perspectivas

Quarta-feira, 13 Janeiro 2016

Cátaros, albigenses e valdenses eram seitas gnósticas

 

O problema da narrativa histórica é o de que depende da interpretação dos factos, e não dos factos em si mesmos; ou melhor dizendo, os factos documentados apenas servem para fundamentar uma qualquer interpretação deles. Os historiadores contam uma história que não tem necessariamente uma relação causal e, sobretudo, não vai à essência dos factos.

Temos aqui uma narrativa histórica acerca dos cátaros, albigenses e valdenses; os factos citados (datas, eventos, nomes de pessoas) correspondem, grosso modo, à verdade histórica. Mas o erro da narrativa está na essência: parte-se do princípio (na narrativa) de que as seitas da Antiguidade Tardia que deram origem aos cátaros, albigenses e valdenses, eram cristãs — o que é absolutamente falso.

O problema dos historiadores em geral é o de não terem estudado suficientemente filosofia. Afirmar que as seitas gnósticas da Antiguidade Tardia eram cristãs, é um erro de palmatória.

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Sexta-feira, 6 Novembro 2015

O José Pacheco Pereira e o conceito marxista cultural de “tolerância repressiva”

 

« Doutor Pacheco Pereira, ouvi-o há pouco na Quadratura do Círculo em choque com a linguagem vernacular usada para descrever a sacrossanta esquerda, área conhecida pelo rol de intelectuais com eloquência para arrasar com os calceteiros da direita, essa cambada de incultos para com as bondades virginais das soluções que a esquerda una tem para o nosso santo país. Estou solidário com esta denúncia e gostaria de expressar que a culpa é de quem lançou o “manso é a tua tia” para a discussão parlamentar: desde então tem sido esta desgraça. Uma pessoa vai ao talho e ouve coisas terríveis sobre a mãe do António Costa, coitada; ouvem-se até coisas sobre si, doutor Pacheco Pereira, mas não tantas como sobre o doutor Costa, admito, para mágoa de ambos.

Sinceramente, eu metia-os a todos no Campo Pequeno, que era para aprenderem a escrever nos blogues de acordo com o códice de Abrantes: porque desde Abrantes ninguém escreve como dantes.»

Bandalhos, não sejam malcriados, seus estupores

Eu já não vejo o programa Quadratura do Círculo, porque com a chegada do Jorge Coelho aquilo parece um monólogo de um surdo. Deviam colocar os discursos do Jorge Coelho nas celas solitárias das prisões.

jpp-marxMas, por aquilo que conheço do José Pacheco Pereira, acredito que ele esteja “em choque com a linguagem vernacular usada pela direita para descrever a sacrossanta esquerda” — até porque o vernáculo, alegadamente, não faz parte da língua portuguesa: por isso é que ele não o utiliza, porque ele tem à Esquerda quem o faça por ele.

O princípio que orienta o José Pacheco Pereira é o da tolerância repressiva segundo o marxista Herbert Marcuse: “tudo o que vem da Esquerda é bom (incluindo a linguagem vernacular); e tudo o que vem da Direita é mau (mesmo que não seja vernáculo)”.

A tolerância em relação à Esquerda desculpa tudo, até a violência dita “revolucionária” (“coitadinho do crucudilú!”), e a intolerância em relação à Direita assenta na oposição violenta em relação às instituições da civilização e à oposição ao socialismo.

A liberdade de expressão (segundo o conceito de tolerância repressiva) não é coisa boa porque permite a propagação do erro — Marcuse e o José Pacheco Pereira têm o monopólio da verdade; e acreditam que o “telos” da tolerância é a verdade (deles): a minoria revolucionária (os Pneumáticos modernos) é dona da verdade, e a maioria da população (os Hílicos modernos) tem que ser libertada do erro e reeducados na senda da verdade pelos novos Pneumáticos. A minoria revolucionária tem o direito natural de reprimir as opiniões da maioria que causam danos.

Quando o José Pacheco Pereira não tem razão, não discute as ideias: prefere sublinhar a “linguagem vernacular” dos novos Hílicos que têm que ser reeducados na senda da verdade.

Terça-feira, 3 Novembro 2015

O gnosticismo de Frei Bento Domingues

 

“Alguns leitores reagindo ao meu texto do domingo passado, disseram-me: se o panorama da família em desconstrução e reconstrução é tão caótico, como poderão as famílias agrupar-se para evangelizar, encher de alegria, antigos e novos projectos familiares?

Podem. Com diferentes configurações, existem, por todo o mundo, milhões de famílias que o amor reuniu – de avós a netos – que sem alarido, já vivem antigos e novos processos de alimentar e renovar a esperança das futuras gerações. Por outro lado, a graça do Evangelho não contraria os trabalhos escondidos da natureza e da cultura, como certa apologética pouco católica, ignorante e sectária, insiste em proclamar”.

Frei Bento Domingues : Que temos nós a ver com os migrantes?


Ao contrário do que o Frei Bento Domingues declara sobre quem não concorda com ele, eu não considero que o Frei Bento Domingues seja ignorante; de ignorante, ele tem pouco. O ignorante não age com dolo, exactamente porque ignora.

Em contraponto, a perversidade não é ignorante, porque a intencionalidade do perverso revela-se nas suas ideias e acções — ao passo que o ignorante não age em função de uma causa. O moto do ignorante é a doxa, ao passo que o do perverso é a manipulação e adulteração do episteme.

Uma das características marcantes do politicamente correcto  é o de rotular de “ignorante” toda a gente que tenha ideias diferentes da norma politicamente correcta. ¿Não concordas com o “casamento” gay? Então és ignorante!. ¿Não concordas com as “famílias arco-íris”? Então és ignorante!. E por aí afora. O Frei Bento Domingues enquadra-se perfeitamente no espírito da Esquerda politicamente correcta mais radical. O mais que poderei dizer de Frei Bento Domingues é que ele parece ser psicótico; mas nunca “ignorante”.


Repare-se no trecho supracitado de Frei Bento Domingues. ¿O que é que ele quer dizer com “com diferentes configurações, existem, por todo o mundo, milhões de famílias que o amor reuniu”? ¿Refere-se ele (Frei Bento Domingues), por exemplo, às famílias poligâmicas que prevalecem no Islão? ¿Frei Bento Domingues avaliza a poligamia? Ele não o diz explicitamente. Mas ¿será que a poligamia vai ao encontro do critério do “amor” que o Frei Bento Domingues refere? ¿Será que, em nome de um pretenso “amor”, vale tudo?

¿E o que é que o Frei Bento Domingues quer dizer com “a graça do Evangelho não contraria os trabalhos escondidos da natureza e da cultura”? ¿Será que, na opinião do Frei Bento Domingues, a Natureza determina a ética e a moral? O Frei Bento Domingues não diz quase nada de concreto: em vez disso, “atira umas coisas para o ar”. A ambiguidade é uma característica do perverso.

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Segunda-feira, 22 Junho 2015

Pequeno diálogo entre Sócrates e Nietzsche

Filed under: filosofia — O. Braga @ 3:10 am
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Sócrates – Nietzsche, você que é um literato, e diz que estudou a retórica e a linguagem, diga-me: ¿o que é a “verdade”?

Nietzsche – A verdade é um exército móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos, em suma, um conjunto de relações humanas que foram poética- e retoricamente consagradas, transpostas e ornadas, e que, no termo de um longo uso, parecem firmes a um povo, canónicas e obrigatórias. As verdades são ilusões que esquecemos que o são, metáforas que perderam a sua força sensível, moedas que perderam o seu cunho e passam a ser consideradas, não moedas, mas metal.1

Sócrates – ¿E será que a sua definição de “verdade” é verdadeira?

Nietzsche – Sem dúvida alguma! A “verdade”, para o comum dos mortais, é conforme a acabei de definir.

Sócrates — Mas os critérios dessa definição de “verdade”, ¿também não se aplicam à sua “verdade”?

Nietzsche – Claro que não! Eu não sou um mortal comum: sou um super-homem.


Nota
1. Definição retirada do ensaio de Nietzsche “Da Verdade e da Mentira na acepção extra-moral”.

Domingo, 17 Maio 2015

A religião gnóstica do esquerdalho

 

“The trend of politics in the Western nations since Eric Voegelin’s death in 1986 has made his work increasingly relevant to any philosophically rigorous Conservatism or Traditionalism. In particular, Voegelin’s argument that liberalism and its Leftwing metastases constitute an evangelical religious movement, mimicking and distorting Christianity, has gained currency.

The pronounced irrational character of the “Global Warming” cult and the obvious messianism of Barack Hussein Obama’s presidency have together sharpened the perception that contemporary Leftwing politics shares with history’s specimen-type doctrinally intransigent sects an absolute intolerance for dissent, even for discussion, along with a conviction of perfect certainty in all things.

The sudden experience of Leftwing triumph attests that, indeed, utopian radicalism draws its strength from a deep well of resentment that puts it in conflict, not merely with those whom it regards as heterodox, but also with the unalterable structure of reality.”

Plotinus and Augustine on Gnosticism (Thomas F. Bertonneau )

Quando vemos e ouvimos o esquerdalho na voz, por exemplo, de Ricardo Araújo Pereira ou do Nuno Markl, ou ainda muitas das opiniões ditas “científicas” auto-contraditórias do blogue Rerum Natura — não nos devemos esquecer que essas opiniões são guiadas por uma espécie de religião cuja ortodoxia não admite qualquer dissensão; e, como diz Thomas F. Bertonneau, esse tipo de religião política traduz um ressentimento em relação à inalterável estrutura da realidade.

esquerdalho-webConforme demonstrado por Eric Voegelin, e que Thomas F. Bertonneau sublinha, a rebelião do esquerdalho — que inclui o marxismo e o nazismo — contra a realidade é uma aflição recorrente da vida civilizada, tendo embora como paradigma as seitas gnósticas anti-cósmicas da Antiguidade Tardia. Hoje, o esquerdalho reduz o universo inteiro ao mundo sub-lunar limitado pelos satélites artificiais, o que é uma característica moderna da posição anti-cósmica dos gnósticos antigos. O culto religioso do Aquecimento Global e/ou o culto neolítico moderno e ctónico da Mãe-terra traduzem a redução contemporânea do conceito de “universo” ao mundo sub-lunar.

Quando verificamos que a juventude portuguesa maioritariamente não se interessa pela política, constatamos que o que se passa é uma indiferença em relação às seitas religiosas puritanas, ortodoxas, intolerantes e contemporâneas que em conjunto coordenam a política: o esquerdalho.

É possível que surja na Europa um cepticismo profundo em relação à política, assim como aconteceu um cepticismo profundo em relação às seitas religiosas puritanas depois de Cromwell ter assumido o Poder em Inglaterra, cepticismo esse manifesto no golpe-de-estado inglês de 1688 e na posterior filosofia política de Locke.

O que está em causa hoje é a forma como a política é dogmaticamente concebida, e como o escrutínio político é realizado obedecendo sobretudo à vontade das elites gnósticas contemporâneas (o esquerdalho) através da manipulação dos me®dia e da imposição totalitária de uma espiral do silêncio.

Terça-feira, 24 Fevereiro 2015

Os gnósticos modernos

 

A Gnose foi um movimento religioso da Antiguidade Tardia que teve as suas raízes em uma visão dualista (dualismo ontológico, e não propriamente um dualismo cartesiano) proveniente do Oriente [por exemplo, do Parsismo e do Maniqueísmo], e de acordo com a qual existe uma contradição entre o espírito e a matéria, bem e mal, luz e trevas. Os primeiros textos gnósticos datam do século II d.C.; as suas origens são obscuras; mas, provavelmente, a Gnose desenvolveu-se, no império romano, paralelamente ao Cristianismo e como uma grandeza religiosa independente.

(texto longo, com 1900 palavras)

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Segunda-feira, 7 Outubro 2013

A influência da Cabala cristã no Iluminismo e no idealismo filosófico

 

"When Lucifer by his Rebellion had brought the whole Extent of his Kingdom into such a desolate Condition, that it was, as Moses describes it, without Form and Void, and Darkness was upon the Face of the Deep, that whole Region was justly taken away from under his Dominion, and transformed into such another meaner and temporary Condition, that it could no more be of any use to him.

And when this was fully settled in Six Days Time, according to the Six Active Spirits of the Eternal Nature, so that it needed nothing more but a Prince and Ruler, instead of him who had forsaken his Habitation in the Light, ADAM was created in the Image and Likeness of GOD, an Epitome, or Compendium, of the whole Universe, by the VERBUM FIAT, which was the Eternal Word, in Conjunction with the first Astringent Fountain-Spirit of Eternal Nature."

Jacob Böhme (texto respigado no FaceBook)

As ideias de Jacob Böhme inspiraram os filósofos do Iluminismo em geral, mas principalmente Schelling que, por usa vez, esteve directamente na base das ideias de Hegel. Böhme foi um ilustre representante da “Cabala cristã” — em contraponto à Cabala propriamente dita — que alimentou também as ideias de uma certa maçonaria (não toda!) e os rosa-cruzes (uma maçonaria cristã, e por isso, anti-luciferina, embora imanente e maniqueísta: maçonaria essa que praticamente já não existe).

Vemos aqui como Jacob Böhme vê o ser humano, não como um produto da Queda, mas como um símbolo do Bem e de Deus (imagem prometaica). A Queda do ser humano é implícita e sub-repticiamente negada. Em vez disso, o ser humano foi criado em uma situação de contraste com a Queda de Lúcifer — sendo que a Lúcifer lhe foi retirado o seu reino em função da sua Queda. Segundo esta perspectiva, a Queda é a de Lúcifer, e não do ser humano.

Esta visão é anticatólica e mesmo anticristã, embora travestida de Cristianismo. É uma visão gnóstica, que está na origem da mente revolucionária.

Segunda-feira, 18 Fevereiro 2013

A maçonaria e o movimento revolucionário

Filed under: gnosticismo,Maçonaria — O. Braga @ 8:15 pm
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James H. Billington characterized the Cercle Social as “nothing less than the prototype of a modern revolutionary movement” (44); while Karl Marx and Friedrich Engels, in 1844, had opined that “the revolutionary movement… began in 1789 in the Cercle Social [itself].”

via Militant Masonry: Amis de la Vérité, Buonarroti Masters and French Carbonari (Part 1 of 2).

Quarta-feira, 20 Abril 2011

O determinismo protestante e a liberdade católica (3)

Antero de Quental atacou a Igreja Católica com violência e brutalidade inauditas, responsabilizando o catolicismo por aquilo a que ele chamou de “atraso” por parte da Europa do sul em relação à Europa do norte. Deveria ser permitido a Quental ver a Europa actual, e verificar que os eventuais avanços em algumas áreas da sociedade implicaram necessariamente o retrocesso em outras áreas. Sob ponto de vista humano, a Europa retrocedeu e muito; a Europa sacrificou o valor das relações humanas em favor do chamado “progresso protestante do dever social” que evoluiu paulatinamente, e desde a Reforma, para uma espécie de “Estado do Sol” de Campanella.
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Sexta-feira, 21 Janeiro 2011

A nova barbárie política e o Novo Totalitarismo

Um blogue que deve ser seguido quase como uma obrigação, é o blogue das Famílias Portuguesas. Nele, aconselho a leitura de um artigo com título “O Inimputável”.

«A família transmite princípios, valores e directrizes morais que os defensores da modernidade abominam. Com efeito, é através da família que é imprimida na mente e no coração dos jovens uma ideia insubstituível e estruturante: a estabilidade.»

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Sexta-feira, 24 Dezembro 2010

Sobre a crítica presentista à Idade Média

O discurso anti-medieval é auto-contraditório.

Por um lado, critica-se, tout cours, a acção do Homem na História e, mais grave, analisa-se a história medieval à luz da situação contemporânea (falácia lógica de Parménides).
Por outro lado — e ao mesmo tempo que se critica a acção do Homem na História — adopta-se o princípio epicurista de retirar (de uma forma exclusivista) as conclusões teóricas, da prática, ou seja, a teoria é vista apenas e só como uma ilação da praxis.

Estas duas posições acima referidas, quando assumidas simultaneamente, são contraditórias: eu não devo criticar a acção do Homem na História ao mesmo tempo que retiro — de uma forma exclusivista — da acção do Homem a teoria que me move. A primeira situação (criticar a acção do Homem na História) pressupõe uma teoria prévia à acção e a liberdade da análise teórica; a segunda situação (retirar, de uma forma exclusivista, as conclusões teóricas, da prática) impõe a ditadura da acção (a ditadura da praxis) sobre a teoria.

Nota: quem critica — de uma forma irracional e presentista — a Idade Média, deseja instalar hoje uma Idade Me®dia.

Terça-feira, 5 Outubro 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (13)

Em um série de postais sobre o gnosticismo moderno, defendi aqui a tese (com o título genérico “A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna”) segundo a qual o gnosticismo (tanto o da antiguidade tardia como o moderno) tem como característica um gene recessivo cultural do paleolítico superior e do neolítico das religiosidades da Mãe-Terra. Isto significa que em termos culturais e religiosos, o gnosticismo atira a sociedade moderna para uma espiritualidade paleolítica.

Nem de propósito, fiquei a saber que o governo inglês reconheceu o druidismo — que como se sabe, é uma religiosidade da Mãe-Terra característica do paleolítico superior e do neolítico — como sendo uma religião comparável não só às religiões superiores da História como equivalente às religiões universais (Budismo, Hinduísmo, Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, etc.).

Para quem dizia que eu era maluco quando escrevi essa série de postais, aqui fica a prova provada de que nem sempre quem tem razão é maluco.

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