoconsciência). Mas não vale a pena explicar ao Ludwig Krippahl a diferença entre alma e espírito, porque teríamos que obrigá-lo a ler Platão e Aristóteles — o que é uma maçada, convenhamos! Escreve ele:

“O ADN dá-nos uma medida conveniente de distância evolutiva e, nessa, eu e o chimpanzé estamos equidistantes da aranha. Mas não é só o ADN que sugere que o chimpanzé e eu estamos mais próximos. A nossa anatomia é semelhante mas muito diferente da da aranha e partilhamos capacidades para resolver problemas, sentir afecto, aprender, comunicar e interagir em sociedade que nos afastam a ambos da aranha.”

dawkins-and-freud-webHá problemas que uma aranha resolve que não passam pela cabeça do macaco. Cada ser vivo (cada espécie) resolve os seus problemas. O que não devemos é confundir, por exemplo, o comportamento submisso de um cão, com “afecto” (como está hoje na moda); ou não devemos confundir “instinto” e “afecto” (por exemplo, o instinto maternal, que vemos nos leões ou nos símios, mas também no ser humano), nem devemos confundir “instinto” — que é próprio de todos os animais em geral— e “intuição” que é exclusivo do ser humano.

O Ludwig Krippahl concebe apenas a forma das coisas, e ignora ostensivamente o conteúdo delas.

Do ponto de vista do conteúdo do ser (e foi isto que o Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada quis dizer), «a distância que vai do mais apto dos símios para o mais estúpido dos homens é infinitamente superior à que dista entre o mais evoluído dos primatas e o mais básico ser vivo» — exactamente porque a alma aristotélica, princípio de pensamento, privilégio e essência do Homem, dá acesso à liberdade e à moral.

O Ludwig Krippahl pensa que não: pensa ele que existe menos liberdade e menos moral numa aranha do que num símio. Para ele, um macaco tem mais liberdade e mais moral do que uma aranha. Ora, é aqui que eu divirjo dele e me aproximo do Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada: nem a aranha nem o macaco têm liberdade e moral; e por isso é que estão ambos infinitamente distantes do ser humano.


Numa entrevista a uma revista1 , foi perguntado a Richard Dawkins o seguinte: “¿O senhor pensa que o ser humano poderia superar as leis da evolução?”. E Richard Dawkins respondeu assim:

“Sim, de uma maneira limitada; no entanto, importante para nós. Embora nós sejamos seres darwinianos, podemos olhar para o futuro. Podemos perguntar-nos em que sociedade desejamos viver. É uma sociedade na qual as regras são respeitadas, independentemente da forma que assumam num determinado país. Penso que isto é algo singular, algo anti-darwiniano, algo que nunca foi observado em nenhum outro ser vivo”.

Ou seja, Richard Dawkins constatou uma evidência: não é preciso qualquer demonstração através do ADN para chegar à conclusão a que ele chegou. Quando ele diz que há “algo (no ser humano) que nunca foi observado em nenhum ser vivo”, o que ele diz, de facto, é que «a distância que vai do mais apto dos símios para o mais estúpido dos homens é infinitamente superior à que dista entre o mais evoluído dos primatas e o mais básico ser vivo».

No entanto, o Ludwig Krippahl consegue ser radicalmente mais darwinista do que o Richard Dawkins — o que é obra! Isso não tem nada a ver com darwinismo: antes tem a ver com ideologia política que levou o Ludwig Krippahl a militante do partido “Livre”.

Com esta afirmação, foi o próprio Richard Dawkins quem revelou o ponto fraco da sua argumentação radical darwinista: ou somos escravizados pelos nossos genes e/ou pelo nosso ADN, ou então temos em relação a eles a liberdade de manifestar comportamentos que permitem a sobrevivência de toda a biosfera da Terra.

É precisamente porque o ser humano está infinitamente distante dos símios e das aranhas que tem a liberdade de proteger os símios e as aranhas.


Nota
1. revista alemã “Focus”, nº 39, 1996

Sábado, 6 Junho 2015

¿Jesus Cristo é de esquerda ou de direita?

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 7:30 pm
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O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada pergunta: ¿Jesus Cristo é de esquerda ou de direita?


“Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas levá-los à perfeição.”

— Jesus Cristo, S. Mateus, 5, 17


Antes de mais teremos que saber as diferenças fundamentais entre Esquerda e Direita.

Um indivíduo de direita segue os princípios da cultura ancestral que se baseiam no conceito de “pecado original”. O ser humano é visto como um “anjo caído”, um “animal ferido” na sua origem ontológica, e o objectivo da política é o de suprir as lacunas dessa fraqueza originária humana mediante instituições fortes e que se fundamentem na herança histórica. O indivíduo de direita é um herdeiro de uma civilização, e ao mesmo tempo é o transmissor dessa civilização para as gerações futuras. Para um indivíduo de direita, a tradição é a condição do progresso.

Um indivíduo de esquerda recusa a herança da tradição porque acredita que o futuro é portador de maior felicidade e de sempre crescente liberdade, e considera o passado como limitador dessa felicidade e dessa liberdade. Por isso, para o indivíduo de esquerda, a política significa romper com a tradição em nome do progresso. Para a esquerda, o ser humano é um ser naturalmente bom (o “bom selvagem”, de Rousseau) e sem “pecado original”, que tende pelo sentido da História a um progresso em direcção à perfeição (Historicismo, e o “progresso” visto como uma lei da natureza), sendo que considera os “arcaísmos do passado” são obstáculos a ser removidos em função desse progresso rumo à perfeição do ser humano — e a política é vista como uma forma de libertação desse “passado arcaico”.

Portanto, Jesus Cristo não é de Esquerda; mas também não é da Direita neoliberal simplesmente porque o neoliberalismo não é direita: neoliberais (Locke → Hume → Carl Menger) e esquerdistas (Rousseau → Bentham → Karl Marx) são irmãos desavindos.

Segunda-feira, 1 Junho 2015

O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, e Pedro Galvão

Filed under: ética — O. Braga @ 8:34 am
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Se pudesse haver um diálogo entre Buda e Nietzsche, as formas como cada um dos dois concebia o mundo e a sociedade seriam totalmente diferentes; e embora eu estivesse mais de acordo com a mundividência de Buda, nem eu nem ninguém conseguiria provar que Buda teria razão por intermédio de argumentos do tipo usados em questões matemáticas ou científicas.

De modo semelhante, não podemos provar, por artes da matemática ou da ciência, que o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada (ou quem se lhe opõe) tem razão. Podemos concordar com Buda ou com Nietzsche, mas não simultaneamente com os dois, através da nossa sensibilidade, intuição, inteligência e capacidade de raciocínio (lógica).

Pedro Galvão começou por dizer (minuto 39) que “não é relativista”. ¿O significa “relativismo”?

O termo relativismo pode ter pelo menos três acepções:

1/ a do sofismo grego ou cepticismo, segundo a qual a verdade é relativa aos indivíduos; neste sentido, podemos aceitar que Pedro Galvão não seja relativista na medida em que ele próprio diz que procura uma verdade objectiva;

2/ relativismo etnológico e sociólogo: doutrina que, distinguindo as diferenças culturais e éticas entre as diversas sociedades, recusa-se a julgar as sociedades em função de um qualquer paradigma ético e cultural. Penso que esta acepção de relativismo também não se aplica a Pedro Galvão;

3/ o relativismo como afirmação da impossibilidade de um conhecimento absoluto dos princípios e das causas primeiras, ou seja, alegadamente é a “ciência verdadeira” que se satisfaz com o relativo e que estabelece, por observação (empirismo, pragmatismo, positivismo ), as relações entre os fenómenos. O positivismo e o utilitarismo têm origem comum.

É no sentido 3/ que Pedro Galvão é objectivamente relativista; e por isso o Padre tem razão quanto implicitamente lhe chamou de “relativista”. E assim como não podemos fazer prova, através de equações matemáticas e/ou através de teorias científicas, que o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada tem razão — também o relativismo cientificista do Pedro Galvão não pode ser usado legitimamente para defender uma teoria ética.

A premissa relativista de Pedro Galvão consiste na negação do absoluto (ou pelo menos a omissão dele, o que vai dar no mesmo): “se não é possível conhecer o absoluto”, pensará Pedro Galvão, “não vale a pena falar dele nem considerá-lo na teoria ética”. Isto é positivismo aplicado à ética.

Embora não possamos conhecer o conteúdo do absoluto, podemos, através da inteligência, da intuição e da lógica, detectar-lhe a forma — assim como, se olharmos para a linha do horizonte, podemos intuitivamente saber que existe “algo” para além dela. Se não existe nenhuma possibilidade de enraizar a ética no absoluto, todas as reflexões são inúteis e a lógica não existe.

A partir do momento em que Pedro Galvão nega o absoluto, navega em águas turvas, porque não há possibilidade do relativo sem uma relação lógica com um absoluto, mesmo que hipotético. E por isso é a ética de Pedro Galvão é inconsistente, relativista, ziguezagueante e sem razões.

(vídeo via).

Sexta-feira, 8 Maio 2015

O aborto de um feto de cinco meses e a irracionalidade das elites

Filed under: ética,Portugal — O. Braga @ 8:40 pm
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“Na realidade, havia outras hipóteses, não tão gravosas do ponto de vista ético e igualmente exequíveis: pelo menos uma instituição de solidariedade social ofereceu-se, em tempo útil, para receber a mãe violada e o respectivo filho.”

No rescaldo da polémica (pelo Padre Gonçalo Portocarrero de Almada)

Mesmo que não se quisesse levar a gravidez até ao seu fim alegando a “saúde psíquica da mãe”, abriram cirurgicamente a mãe-criança de 12 anos para abortar o feto de 5 meses de gestação; ¿por que razão não a abriram duas semanas depois para manter o feto vivo em uma incubadora, uma vez que o feto, com 24 semanas de gestação, já tinha pelo menos 50% de possibilidade de sobrevivência? (para depois dar a criança nascida para adopção). ¿Por que é que não se fez um esforço para salvar o nascituro e simultaneamente “defender a saúde psíquica” da mãe-criança?

A resposta só pode ser uma: a urgência da afirmação política — das elites em relação à cultura antropológica — de que o mal deve prevalecer.

Aqui, neste caso, o mal deve ser entendido como a negação irracional da excepcionalidade da vida humana defendida por todas as religiões universais, a ver: Budismo, Hinduísmo, Islão, Judaísmo, Cristianismo, Siquismo, Bahá’ís.

nascituro-5mesesO acto de abortar um feto de 5 meses foi um acto gratuito perpetrado por uma elite que funciona em roda livre e sem censura legal, afirmando na sociedade uma liberdade total contra toda a moral e mesmo contra a Razão.

As elites de uma sociedade procederão melhor quando dependam de uma população virtuosa, do que de uma indiferente a considerações morais — assim como serão melhores em uma comunidade onde os seus crimes possam ser vastamente conhecidos do que em outra onde as elites controlem uma censura estrita.

Ora, vivemos em uma sociedade em que um primeiro-ministro (José Sócrates) andou anos a fio a roubar o Estado sem que o povo soubesse, e foi preciso um juiz corajoso e católico para que o caso fosse levado à justiça.

É neste país que um feto de 5 meses é morto ainda que pudesse ser colocado em uma incubadora duas semanas depois e salva a sua vida. Trata-se da afirmação positiva da banalidade do mal, em uma sociedade em que a população deixou de ser virtuosa e merece não só o José Sócrates como primeiro-ministro, como tudo o mais que vier por aí.

O mal, através das elites que temos, instalou-se na sociedade portuguesa e sente-se perfeitamente à vontade. Parece que é imparável. Parece que ninguém o detém. Parece invencível, como os dinossauros desaparecidos.

Sábado, 18 Abril 2015

O "papa Francisco" e o genocídio arménio

 

Convém lembrar o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada que, muito antes do “papa Francisco”, já o Papa João Paulo II (por exemplo) tinha criticado publicamente o genocídio arménio.

O “papa Francisco” não fez nada de extraordinário; mas a adulação do “papa Francisco” é de tal forma que o passado da Igreja Católica — principalmente o bom passado — deixou de existir.

Segunda-feira, 16 Março 2015

Quando alguém fala em um “mundo melhor”, dou logo “corda aos sapatos”

 

Quando eu ouço falar em “um mundo melhor”, fico logo arrepiado e mal-disposto. Foi em nome de um “mundo melhor” que surgiram os Gulag comunistas e os campos de concentração nazis. Em nome de “um mundo melhor” o regime maoísta eliminou dezenas de milhões de pessoas. A ideia de um “mundo melhor” causa-me urticária, fico com os cabelos em pé.

O Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada fala aqui implicitamente de um “mundo melhor”, na linha do “papa Francisco” que também defende um “mundo melhor”. Só falta ao Padre anunciar a Era do Espírito Santo, tal como previsto pelo anacoreta Joaquim de Fiore.

O Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada diz implicitamente que Santo Agostinho não tinha razão quando escreveu a “Cidade de Deus”, em que se fez a distinção entre as Duas Igrejas: a terrena e a divina. O Padre quer a Igreja divina aqui e agora, na Terra; o tal “mundo melhor”. Só falta ao Padre erradicar a doutrina do pecado original, de Santo Agostinho — mas já estivemos mais longe: o “papa Francisco” encarregar-se-á de transformar o Santo Agostinho no próprio diabo.

Um dia destes, quando olharmos para a Igreja Católica, chegaremos à  conclusão de que ela começou com o “papa Francisco”. Em nome de um “mundo melhor”, o passado da Igreja Católica irá ser apagado e S. Paulo transformado no anticristo.

Sábado, 24 Janeiro 2015

O D. Quixote de Almada e o Sancho Domingues

quixoteO Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada faz lembrar aqueles marxistas (isto é uma analogia, e não uma comparação)  — por exemplo, Raquel Varela — que dizem que “o mal não está no marxismo, mas antes está no estalinismo, no maoísmo, no castrismo, etc.”, e que “o marxismo não tem nada a ver com essas experiências históricas”: é um estado de negação que tem em vista contornar uma dissonância cognitiva imposta pela realidade — como se uma teoria não tivesse que se reflectir na prática e na experiência.

Quem pensa como esses marxistas entra em contradição com o próprio princípio “científico” atribuído por eles ao marxismo, na medida em que um dos princípios fundamentais da ciência é o de que a experimentação (ou experiência) deve corroborar a teoria.

O Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada é hábil no discurso; o curso de Direito fez-lhe bem. O Padre faz também lembrar um outro Marx, o Groucho, quando perguntava: “¿Acreditas naquilo que os teus olhos mentirosos vêem, ou acreditas naquilo que eu te digo?”

Perante os dislates do papa Bergoglio, o Padre saiu a terreiro, tal D. Quixote montado no seu cavalo Rocinante, em defesa da camponesa que ele idealiza como uma nobre princesa a que o verdadeiro D. Quixote chamava de “Dulcineia del Toboso”.

O Sancho Pança é o Frei Bento Domingues. Temos, portanto, a “Francisca del Toboso”.

Tratando-se de uma sensível, pura, bela e nobre donzela, “Francisca del Toboso” é sempre mal interpretada pelo mundo que não consegue perceber a candura e a poesia das suas palavras. Trata-se de um mundo mau que não consegue captar a pureza sublime das intenções de tão nobre alma. Portanto, o mal não está na nobre “Francisca del Toboso”, mas antes o mal está nos moinhos de vento que é preciso combater.

Sábado, 3 Janeiro 2015

Mais uma vez em desacordo com o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 3:14 pm
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S. Paulo dizia que, se um cristão estivesse casado com uma mulher pagã, e que se esta se divorciasse daquele, o cristão estaria livre para se casar novamente, e à luz da Igreja de Cristo, com uma cristã. Mas, por outro  lado, S. Paulo não concebia o divórcio entre cristãos: o divórcio era “uma coisa de pagãos” que a Igreja deveria aceitar porque existia.

Note-se que, no tempo de S. Paulo, não havia notários para fazer os registos de casamento: o casamento era aceite pela sociedade como válido apenas mediante testemunhas de familiares e amigos. Isto significa que, na cultura romana pagã, o casamento tinha uma “função”. E S. Paulo, na linha de Jesus Cristo, concebia o casamento como um “sentido”.

Existe uma diferença entre o conceito de “função” e o conceito de “sentido”.

Se o casamento é uma parte que se relaciona com o Todo social, então o casamento desempenha uma função. Se o casamento se relaciona com o Todo e em relação ao qual a nossa sociedade constitui apenas uma parte, então o casamento cumpre um sentido.

O casamento como sentido era o conceito de Jesus Cristo e de S. Paulo. O casamento como função é o conceito do papa Bergoglio e, pelo que se entende, do Padre Gonçalo Portocarrero de Almada.

Portanto, e ao contrário do que escreve o Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada, quem defende o casamento como “sentido” não é um “imobilista” — assim como quem diz que “a lógica evolui” está errado; a lógica não evolui. O que estamos é a falar de conceitos diferentes de casamento: o Padre e o papa defendem a função, e a doutrina da Igreja Católica defende o sentido.

Domingo, 21 Dezembro 2014

Tenho muita pena, mas não concordo com o Padre

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 7:22 am
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“Representação” não é a mesma coisa que “hipóstase”.

“Representar”  — não no sentido psicológico, mas no sentido jurídico ou pessoal — significa “assegurar a presença, por substituição, de alguém, que pode estar ausente ou não”.

Por exemplo, um advogado “representa” o arguido não obstante este esteja também presente no tribunal. A representação não significa necessariamente que o representado esteja ausente. O sacerdote, por maioria de razão, mas o cristão também, é um representante de Jesus Cristo.

O conceito de “hipóstase”, no sentido grego, designa uma personificação inferior de uma divindade mais importante.

Por exemplo, a ninfa Calisto era considerada uma simples hipóstase da deusa Artemisa. [Os primeiros padres — Patrística — recuperaram este conceito grego e passaram a designar como “hipóstases” as três pessoas da Santíssima Trindade]


O Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada mistura aqui “representação” e “hipóstase”.

“Pelo Baptismo adquire-se uma verdadeira e real configuração com Nosso Senhor, ou seja, uma autêntica participação na sua filiação divina.

Contudo, o sacramento da ordem habilita o fiel para ser não apenas outro Cristo, mas o mesmo Cristo, na medida em que, por efeito dessa graça, adquire a capacidade de agir em nome de Jesus, isto é, como se fosse Ele próprio.

Por isso, quando um presbítero consagra o pão e o vinho, transformando-os, respectivamente, no Corpo e Sangue de Deus, ou perdoa os pecados, proferindo a fórmula da absolvição sacramental, não o faz em seu nome pessoal, em cujo caso nada aconteceria, mas enquanto é, nesse acto, Cristo, a quem não só representa como também personaliza.”

O sacerdote não é uma hipóstase de Jesus Cristo: apenas O representa.

E essa representação dá-lhe os poderes que o representado (Jesus Cristo) lhe outorga. O sacerdote é o “meio” através do qual Jesus Cristo é representado — mas não é uma personificação de Jesus Cristo (hipóstase).

Quando representamos alguém, não o fazemos em nosso nome pessoal (defendendo os nossos interesses), mas antes defendemos os interesses do representado. Mas isso não significa que o representante assuma uma personificação — ou personalização — do representado. Na Eucaristia, é Jesus Cristo que está presente (espiritualmente), e por isso não necessita de ser personalizado na figura do sacerdote que apenas O representa.

Uma vez que o sacerdote (mas também um qualquer cristão) não pode ser uma hipóstase de Jesus Cristo mas apenas O representa — o sacerdote com uma representação especial, é bem verdade!, porque o sacerdote é um apóstolo de Jesus Cristo  —, é impossível a qualquer cristão (incluindo os sacerdotes) agir como o próprio Jesus Cristo.

“Agir em nome de alguém” não é a mesma coisa que “agir do mesmo modo de alguém” — não só porque a acção de Jesus Cristo é ontologicamente irrepetível, mas também porque estamos a falar de um ser divino e cuja divindade não se estende à humanidade em geral. Haverá alguns sacerdotes, como por exemplo o Padre Pio, que se aproximam do modo de agir de Jesus Cristo, mas essa aproximação não significa uma “personalização” de Jesus Cristo (hipóstase).

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