perspectivas

Segunda-feira, 7 Abril 2008

Os escritores e os “Bloggers de Papel”

O “Jornal de Notícias” oferece agora, junto com a compra do jornal, um livro de bolso com a obra de um “grande autor português”; este domingo calhou-me “A Cidade e As Serras” do Eça.

No mesmo domingo, vi a Rita Ferro na RTP2 a criticar os escritores portugueses da contemporaneidade, e o António Lobo Antunes em particular; dizia ela que o “Antunes escreve muito bem, mas já não sabe escrever um livro”, e que “uma coisa é escrever bem, outra coisa é saber escrever um livro”. O que a Rita quis dizer é que se o Eça vivesse hoje, já não saberia escrever um livro e não venderia um só exemplar: o Eça escreve bem, mas não sabe escrever um livro (que seja vendável). Para que se escreva um livro hoje, não é necessário – nem mesmo aconselhável – que se escreva bem; o que interessa é que se conte uma história com grande economia vocabular. A arte da escrita é hoje a redução da língua a um código repetitivo e padronizado que se escore num alfabeto de poucas letras, de tipo ADN, com muita “merda” e “filhos-da-puta” à mistura. E assim, toda a gente escreve livros – e estou de acordo com a Rita – e toda a gente tem o estatuto de “escritor”, incluindo ela própria e a Mónica Sintra. A massificação do ensino resultou numa literatura medíocre: existem mais pessoas a comprar livros e a financiar as editoras, e outras compram o JN e colocam os clássicos portugueses intactos na estante lá de casa.
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