perspectivas

Sábado, 22 Fevereiro 2014

O neoliberalismo libertário (tal como o existencialismo de Ayn Rand) foge com o rabo à seringa

 

Quando Ayn Rand procurou dar um nome à sua teoria filosófica, deu-lhe o nome de Objectivismo porque, segundo ela, o termo Existencialismo — que ela preferiria para rotular a sua teoria — já estava tomado e ocupado. Ou seja, Ayn Rand procurava uma originalidade absoluta.

O neoliberalismo libertário de Hayek despreza os princípios do liberalismo clássico e privilegia absolutamente as comissões e bónus provenientes dos negócios.

O que Ayn Rand talvez desconhecesse ou não quis saber, é que o termo Existencialismo é multifacetado. Por exemplo, existe o Existencialismo cristão que vai de Dostoievski e Kierkegaard a Paul Tillich, passando por Karl Jaspers; existe o Existencialismo ateu de Merleau-Ponty ou Jean-Paul Sartre; e existe um Existencialismo pagão de Heidegger ou Gadamer. Portanto, quando falamos de Existencialismo, entendido como uma categoria de mundividência, temos que saber qual a sub-categoria que a caracteriza, para além da especificidade do pensamento individual do autor.

Ou seja, em vez de Objectivismo, Ayn Rand poderia perfeitamente ter optado pelo termo “Existencialismo libertário”, que estaria de facto mais de acordo com as características da sua teoria.

(more…)

Domingo, 10 Novembro 2013

De Kierkegaard a José Régio

 

Já Hannah Arendt afirmou que a filosofia de Kierkegaard foi o início da crise moderna do Cristianismo. E tinha razão. Por muito que não gostemos (e eu não gosto dessa ideia), Hannah Arendt tinha razão.

(more…)

Segunda-feira, 23 Setembro 2013

A recusa da Teoria é uma sempre uma forma de teoria

Eu prefiro uma teoria deficiente, a nenhuma teoria. Mesmo que uma teoria tenha falhas, é preferível tê-la assim mesmo, do que negar qualquer teoria alegando as falhas que ela possa ter. É preferível uma teoria deficiente que se baseie em uma Causa do universo, do que recusar qualquer teoria sobre a origem do universo.

O cepticismo é a recusa e a negação de qualquer teoria que não se possa medir, esquecendo que a própria medição é uma teoria.

O procedimento científico está sempre imbuído de considerações teóricas, e não há factos irredutíveis isentos de qualquer teoria. O cientista interpreta as descobertas científicas sempre com o auxilio de alguma teoria. O que interessa ao cientista não é apenas o ponteiro do instrumento de medição, mas antes, a medição só tem valor se estiver em conjugação com uma interpretação do seu significado — para além do facto de o instrumento ter um erro finito experimental (que pode ser infinito, do ponto de vista da física quântica).

Não há nenhuma lei experimental exacta. Só as há aproximadas, e estão sujeitas a uma infinidade de traduções simbólicas e, entre estas traduções, o cientista tem que escolher uma delas que lhe dê uma hipótese conveniente e sem que a sua escolha tenha sido guiada de algum modo pela experiência.

O problema surge aqui quando a ciência recusa uma nova teoria que explica melhor uma determinada fracção da realidade, e fá-lo por motivos políticos e ideológicos; ou seja, a ciência agarra-se a um paradigma porque este serve uma determinada mundividência da moda, que está de acordo com uma determinada ideologia política.

Defender a casualidade do universo, do ponto de vista da ciência, é contraditório, porque a ciência baseia-se no princípio da causalidade (causa / efeito). Dizer que “o universo surgiu por acaso” não é compatível com o princípio científico segundo o qual todos os efeitos têm uma causa.

Fazer desaparecer um problema não resolve esse problema. Ignorar o problema da Causa não faz desaparecer o problema da Causa. Reduzir a análise da realidade a uma fracção da realidade pode próprio da ciências especializadas em determinadas áreas, mas não é próprio da filosofia.

Este verbete é uma resposta a este comentário.

Domingo, 17 Fevereiro 2013

A ética do sentimento, de Schopenhauer a Emmanuel Levinas

Filed under: ética,cultura,politicamente correcto,Ut Edita — orlando braga @ 6:41 am
Tags: , ,

“As relações humanas interpessoais são importantes para avaliar as circunstâncias a morte; na verdade, a minha mortalidade, a minha condenação à morte, a minha morte constituem a absurdidade que torna possível a gratuitidade da minha responsabilidade pelo outro.

Esta proposição pode ser lida na página 124 do livro de Sofia Reimão (ver nota em rodapé), e reflecte o pensamento do francês Levinas e, alegadamente, o pensamento de Gabriel Marcel que não conheço. Mas vamos ver se a proposição é verdadeira por reductio ad absurdum.
(more…)

Segunda-feira, 16 Julho 2012

O Relativismo Activo do “Livro do Desassossego”

«O meu hábito vital de descrença em tudo, especialmente no instintivo, e a minha atitude natural de insinceridade, são a negação de obstáculos em que eu faço isto constantemente.

No fundo, o que acontece é que eu faço dos outros o meu sonho, dobrando-me às opiniões deles para, expandindo-as pelo meu raciocínio e a minha intuição, as tornar minhas e (eu, não tendo opinião, posso ter a deles, como quaisquer outras) para as dobrar a meu gosto e fazer das suas personalidades coisas aparentadas com os meus sonhos.

De tal modo anteponho o sonho à vida que consigo, no trato verbal (outro não tenho), continuar sonhando, e persistir, através das opiniões alheias e dos sentimentos dos outros, na linha fluída da vida individualmente amorfa.

Cada outro é um canal ou uma calha por onde a água do mar só corre a gosto deles, marcado, com as cintilações da água ao sol, o curso turvo da sua orientação mais realmente do que a secura deles o poderia fazer.

Parecendo, às vezes, à minha análise rápida parasitar os outros, na realidade o que acontece é que os obrigo a ser parasitas da minha posterior emoção. Hábito de viver as cascas das suas individualidades. Decalco as suas passadas em argila do meu espírito e assim mais do que eles, tomando-as para dentro da minha consciência, eu tenho dado os seus passos e andando no seu caminho».

— “Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares [aka, Fernando Pessoa]

Quando lemos o “Livro do Desassossego” devemos fazê-lo analiticamente, de outra forma correndo o risco de entrarmos em depressão psíquica. Das duas uma: ou não compreendemos minimamente o que está lá escrito — o que é óptimo para uma mente sadia —, ou compreendendo alguma coisa teremos sempre que manter um espírito crítico e impessoal, semelhante ao do médico que analisa cientificamente uma metástase.
(more…)

Sexta-feira, 30 Janeiro 2009

A fraude ideológica do existencialismo (ou “porque não gosto de Fado”)

Filed under: filosofia — orlando braga @ 9:30 am
Tags: , ,

Platão defende a ideia de que o ser humano não pode ser avaliado em função de uma circunstância existencial ― como defenderam Ortega y Gasset e todos os existencialistas contemporâneos ―, mas é o ser humano que, independentemente das características do mundo que o rodeia, molda a sua forma de estar perante a circunstância.

Ortega Y Gasset disse: “Eu sou eu e a minha circunstância”. Platão, embora não o tenha dito, deduz-se da suas ideias que poderia ter dito: “Eu sou eu e a causa da minha circunstância”.

Para Gasset, a sua circunstância (o “mundo da vida”) era o objecto do seu sujeito, mas também era um efeito sem causa.

Para Platão, o objecto do seu sujeito era a causa que determinou a sua circunstância. A sua circunstância era apenas o efeito de uma causa.
(more…)

Quarta-feira, 28 Janeiro 2009

Edmundo Husserl

Num dos últimos postais fiz referência à fenomenologia de Husserl que foi utilizada pela Utopia Negativa, pelo Existencialismo contemporâneo e pelo desconstrucionismo esquerdista..
(more…)

Quinta-feira, 27 Novembro 2008

A Teologia da Libertação e o Marxismo

Eu posso concordar com muita coisa neste texto, como por exemplo a crítica à Teologia da Libertação que se iniciou na Alemanha luterana ainda antes da II Guerra Mundial (ler Bonhoeffer).

Não vou agora falar da prova ontológica mas criticar a recusa, por parte da Teologia da Libertação, em abordar a questão de “Deus” quando até a ciência contemporânea (por exemplo, a Física Quântica, a Biologia Molecular, a Bioquímica, etc.) se preocupa com a explicação do Universo através da procura da “Causa-das-causas”.
(more…)

Quinta-feira, 7 Agosto 2008

O Neomodernismo

O Neomodernismo é a teoria que diz que o relativismo (de valores, cultural, etc.) e a igualdade, são contraditórios, ou seja, é uma teoria que atravessa a garganta do Bloco de Esquerda.

Carlos Escudé

Um dos principais propagandistas do Neomodernismo é o Sr. Carlos Escudé cujos escritos poderão consultar na Internet.

Em termos gerais e simplistas podemos dizer que o “Fim-da- História” de Karl Marx marca o Modernismo; o Existencialismo marca o pós-modernismo que terminou com o “Fim-da- História” do neoliberal Fukuyama.

Com o pós-modernismo apareceu o relativismo dos valores escorado numa forma decadente do marxismo económico ― o marxismo cultural ― que caracterizaram a esquerda dos anos 60, e principalmente dos anos 70 e 80, mas também dos anos 90 do século XX.

Com o relativismo, surgiu o multiculturalismo, que é a crença de que todas as culturas são “iguais ao litro”; para o multiculturalismo, é tão boa uma cultura que respeita os direitos humanos como outra que não respeita, porque segundo o multiculturalismo (de origem marxista cultural), a culpa de uma cultura não respeitar os direitos humanos é sempre de uma outra cultura qualquer, estabelecendo sempre um nexo irracional de causa e efeito. O multiculturalismo introduziu na lógica da avaliação cultural a vitimização histórica herdada da luta de classes do marxismo antropológico.

Portanto, o Neomodernismo refuta o relativismo de valores e é adversário dos Desconstrutivismo (Derrida & Cia Lda). A desconstrução da linguagem é criticada pelos neomodernistas.

Sob o ponto de vista ético-moral, o Neomodernismo defende uma solução de compromisso entre a contemporaneidade e a herança histórico-cultural da sociedade.

O Neomodernismo é distinto do Neoliberalismo, desde logo porque o Neomodernismo defende a igualdade de direitos essenciais entre os seres humanos, enquanto que o Neoliberalismo é uma teoria pós-moderna que, como tal, se baseia na ideia nietzscheana da “Vontade de Poder” (nem que seja à custa do desgraçado). Sendo o Neoliberalismo parte do pós-modernismo, está em antagonismo com o Neomodernismo que se baseia na “Vontade da Verdade” (estes pequenos clichés ajudam a entender a coisa).

O Neomodernismo não é absolutamente defensor de um Estado laico, desde que a teocracia seja votada livremente pelo povo e não imposta pela força. Contudo, o Neomodernismo retoma o “choque de civilizações” de Huntington e critica ferozmente as teocracias islâmicas totalitárias, na forma e na essência (segregação da mulher, exclusivismo religioso, etc.)

Sexta-feira, 7 Março 2008

Comentando um comentário

Filed under: diarreias — orlando braga @ 6:15 pm
Tags: , , , , , ,

Em relação a este post, e a este comentário:
(more…)

Terça-feira, 4 Dezembro 2007

A ideologia neoliberal

O Neoliberalismo tem muito pouco a ver com o liberalismo capitalista clássico, que sempre foi uma teoria económica com repercussões na política, e não uma ideologia política propriamente dita. O Neoliberalismo resulta de uma filosofia antropocêntrica, à semelhança do Marxismo, e o actual tipo de globalização está directamente relacionado com a expansão da ideologia política resultante da filosofia de Hayek.

As influências filosóficas de Hayek

Já aqui falei em Kant e em Heidegger, mas ainda não me referi a Hume e a Aristóteles; os quatro são os filósofos em que se sustentou Hayek para lançar as bases da sua filosofia.
(more…)

Sexta-feira, 30 Novembro 2007

O Existencialismo (1)

Devo dizer que não gosto do existencialismo, e portanto não sou insuspeito na minha opinião. Vou tentar falar do existencialismo de uma forma que a maioria entenda, isto é, dizendo mal dele.
(more…)

Página seguinte »

The Rubric Theme Blog em WordPress.com.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 449 outros seguidores