perspectivas

Quarta-feira, 17 Julho 2013

Desejo e moral

David Hume dizia que não seria irracional que alguém preferisse a destruição do mundo a sofrer uma esfoladela num seu dedo. Vamos chamar a este princípio de Hume a “absolutização do interesse próprio”. Desde logo, Hume joga com a palavra “racional”, e podemos perguntar: ¿será racional que alguém prefira que o mundo inteiro seja destruído – incluindo a própria pessoa que deseja salvaguardar o seu dedo de qualquer mazela – para evitar uma esfoladela num seu dedo?

(more…)

Sexta-feira, 2 Setembro 2011

Leibniz e o bêbedo de Locke (salvo seja)

Em termos de metafísica (e também da ética), a história depois de Jesus Cristo e até ao fim da Idade Clássica, resume-se em três nomes: Santo Agostinho, S. Tomás de Aquino, e Leibniz.

Estes três são diferentes entre si mas complementam-se. E depois temos uma segunda linha de pensadores, como por exemplo Anselmo de Aosta, uma parte de Pascal, o próprio Locke na sua primeira fase, Erasmo, Nicolau de Cusa, e poucos mais.
Ao entramos pela Idade Moderna adentro, a coisa complica-se, e até ao século XX só Kant se salva (parcialmente). A partir do século XX surgiram alguns pensadores metafísicos de relevo, como por exemplo Schiller, Husserl, Karl Jaspers, Louis Lavelle, e pouco mais do que isto.


No seu “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, Locke invoca o exemplo do bêbedo que se alcooliza ainda que saiba que coloca em risco a sua saúde: o bêbedo não pode parar de beber em função da prevalência do desejo sobre o entendimento (o juízo). A partir deste exemplo, Locke generaliza: “aquilo que leva a vontade a agir não é o maior bem, como se supõe vulgarmente, mas antes uma inquietação presente (desejo) e, regra geral, a que é mais premente. Podemos dar-lhe o nome de desejo, que é efectivamente uma inquietação do espírito”.

A posição de Locke é pessimista: o homem verga-se perante o desejo e não há razão que o valha. Este pessimismo foi posteriormente seguido por Hume, pelos utilitaristas ingleses, e até pelo neoliberalismo de Hayek.

Leibniz retoma o exemplo do bêbedo de Locke e aplica-lhe a fórmula de S. Tomás de Aquino (que por sua vez já vinha de Santo Agostinho, nas “Confissões”):

DESEJO → VONTADE → JUÍZO → LIBERDADE

Segundo Leibniz — cuja ética não é normativa, mas sim prescritiva —, o que prejudica o bêbedo de Locke “não é a inquietação, que nem sempre é desprazer, mas muitas vezes uma percepção sensível em que se torna difícil distinguir o que faz pender mais para um lado do que para outro”. Ou seja, é a escolha (o juízo, ou o entendimento) do objecto de desejo em si mesmo que se torna importante (os fins últimos de Aristóteles), e não a simples procura, em si mesma — muitas vezes, infindável —, do objecto do desejo (os fins próximos, como defendiam Locke e Hobbes, sendo que este último inverteu a ética aristotélica).

Leibniz dá o exemplo do frade jesuíta que gostava da “pinga”, e que por isso acrescentava, todos os dias, um pingo de cera na sua taça por onde bebia o vinho. E à medida que os dias passavam, a cera acumulava-se na taça e, assim, a quantidade de vinho ia sendo cada vez menor. Para Leibniz, a experiência atesta a possibilidade de deslocar o objecto de desejo negativo ou prejudicial, para um outro objecto mais sublime e aliciante.

Se escolhemos muitas vezes o pior, “é porque pressentimos o bem nele contido”, sem sentirmos o mal que esconde: o problema moral é uma questão de condução ou orientação do desejo, através da qual as energias do desejo são transferidas para um objecto bom ou para uma boa representação do divino.

Quinta-feira, 20 Agosto 2009

Quando o desejo se transforma em patologia

O desejo como carência radical

O desejo como carência radical

Não é possível entendermos as actuais tendências anti-humanistas de diversa ordem e origem, que inclui o ecofascismo, o abortismo, o gayzismo, o bloquismo, o socratinismo, etc, sem percebermos as formas enviesadas, patológicas e sociopatas em que se transformou fenómeno humano do “desejo” em relação a uma determinada subcultura política ocidental de herança gnóstica.

O desejo é eminentemente humano; sem desejo, o Homem é um cadáver.

Porém, quando o desejo de afasta da razão de forma a não ser controlável por ela, o primeiro substitui a segunda e passa a querer conter a própria razão em si mesmo; existe uma transferência simbólica da razão para o próprio desejo que se torna passível da sua incondicionalidade ― o desejo passa a não poder ser colocado em causa de forma nenhuma, e muito menos pela razão, por que o desejo pretende integrar a razão na sua visão holística da realidade. Naturalmente que essa integração é impossível, mas o desejo patológico assume enviesadamente essa anulação e a subordinação inconsciente da razão.

Assim, a razão passa ― de uma forma irracional ― a fazer parte integrante do desejo que se torna imune ao juízo crítico. É, de certa forma, o corolário da evolução do pensamento misantrópico de Rousseau do primado do instinto sobre a razão, transportando consigo todas as contradições que sabemos que o ideólogo suíço infelizmente nos deixou como uma marca da perversidade humana que perdura até hoje. Rousseau entendia o progresso como um retorno às origens, isto é, à natureza, ao mesmo tempo que admite que o Homem vivendo numa condição natural — inteiramente subordinado à Natureza — nunca tenha existido. Assim, viver na condição natural passa a ser a aceitação consciente da procura de viver de acordo com o racionalmente impossível, o que implica uma metanóia que acaba por fazer exactamente o contrário daquilo que é defendido por Rousseau: o Homem separa-se da sua natureza humana, e a única forma de o fazer é subordinando a razão ao desejo. Rousseau defendeu uma ideia que resultou, na prática, exactamente no seu contrário.
(more…)

The Rubric Theme Blog em WordPress.com.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 449 outros seguidores