perspectivas

Domingo, 7 Fevereiro 2016

O desconstrucionismo evangélico do Frei Bento Domingues

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 2:16 pm
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O Frei Bento Domingues pega em um trecho do Evangelho de S. Lucas (4,16 a 4,29), elimina a maior parte do texto e reinterpreta o restante (o que ele citou) a seu bel-prazer.

O problema não está na interpretação, entendida em si mesma, que pode ser discutida; o problema é o recorte “à medida” do texto, para que sirva um propósito ideológico distinto daquele que está plasmado no texto original.

O texto completo (de 16 a 29) retrata a psicologia da rejeição, que existe e existiu em todas as épocas desde que o ser humano apareceu à face da Terra, e que é confirmada pela experiência: “ninguém é profeta na sua terra”.

O conceito de “transformação da realidade”, utilizado pelo Frei Bento Domingues no texto dele, supõe o conceito de “fé metastática”, que é a crença segundo a qual é possível mudar a natureza fundamental da realidade. Ao contrário do que defende Frei Bento Domingues, Jesus Cristo nunca defendeu a crença em uma repentina transfiguração da estrutura da realidade e na subsequente emergência de uma ordem paradisíaca no planeta Terra. “O meu reino não é deste mundo”, disse Jesus Cristo; mas o Frei Bento Domingues teima em transformar o mundo, no reino Dele (a imanentização do éschatos)

É certo que o Cristianismo operou uma diferenciação cultural, em relação ao status quo anterior.

Mas essa diferenciação cultural não se baseou em uma “transformação da realidade” — como diz o Frei Bento Domingues —, mas antes baseou-se na afirmação da realidade, em um reconhecimento da existência de uma determinada realidade concreta. Ao contrário do que acontece com a interpretação feita pelo Frei Bento Domingues, a mensagem de Jesus Cristo não era utópica, mas antes era (e é) baseada no concreto, na realidade tal qual ela se nos apresenta: por isso é que Ele resgatou o papel da mulher na sociedade, por exemplo.

Não obstante ter resgatado a mulher, Jesus Cristo não considerou que os papéis do homem e da mulher fossem intermutáveis, dentro e fora da Igreja ou da religião — como defende utopicamente o Frei Bento Domingues —, exactamente porque o desígnio de Jesus Cristo não era utópico: Ele tinha a noção perfeita da realidade em que o ser humano está inserido.

Quarta-feira, 30 Dezembro 2015

O Cristianismo não é a “religião do livro”

 

O Frei Bento Domingues faz aqui uma confusão (propositada), como se todos os livros do Antigo Testamento tivessem sido escritos pela mesma pessoa e na mesma época. Ele vê no Antigo Testamento uma lógica sequencial histórica — o que é próprio do Historicismo. Mas a verdade é que, por exemplo, o livro do Génesis não tem nada a ver com o do Deuteronómio, ou seja, não existe uma relação lógica directa entre os dois livros.

Naturalmente que esta confusão é propositada. A prova disso foi o aproveitamento (ignorante) de Francisco Louçã do texto de Frei Bento Domingues. Les bons esprits se rencontrent…

Francisco Louçã, tirando partido da confusão propositada de Frei Bento Domingues, parte da premissa segundo a qual o Antigo Testamento é o livro fundamental dos cristãos. Frei Bento Domingues sabe que não é, e por isso é que ele fala em Iaveísmo, e não em Cristianismo.

Estas “confusões” fazem parte da estratégia ideológica que tem como objectivo nivelar todas as religiões, medindo-as pela mesma bitola. A pergunta que Francisco Louçã e Frei Bento Domingues implicitamente fazem é a seguinte:

“Se o Antigo Testamento também apela ao assassínio, ¿como é que os católicos se distinguem dos muçulmanos?”

A pergunta invoca uma falácia do espantalho.

É que há aqui um detalhe que ambos escamoteiam (um de propósito, e outro por ignorância) : o Antigo Testamento não é o livro fundamental do Cristianismo. Aliás, o Cristianismo não é a “religião do livro”: é a “religião da palavra”.

A “religião do livro” é o Islamismo (Alcorão). E o Judaísmo é a “religião da lei” (Deuteronómio). O Cristianismo é a “religião da palavra” (“No Princípio, era o Verbo” — Evangelho de S. João, 1).

Domingo, 20 Dezembro 2015

A religião completa e acabada

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 1:37 pm
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Não existe uma “religião completa”, ou uma “religião total”, porque a capacidade do ser humano de perceber ou compreender a Realidade é incompleta. Por isso, o Cristianismo, ou melhor, o catolicismo não é uma religião completa. Mas existem religiões que integram em si mesmas conceitos mais ricos e mais complexos do que em outras religiões; por isso é falso que se diga que todas as religiões são equivalentes, e muito mais falso é que se diga que são todas semelhantes.

Embora nenhuma religião seja completa ou total, o catolicismo integra em si mesmo a maior complexidade conceptual entre todas as religiões.

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Terça-feira, 3 Novembro 2015

O gnosticismo de Frei Bento Domingues

 

“Alguns leitores reagindo ao meu texto do domingo passado, disseram-me: se o panorama da família em desconstrução e reconstrução é tão caótico, como poderão as famílias agrupar-se para evangelizar, encher de alegria, antigos e novos projectos familiares?

Podem. Com diferentes configurações, existem, por todo o mundo, milhões de famílias que o amor reuniu – de avós a netos – que sem alarido, já vivem antigos e novos processos de alimentar e renovar a esperança das futuras gerações. Por outro lado, a graça do Evangelho não contraria os trabalhos escondidos da natureza e da cultura, como certa apologética pouco católica, ignorante e sectária, insiste em proclamar”.

Frei Bento Domingues : Que temos nós a ver com os migrantes?


Ao contrário do que o Frei Bento Domingues declara sobre quem não concorda com ele, eu não considero que o Frei Bento Domingues seja ignorante; de ignorante, ele tem pouco. O ignorante não age com dolo, exactamente porque ignora.

Em contraponto, a perversidade não é ignorante, porque a intencionalidade do perverso revela-se nas suas ideias e acções — ao passo que o ignorante não age em função de uma causa. O moto do ignorante é a doxa, ao passo que o do perverso é a manipulação e adulteração do episteme.

Uma das características marcantes do politicamente correcto  é o de rotular de “ignorante” toda a gente que tenha ideias diferentes da norma politicamente correcta. ¿Não concordas com o “casamento” gay? Então és ignorante!. ¿Não concordas com as “famílias arco-íris”? Então és ignorante!. E por aí afora. O Frei Bento Domingues enquadra-se perfeitamente no espírito da Esquerda politicamente correcta mais radical. O mais que poderei dizer de Frei Bento Domingues é que ele parece ser psicótico; mas nunca “ignorante”.


Repare-se no trecho supracitado de Frei Bento Domingues. ¿O que é que ele quer dizer com “com diferentes configurações, existem, por todo o mundo, milhões de famílias que o amor reuniu”? ¿Refere-se ele (Frei Bento Domingues), por exemplo, às famílias poligâmicas que prevalecem no Islão? ¿Frei Bento Domingues avaliza a poligamia? Ele não o diz explicitamente. Mas ¿será que a poligamia vai ao encontro do critério do “amor” que o Frei Bento Domingues refere? ¿Será que, em nome de um pretenso “amor”, vale tudo?

¿E o que é que o Frei Bento Domingues quer dizer com “a graça do Evangelho não contraria os trabalhos escondidos da natureza e da cultura”? ¿Será que, na opinião do Frei Bento Domingues, a Natureza determina a ética e a moral? O Frei Bento Domingues não diz quase nada de concreto: em vez disso, “atira umas coisas para o ar”. A ambiguidade é uma característica do perverso.

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Segunda-feira, 26 Outubro 2015

O Frei Bento Domingues e os vários tipos de família

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 9:08 am
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BD sínodo 2 progressoO Frei Bento Domingues escreve um artigo no jornal Público de 25 de Outubro com o título “Sínodo das famílias ou dos bispos?”. Frei Bento Domingues considera o desconstrucionismo e o estruturalismo como os expoentes máximos do progresso, progresso esse entendido por Frei Bento Domingues como uma lei da natureza. Quando alguém pensa que o progresso é uma lei da natureza, o advento de qualquer barbárie não pode ser concebido senão como uma forma de progresso.

A partir do texto de Frei Bento Domingues, podemos facilmente identificar os mentores do seu arquétipo mental: para além de Karl Marx e sobretudo Engels, o estruturalismo do princípio do século XX, Escola de Frankfurt e o marxismo cultural, o Existencialismo e desconstrucionismo de Heidegger e Sartre, Derrida, ou seja, toda uma visão hegeliana da História. Sobre este assunto aconselho o leitor a ler “A Filosofia de Hegel”, de Benedetto Croce, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1933, tradução de Vitorino Nemésio.

Não vou dizer que o Frei Bento Domingues está desactualizado, porque isso seria incorrer no mesmo erro e na mesma falácia ad Novitatem em que o Frei Bento Domingues cai; direi apenas que o Frei Bento Domingues está errado, porque não adequa os seus conceitos à realidade.

Segundo Frei Bento Domingues, a família pode ser tudo — o que significa que passa a ser nada.

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¿Como é que a Igreja Católica pode lidar com um conceito  de família sem definição real?

Frei Bento Domingues não o diz, porque estamos no domínio da utopia. Uma utopia psicótica, um delírio interpretativo. Quando o nosso desejo é anómalo, concebemos a utopia como parte do real concreto.


Em algumas culturas, o irmão mais velho da mãe tem um lugar mais importante (na família) do que o pai biológico da criança; em outras culturas, os homens passam a ser temporariamente considerados “mulheres”, ou determinadas mulheres são consideradas “homens”. Nestas sociedades (os tobriandeses, por exemplo), a lei do grupo prevalece sobre o indivíduo; as funções, códigos e estatutos estão em primeiro plano; o indivíduo apaga-se diante dos sistemas que o clã, a tribo ou a família formam; as relações são menos individualizadas, menos personalizadas.

Nessas culturas, em que existem formas de família diferentes da (ainda) família tradicional europeia, o conceito de família tem uma definição que serve de norma. Nessas culturas não coexistem diferentes formas de família: existe nelas uma clara noção de família que é universal. O erro do estruturalismo antropológico foi o de partir do princípio relativista segundo o qual é possível integrar em uma mesma sociedade vários tipos de família em coexistência pacifica — quando essa possibilidade não existe nas culturas de onde esses modelos de família são oriundos.

A ideia de Frei Bento Domingues segundo a qual é possível, em uma mesma sociedade, coexistirem diferentes noções de família, não é apenas uma utopia: é uma irracionalidade completa que é fruto de um erro de análise. Só é possível que existam várias noções de família em uma mesma sociedade, sacrificando a coesão social e atomizando a sociedade; este é um facto indesmentível.1

Uma concepção séria da História, que sabe o que foi feito da autonomia relativa das civilizações, não permite que se interprete em termos de “evolução” ou de “novidade”, aquilo que, pelo contrário, se assemelha a processos de decomposição ou de crise.

“O grande fenómeno que prepara a hominização e que consegue realizar o homo sapiens, não é o ‘assassínio do pai’, mas antes é o nascimento do pai”. — Edgar Morin

A família dita “nuclear” não é um acidente da História: ela é largamente maioritária através das civilizações. O triângulo mãe/pai/filho foi uma diferenciação cultural que tornou mais forte e mais estável a família, quando comparada, por exemplo, com a família “avuncular” em que o tio substitui o pai — porque a ligação tio/filho não é de modo nenhum simétrica à ligação mãe/filho; e, neste caso, o casal sexual mantém-se fora da educação e da transmissão. Ou seja, a família avuncular é um elemento de desordem social.

Quando o Frei Bento Domingues defende a possibilidade de coexistência, em uma mesma sociedade, de vários tipos de família, o que ele defende é uma exponenciação da desordem social em nome de uma utopia que se submete a um desejo anómalo.

Nota
1. É surpreendente como o neoliberalismo marginalista e Frei Bento Domingues estão de acordo.

Domingo, 11 Outubro 2015

O Anselmo Borges e a Samaritana de Sicar

 

« Disse-lhe a mulher: “Senhor, dá-me dessa água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la”. Respondeu-lhe Jesus: “Vai, chama o teu marido e volta cá.” A mulher retorquiu-lhe: “Eu não tenho marido.”

Declarou-lhe Jesus: “Disseste bem: ‘não tenho marido’, pois já tiveste cinco e o que tens agora não é teu marido. Nisto falaste verdade. »

→ S. João, 4, 15 – 18

Qualquer pessoa com dois dedos de testa (que parece não ser o caso de Anselmo Borges) verifica que Jesus Cristo criticou — embora de forma benévola — a samaritana de Sicar. Não é possível outra interpretação das palavras de Jesus. Ademais, temos Marcos 10, 3 – 9:

« Jesus perguntou (aos fariseus): “ ¿O que vos ordenou Moisés (acerca do divórcio)?”. (Os fariseus) disseram: “Moisés mandou escrever um documento de repúdio e divorciar-se dela (da esposa)”. Jesus retorquiu:

“Devido à dureza do vosso coração é que ele vos deixou esse preceito. Mas, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará o seu pai e a sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem. »

À luz dos Evangelhos, o divórcio é impossível: “o que Deus uniu não o separe o homem”.

Pode haver divórcio no Código Civil, mas na Igreja Católica não existe divórcio salvo em casos excepcionais previstos no Direito Canónico. Por isso é que a Igreja Católica recomenda que os nubentes pensem bem no que estão a fazer antes de se casarem pela Igreja: se ponderam a possibilidade futura de divórcio, deixem a Igreja Católica em paz e casem-se pelo civil.

O papa-açorda Francisco e seus sequazes (como é o caso, por exemplo, de Anselmo Borges ou de Frei Bento Domingues) não podem alterar discricionariamente o Direito Canónico, introduzindo o “divórcio católico” — como se a Igreja Católica fosse uma coutada do anticristo.

Não podem dizer que os textos supracitados dos Evangelhos não existem; ou não devem fazer de conta que não existem. Não devem dizer que “os tempos mudaram e que os Evangelhos de Jesus Cristo deixaram de ser válidos”; ou podem dizê-lo, mas não o façam em nome da Igreja Católica e do Cristianismo em geral. Desamparem-nos a loja!

Terça-feira, 22 Setembro 2015

As crenças de Darwin e de Francisco Louçã

 

Francisco Louçã diz “Darwin não acreditava na Bíblia como uma revelação divina nem que Jesus Cristo fosse filho de Deus”. E considera que a crença de Darwin é boa, em contraponto à crença má de quem acredita na Bíblia como uma revelação divina e que Jesus Cristo é filho de Deus.

Ou seja, Francisco Louçã considera que a sua (dele) crença é mais verdadeira do que a crença de biliões de cristãos, muçulmanos e judeus. Francisco Louçã considera-se uma espécie de super-homem, um ser superior ao comum dos mortais.

Francisco Louçã pretende fazer parte de uma elite gnóstica moderna, de uma nova espécie de Calvinismo que detém a verdade soteriológica (a verdade da salvação de uma casta de eleitos que passa pela negação histórica: a Utopia Negativa). Francisco Louçã faz parte da casta dos novos Pneumáticos.

Francisco Louçã deveria dedicar-se à economia de que sabe certamente alguma coisa, e deixar a metafísica para os filósofos e a religião para os teólogos.


Jesus Cristo e o Cristianismo introduziram na História uma diferenciação cultural positiva, não obstante as críticas de Nietzsche que foi mais um literato do que filósofo. Mas nem todas as diferenciações culturais são positivas: ao contrário do pensamento hegeliano de Francisco Louçã, o progresso não é uma lei da natureza, e muitas vezes aquilo que consideramos “evolução” pode ser “involução”. Basta uma geração de bárbaros da estirpe de Francisco Louçã para que o progresso desça pela pia abaixo.

Uma diferenciação cultural positiva não é uma revolução, no sentido, por exemplo, da Revolução Francesa que matou mais gente em apenas um mês e em França, do que a Inquisição católica em toda a Idade Média e em toda a Europa. Uma diferenciação cultural (que pode ser positiva ou negativa) é uma mudança de paradigma na mundividência colectiva — uma mudança de paradigma intersubjectiva.

Cada dogma — e até cada confissão — não pode ser senão expressão da experiência humana; e durante muitos anos prevaleceu o dogma darwinista das elites segundo o qual a vida teria surgido da matéria inerte. A maior fé que existe é a do cientista, porque é inconfessável. A diferença entre o dogma darwinista e alguns dogmas da religião católica é a de que os dogmas principais do catolicismo (por exemplo, o dogma da consubstanciação) são afirmações sobre a realidade que está para além daquilo que é alcançável através da linguagem.

Porém, e visto que cada dogma foi formulado na linguagem de determinada época, pode tornar-se eventualmente necessário adaptá-lo ao pensamento e à linguagem modernos — os dogmas adaptados à mentalidade moderna, que têm que ser necessariamente conquistados à realidade, e não substituindo os dados da realidade como tem feito a psicose darwinista. E, neste sentido, a física quântica vem em auxilio da Igreja Católica: hoje, é impossível falar em metafísica sem termos em conta a física quântica.


Se “evolução” é um processo através do qual o insondável (Deus) se apresenta no espaço-tempo, e por isso, se “evolução” subentende que o espírito, a alma e a razão são produtos de uma evolução, então o termo “evolução” não representa qualquer problema.

Mas se o termo “evolução” for entendido em termos meramente materialistas e darwinistas, então, o facto da verificação da autoconsciência, e a possibilidade de acesso à dimensão das verdades perenes, destrói este quadro e esta mundividência evolucionários.

Quarta-feira, 19 Agosto 2015

A coerência de Frei Bento Domingues

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 9:47 am
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“A incoerência de um discurso depende daquele que o escuta. Parece-me que o espírito é constituído de tal modo que não pode ser incoerente para si mesmo” — Paul Valéry

Saiu um livro — com CD e tudo — com o título “Frei Bento Domingues e o Incómodo da Coerência”.

Se pensarmos que “a coerência incomoda”, talvez seja verdade: a coerência de Che Guevara, de Fidel Castro, de Lenine, de Estaline, etc., também incomodou muita gente. Isto significa que a coerência é apenas uma qualidade secundária e formal. A coerência de um indivíduo qualquer não pode avaliar-se sem nos referirmos à base ideológica que rege as suas posições políticas. Por exemplo, aceitar tacitamente Karl Marx e ser católico está longe de qualquer coerência.

Um indivíduo pode ser coerente na procura de um determinado fim, mas a retroacção histórica conduz a realidade para um fim totalmente diferente: voltamos a S. Tomás de Aquino: não chega agir segundo a consciência (ser coerente): é preciso informar a consciência.

Terça-feira, 21 Julho 2015

O veneno cultural do Frei Bento Domingues

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 6:00 am
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“Cada cursilho obedecia a uma selecção dos participantes, apenas de varões, apoiado em ficha secreta. Era moderadamente interclassista. O cenário do acolhimento, o cancioneiro espanholado, de colores, os gestos, os rolhos doutrinais, recheados de anedotas certeiras, destinavam-se a desconstruir o imaginário de uma religião beata e para beatas e fazer a passagem exaltante para o essencial de um catolicismo másculo, marcado pela euforia do sacrifício e do testemunho, sem preocupações de transformação social imediata. O grande e repetido enunciado de marca, com eficácia do melhor marketing, era este: a religião católica não é para mulheres.”

→ Frei Bento Domingues: A religião não é para mulheres

1/

fbd-2-webA minha experiência desmente o Frei Bento Domingues: em meados da década de 1960, os meus pais1 frequentaram (em separado, e em Moçambique) os chamados “cursos de cristandade”. Portanto, a afirmação de Frei Bento Domingues de que “cada cursilho obedecia a uma selecção dos participantes, apenas de varões — segundo a minha experiência — não corresponde à verdade. Aliás, foi a minha mãe que conseguiu convencer o meu pai a frequentar o tal curso de cristandade, porque ele não estava minimamente pelos ajustes.

Ademais, mesmo que os cursos de cristandade fossem inicialmente só para homens (o que não aconteceu com os meus pais, portanto, não tenho experiência dessa realidade), constituíam um fenómeno elitista dentro da Igreja Católica de antanho: apenas uma ínfima minoria de católicos lhes tinha acesso. Dizer que “a religião católica não era (ou é)  para mulheres” baseando-se na realidade elitista dos cursos de cristandade da década de 1960, é um abuso, um enviesamento interpretativo da realidade.

2/

Depois da extensíssima documentação hagiográfica disponível na história da Igreja Católica relativa a mulheres (por outras palavras: na Igreja Católica, as santas são mais do que muitas), já não falando no papel salvífico especial que a Igreja Católica dá a Maria Mãe de Jesus — é um absurdo que o Frei Bento Domingues sinta a necessidade de denunciar uma “Igreja Católica machista”, quando o que se passa realmente é que os papéis e funções do homem e da mulher na Igreja Católica são diferentes, como não poderia ser de outro modo.

Quando o Frei Bento Domingues parece negar toda a história da Igreja Católica e das suas santas — desde logo, a nossa Santa Isabel, esposa de D. Dinis —, fazendo desse legado tábua rasa em nome de uma pretensa “igualdade” da mulher em relação ao homem, o que Frei Bento Domingues está a fazer é a envenenar o espírito dos católicos com a ideologia política saída da Escola de Frankfurt: o marxismo cultural.


Nota
1. ele e ela; hoje é necessário dizer que os pais são “ele e ela”.

Domingo, 14 Junho 2015

O discurso patético de Anselmo Borges

 

“O diabo escolhe, a cada século, um demónio diferente para tentar a Igreja. O actual é singularmente subtil. A angústia da Igreja perante a miséria das multidões obscurece a sua consciência de Deus. A Igreja cai na mais astuciosa das tentações: a tentação da caridade.”

— Nicolás Gómez Dávila


Entre os antigos gregos existia uma antinomia entre o conceito de ethos, por um lado e o de pathos, por outro lado. Quando o discurso é marcado pela razão e pela racionalidade, dizemos que predomina o ethos e que o discurso é ético; mas quando o discurso é marcado pela paixão e pela emoção, dizemos que predomina o pathos e que o discurso é patético.

Vem do grego pathos a noção de patético e de pateta. Se analisarmos o discurso do “papa Francisco” e dos seus sequazes, por exemplo o Frei Bento Domingues ou, no caso vertente, do ex-padre Anselmo Borges, verificamos que o pathos (a emoção, a paixão) predomina sobre o ethos (a razão, a racionalidade), o que torna patético o discurso político.

Em primeiro lugar, Anselmo Borges compara o “papa Francisco” com S. Francisco de Assis; seria como se comparássemos o imperador Napoleão com o imperador Bokassa. Acho que não vale a pena dissertar sobre a patetice da comparação.


“O amor à pobreza é cristão, mas a adulação da pobreza é uma mera técnica de recrutamento eleitoral.”

— Nicolás Gómez Dávila

Em segundo lugar, a teoria do “papa Francisco” e dos seus sequazes fundamenta-se em uma falácia bem traduzida por Anselmo Borges :

“De uma Igreja auto-referencial a uma Igreja nas periferias“. É essencial pôr termo a uma Igreja auto-centrada e, por isso, da exclusão, para passar a uma Igreja que acolhe os que se encontram marginalizados nas periferias: os considerados perdidos, os que pensam de outro modo, longe das certezas eclesiásticas, os das periferias da dor, das injustiças, da miséria, os pobres e analfabetos, os sem–abrigo, os presos, os drogados, os homossexuais, as famílias monoparentais, os recasados que não podem comungar, os padres casados, e tantos tantos outros…”

O fundamento da teoria é maniqueísta: alegadamente, a periferia contrapõe-se ao centro.

“Periferia” vem do grego periféreia, que significa “circunferência”, “círculo”. Quando se opõe a periferia ao centro, o que se pretende é destruir a circunferência ou o círculo em que se insere (metaforicamente) a Igreja Católica, porque se separarmos a periferia do seu centro, o que obtemos é anulação teórica e prática do próprio conceito de “periferia”. Mais uma vez o discurso é patético.


Por outro lado, assistimos à corrupção do conceito de “Misericórdia”. Misericórdia não significa indulgência em relação ao erro — assim como tolerância não significa permissividade. Por exemplo, quando Jesus Cristo salvou a mulher adúltera de ser apedrejada (S. João, 8, 1-11), disse-lhe: “Vai e não peques mais”. Ou seja, Jesus Cristo censurou o comportamento da mulher adúltera.

“A voz de Deus não ressoa hoje por entre os penhascos: ribomba nas percentagens das sondagens sobre a opinião pública.”

— Nicolás Gómez Dávila

Mas o conceito de “misericórdia” do “papa Francisco” e dos seus acólitos (por exemplo, o Frei Bento Domingues ou Anselmo Borges) é o de que Jesus Cristo aceita o pecado, como podemos verificar no texto deste último. Pega-se no pecado e no pecador e coloca-se tudo no mesmo saco: é isto que faz do “papa Francisco” um emissário do anticristo. Esta perversão da noção de “misericórdia” é diabólica.

Finalmente, o conceito de “uma Igreja pobre para os pobres” é também um conceito patético, porque uma Igreja pobre não tem meios para ajudar os pobres. Um pobre não dá de comer a outro pobre: é preciso arranjar dinheiro para dar de comer aos pobres, o que significa que a Igreja Católica tem que dispôr de meios materiais (dinheiro) para ajudar os pobres.

Ler aqui o discurso patético de Anselmo Borges em PDF.

Segunda-feira, 1 Junho 2015

Frei Bento Domingues e a beatificação de Che Guevara

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 6:08 am
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Seguindo os princípios do Frei Bento Domingues de defesa de uma religião de Roma universal e não exclusivamente católica, seria tão pertinente e justo que a Igreja Católica beatificasse o arcebispo Óscar Romero como o Che Guevara. Ambos estavam do mesmo lado da barricada política. Portanto, não seria de estranhar que o Frei Bento Domingues defendesse a beatificação de Che Guevara. Lá chegaremos.

Nos países comunistas da ex- cortina de ferro, muitos católicos e não-católicos, mais ou menos anónimos, tombaram às mãos do totalitarismo comunista; mas nunca veremos o Frei Bento Domingues defender a beatificação desses mártires. Dezenas de milhar (ou mesmo centenas de milhar) de cristãos foram já assassinados pelo radicalismo islâmico, autênticos mártires anónimos, mas o Frei Bento Domingues, como bom acólito do “papa Francisco”, prefere focar-se na beatificação de um simpatizante do movimento revolucionário.

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Sábado, 30 Maio 2015

Anselmo Borges e a maçonaria

 

“No quadro dos autênticos ideais maçónicos – liberdade, democracia, companheirismo, fraternidade, humanismo, espiritualidade, aperfeiçoamento interior -, não vejo porque é que há-de haver conflito entre ser católico e maçon.”

Anselmo Borges (ex-padre católico)

Ou o Anselmo Borges escreve por má-fé, ou é ingénuo; mas como não me pareça que ele seja imberbe, só pode ser de má-fé — desde logo porque a maçonaria é uma religião: possui templos; altares; código moral; rituais de adoração; vestimentas e apetrechos para os ritos; dias festivos; hierarquia; rituais de iniciação; rituais fúnebres; promessas de eterna recompensa e/ou punição.

Se essas não são características de uma religião, qualquer Anselmo Borges que o negue só pode ser burro. Talvez o Anselmo Borges possa alegar que não conhece o verdadeiro conteúdo da doutrina maçónica, uma vez que a ele (e a outros) só é permitido assistir a “sessões brancas”. Mas essa ignorância dele não pode servir de justificação para defender que ideia segundo a qual um católico pode ser simultaneamente maçon, ou muçulmano, ou budista, etc..

Há pelo menos dois protagonistas ditos “católicos”, Anselmo Borges e Frei Bento Domingues, que são pagos por pasquins portugueses para escrever umas coisas. São mercenários a soldo dos me®dia. E portanto têm que alimentar a polémica (a telenovela) do “papa Francisco” que usa o preconceito do mundo em relação à Igreja contra a própria Igreja.

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