perspectivas

Domingo, 5 Julho 2015

A primeira lei da termodinâmica e o dualismo metafísico

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 7:22 am
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Em metafísica, “dualismo metafísico” é a teoria segundo a qual a realidade é formada de (pelo menos) duas substâncias independentes uma da outra e de natureza absolutamente diferente: o espírito e a matéria, ou, como em Descartes, a alma e o corpo.

Não confundir com “dualismo ontológico” de diferentes sistemas religiosos que admitem, para o universo, não apenas um, mas dois princípios de explicação ou de origem (por exemplo, o maniqueísmo , ou a gnose).

“Dualismo” é, neste verbete, entendido como “dualismo metafísico”.


A grande dificuldade da afirmação do dualismo é a primeira lei da termodinâmica:

Primeiro princípio ou axioma da termodinâmica: princípio da equivalência (ou conservação de energia): a energia não pode ser nem criada nem destruída, mas apenas transformada. Num sistema fechado, a sua energia total permanece constante e representa o “equivalente mecânico” do calor.

A primeira lei da termodinâmica é equivalente, por assim dizer, à lei de Lavoisier: na Natureza, nada se cria, nada se perde, e tudo se transforma.

Portanto, o actual raciocínio científico “politicamente correcto” (paradigma) é o seguinte:

  • se o universo é um sistema fechado e é constituído por matéria (seja o que for o que se entenda por “matéria”), então não pode haver lugar para o espírito, nem pode haver qualquer influência do espírito sobre a matéria (o cérebro). Se o espírito quiser actuar sobre a matéria do cérebro a partir do exterior, tem que desrespeitar a primeira lei da termodinâmica — ou seja, seria necessária uma energia material exterior ao sistema físico para influenciar a matéria.

Em última análise, para que a primeira lei da termodinâmica fosse respeitada (porque a energia no universo tem de permanecer constante, segundo a primeira lei da termodinâmica), o espírito também seria uma qualquer forma de matéria, e, neste caso, deixaria de fazer sentido o conceito de “dualismo”.

Portanto, a ciência clássica parte do princípio de que o universo é um sistema fechado, e só em um sistema fechado a primeira lei da termodinâmica faz sentido e pode ser aplicável.

E se a primeira lei da termodinâmica é válida, então segue-se que não pode existir espírito e/ou alma, e as ideias e os pensamentos não passam de epifenómenos da actividade química do cérebro1 . Paul Churchland, por exemplo, supõe que é possível substituir a frase: “O senhor Manuel pensa que…”, pela afirmação: “No cérebro do senhor Manuel disparam no momento T1 os neurónios N1 a N12 do núcleo X, desta e daquela maneira”.

Portanto, ser cientista, segundo o paradigma clássico, significa não só a negação do espírito ou/e alma, mas também significa literalmente ser ateu. Surge então a Teoria da Identidade. 2


 
A física quântica veio alterar este paradigma científico, colocando em causa a concepção do universo como sistema fechado.

human-spiritA “amplitude de probabilidade de função de onda” (ou “função de onda quântica”, ou ainda, na terminologia mais recente, “vector de estado“), por exemplo, de uma partícula atómica, não constitui um campo material (ou não tem massa ou tem uma massa mínima), mas actua sobre a matéria ao causar a probabilidade de um processo de partículas elementares.

Estamos a falar de um facto científico baseado na experimentação, e não apenas de uma teoria. Este facto científico abriu as possibilidades de estados finais diferentes resultantes de processos dinâmicos idênticos, e sem que tivessem sido alteradas as condições iniciais (como, por exemplo, o abastecimento de energia).

Ou seja, segundo a ciência mais recente, o universo como sistema fechado e a primeira lei da termodinâmica estão colocados em causa. A primeira lei da termodinâmica pode ainda ser utilizada em ciência da mesma forma que o conceito de “absoluto” foi utilizado por Newton para elaborar a sua Dinâmica (o conceito de “absoluto”, em Newton, era uma espécie de muleta).

Resulta disto que a alma ou/e espírito não são produto da evolução (“evolução” entendida no sentido naturalista e darwinista), e que o dualismo metafísico passa a fazer sentido mesmo à luz da ciência. Hoje já não faz sentido que um cientista seja necessariamente ateu, ou que defenda uma mundividência naturalista do ser humano.


Notas
1. por exemplo, segundo Susan Blackmore, Rodolfo Llinas, Paul e Patrícia Churchland.

2. Para a “teoria da identidade”, as ideias não possuem qualquer realidade própria, sendo apenas um produto da actividade neuronal. Aquilo que é primário [aquilo que está em primeiro lugar] são os processos químicos e físicos nos neurónios, que decidem o que eu penso, o que faço e o que sou.

Karl Popper demoliu a “teoria da identidade” quando demonstrou que esta teoria não pode ter qualquer sentido se obedecer aos seus próprios pressupostos: se as minhas ideias não podem existir sem suporte físico, ou seja, se as minhas ideias são produtos e portanto, efeitos, da química que se processa no meu cérebro, então nem sequer é possível discutir a “teoria da identidade”. Esta teoria (da Identidade) não pode ter qualquer pretensão de verdade, visto que, por exemplo, as provas dela decorrentes são igualmente química pura. Se alguém defende uma teoria contrária, também tem razão, dado que a sua química chegou a um resultado diferente. Karl Popper chama a esta armadilha lógica de “pesadelo do determinismo físico”.

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Terça-feira, 10 Fevereiro 2015

Uma abordagem ao dualismo

Filed under: filosofia — O. Braga @ 11:20 am
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Quando falamos de “ser humano único e irrepetível”, devemos ter atenção, para além do espírito ou daquilo a que o Domingos Faria chama aqui de “alma”, os seguintes factores:

1/ a genética;
2/ a epigenética;
3/ a posição do universo (leis da Natureza) no momento sideral da concepção uterina e/ou do nascimento;
4/ a transformação biológica do ser humano desde que é concebido no útero até que morre;
5/ o meio-ambiente em vive o ser humano a cada momento da sua vida (educação, cultura, religião, etc.).

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Quarta-feira, 20 Março 2013

O dualismo de Descartes e a primeira lei da termodinâmica

Filed under: filosofia,Quântica,Ut Edita — O. Braga @ 6:20 pm
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Ao longo dos últimos séculos, Descartes tem sido alvo das mais diversas críticas, principalmente vindas dos puritanos, sejam estes calvinistas ou católicos gnósticos, ou sejam os seus herdeiros históricos: os naturalistas. E a principal crítica feita a Descartes, de uns e de outros, é o dualismo do corpo/alma.

René Descartes

René Descartes

Os puritanos religiosos — na linha do positivista e clérigo George Berkeley — criticam Descartes porque, ao separar corpo e alma, se legitima assim o racionalismo.
Os racionalistas e naturalistas criticam Descartes porque o dualismo alegadamente infringe a primeira lei da termodinâmica, ou lei da preservação de energia: se o espírito existisse independentemente do cérebro — dizem os naturalistas —, e se pode actuar sobre a matéria do cérebro a partir do “exterior” da matéria, então o primeiro axioma da termodinâmica é colocado em causa — porque a energia num universo fechado tem que permanecer constante.

O erro do naturalistas começa por considerarem o universo um sistema fechado. É sabido já, pela física quântica, que a amplitude de probabilidade da função de onda quântica de uma partícula elementar (atómica ou subatómica), ou ψ, não constitui um campo material (a função de onda quântica não é matéria!), por um lado, e por outro lado a função de onda quântica actua sobre a matéria, ao causar a probabilidade de um processo de partículas elementares.

Isto significa que processos dinâmicos idênticos resultam em estados finais diferentes — e sem que tivessem sido alteradas as condições iniciais, incluindo o suprimento de energia.

Quarta-feira, 16 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (6)

Já vimos duas características do gnosticismo antigo: a sua raiz anticósmica e o unanimismo como exigência de pertença. Também falámos das diferenças entre as religiões superiores e as religiões universais. (more…)

Sexta-feira, 26 Março 2010

O erro de Descartes, segundo António Damásio

No seguimento do postal anterior sobre o novo livro de Christopher Hitchens publicado em Portugal com honras de entrevista na TSF, lembrei-me de António Damásio e do seu livro “O Erro de Descartes”, publicado em 1995, que teve um apoio massivo dos me®dia na sua divulgação e foi um sucesso entre o filisteu actual português. Em contraponto, nunca foi publicado em Portugal nenhum livro do neurologista prémio Nobel, John Eccles, que defende exactamente o contrário de Damásio. Na ciência como na política, existe hoje a correcta e a incorrecta. A ciência correcta é aquela que pretende convencer o cidadão de que ele é apenas um “animal evoluído”, uma espécie de “macaco com ideias”, colocando-se assim em causa a excepcionalidade da vida humana; essa foi a missão do livro de Damásio que a intelectualidade portuguesa, em geral, aplaudiu e louvou.

Damásio segue a esteira do epifenomenalismo de Thomas Huxley que se transformou naquilo a que se convencionou chamar de “Teoria da Identidade”. Naturalmente que Damásio sabia que abraçando esta tese cientificista poderia ter sucesso nos EUA, o que veio a acontecer.

No século XIX o epifenomenalismo estava na moda. Reza a História que num simpósio de investigadores da natureza realizado em Göttingen, Alemanha, em 1854, um fisiólogo presente de seu nome Jabob Moleschott declarou que, “tal como a urina é uma secreção dos rins, assim as nossas ideias são apenas secreções do cérebro”. Perante isto, o conhecido filósofo Hermann Lotze levantou-se e disse que, ao ouvir a expressão de tais ideias do colega conferencista, quase acreditou que ele tinha razão…

António Damásio ataca no seu livro o dualismo de Descartes ― que considera o espírito e o cérebro como duas entidades separadas ― e adopta claramente a teoria epifenomenalista da identidade ― que considera o espírito e as ideias como uma secreção do cérebro. É sobre este assunto que trata este postal.
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Sexta-feira, 4 Julho 2008

A crítica das religiões ― uma opinião

A crítica sistemática à religião surgiu na Europa cristã, principalmente com o advento do Iluminismo, e não aconteceu noutros continentes e em outras religiões (pelo menos com os mesmos contornos). Provavelmente, a razão porque o ateísmo soteriológico se instalou na Europa estará ligada a uma maior tolerância do Cristianismo em relação à crítica do que a manifestada por outras religiões e culturas.

Nem todos os chamados “iluministas” foram contra o Cristianismo (Kant não foi), mas quase todos os iluministas manifestaram um anti-teísmo que se confundiu, muitas vezes, com um anti-clericalismo feroz ― mas nem por isso a elite iluminista deixou de ser religiosa. Augusto Comte, por exemplo, fez do Positivismo uma espécie de religião monista.

A crítica da religião que se desenvolveu a partir do Iluminismo resultou no surgimento de perspectivas religiosas como alternativas seculares que enfraqueceram o nível de individualização do ser humano (como aconteceu com o Modernismo) dando azo a que questões próprias do indivíduo ― a doença, a culpa, a morte, etc. ― passassem a ser abordadas como tabu ou tivessem recebido uma solução niilista.

Na esteira de Espinoza seguiram os iluministas que deram depois origem a Feuerbach, Nietzsche, Engels, Marx ― todos eles construiriam alternativas religiosas monistas ao monoteísmo cristão. O panteísmo de Espinoza é um monismo que desembocou no naturalismo soteriológico iluminista: a nova religião da “não-religião” ― que era sempre conforme a razão subjectiva de cada um dos novos gurus que se pretendiam basear em conhecimentos comprováveis para justificar a sua nova utopia. De certo modo, com o Iluminismo aconteceu um retrocesso na evolução religiosa (decadência), uma vez que o monismo é historicamente anterior ao monoteísmo.

As religiões monoteístas (Cristianismo, Islamismo e Judaísmo ― e a religião Bahai também é um monoteísmo sincrético) baseiam-se na “revelação transcendental”, enquanto que as religiões monistas perfilham o conceito de “conhecimento sagrado” mais ou menos aliado a um panteísmo naturalista. O Confucionismo e o Taoísmo são monismos. Para além dos monismos e dos monoteísmos, existem religiões panenteístas, como o Siquismo e o Budismo moderno com a sua conjugação de Samsara e Nirvana. Finalmente, temos as religiões dualistas, como o Parsismo e o Hinduísmo. Contudo, o dualismo está mais ou menos presente nos outros tipos de religião, e o Cristianismo distingue-se das outras religiões monoteístas pela existência da Trindade (Deus, Logos e Espírito), herdada do grego Plotino (neoplatonismo) e consagrada por S. Agostinho (ele próprio um dualista).

O que o Iluminismo fez foi tentar substituir ― através de uma elite intelectual controlada pela seita maçónica dos Illuminati ― o monoteísmo cristão por monismos seculares prenhes de manifestações religiosas. O materialismo moderno é a forma radicalmente secular do monismo. As utopias radicais modernas são fórmulas religiosas monistas que traduzem novas doutrinas da salvação da humanidade, mas como em todos os monismos não existe um Deus pessoal que possa comprometer o indivíduo, as tentativas de criação do Homem Novo acabam por cair num niilismo, não abrindo qualquer perspectiva de esperança humana.

Embora criticada pelos diferentes monismos utópicos seculares, o Cristianismo continua a desempenhar um papel fundamental (embora mais discreto) na Europa actual em campos em que a religião revelada é competente ― por exemplo, a questão do sentido ― de forma tal que não é de esperar o fim das religiões no futuro, conforme apregoado e defendido pela soteriologia ateísta.

Imagem daqui.

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