perspectivas

Terça-feira, 3 Março 2015

“Os amanhãs que cantam” de Dugin

Filed under: Política,religiões políticas — O. Braga @ 1:06 pm
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Se olharmos bem para a história das religiões universais, algumas efectuaram cortes com o passado através de reformas (por exemplo, o Cristianismo em relação ao Judaísmo, ou o Budismo em relação ao Hinduísmo), e outras apenas “evoluíram na continuidade” (sem cortes) a partir de religiões superiores (por exemplo, o Taoísmo ou o Confucionismo).

duginNo caso do Cristianismo assistimos até a um facto curioso: os primeiros cristãos não se consideravam sequer como  portadores de uma nova religião: em vez disso, assumiam-se como reformadores do Judaísmo; foram necessárias várias gerações de cristãos (com a influência do Cristianismo helenista) para que as reformas éticas e teológicas se traduzissem em um corte epistemológico com o Judaísmo, embora o Antigo Testamento judaico não fosse recusado pelo Cristianismo e passasse a justificar a cristologia.

Nas religiões políticas modernas passa-se algo semelhante: os cortes epistemológicos não podem ser radicais se se pretende que sejam seguros e efectivos, por um lado, e por outro  lado têm sempre que assumir o legado da religião política dominante no momento em que se impõe uma qualquer reforma. Ou seja, qualquer eventual corte epistemológico de uma nova religião política na Rússia, em relação à religião política preponderante nos Estados Unidos (“A Democracia na América”, de Tocqueville), tem que assumir o legado americano se quiser ter algum fundamento na realidade.

Se lermos este texto de Dugin, verificamos que ele não aceita, de modo nenhum, o legado americano; por isso, qualquer religião política por ele engendrada está condenada ao fracasso — porque ele não defende reformas a partir de um status quo: em vez disso, defende um corte radical com a realidade, o que é “papel carbono” da mente revolucionária que falhou estrondosamente com a queda do muro de Berlim.

Sábado, 28 Junho 2014

O problema de Dugin é mais grave do que eu pensava

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 10:08 am
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“René GUÉNON é o emissário do supremo centro para a última época, para o período de Kali Yuga, e os princípios da Tradição por ele formulados (o conjunto dos “conhecimentos não humanos transmitidos de uma geração à outra pela casta dos sacerdotes ou por outras instituições semelhantes) servirão de baluarte de salvação para aqueles que terão que, lutar contra “este Mundo” e seu “Príncipe”, fazer renascer a Tradição na sua dimensão autêntica, não humana e “angelical” e, fechando o ciclo, elaborar os fundamentos sagrados da Idade do Ouro que se aproxima.”

Aleksandr Dugin

Eu não estou a ver a relação entre o muçulmano Guénon, por um lado, e por outro lado o conceito de Kali Yuga de uma certa elite laica hindu; mas talvez seja eu o ignorante. Ou talvez ele esteja a confundir Guénon com Julius Evola que, este sim, defendia o advento da Idade de Ouro que supostamente teria existido antes do homo sapiens ter surgido.

Por outro lado, o anacoreta medieval Joaquim de Fiore era um aprendiz de feiticeiro, quando comparado com Dugin. Joaquim de Fiore apenas profetizou a vinda do Reino do Espírito Santo (depois do Reino do Pai e do do Filho); Aleksandr Dugin vai mais longe: profetiza um apocalipse não-cristão, um fim-do-mundo hindu e pagão baseado em uma fé metastática. Se Obama pudesse, chamaria o Dugin para seu conselheiro espiritual.

«Dentro dos limites da Tradição mencionada, DUGIN reconhece a primazia do não-ser: “qualquer metafísica tradicional de pleno valor reconhece a prioridade do não-ser sobre o ser”. »

Mas isto é Hegel escarrado, meu caro! Sempre afirmei que Dugin é hegeliano, com tudo o que isso implica. Aleksandr Dugin passou da Esquerda Hegeliana (Feuerbach → Karl Marx) para a Direita Hegeliana que nega a Metaxia e que, por isso, concebe os pólos da existência como objectos separados da própria existência.

“O ser apareceu como prova de que o não-ser, que o continha antes de sua aparição, não é a última instância, e de que, além de seus limites está presente o Outro, que não coincide nem com o ser, nem com o não-ser. Do seu ponto de vista o ser “não pode também afirmar sua própria primazia sobre o não-ser, pois contradiria a verdade, já que o ser puro não é outra coisa senão a tradução na realidade, sob sua forma lógica, das possibilidade do não-ser que o precedeu.”

Continua a ser Hegel: o não-ser é imanente. O “Outro” é o Absoluto hegeliano, a ser construído na História por um determinismo total que a rege (Historicismo: “o progresso é uma lei da Natureza”).

O momento anterior ao Big Bang (ou o momento anterior à criação do universo) é concebido por Dugin como “não-ser” que “não é o Outro” (a linguagem de Dugin é esquizofrénica). Ou seja, Aleksandr Dugin perfilha uma forma de monismo. O “Outro” é um princípio fundamental impessoal (Hinduísmo do Bramam, em contraposição ao Hinduísmo do Brama).

Não nos podemos esquecer que a filosofia alemã foi buscar muita coisa ao Budismo (Schopenhauer, Schelling) ao Hinduísmo (Nietzsche) e à Cabala (desde Jakob Böhme a Hegel). Este monismo de Dugin é marcadamente hegeliano.

Para o cristão (e para qualquer pessoa com pensamento lógico saudável), ao contrário do que defende Dugin, o “não-ser hegeliano” é uma forma de ser; o “não-ser hegeliano” é apenas uma forma diferente de ser.

“As normas e as estruturas esotéricas da Tradição transformam-se em conformidade com a situação do ambiente cósmico, e, por conseguinte, aparecem novas religiões e tradições, novas redacções do culto e novas práticas.”

Podemos afirmar que Aleksandr Dugin pretende ser um guru New Age de uma nova religião apocalíptica. O caso é grave. Por muito menos do que isto já vi gente interditada.

Quarta-feira, 12 Março 2014

Entre os euro-asianos e os neocons, que venha o diabo e escolha

Filed under: Política — O. Braga @ 9:33 pm
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Na polémica em torno de Aleksandr Dugin, devemos optar por uma análise crítica, em vez de ceder a qualquer ideologia. Ambas as partes — os chamados “euro-asianos” russos, por um lado, e os neocons americanos, por outro lado — utilizam o argumento da “legitimidade” na sua propaganda política. Isto leva-nos a uma situação de double blind.

A narrativa de ambas as partes escora-se em um jogo de sombras e de alegados “factos” que não estão comprovados. ¿O que se passou, realmente e em detalhe, na praça Maidan, em Kiev? A verdade é que não sabemos ao certo; e se os factos estão a ser manipulados, de um lado e do outro, não devemos ter opinião baseada em terias da conspiração (de ambos os lados).

Sabemos o seguinte (isto são factos):

as metralhadoras1/ o regime de Kiev derrubado era altamente corrupto e era apoiado politicamente pela Rússia.

2/ o regime de Kiev foi derrubado com o apoio da CIA e dos neocons americanos.

3/ os Estados Unidos pretendem que a Ucrânia passe a integrar a NATO (ou OTAN), à revelia dos tratados entre os Estados Unidos e a Rússia acerca da Ucrânia. Ou seja, os Estados Unidos dão, agora, o dito pelo não dito.

4/ a extrema-direita ucraniana (neonazi) apoiou o golpe-de-estado ucraniano apoiado pelos Estados Unidos.

5/ a ideologia de Aleksandr Dugin é anti-judaica (ou anti-semita, se preferirem).

6/ o Cristianismo de Aleksandr Dugin é instrumental: é um meio de acção política e ideológica, e não um fim em si mesmo. O pensamento de Dugin é determinista e gnóstico, o que está em profunda contradição com o Cristianismo propriamente dito.

7/ tal como os nazis alemães pensavam a raça alemã como sendo uma raça superior, o euro-asianismo de Aleksandr Dugin pensa a raça eslava como sendo uma raça superior.

8/ os neocons americanos e a CIA têm cometido erros sucessivos com as intervenções em vários países do mundo: Kosovo, Iraque, Líbia, Síria, e agora na Ucrânia. Isto é um facto. A exportação da “democracia” é vista pelos neocons americanos como uma forma de controlo político de outros países. Ou seja, para os neocons, a democracia não é um fim em si mesma, mas antes um meio de controlo político, cultural, económico e social de outros países.

E, por outro lado, os Estados Unidos — que têm, por exemplo, a pena de morte — utilizam sistematicamente o argumento dos “direitos humanos” para poderem intervir em outros países (por exemplo, no Panamá, em 1989). Ou seja: para os Estados Unidos não são os direitos humanos, considerados em si mesmos, que contam: o que conta é aquilo que se pode controlar económica e politicamente utilizando o argumento dos “direitos humanos”.

9/ de um lado e doutro, não são “flores que se cheirem”. Qualquer pessoa que tome partido nesta contenda, está comprometida ideologicamente (ideologia política) com uma das duas agendas políticas. Isto também é um facto.

Entre Dugin e os neocons

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 5:21 pm
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A principal diferença entre Aleksandr Dugin e os ideólogos neocons americanos é a de que Aleksandr Dugin não esconde o seu ideário. De resto, entre uns e outros, que venha o diabo e escolha. O que não me parece honesto é que se critique o Dugin e que se branqueie os neocons.

usa ukraine

Sábado, 1 Março 2014

Um povo que elege Obama como presidente, não merece consideração

 

Obama pretendeu alterar unilateralmente a Declaração Universal dos Direitos Humanos: em vez de “família natural”, Obama queria que a Declaração Universal dos Direitos Humanos se referisse a “família de acordo com as preferências individuais”, ou seja, segundo Obama, família é o que cada um quiser.

É neste contexto que as críticas de Aleksandr Dugin aos Estados Unidos se tornam pertinentes. Os Estados Unidos de Obama são muitíssimo mais perigosos para o mundo do que a Rússia de Putin. Por detrás da aparente tolerância de Obama esta uma agenda política sinistra e diabólica que faz com que as ideias de Aleksandr Dugin pareçam angelicais.

Sexta-feira, 28 Fevereiro 2014

Finalmente um texto de Aleksandr Dugin que posso analisar

Filed under: Política — O. Braga @ 4:31 pm
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Podemos lê-lo aqui, em PDF.

1/ “O fascismo advém do Iluminismo”.

Esta premissa de Dugin não está correcta. Por um lado, o último iluminista, que foi Kant, não tinha as mesmas ideias de Hobbes, por exemplo. Pelo contrário, se alguém foi contra qualquer tipo de ideias “fascistas” foi Kant. O que se seguiu a Kant não foi Iluminismo propriamente dito, mas antes sequelas do Iluminismo — por exemplo, Hegel não foi um iluminista, mas um romântico e um idealista (idealismo alemão).

Por outro lado, as raízes do fascismo podem ser encontradas nos teóricos da Razão de Estado do Renascimento (absolutismo do rei) e no puritanismo protestante que evoluiu a partir do século XVI (submissão da religião cristã ao príncipe absolutista). E isto nada tem a ver com o Iluminismo propriamente dito. Em suma, o fascismo evoluiu a partir da Reforma protestante e da gnose  cristã na Europa da Idade Média e da Idade Clássica.

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Terça-feira, 25 Fevereiro 2014

Aleksandr Dugin e a modernidade

Filed under: Política — O. Braga @ 3:07 pm
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É difícil encontrar um texto que me dê uma noção do pensamento de Aleksandr Dugin, e muito menos um texto escrito pelo próprio; mas também aprendi que não devemos confiar na propaganda da Wikipédia. Não encontrei, até agora, um resumo escrito do pensamento de Dugin, ou seja, uma síntese do seu pensamento filosófico, e, portanto, político. Se me perguntarem: ¿qual é a essência do pensamento de Aleksandr Dugin?, a minha resposta é: não sei.

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