perspectivas

Segunda-feira, 28 Dezembro 2015

A Maria João Marques é como “umas e outras”

 

Lamento contrariar a Maria João Marques, mas ela não é igual a mim. E graças a Deus! Teria um imenso desgosto se eu fosse igual à Maria João Marques — não só por ela ser mulher, mas sobretudo por ela ser a Maria João Marques.

Nem os animais irracionais são iguais uns aos outros. Dois cães da mesma raça não são iguais. O conceito de igualdade reduz o ser humano a uma criatura infra-animal. Nem duas bactérias são iguais entre si. A igualdade transforma o ser humano em um átomo ou em uma partícula elementar sub-atómica.

(more…)

Sábado, 11 Maio 2013

O trabalho e a ‘indiferenciação da diferença’

Sobre este verbete:

1/ Não é verdade que nas sociedades primitivas — no neolítico — não tenham existido estratos sociais.

A pulverização de direitos individualizados, para além de subverter o Direito que passa a adequar sistematicamente a norma ao facto, faz com que a noção cultural de pessoa moral seja largamente substituída, na sociedade, pela noção de indivíduo entendido como unidade fisiológica e biológica. Este fenómeno actual de subalternização ou mesmo de desvalorização da pessoa moral, em favor do indivíduo entendido como unidade biológica que se caracteriza essencialmente por diferenças fisiológicas, é um produto da anomia e da “indiferenciação da diferença” e, por isso, é a causa de um processo de construção de um novo tipo de “tribalismo” que se caracteriza por tornar o indivíduo permutável e socialmente indiferenciado.

A antropologia demonstrou, através do estudo de sociedades tribais primitivas, por exemplo, entre as tribos da América do Sul ou do Bornéu, que nessas sociedades também existiam e existem estratos sociais (só não são “classes” propriamente ditas porque a população de uma tribo é pequena). O que acontece é que essas tribos têm um número reduzido de indivíduos — frequentemente, uma tribo pouco mais é do que uma aldeia —, e por isso as distinções grupais ou de “classe” dentro da tribo (mas não distinções “individuais”, que é outra coisa) tornam-se mais difíceis de identificar para quem olha a tribo a partir de fora. Mas dentro dela, os estratos grupais e as funções sociais são claramente distintos definidos.

À medida em que o número de indivíduos foi aumentando e a tribo foi-se expandindo em um determinado território, os estratos sociais existentes tornaram-se mais visíveis.

2/ o trabalho visto como uma “alienação do Desejo” (a alegada “Era de servidão em que vivemos”) é uma alienação marxista que decorre de uma fé metastática. A utopia marxista de transformação da realidade, segundo a qual o actual “reino da necessidade” se transmuta na certeza de um futuro em que surgirá o “reino da liberdade” (Engels) é o equivalente psicótico da “mão invisível” do mercado. Em ambos os casos, lidamos com doentes mentais graves, com psicoses irreversíveis.

3/ Dizer que na tribo primitiva existia “uma liberdade de ausência de constrangimentos sociais” também é falso.

Pelo contrário, na tribo primitiva o indivíduo apaga-se, desvanece-se face à sociedade liderada por uma pequena elite (podem ser os anciãos e/ou o curandeiro, ou o chefe guerreiro e a sua família, etc.). Não é possível conceber um maior grau de “constrangimento social” senão numa sociedade em que o indivíduo é permutável (tanto faz um indivíduo como outro qualquer) e se torna quase indistinto face ao grupo. (more…)

Terça-feira, 16 Abril 2013

Diferença e tolerância

“Diferença” é sinónimo de alteridade. Esta definição não explica nada e é até tautológica. Seria como se se dissesse que “a cor branca é clara”. Por isso vamos ter que “trocar por miúdos” a noção de “diferença”.

Quando vários termos (ou pessoas, ou grupos de pessoas) têm algo em comum, isso significa que também existem característicos desses termos que não são comuns. Ou seja, esses termos são semelhantes, mas não são idênticos.
Ao contrário do que Heidegger dizia — que “a diferença só pode ser definida negativamente” porque alegadamente “não é idêntica nem semelhante” —, a diferença entre termos implica necessáriamente a existência de semelhanças entre esses termos. Se não existe qualquer semelhança entre uma série de termos entendidos individualmente, não podemos falar de “diferença”, mas de “diversidade”: o “diverso”, sendo a desmultiplicação ad infinitum das características que separam radicalmente as identidades dos termos em questão, reúne em si tudo o que não pode ser incluído no discurso filosófico ou racional. Falar em “diversidade” não é falar naquilo que é concreto e objectivo: antes, é uma abstracção que nos conduz ao infinito e, portanto, ao ininteligível.

“Diferença” não é a mesma coisa que “diversidade”.

(more…)

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: