perspectivas

Terça-feira, 13 Março 2012

A esquizofrenia do utilitarismo

Filed under: ética — O. Braga @ 12:01 pm
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Desaprovar a ética utilitarista moderna não significa necessariamente concordar com os anti-utilitaristas como Hegel, Nietzsche ou Heidegger, porque são todos “farinha do mesmo saco”. O maniqueísmo moderno dos utilitaristas versus anti-utilitaristas baseia-se na substituição da fundamentação religiosa e tradicionalista da ética, pela imanência das religiões políticas. Porém, não posso deixar de estar de acordo com Karl Marx quando este dizia que o utilitarismo é uma “moral de merceeiro inglês”.

Para além das observações pertinentes de G E Moore acerca do sofisma naturalista do utilitarismo de Bentham e de Stuart Mill, este sistema ético assenta numa contradição insanável ou em uma esquizofrenia conceptual. A doutrina utilitarista baseia-se e simultaneamente encontra-se no meio de duas proposições antitéticas: uma proposição normativa, por um lado, e uma proposição positiva, por outro lado.

A proposição positiva do utilitarismo é aquela que define que os homens devem ser considerados indivíduos egoístas e racionalmente frios, fazendo do cálculo individualista o principal instrumento da acção moral. A proposição normativa — que é o segundo pilar do sistema ético utilitarista — é aquela que diz que os interesses dos indivíduos devem ser subordinados ou mesmo sacrificados à maior “felicidade geral”.

Cada uma das duas componentes fundamentais do sistema utilitarista — a positiva e a normativa — tem uma vida própria e são independentes uma da outra. É nisto que consiste a esquizofrenia utilitarista, que faz da dissonância entre a proposição positiva e a proposição normativa, a sua própria “unidade divergente”. A lógica do fundamento da doutrina utilitarista baseia-se, não na razão, mas antes em um dogma — ou naquilo que Élie Halévy, referindo-se ao utilitarismo, chamou de “dogmática do egoísmo”.

Quinta-feira, 30 Junho 2011

Bernard de Mandeville e a sociedade ocidental da ética anética

“Vícios privados são virtudes públicas” — Bernard de Mandeville

Se quisermos encontrar as causas ideológicas próximas do desastre ético que acontece hoje no Ocidente, teremos que recordar o bisavô da ética utilitarista: Bernard de Mandeville — mais conhecido em Inglaterra do princípio do século XVIII, como “Man Devil”. Normalmente, dizemos que Bentham foi o avô da ética utilitarista, e é verdade; mas o conceito de “maior felicidade para um maior número de pessoas” não é da autoria de Bentham, mas do outro bisavô do utilitarismo inglês: Hutcheson.
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Domingo, 2 Maio 2010

O epicurismo

Existe um blogue português (no Blogspot.com) com o título “De Natura Rerum”. Este é o título de um poema de Lucrécio, um cidadão romano contemporâneo de Júlio César, que sofria de ataques de loucura a espaços e que se suicidou na sequência de um estado de loucura definitivo. Em suma, Lucrécio escrevia bem, mas era maluco — tal como Nietzsche. Lucrécio seguia a doutrina de Epicuro (o epicurismo), um grego de origem humilde e mesmo pobre que viveu entre o século IV e III a. C., e que criou a sua academia já na época helenística — ou seja, no tempo grego depois da morte de Alexandre.
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Terça-feira, 27 Abril 2010

Os chips socialistas nas chapas de matrícula e a prisão pan-óptica

O avô do socialismo, o filósofo utilitarista Jeremy Bentham, imaginou em finais do século XVIII uma prisão que seria vigiada e controlada a partir de qualquer lugar e a todo o momento. Bentham chamou a esse conceito de vigilância permanente de “pan-óptica” (do inglês panopticon).
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Terça-feira, 4 Dezembro 2007

A ideologia neoliberal

O Neoliberalismo tem muito pouco a ver com o liberalismo capitalista clássico, que sempre foi uma teoria económica com repercussões na política, e não uma ideologia política propriamente dita. O Neoliberalismo resulta de uma filosofia antropocêntrica, à semelhança do Marxismo, e o actual tipo de globalização está directamente relacionado com a expansão da ideologia política resultante da filosofia de Hayek.

As influências filosóficas de Hayek

Já aqui falei em Kant e em Heidegger, mas ainda não me referi a Hume e a Aristóteles; os quatro são os filósofos em que se sustentou Hayek para lançar as bases da sua filosofia.
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