perspectivas

Sábado, 22 Fevereiro 2014

O neoliberalismo libertário (tal como o existencialismo de Ayn Rand) foge com o rabo à seringa

 

Quando Ayn Rand procurou dar um nome à sua teoria filosófica, deu-lhe o nome de Objectivismo porque, segundo ela, o termo Existencialismo — que ela preferiria para rotular a sua teoria — já estava tomado e ocupado. Ou seja, Ayn Rand procurava uma originalidade absoluta.

O neoliberalismo libertário de Hayek despreza os princípios do liberalismo clássico e privilegia absolutamente as comissões e bónus provenientes dos negócios.

O que Ayn Rand talvez desconhecesse ou não quis saber, é que o termo Existencialismo é multifacetado. Por exemplo, existe o Existencialismo cristão que vai de Dostoievski e Kierkegaard a Paul Tillich, passando por Karl Jaspers; existe o Existencialismo ateu de Merleau-Ponty ou Jean-Paul Sartre; e existe um Existencialismo pagão de Heidegger ou Gadamer. Portanto, quando falamos de Existencialismo, entendido como uma categoria de mundividência, temos que saber qual a sub-categoria que a caracteriza, para além da especificidade do pensamento individual do autor.

Ou seja, em vez de Objectivismo, Ayn Rand poderia perfeitamente ter optado pelo termo “Existencialismo libertário”, que estaria de facto mais de acordo com as características da sua teoria.

(more…)

Sábado, 1 Setembro 2012

Ayn Rand e a sociedade tribal

Filed under: ética,economia — O. Braga @ 5:22 pm
Tags: ,

«La premisa básica del burdo y primitivo colectivismo tribal es la noción de que la riqueza le pertenece a la tribu o a la sociedad como un todo, y que cualquier individuo tiene “derecho” a “participar” en esa riqueza»

via Premisa Tribal — Objetivismo.org.

Ayn Rand é um caso de relativo sucesso que que considero curioso, desde logo porque ela restringiu o objecto da sua teoria à modernidade; e quando não o fez só disse asneiras, como revela esta proposição:

Hay un único asunto fundamental en filosofía: La eficacia cognitiva de la mente humana. El conflicto de Aristóteles contra Platón es el conflicto de la razón frente al misticismo. Fue Platón quien formuló la mayoría de las preguntas – y de las dudas – básicas de la filosofía. Fue Aristóteles quien preparó las bases para la mayoría de las respuestas.”

Por definição, a filosofia não tem um “único assunto fundamental”, e o “misticismo” (no sentido platónico de concepção de “alma”, que é diferente da concepção cristã) era para os gregos apenas uma das facetas da razão — como o próprio Aristóteles reconheceu. Portanto, só uma pessoa com conhecimentos rudimentares de filosofia pode dizer que “Aristóteles opôs a razão ao misticismo”, até porque incorre numa falácia de Parménides porque na Grécia antiga não existia o misticismo propriamente dito (medieval ou monoteísta); seria como se eu dissesse, por exemplo, que na Grécia antiga existia “tecnologia” baseando-me na arte grega de fundição de metais. Este simplismo arrepiante de Ayn Rand foi talvez a chave do seu sucesso, porque se dirigiu a pessoas simples e com um raciocínio simplista.


Voltemos ao texto em epígrafe, em que Ayn Rand compara a sociedade tribal com a sociedade moderna, e ressalta a seguinte frase: “nada se pode aprender sobre o homem (indivíduo) estudando a sociedade”. Diz Ayn Rand que “a humanidade não é uma entidade”, e tem razão. Mas uma nação é uma entidade, quer agrade a Ayn Rand ou não. Que Ayn Rand se revolva no túmulo, mas a verdade é que a nação é uma entidade. E até podemos dizer — como diz Fernando Pessoa, embora eu não concorde totalmente — que a nação é uma entidade que é produto da soma de todos os egoísmos individuais; mas não deixa de ser uma entidade.

Se uma nação é uma entidade, não é irracional que se fale de “alocação nacional de recursos”. Ayn Rand parte de um sofisma: a ideia segundo a qual “comunidade” significa “igualdade na tribo” ou “igualitarismo tribal”, e este tipo de sofisma abunda em Ayn Rand e nos seus seguidores, e ainda não compreendi se tal acontece por ignorância, estupidez ou má-fé.

Não é verdade que “recursos nacionais” signifique “recursos comunais” — como é afirmado no texto. Ayn Rand não faz a mínima ideia, por exemplo, da organização nacional de recursos de Portugal na Idade Média, em que os recursos nacionais nunca foram recursos comunais no sentido igualitarista. Ayn Rand reduz a História a 300 anos.

Ayn Rand acusa as pessoas que falam de “bem comum” de assumirem uma “hipocrisia moral” — da mesma forma que um psicopata e assassino em série me poderia acusar de hipocrisia moral por eu ter tido, eventualmente, em uma determinada situação de conflito com outra pessoa, o instinto de a matar, e de ter recalcado esse instinto e de o ter anulado mediante auto-censura. Para o psicopata, eu não teria sido um “hipócrita moral” se tivesse assumido o instinto assassino sem o censurar.

Para o psicopata e para Ayn Rand, “hipocrisia moral” significa “auto-censura moral” — e vemos como a moral e o valores são invertidos, o que é característica do movimento revolucionário. Ayn Rand não se deu conta de que é produto do movimento revolucionário que ela própria critica.

Terça-feira, 7 Agosto 2012

Mitt Romney e Ayn Rand

Filed under: ética,Política — O. Braga @ 6:57 pm
Tags: , ,

Chega-me a informação que Mitt Romney está rodeado de jovens políticos admiradores de Ayn Rand e da sua teoria ética [o Objectivismo]. É surpreendente como alguém que se prepara para governar um país possa ser permeável à ética de Ayn Rand — porque o Objectivismo não é uma teoria económica, mas sim uma teoria ética, e como sabemos, a ética é parte da metafísica.

Por exemplo, a teoria económica de Hayek [por favor não confundir com a de Von Mises] tem consequências éticas, mas não é propriamente uma teoria ética; de forma semelhante, no marxismo, a teoria económica tem consequências éticas. Porém, no caso do Objectivismo de Ayn Rand trata-se, em primeiro lugar, de uma teoria ética — de uma mundividência metafísica — que tem certamente consequências económicas, políticas e culturais.

Sendo verdade que Mitt Romney é permeável ao Objectivismo de Ayn Rand, não podemos dizer dele que seja um conservador, porque existe uma incompatibilidade total entre o Objectivismo e a visão tradicional e conservadora cristã da sociedade. Aliás, é compreensível a sua eventual adesão ao Objectivismo porque Mitt Romney não é cristão; e por isso não foi, desde a primeira hora, o “meu candidato” [foi Rick Santorum].

Do ponto de vista da filosofia e da ética, o Objectivismo é paupérrimo e não tem nada de original senão um sincretismo pobre e mal construído entre Nietzsche e a corrente marginalista de Carl Menger e Walras. Nenhum manual sério — repito: sério — e completo de filosofia menciona Ayn Rand; ela simplesmente não conta para a história da filosofia. Por isso é que me surpreende que políticos próximos de Mitt Romney, como por exemplo Paul Ryan, sigam as ideias de Ayn Rand.

De Nietzsche, Rand foi buscar a noção de selecção natural darwinista que alegadamente determina as elites [social-darwinismo] e o desprezo pelo Cristianismo e pelos cristãos. De Carl Menger e do marginalismo, Rand foi buscar a noção utilitarista radical segundo a qual “é tão útil a oração para o homem santo, como é útil o crime para o homem criminoso” [sic]. E é esta síntese ideológica perigosíssima que parece estar a influenciar Mitt Romney.

Se eu fosse partidário de Obama, exploraria esta aberração ideológica até ao limite possível.

Domingo, 22 Janeiro 2012

A crítica neoliberal ao Distributismo

Nesta crítica neoliberal ao Distributismo, vemos duas citações, uma de Hayek e outra de Von Mises, que raiam o cinismo: em suma, a lógica das citações é a seguinte: “se a minha avó não tivesse existido, eu não existiria”.
(more…)

Quarta-feira, 6 Abril 2011

Um exemplo da sociedade monstruosa que estamos a construir

O exemplo do que se quer dizer aqui, ilustra-se através do caso de Nan Maitland, uma senhora de 84 anos que foi “assassinada legalmente” porque sofria de artrite; aparentemente, a senhora não tinha outro problema de saúde que não fosse a artrite própria da sua idade.

Paulo Portas anunciou ontem no FaceBook que estaria hoje em Azeitão, numa campanha a favor dos cuidados paliativos. E este blogue apoia, neste particular, a acção de Paulo Portas.

A defesa da legalização da eutanásia não é só uma bandeira da Esquerda, embora seja predominantemente de Esquerda: é também característica de uma certa Direita liberal que, como escreveu Olavo de Carvalho, com “a firme decisão de submeter tudo aos critérios do mercado, inclusive os valores morais e humanitários” (…), “acaba dissolvendo no mercado a herança da civilização judaico-cristã e o Estado de Direito.”

(more…)

Sábado, 12 Junho 2010

Os bloquistas de direita

Como foi possível que os antigos gregos considerassem bárbaros os povos germânicos, e hoje os alemães, descendentes desses bárbaros tratem — na presente crise económica e financeira — os gregos como bárbaros? A resposta não pode estar na diferença racial, porque teríamos então de admitir que aconteceu uma mutação genética degenerescente entre os gregos. A verdadeira razão para as diferenças entre considerados “bárbaros” do século V a.C., e os “bárbaros” actuais, está na cultura.
(more…)

Domingo, 1 Novembro 2009

O subjectivismo de Ayn Rand

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:09 pm
Tags: , ,

Hayek foi um óptimo economista que estragou tudo quando se meteu na filosofia misturando, no seu sistema, o cepticismo de Hume e o positivismo crítico (e a religiosidade) de Kant. Ayn Rand foi uma romancista notável que estragou tudo quando se meteu na filosofia misturando, no seu sistema, o senso-comum com a “realidade”. Ambos pertenciam a uma direita libertária, mas tenho (quase) tanto desprezo por este dois como tenho por Marx.

Na sua teoria, Ayn Rand parte de princípios tão antigos como o princípio da contradição e o princípio de identidade, mas fá-lo de um modo que nos dá a sensação que ela própria os descobriu. E ao mesmo tempo que sacraliza o axioma ― que é um “princípio” e por isso não depende de nada ― recusa a dimensão espiritual, como se em um mundo clássico, exclusivamente composto por matéria e determinado pelas leis de causa-efeito, pudessem existir efeitos sem causa — princípios que se impõem por si mesmos sem necessidade de depender de alguma outra coisa.

%d bloggers like this: