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Quinta-feira, 17 Março 2016

Hoje é coisa fina não ser “conservador nos costumes”

 

Hoje é chique não ser “conservador nos costumes”; fica bem; dá uma áurea de super-homem; é ser progressista, aparentemente partilhando com a Esquerda a excentricidade do “génio individual”. A preocupação do liberal que se preze é o de não ser “conservador nos costumes”, para poder defender, perante a Esquerda, o conservadorismo na economia. Cede num lado para poder afirmar-se noutro; trata-se de uma cedência. Mas a verdade é que não existe conservadorismo na economia nem nos costumes: o que existem são políticas económicas erradas (por exemplo, o socialismo) e costumes errados.

Dificilmente poderei ser considerado um conservador nos costumes. Sou a favor da legalização total das drogas, do jogo e contra a existência do crime de lenocínio. Acho que o contrato de casamento não deve ser tipificado, mas a sê-lo não deverá impôr restrições de género ou número. Acho que um casal deve poder recorrer aos métodos que achar necessários para constituir família desde que não viole os direitos de outrem, e considero a institucionalização como o pior destino possível a dar a uma criança que perca os pais biológicos. Com o aborto, é diferente”.

Como dizia Nicolás Gómez Dávila, “o individualismo é o berço da vulgaridade”. Porém, na Esquerda, a defesa das mesmas teses libertárias das do escriba liberal não tem um cariz individualista ou utilitarista — e é isto que é difícil de perceber. Ou seja, o liberal de direita e o “libertário” de esquerda concordam sobre as mesmas coisas, mas com fundamentos diferentes.

Por exemplo, o João Semedo (Bloco de Esquerda) diz que basta que os cuidados paliativos não se apliquem, na redução do sofrimento, a uma só pessoa, para que a eutanásia deva ser legalizada. Ou seja, basta que a situação de doença terminal de uma só pessoa não possa ser abrangida pelos cuidados paliativos, para se impôr a legalização da eutanásia para todos.

Isto é tudo menos utilitarismo, que se baseia na máxima da “maior felicidade para o maior número”, e não na da “maior felicidade para todos”.

Nos países anglo-saxónicos ou do norte da Europa, onde o aborto e a eutanásia foram legalizados, seguiu-se o princípio utilitarista da “maior felicidade para o maior número” — e por isso é que a eutanásia descambou e passou a ser “suicídio a pedido do cliente” de qualquer idade. Mas a Esquerda não tem uma tradição utilitarista; aliás, Karl Marx dizia pejorativamente que “o utilitarismo é moral de merceeiro inglês”.

A posição do João Semedo acerca da “eutanásia para todos por causa de um só”, não é utilitarista.

Então, ¿o que é? ¿Será que a ética do João Semedo é ontológica (kantiana)? Também não. A ética do João Semedo é teleológica. É uma ética de terra queimada, na esteira de Gramsci; é preciso não olhar a quaisquer meios para atingir o fim da destruição da ética judaico-cristã que, alegadamente, sustenta o capitalismo.

A tese da “eutanásia para todos por causa de um só” aparece, na praça pública, travestida da defesa dos direitos daquele indivíduo.

Faz-se o apelo à emoção por causa daquele indivíduo em particular, entre milhões de outros, que não pode ser abrangido pelos cuidados paliativos. A tese da “eutanásia para todos por causa de um só”, do João Semedo, até parece a ética da Misericórdia cristã do papa-açorda Francisco. Um liberal de direita até poderia defender a legalização da eutanásia em nome do individualismo; o João Semedo defende a legalização da eutanásia em nome de uma utopia colectivista que subverta a ordem natural da realidade. No meio disto tudo, o inteligente é o João Semedo, e os liberais são os idiotas úteis.

O critério do João Semedo que se aplica à eutanásia foi o mesmo aplicado pela Esquerda à legalização do aborto.

Não é um critério utilitarista (como o que existe, por exemplo, em Inglaterra ou nos Estados Unidos em relação ao aborto) — porque a cultura antropológica portuguesa não tem uma tradição utilitarista —, mas é um critério subversivo e colectivista utópico, que visa minar a cultura antropológica no sentido de “criar as condições necessárias” na cultura antropológica para uma revolução (mais ou menos violenta).


O liberalismo do insurgente é um momento do processo revolucionário do João Semedo:

« Há muitos motivos para você ser contra o socialismo, mas entre eles há dois que são conflitantes entre si: você tem de escolher. Ou você gosta da liberdade de mercado porque ela promove o Estado de direito, ou gosta do Estado de direito porque ele promove a liberdade de mercado. No primeiro caso, você é um “conservador”; no segundo, é um “liberal”.

(…)

Ou você fundamenta o Estado de direito numa concepção tradicional da dignidade humana, ou você o reinventa segundo o modelo do mercado, onde o direito às preferências arbitrárias só é limitado por um contrato de compra e venda livremente negociado entre as partes.

(…)

O conservadorismo é a arte de expandir e fortalecer a aplicação dos princípios morais e humanitários tradicionais por meio dos recursos formidáveis criados pela economia de mercado. O liberalismo é a firme decisão de submeter tudo aos critérios do mercado, inclusive os valores morais e humanitários.

O conservadorismo é a civilização judaico-cristã elevada à potência da grande economia capitalista consolidada em Estado de direito. O liberalismo é um momento do processo revolucionário que, por meio do capitalismo, acaba dissolvendo no mercado a herança da civilização judaico-cristã e o Estado de direito. »

Olavo de Carvalho, “Por que não sou liberal”

Segunda-feira, 3 Agosto 2015

Na actualidade, um conservador não pode ser progressista

Filed under: Política — O. Braga @ 9:16 am
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“Lição do sábio Eugen Rosenstock-Huessy: só cretinos são conservadores ou progressistas. Todo homem normal é conservador e progressista.

Olavo de Carvalho

Teríamos que saber o que significa “progresso”, porque o conceito de “conservador” só existe em função do conceito de “progresso”. Antes de existir “progresso” não existiam “conservadores”.

Por exemplo, quando falamos em “progresso de uma doença”, ou em “progresso de uma epidemia”, a noção de “progresso” é (universalmente) negativa. Portanto, nem sempre o “progresso” é (universalmente) coisa boa. Mas não é esta interpretação de “progresso” que é dada na frase em epígrafe: ali, o conceito de “progresso” é positivo (entendido universalmente como coisa boa): trata-se de uma noção com um valor positivo e que significa a melhoria (seja o que for que a “melhoria” signifique) de uma escala de qualquer coisa: por exemplo, “o progresso do bem-estar social”, ou “o progresso moral”.

Mas se virmos bem, nem mesmo no conhecimento científico há progresso, a não ser em função de determinados pontos de referência estabelecidos a posteriori: em ciência, o progresso acontece só depois de se afirmarem determinados valores — primeiro na cultura da comunidade científica influenciada pela cultura das elites (a ruling class), e depois na cultura antropológica.

Não podemos falar de “progresso” em filosofia — a não ser na actualização de velhas noções, na releitura e enriquecimento das respectivas explicações iniciais, e eventualmente na rejeição de explicações consideradas obsoletas e que sempre se relacionam com a origem “não-filosófica” de toda a filosofia.

Portanto, o “progresso” existe apenas em função de valores que regem mundividências.

O conceito de “progresso” não pode ser claramente definido porque depende do conceito de “valor”. E quando falamos de algo que não tem uma clara definição real1 (em contraste com a definição nominal dessa coisa), entramos em terrenos movediços.

Os valores existem em si mesmos, e não dependem de uma qualquer utilidade. Por exemplo, se o valor da justiça dependesse de uma qualquer utilidade, a justiça andaria pelas ruas da amargura (como acontece amiúde). O valor da justiça (porque existe em si mesmo) não muda consoante os tempos (a justiça não é hegeliana) — o que significa que a justiça perfeita (a justiça absoluta) não é possível na sociedade, em qualquer tempo. O absoluto é uma referência da condição humana, um farol que nos guia nas procelas da existência no espaço-tempo.

Na dimensão dos valores, o que conta é a volição da aproximação ao absoluto dos valores (a aproximação à verdade, que também é científica), sejam estes negativos ou positivos. E aqui entramos em outro problema, que é do de saber como e por quê um valor é, em termos absolutos, positivo ou negativo (enquanto nos atemos à realidade da causa-efeito que condiciona a dimensão do espaço-tempo) — a não ser que digamos que um valor pode ser simultânea- e absolutamente positivo e negativo: se um conceito não tem, em si mesmo, um sentido exclusivo no absoluto, a sua definição é apenas operacional (prática e utilitária). Se o conceito de “justiça” (ou de “progresso”) não tem sentido no absoluto, então a sua definição é reduzida à sua utilidade, e o conceito de “justiça” (ou de “progresso”) deixa por isso de ter sentido em si mesmo.

Na dimensão dos valores, há que distinguir os meios e os fins. Se o conceito de “progresso” está imbuído de determinados valores, temos que saber se os meios utilizados — para atingir fins — estão de acordo com o absoluto desses valores (que existem em si mesmos). Antes mais nada, o problema do “progresso” é metafísico, e depois ético — antes de ser social, cultural, político, científico, etc..

Ora, o conceito de “progresso” faz hoje parte integrante de uma metafísica negativa — uma metafísica que nega os princípios metafísicos da realidade (a negação da metafísica não deixa de ser, ela própria, uma forma de metafísica). A não ser que um conservador adopte como positiva também essa metafísica negativa, não o podemos misturar com os protagonistas do “progresso”.

O problema da proposição de Olavo de Carvalho em epígrafe, é o de que descura o carácter actual e contemporâneo do conceito de “progresso”, que adopta uma metafísica negativa. É neste sentido que é impossível a um conservador ser simultaneamente progressista — exactamente porque um conservador propriamente dito é um reaccionário em relação ao conceito actual de “progresso”.


Nota
1. As definições nominais assentam numa convenção prévia (por exemplo, os sinónimos de um dicionário); as definições reais são as que resultam das características invariavelmente observadas a partir dos dados da experiência.

Sábado, 11 Abril 2015

A civilização colide com o impulso

 

“Mãe, acabas de ferir os meus sentimentos!” ― frase pronunciada por um rapaz de 10 anos quando a mãe lhe pediu o favor de apagar o televisor e ir para a cama. Também uma psicóloga, recentemente, dava um conselho aos jovens num artigo de um jornal: «Se notas que sentes algo especial, não tenhas medo, liberta-te de tabus, corre para os seus braços e entrega-te totalmente. Só assim a tua vida será sincera e sem hipocrisias».

Reparem no pormenor: «sentir algo especial» é suficiente para justificar qualquer comportamento. E a sinceridade já não tem nenhuma relação com a verdade. Ser sincero, segundo a psicóloga, é sentir algo especial e não reprimir esse sentimento.

Educar os sentimentos

A civilização é sobretudo racionalidade, e esta é penosa.

Para o ser humano que fica mais civilizado apenas por um proceder obrigatório ou compulsivo, mais do que pelo sentir a racionalidade 1  da civilização, para ele a racionalidade é uma pena, e a virtude é um fardo quase insuportável ou até mesmo uma escravidão. Isto leva a reacções no pensar, no sentir e no agir, como podemos ver no conselho politicamente correcto da psicóloga supracitada.

O homem civilizado distingue-se do selvagem pela capacidade de previsão, ou em aquilo a que os gregos antigos chamavam de Fronèsis (prudência): o civilizado aceita penas actuais por causa de benefícios futuros, ainda que esses benefícios possam estar distantes no tempo. Por exemplo, nenhum animal ou nenhum selvagem trabalharia na Primavera para ter alimento no Inverno.

A Fronèsis começa apenas quando o ser humano faz alguma coisa a que o impulso (ou instinto) não o obriga a fazer, porque a razão lhe diz que disso tirará proveito em data futura. A civilização colide com o impulso — não só através da Fronèsis que é colisão auto-inflingida, mas também através da lei, dos costumes e da religião.

Em geral, a Direita conservadora é civilizada, e a Esquerda é selvagem. A Esquerda representa a decadência da civilização, a selvajaria, porque coloca sistematicamente os impulsos e instintos acima da prudência.

Nota
1. Não confundir com “racionalismo”.

Terça-feira, 10 Março 2015

Um conservador não é um troglodita

Filed under: Política,Portugal — O. Braga @ 7:54 am
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Eu considero-me “conservador” mas não concordo com muita coisa neste texto. Vamos começar por aquilo com que concordo no texto: o sistema de valores de uma sociedade tem que se fundamentar (não só, mas essencialmente) em valores intemporais — o sistema fundamental de valores não deve mudar conforme as modas de cada época.

Mas (e aqui passo a discordar com o texto), o sistema de valores deve ser racionalmente fundamentado.

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Domingo, 16 Fevereiro 2014

O verdadeiro conservadorismo em França

 

familias de frança web

Segunda-feira, 30 Setembro 2013

A solidariedade liberal ou a conservadora

Filed under: Política — O. Braga @ 11:01 am
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A solidariedade liberal (ou seja: de Esquerda) é unívoca: exerce-se apenas e só em um sentido que é o do grupo social em relação ao qual a solidariedade é expressa. Quando um liberal é solidário, ele abdica da reciprocidade da solidariedade. Por exemplo, quando um liberal é solidário em relação a uma minoria cultural, étnica ou racial, essa solidariedade do liberal não exige reciprocidade: para essa minoria são reclamados direitos sem exigir nada em troca.

A solidariedade conservadora é biunívoca: exerce-se em dois sentidos. Quando um conservador é solidário, essa solidariedade é culturalmente integradora, no sentido da manutenção do Todo social. Quando o conservador é solidário, exige solidariedade em troca. Por exemplo, quando um conservador é solidário em relação a uma minoria cultural, étnica ou racial, essa solidariedade exige que os membros dessa minoria sejam também solidários com o Todo social: a reclamação dos direitos para os membros dessa minoria não são dissociados dos direitos que o cidadão comum, maioritário, impõe e exige.

Esta diferença é essencial para se distinguir um liberal de um conservador.

Quarta-feira, 5 Junho 2013

Tretas liberais

Lemos aqui uma grande treta liberal.

“Segundo a direita conservadora, trata-se de uma estrutura pactuada pelos indivíduos, para que lhes sejam garantidas algumas condições elementares de vida social, que eles, por si, são incapazes de garantir plenamente. O estado deve, assim, situar-se nos domínios da segurança, da justiça, das relações externas e da economia, como garante da liberdade económica e das regras do mercado de livre concorrência. Alguma direita democrática mais ortodoxa quer ver o estado a promover o bem-estar social. Esta “direita” é objectivamente de esquerda e deve saltar para o parágrafo anterior.”

Os auto-proclamados “liberais” – que precisam do Estado para financiar a Banca privada, e que nacionalizam os prejuízos privados dos Bancos – reflectem a necessidade premente de auto-justificação que se traduz não só na alienação da interpretação da História, como faz a Esquerda radical descontrucionista – quando, por exemplo, identificam o liberalismo com a cultura política da Idade Média! Pasme-se!, como é possível uma aberração interpretativa deste calibre! -, mas também inventam um conceito de “liberalismo” que não existe no mundo mais desenvolvido. Exemplos de países do mundo em que a despesa do Estado é inferior a 40% do PIB:

  • Albânia, Argélia, Argentina (em crise endémica e enfeudada ao FMI há duas décadas), Arménia, Azerbaijão, Bahamas (paraíso fiscal), Barain (petróleo), Bangladesh, Belize, Benim, Bolívia, Cambodja, Camarões, e por aí fora, incluindo o Vietname. Os “liberais” adoram o Vietname e a Coreia do Norte…

Estes são os “bons exemplos” de “países liberais” que combatem o enfeudamento da economia ao Estado. Os “liberais” precisam dos absurdiandos ideológicos como do pão para a boca.

Segunda-feira, 27 Maio 2013

David Cameron quer incluir líderes islâmicos na Câmara dos Lordes

Filed under: Europa — O. Braga @ 8:37 am
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A monarquia inglesa assenta sobre a liderança da rainha em relação à igreja anglicana. A rainha de Inglaterra é a governadora suprema da igreja anglicana .

Os dois partidos da “direita” inglesa estão divididos quanto à presença de 26 bispos anglicanos na Câmara dos Lordes : os liberais de Nick Clegg querem acabar com a presença dos bispos anglicanos nessa Câmara, e os “conservadores” de David Cameron querem incluir na Câmara a presença de imãs islâmicos. Tanto num caso como noutro, a autoridade religiosa da rainha de Inglaterra sai minada. E é isto a que chamamos hoje de “direita”. Imaginem a presença de chefes religiosos muçulmanos na Câmara dos Lordes da tradicional Inglaterra… ao lado dos bispos anglicanos.

Ninguém deve ser contra a mudança, mas deve saber por que se muda. O que acontece é que hoje é-se a favor da mudança porque está na moda mudar por mudar.

“Os conservadores são aqueles desejam e pretendem que o progresso político ou financeiro da nação se faça por alteração social produzida dentro de moldes políticos e sociais dessa nação”. (…) “Para o conservador, os moldes ficam em forma e em tamanho. Apenas muda o conteúdo.”
(…)
“Os liberais são aqueles que cuja teoria do progresso inculca a ideia de que ele se faz por uma lenta alteração da sociedade, não tanto nem somente dentro de moldes em que essa vida social se encontra vasada”. (…) “Para o liberal, os moldes alargam-se mas a sua forma fica.”
– Fernando Pessoa

A julgar pela definição de Fernando Pessoa de conservadores e liberais, hoje não existem, na Europa, nem os primeiros nem os segundos: a “direita” está controlada pelo marxismo cultural, porque tanto uns como os outros tendem a eliminar a forma das instituições.

Quarta-feira, 22 Maio 2013

Dominique Venner e a Igreja Católica

Filed under: Europa,Igreja Católica,Política — O. Braga @ 4:47 am
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O texto testamentário de Dominique Venner incui o seguinte trecho:

“I am healthy in body and mind, and I am filled with love for my wife and children. I love life and expect nothing beyond, if not the perpetuation of my race and my mind. However, in the evening of my life, facing immense dangers to my French and European homeland, I feel the duty to act as long as I still have strength. I believe it necessary to sacrifice myself to break the lethargy that plagues us. I give up what life remains to me in order to protest and to found.

I chose a highly symbolic place, the Cathedral of Notre Dame de Paris, which I respect and admire: she was built by the genius of my ancestors on the site of cults still more ancient, recalling our immemorial origins.”

Podem ler aqui o resto do texto, em PDF.

Dominique Venner diz que respeita e admira a catedral de Notre Dame apenas por duas razões: 1/ foi construída pelos génios seus (dele) ancestrais; e 2/ foi construída (alegadamente) no sítio dos cultos antigos e pagãos do neolítico. Esta foram as duas razões invocadas por Dominique Venner para suicidar dentro de uma catedral católica. O simbolismo do Cristianismo está totalmente ausente em Dominique Venner.

Ambas as alegações não são verdadeiras. Quem dirigiu a construção da catedral de Notre Dame foram mestres maçons que nem sequer eram franceses de origem étnica, e que foram contratados por exemplo em Itália (o estilo gótico surgiu em Itália), e outros mestres maçons eram oriundos do médio oriente. E, por outro lado, não está provado historicamente que o sítio da construção da catedral tenha sido anteriormente um sítio de culto pagão.

Dominique Venner poderia, por exemplo, dar um tiro na cabeça em frente ao parlamento francês, ou suicidar-se em frente ao palácio presidencial do Eliseu. Mas em vez disso, e não sendo ele católico, Dominique Venner resolveu suicidar-se dentro de uma igreja católica. Este tipo de actos de uma certa “direita” — que não é direita propriamente dita porque é socialista ou colectivista, e que não é conservadora porque renega o valor do Cristianismo na edificação da civilização europeia — apenas prejudica a luta dos católicos (e dos cristãos e conservadores em geral) contra o marxismo cultural que alimenta o actual politicamente correcto.

O acto de Dominique Venner revela que a Europa precisa de uma nova direita que respeite a história, as tradições e os costumes, e que respeite a separação do Estado em relação às religiões, mas que não seja a “direita socialista” e laicista (*) de tipo Frente Nacional de Marie Le Pen, por um lado, e que, por outro lado, coloque em cheque a actual “direita” do PPE (Partido Popular Europeu) que mais não é do que uma extensão da esquerda radical e jacobina.

(*) Ver a diferença entre secularismo e laicismo.

Sexta-feira, 17 Maio 2013

Uma errata para um verbete sobre o conservantismo

Filed under: Política,Ut Edita — O. Braga @ 6:28 am
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Vamos fazer um breve fisking de um texto publicado aqui, como segue:

“ [características do conservadorismo] descrença em modelos racionalistas que ignoram o facto de que os homens são governados mais pelas emoções que pela razão;”

Não devemos confundir “emoção”, por um lado, com “intuição”, por outro lado. A intuição é uma forma de inteligência, e portanto, uma forma de razão. E se houve alguém que se apoiou quase exclusivamente na emoção (nas paixões) para justificar o comportamento humano foi David Hume, o pai do cepticismo moderno. E dizer que Hume foi conservador é um preciosismo.

“Em minha interpretação da leitura dos textos conservadores, eis o que ficou de mais relevante: uma cautela contra tudo que é extremista e utópico; a preferência por reformas graduais em vez de saltos revolucionários;”

Uma reforma pode ser extremista, independentemente de ser utópica ou não. Extremismo e utopia não são sinónimos nem podem ser colocados num mesmo plano. Por exemplo, em relação à sua época, o Cristianismo foi extremista. Um conservador pode ser extremista sem ser utópico, dependendo das circunstâncias.

“Há em todo conservador uma boa dose de respeito pelo árduo processo de tentativa e erro ao longo dos tempos, que serviu para moldar instituições úteis a nossa sobrevivência. E o mais importante: tais instituições nem sempre podem ser perfeitamente compreendidas pela nossa razão. O liberal Friedrich Hayek tinha postura semelhante, apesar de não se considerar conservador.”

O segundo parágrafo é absolutamente falso; aliás, entra em contradição com o primeiro parágrafo.
O processo de “tentativa e erro” é um processo científico, e portanto racional. É aqui que está a contradição entre o primeiro e o segundo parágrafos.

Hayek adoptou o cepticismo de David Hume. Não há um liberal qualquer que se atreva a desmentir isto, ou então não sabe o que diz. O cepticismo de David Hume é o cepticismo moderno, que também influenciou, por exemplo, Bertrand Russell. Em contraponto, o conservador é um céptico no sentido grego (no sentido socrático), o que é uma coisa totalmente diferente.
Por outro lado, Hayek juntou, na sua teoria, um certo optimismo utópico de Kant ao cepticismo de Hume — o que é uma contradição em termos, porque Kant não fez outra coisa senão colocar em causa Hume.

“Para Hayek, faltava aos conservadores a coragem de aceitar as mudanças não programadas pelas quais novas conquistas humanas irão surgir.”

Há aqui uma confusão entre conservantismo, por um lado, e tradicionalismo, por outro lado. Um conservador pode não concordar com algumas tradições, por razões éticas. Para um conservador, os valores da ética devem ser universais, fundamentados racionalmente, intemporais, e facilmente distinguíveis nas suas características principais. Para um conservador, sendo realista, os valores existem por si mesmos e não decorrem de uma qualquer utilidade prática.

Por exemplo, eu não concordo com a tradição islâmica da excisão feminina. E também não concordo com o aborto livre que já se vai tornando uma tradição na Europa: de certa forma, também existe uma tradição liberal ou de esquerda, e um conservador não concorda necessariamente com essas tradições.

E, por outro lado, há que definir “mudança” para sabermos do que estamos a falar. É absolutamente falso que, a um conservador propriamente dito e consciente, lhe falte “a coragem de aceitar as mudanças não programadas pelas quais novas conquistas humanas irão surgir”.

Isso nos remete ao outro ponto de divergência entre liberais radicais e conservadores: estes são, via de regra, mais pessimistas. Para Rothbard, por exemplo, a “atitude adequada ao libertário é a de inextinguível optimismo quanto aos resultados finais”, enquanto o “erro do pessimismo é o primeiro passo descendente na escorregadia ladeira que leva ao conservadorismo”.

Há distinguir “pessimismo” de “realismo”. O pessimismo é a atitude de espírito que consiste em pensar que, no mundo em que se vive, a soma dos males é superior à soma dos bens. Ora, um conservador não pode pensar assim sob pena de não o ser, porque por muito mal que exista no mundo, ele vê esse mal como uma mera ausência de bem. Normalmente os liberais perguntam: “porque é que existe o mal no mundo?”; enquanto o conservador pergunta ao liberal: “e porque é que você não pergunta por que existe o bem?”

O pessimismo pode ser revolucionário (no sentido de ser não-conservador), como por exemplo em Schopenhauer que via o mundo como absurdo; e o mesmo se se passou com Nietzsche que foi um pessimista e de conservador tinha quase nada, e passa-se com os existencialistas que fazem também a apologia do absurdo.

O conservador não vê o mundo como absurdo: pelo contrário, ele vê um fundamento racional no mundo. O conservador é realista em dois sentidos diferentes mas que se conjugam nele: 1/ é realista no sentido em que tende a valorizar a realidade como um dado a considerar, por não ser possível proceder de outro modo; e 2/ o conservador, à semelhança do matemático, é realista quando afirma que existe uma realidade independente do pensamento e do espírito humano.

Em outras palavras: até que ponto a “morte de Deus” não abriu espaço para o nascimento do “Deus Estado” e, com ele, dos totalitarismos modernos? Não tenho a pretensão de saber a resposta, mas reconheço que há aqui uma importante divergência entre liberais e conservadores. Se estes afirmam a religião como garantidora do tecido social, aqueles preferem a defesa secular das liberdades.

Não podemos confundir secularismo — que os conservadores também defendem — com laicismo — que muitos liberais defendem. Um conservador não tem nenhum problema em relação ao secularismo. Aliás, a história da Igreja Católica na Europa é — salvo raros momentos de radicalismos — a de um certo equilíbrio notável entre o poder secular e o poder religioso, ao contrário do que se passou por exemplo no mundo islâmico, ou mesmo na Rússia cristã ortodoxa.

Há conservadores seculares, como Oakeshott. Mas talvez seja um ponto fraco do conservadorismo moderno esta enorme dependência da religião. Talvez a filosofia, as artes e a literatura possam substituir a religião neste encanto pelo mistério do universo, nesta contemplação pelo desconhecido, eterno e indizível. Mas talvez os conservadores, apelando para o argumento utilitarista da fé, tenham um ponto quando alegam que, sem o freio religioso, as massas demandarão algum outro “Pai” em seu lugar.

Quem escreveu isto é burro. Ou seja, é tipicamente um liberal. Se o homo sapiens sapiens existe na Terra há pelo menos 75 mil anos e sempre teve religião, o burro revolucionário e liberal vem dizer que hoje, devido a uma e qualquer putativa mutação genética no ser humano que de facto não existe, “a religião é substituível”. Fernando Pessoa dizia que “a religião não só é a condição da liberdade eficaz do pensamento, como é a condição da função hígida do pensamento”. Duvido que o liberal típico consiga perceber o que Fernando Pessoa quis dizer.

O texto é longo e é um exemplo de um conjunto de meias-verdades, por um lado, e por outro lado é uma narrativa. Ora, um texto filosófico deve ser sucinto quanto baste, evitar o gongorismo e não contar estórias; e deve ser preciso nos termos que usa e não incorrer na falácia da anfibolia.

Sexta-feira, 3 Maio 2013

Como uma certa ‘direita’ vê a direita

“Quando o episteme está arruinado, os homens não param de falar sobre a política; mas agora expressam-se em modo de doxa”
— Eric Voegelin, “Nova Ciência da Política”

(Nota: este texto é longo. Quem não gosta, frequente o Twitter ou o FaceBook)

Mesmo que eu não seja budista, e não concorde com a religião budista, sendo de direita defendo a ideia de que os símbolos do Budismo devem estar presentes na praça pública.
Mesmo que eu não seja judeu, e não siga a religião judaica, sendo de direita defendo a ideia de que os símbolos do Judaísmo devem estar presentes na praça pública. E assim por diante.

Este texto, que pretende demarcar as fronteiras entre a direita e a esquerda, em vez de fazer essa distinção baralhou ainda mais as reais diferenças entre esquerda e direita (ou aquilo a que se convencionou chamar esquerda e direita). Pessoas como José Pacheco Pereira, que dizem que o Partido Social Democrata não é de direita nem de esquerda e “antes pelo contrário”, ficam certamente deliciadas com tamanha confusão.

Por exemplo, quando se diz: “O primeiro e mais significativo de todos os critérios diferenciadores é o da forma como esquerda e direita olham para o homem. Enquanto que a direita vê nele o indivíduo, a esquerda tem-no como cidadão.” Perguntem a um qualquer militante consciente do Bloco de Esquerda se não é tanto ou mais defensor da aplicação radical e enviesada do princípio da autonomia do indivíduo , quando comparado com qualquer neoliberal hayekiano mais radical!

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Domingo, 21 Abril 2013

Margaret Thatcher foi a favor do aborto

Margaret Thatcher 200 png webQualquer comparação entre Ronald Reagan e Margaret Thatcher é abuso ou ignorância.

Desde logo, Reagan foi contra o aborto e Thatcher foi a favor; e não nos podemos esquecer que Thatcher foi a precursora da teoria do aquecimento global.

Reagan foi um conservador, e Thatcher uma neoliberal. Temos aqui bem explícita a diferença entre o conservantismo e o neoliberalismo.

O que separa o conservantismo, do neoliberalismo, não é apenas a economia considerada em si mesma: é a ética, por um lado, e por outro lado a concepção do Direito Positivo baseada no Direito Natural. Para o conservador, o Direito Positivo é a incarnação do Direito Natural na História; e o Direito Natural é a forma do Direito histórico (S. Tomás de Aquino).

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