perspectivas

Sábado, 10 Agosto 2013

A anfibolia de José Pacheco Pereira

Este texto de José Pacheco Pereira [ficheiro PDF] revela uma falácia lógica que dá pelo nome de anfibolia, que, no caso concreto, consiste em reconhecer a evidência do facto de o poder político em Portugal estar submetido ao poder financeiro, mas por outro lado desligar implicitamente essa evidência do contexto da inserção de Portugal no Euro e na União Europeia do Tratado de Lisboa.

A alternativa a esse contexto de um Portugal inserido na União Europeia do Euro – no qual o poder político português é subjugado pelo poder financeiro – passaria por um (ainda maior) reforço do poder burocrático de Bruxelas e por uma espécie de “sovietização” da União Europeia. E a anfibolia reside no facto de José Pacheco Pereira criticar essa submissão do poder político ao poder financeiro, por um lado, mas por outro lado recusar implicitamente que essa submissão se deve, em grande parte, à perda de soberania de Portugal. Em contraponto, vemos o caso da Hungria – em relação ao qual o José Pacheco Pereira tecerá as suas críticas politicamente correctas e coerentes com a sua anfibolia -, cujo poder político mantém uma notável independência em relação ao poder financeiro.

Neste outro texto (ficheiro PDF), a anfibolia é levada ainda mais longe, porque o José Pacheco Pereira refere o caso da “tradição do civil service inglês“. Como sabemos, o Reino Unido não só não está no Euro como também não aderiu ao Tratado de Schengen. Não é possível ao José Pacheco Pereira (que é de esquerda e é internacionalista) – nem a ninguém – defender uma tradição de serviço público sem que exista no país uma tradição nacionalista fortemente enraizada na política – como acontece, por exemplo, na Alemanha de Angela Merkel, ou em Espanha. Não é possível ter “sol na horta e chuva no nabal”.

O grande problema dos intelectuais portugueses é o seguinte: falam dos problemas (dos efeitos), mas escamoteiam as causas (as causas incomodam). Os gregos antigos chamavam a isso “doxa”.

“Quando o episteme está arruinado, os homens não param de falar sobre a política; mas agora expressam-se em modo de doxa” ― Eric Voegelin, “Nova Ciência da Política”

Quinta-feira, 8 Agosto 2013

Isto é de loucos!

« O governo está a ponderar não substituir o secretário de Estado do Tesouro, Joaquim Pais Jorge, que ontem se demitiu do cargo na sequência da polémica em torno dos swaps. Ao que o i apurou, em cima da mesa está a possibilidade de Maria Luís Albuquerque reassumir, agora como ministra, a pasta do Tesouro – que tem a seu cargo a importante tarefa de preparar o regresso de Portugal aos mercados financeiros no pós-troika. »

Se não há necessidade de um secretário-de-estado do Tesouro, ¿ por que razão foi nomeado o Pais Jorge que se demitiu? Resposta: porque Pais Jorge continuará a ser secretário-de-estado do Tesouro mesmo sem o ser oficialmente.

O importante, para Maria Luís Albuquerque e Passos Coelho, é abafar o escândalo dos SWAPS; e para isso, ela conta com ela própria e com alguns telefonemas que pode fazer a alguns “conselheiros”, incluindo Pais Jorge que continuará a ser o secretário-de-estado do Tesouro fora do governo.

Passos Coelho tem um problema: disfarça mal ou é descarado. A isso, o povo diz que é burrice.

Quarta-feira, 7 Agosto 2013

Joaquim Pais Jorge não tem condições para continuar no governo

Das duas, uma: ou Passos Coelho é “fatal” no casting governativo, ou a escolha de Maria Luís Albuquerque para ministra das Finanças já previa a contratação de Joaquim Pais Jorge para secretário-de-estado do Tesouro.

A ideia de Passos Coelho, segundo a qual depois de ter sido eleito nas listas do Partido Social Democrata, pode fazer o que lhe der na real gana sem dar cavaco a ninguém, não é legítima e é mesmo abusiva. E se Passos Coelho se fia nas sondagens recentes, pode-lhe sair o tiro pela culatra.

A presença de Pais Jorge no governo é imoral. Traduz a imoralidade do regime. Revela a imoralidade da classe política. É mais um prego no caixão da democracia representativa.

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