perspectivas

Segunda-feira, 13 Setembro 2010

O equívoco contemporâneo acerca do amor

Filed under: ética,cultura — O. Braga @ 10:56 am
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Na altura do referendo sobre o aborto, um militante do Bloco de Esquerda escreveu no seu blogue que “o aborto é um acto de amor” (sic). Perplexo, compreendi até que ponto a noção de amor se encontra hoje subjectivada, e como o conceito de amor pode ser utilizado pela esquerda para pura manipulação política populista e cultural.

Quando falamos de amor, devemos ter sempre em consideração os quatro componentes essenciais do conceito de amor, que funcionam como uma espécie de pilares que sustentam o seu edifício: a libido, o eros, a filia e o ágape. A definição subjectiva que cada um de nós dá à palavra amor depende sempre da conjugação destes quatro sub-conceitos — ou seja, dependendo dessa conjugação surge a noção individual e subjectiva de amor.

Para ilustrar o que eu pretendo dizer, avaliei o que seria o amor para duas personagens históricas: a Madre Teresa de Calcutá e o Marquês de Sade. Estabeleci um critério de avaliação entre 0 e 100 para cada um dos sub-conceitos que integram o conceito de amor: libido, eros, filia e ágape. Da minha avaliação surgiu o gráfico anexo que não estará muito longe da realidade.

Vemos que as linhas do gráfico correspondentes a uma e outra personagem se opõem, ou seja, seguem percursos diferentes e opostos. Para a madre Teresa de Calcutá, a libido teria uma importância muito próxima do zero (eu atribuí mesmo o valor zero), enquanto que para o Marquês de Sade, a libido assumiria um papel essencial e primordial na sua (dele) noção de amor.

Portanto, quando alguém nos falar de amor, devemos sempre perguntar qual o valor de cada um dos quatro pilares que sustentam a noção subjectiva de amor. No homem, a libido é mais forte do que na mulher, mas na mulher o eros tem um papel fundamental. Mas o amor entre um homem e uma mulher não pode viver muito tempo sem a filia, e se não existir, nessa relação, uma boa dose de ágape, esse amor não terá a profundidade e o valor que todo o ser humano necessita.

No exemplo que dei do militante do Bloco de Esquerda, a noção de amor era composta essencialmente pela libido e pelo eros; provavelmente teria uma boa componente de filia, mas faltava-lhe certamente todo o ágape necessário. Uma relação de amor que tenha uma boa componente de ágape nunca pode considerar o aborto como sendo um “acto de amor”.

Para um ser humano normal — fazendo a necessária distinção entre homem e mulher —, as linhas do gráfico seriam mais estáveis e homogéneas, quando comparadas com as duas personagens que escolhi para a demonstração. No entanto, convém que se diga que o amor não é qualquer coisa que queiramos que seja, senão um edifício conceptual que depende do valor que atribuímos a cada um dos seus quatro pilares.

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