perspectivas

Domingo, 8 Dezembro 2013

Sobre um texto de D. Redovino Rizzardo, um Bispo do Brasil

 

Vindo de um Bispo, este texto é inclassificável. Só para dar um exemplo, a associação ideológica entre o conceito de “autoridade”, por um lado, e o de “dominação”, por outro lado, tem origem na Escola de Frankfurt e no marxismo cultural (Adorno e Marcuse). O leitor, (etiam feminis), poderá ler o texto também na minha análise em PDF.

O Papa WebDesde logo, o texto do Bispo brasileiro revela o profundo mal-estar sentido no seio da Igreja Católica, e que este papa desencadeou de forma consciente (o que é mais grave!). E para tentar dissolver esse mal-estar, o Bispo recorre à tolerância repressiva de Marcuse, instituindo um mecanismo maniqueísta de selecção daquilo e daqueles que são politicamente correctos: para ele, hoje há os “bons católicos” — os tais que alegadamente “colocam o bem da Igreja e da humanidade acima de seus interesses e traumas” — que seguem cega e acriticamente as ideias do cardeal Bergoglio e dos seus mentores ideológicos; e os “maus católicos”, os que pensam logicamente pela sua própria cabeça e não procedem dessa forma. Para a liderança actual da Igreja Católica, pensar pela própria cabeça é uma forma de “alienação” e uma tentativa de “mistificação” da realidade (utilizo a linguagem marxista propositadamente).

E são estes, os que não aceitam que os católicos pensem pela sua própria cabeça, que colocam em causa o conceito tradicional de “autoridade”; ou seja, pretendem impôr um conceito de “autoridade” que recusa a autoridade: “Quem manda e quem obedece estão no mesmo nível”, dizem (SIC, ver no texto). Ou seja, o Bispo utiliza o princípio da autoridade para impôr uma ausência de autoridade. Por aqui vemos o absurdo e/ou a indigência intelectual do clero católico que alcandorou o cardeal Bergoglio a papa.

Esta Igreja Católica, a do cardeal Bergoglio, é uma Igreja mentirosa porque se recusa aceitar a realidade da condição humana tal qual ela é; é uma Igreja gnóstica, porque se recusa a aceitar a condição humana, e em nome da “caridade”; ou melhor dizendo: para esta Igreja Católica, a caridade não é uma consequência da condição humana, mas antes é a condição humana que decorre da caridade. Esta inversão dos termos relacionais entre “condição humana”, por um lado, e a “caridade”, por outro lado, é revolucionária e gnóstica.

A autoridade nunca pode ser ausência de autoridade; quem diz que “Quem manda e quem obedece estão no mesmo nível”, não se refere apenas ao “nível” ontológico (a condição humana): antes, pretende fazer a quadratura do círculo através de uma utopia política que invade hoje a Igreja Católica. Mas trata-se de uma utopia mentirosa e perigosa, porque nos dizem, com toda a autoridade, que não há autoridade: alguém, com uma autoridade de direito, pretende retirar-nos qualquer autoridade de facto.

Porém, o mais grave no novo clero é a mistura da palavra de Jesus Cristo com o marxismo cultural. Isto não tem perdão possível; hão-de arder no inferno da auto-clausura espiritual — porque o inferno é essencialmente um estado de espírito.

A mensagem de Jesus Cristo, e nomeadamente no caso da do Bom Samaritano, não tem tempo (é intemporal). Mas o novo clero diz que ela só vale agora, com o cardeal Bergoglio exercendo a autoridade que nega a autoridade. A mensagem do Bom Samaritano é, por eles, circunscrita no tempo e limitada pela ideologia política. Isto não tem perdão, senão o perdão de Deus.

Quando Jesus Cristo se referiu ao “vinho novo”, referia-se à Nova Aliança que veio substituir a Antiga Aliança judaica que este papa diz que não foi revogada!. Por aqui vemos como se contradiz este novo clero conciliar, ignaro e/ou mentiroso. Eles pegam nas palavras de Jesus Cristo e deturpam-nas — e deles, por isso, podemos e devemos esperar tudo. Ainda vamos ver esta gente defender a ideia segundo a qual Jesus Cristo era homossexual, ou coisas do género. Esperem para ver.

Sexta-feira, 1 Novembro 2013

Quando leio certas coisas, fico banzado!

 

“Qualquer tipo de relação social tem inerente uma mais ou menos explícita relação de poder. As relações laborais têm-na, as relações pais-filhos têm-na, as relações professor aluno têm-na, etc.

O poder do professor deriva antes de mais de uma outorga social (o Estado entrega esse poder ao professor) mas também de um diferencial de conhecimentos e de idades.”

Quem escreveu isto (um tal João Lopes), escreveu também um livro sobre a indisciplina na escola. Não li o livro, mas imagino.

Quando não é reconhecida a autoridade natural ao professor (ou aos pais), o que se está a fazer é negar uma disposição natural das relações humanas.

Repare bem, o leitor (extenditur ad speciem humanam): fala-se de “poder” do professor, e não já de “autoridade”. E, alegadamente, esse “poder” do professor é outorgado pelo Estado: sem o Estado, não há “poder” do professor. O professor tem “poder”, e não “autoridade”. As relações entre o professor e os alunos são, alegadamente, relações de dominação reguladas pelo Estado.

Segundo este raciocínio, um professor que não seja, de qualquer modo, tutelado pelo Estado, não é professor — e pode ser mesmo considerado fora-da-lei e punido pelo Estado. Só existe educação se entendida sob a vigilância do Estado, e até mesmo as relações mais banais entre pais e filhos estão sujeitas a sanção estatal. E depois, dizem eles, “os fascistas são os outros!”

Se aquela alimária tem poder (aqui sim!, é um poder, e não autoridade de facto) para escrever um livro acerca da indisciplina na escola, dizendo que o professor não tem autoridade por moto próprio e que o seu “poder emana do Estado”, por um lado, e que, por outro lado, esse “poder” resulta apenas da assimetria de conhecimentos técnico-científicos (porque é deste tipo de conhecimento de que a alimária está a falar) — então não admira que tenhamos os níveis de indisciplina que temos; em vez de “apagar o fogo” da indisciplina, aquele burro está alimentá-lo!. Aquela alimária parte de um princípio errado, e portanto qualquer análise está, à partida, errada.

A autoridade do professor não é tutelada pelo Estado: o Estado apenas aproveita o facto de a autoridade do professor existir já de forma natural. A autoridade do professor decorre da Lei Natural. É isto que aquele burro, lobotomizado pela ideologia politicamente correcta, não consegue ver. Quando não é reconhecida a autoridade natural ao professor (ou aos pais), o que se está a fazer é negar uma disposição natural das relações humanas.

A ler : Após proibir palmadas, Suécia "sofre" com geração de crianças mimadas

Quinta-feira, 3 Outubro 2013

A separação radical entre o público e o privado

 

“Faz confusão aos liberais imaginar que não existe uma divisão estrita entre o estatal e o privado.”

O que é a credibilidade para este governo?

Há frases que resumem um texto inteiro; e neste caso, resume a origem da modernidade. A modernidade começou com a separação radical entre o público e o privado — embora o público e o privado sempre tenha coexistido mais ou menos pacificamente antes do século XVI.

Ler mais, com 605 palavras

Quarta-feira, 8 Maio 2013

O elefante no meio do salão da política portuguesa

Nós podemos conhecer de duas maneiras: ou através da (nossa) experiência, ou através da autoridade de outrem. E é na autoridade que começa o problema, porque é-me muito difícil conceder autoridade a um ser ontologicamente semelhante ou idêntico a mim próprio. Por isso, ou a autoridade se baseia numa intersubjectividade (por exemplo, as publicações da comunidade científica) que, por sua vez, se baseia, à falta de demonstração empírica, pelo menos em inferências acerca da verdade defendida por essa autoridade; ou a autoridade é dogmática e não merece grande crédito.

Um exemplo do que se quer dizer é a teoria do Big Bang. É impossível verificar e muito menos confirmar empiricamente a existência do fenómeno do Big Bang: teríamos que meter o universo inteiro (desde o seu início) dentro de um laboratório. Mas o Big Bang não é apenas postulado, mas antes é uma teoria elaborada por inferências: pelo menos duas inferências: a do efeito de Doppler constatado por Hubble, e através da verificação da radiação de base (Penzias e Wilson, década de 1960).

A política só é uma “ciência” na medida em que se aplica este mesmo princípio do conhecimento: ou constatamos factos por nossa própria experiência, ou teremos que acreditar numa autoridade escorada numa intersubjectividade que se baseia, ou na dedução, ou na inferência. O problema da nossa política — como acontece também com uma parte substancial da classe científica — é o de que a autoridade dominante é dogmática, porque se recusa a colocar em causa ou a questionar-se acerca de determinados princípios sobre os quais se construiu todo o edifício político actual.

À esquerda, ouço falar em “alternativa ao governo”. À direita, ouço dizer que “depois de nós, o caos”. Mas ninguém fala no Euro. O Euro é um enorme elefante no meio do salão da política portuguesa.

elefante na sala 500 web

Domingo, 5 Maio 2013

Revivendo a história em Berlim da década de 1920

Filed under: Europa,Ut Edita — O. Braga @ 9:56 am
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Hoje não podemos falar de esquerda e de direita, senão de liberais de esquerda e liberais de direita. A política foi reduzida ao liberalismo que, – tanto o de esquerda como o de direita – em nome da liberdade, tende a colocar o cidadão isolado face ao Estado.

O facto de os liberais de direita exigirem um “Estado mínimo” (para além de ser a única diferença relevante em relação aos liberais de esquerda, porque quase em tudo o resto estão de acordo) não significa que eles não defendam a pulverização e a atomização da sociedade em presença desse “Estado mínimo”. Pelo contrário, o argumento da defesa do Estado mínimo é contraproducente no contexto ideológico e político liberal de direita, e em termos práticos a atomização da sociedade levará inexoravelmente, e a seu tempo, ao “Estado máximo”.

” (…) a lógica do liberalismo político leva-o a tolerar ideias ou movimentos que têm como finalidade destruí-lo. A partir daí, perante a ameaça, o liberalismo está condenado, quer a tornar-se autoritário, isto é, a negar-se ? provisória ou duradouramente ? a si mesmo, quer a ceder o lugar à força totalitária colocada no poder por meio de eleições legais (Alemanha, 1933)” — Edgar Morin

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Quinta-feira, 11 Abril 2013

Fernando Pessoa e o antídoto da aristocratização

«A nossa civilização corre o risco de ficar submersa como a Grécia (Atenas) sob a extensão da democracia, de cair inteiramente nas mãos dos escravos, ou então de ficar como Roma, não nas mãos de imperadores filhos do acaso e da decadência, mas de grupos financeiros sem pátria, sem lar na inteligência, sem escrúpulos intelectuais e sem causa em Deus.

O único antídoto para isto é uma lenta aristocratização.»

— Fernando Pessoa, 1920.

A aristocratização que nos fala Fernando Pessoa é a criação de uma elite digna desse nome ou propriamente dita, que já existiu em Portugal no século XX mas que nas últimas três décadas tem vindo paulatinamente a desaparecer com o surgimento dos “trabalhadores da undécima hora”.


O mestre Adriano Moreira, no seu livro “Tempo de Véspera”, escreveu o seguinte:

“(…) os trabalhadores da undécima hora só prosperam quando as batalhas forem ganhas, os tempos cumpridos, os sonhos realizados. Não são os que ficaram silenciosos, os que participaram na acção, que fizeram o mundo em que vivemos. Acontece que estão lá na época da colheita. Os que fazem o mundo são os outros, são os que transformam as ideias em palavras e as palavras em acção.
(…)
É porque os velhos lutadores estiveram nos debates, responderam à chamada para o combate, participaram nas carências, correram todos os riscos, que chega algum dia em que batem as pancadas da undécima hora. Os construtores do mundo, de uso não têm mais do que dez horas para viver. A colheita em regra não lhes pertence.
(…)
O grande destino que lhes coube e cumpriram foi o de preparar a vinda da undécima hora.”

Quarta-feira, 10 Abril 2013

Rousseau, a atomização da sociedade e os totalitarismos gnósticos do século XX

O

problema começou antes de Rousseau. O problema começou no seio da própria Igreja Católica com a absurda “querela dos universais”, que meteu os franciscanos ao barulho a favor do conceito absurdo de nominalismo. Antes disso, os franciscanos Fraticelli andaram de candeias às avessas com o poder temporal quando defenderam o Poder absoluto do Papa. Os franciscanos estiveram metidos no pior da Igreja Católica (ainda pior do que os Jesuítas).

A Reforma protestante minou profundamente a autoridade. É irónico que um protestante do século XIX venha queixar-se da ausência de autoridade na cultura coeva, porque a Reforma foi o primeiro grito de revolta contra a autoridade.

Os ideólogos da Razão de Estado de finais do século XVI e século XVII opuseram o poder absoluto do rei ao poder absoluto do Papa defendido pelos franciscanos dois séculos antes. Dos ideólogos da Razão de Estado surgiu Hobbes — o primeiro hipóstata teórico do absolutismo de Estado. Locke, na segunda metade da sua vida filosófica, não esteve muito longe de Rousseau. Rousseau não foi original em nada excepto na criação abstrusa e absurda do conceito de “vontade geral” que não tem qualquer origem na realidade política e sociológica. A “vontade geral” é uma forma de permitir a discricionariedade e o absolutismo, até sob a capa da democracia.

…as ideias têm consequências

A origem simbólica do Bom Selvagem, de Rousseau, está no Génesis bíblico e no conceito de Éden (o paraíso na terra). Por aqui podemos fazer uma ideia da complexidade do problema. O que Rousseau fez foi utilizar um símbolo judaico-cristão e fazer dele uma leitura literal, e tão literal como era aconselhado pela própria Igreja Católica daquele tempo. Rousseau não fez uma exegese a partir dos símbolos de Adão e Eva: limitou-se a transcrever literalmente a noção de paraíso na terra que o próprio Génesis encerra em si.

A diferença é que o Mal — a simbologia da Serpente —, segundo Rousseau, passou a ser a sociedade entendida como comunidade (“O inferno são os outros” — Jean-Paul Sartre), enquanto que o Mal bíblico foi invertido e passou a ser o Bem, que segundo Rosseau, é o conhecimento no sentido prometaico.

Esta inversão da significação de um mesmo símbolo levou a que o Bem passasse oficialmente a ser o conhecimento prometaico que absolutiza o indivíduo (Rousseau seguiu o princípio da autonomia de Kant, mas em vez de dotar o indivíduo de responsabilidade, criou o conceito de “vontade geral” para anular politicamente a própria responsabilidade individual, anulando a componente kantiana do “cidadão-legislador”), por um lado, e por outro lado a comunidade passou a ser o Mal que necessita da liderança “sábia” e firme — através do conceito abstracto de “vontade geral” — de uma elite (gnóstica) que transformasse o voto popular em discricionariedade “sapiente” na acção política.

“Pode dizer-se não que há tantos pareceres como homens, mas tantos como associações. (…) É portanto essencial, se a vontade geral pode exprimir-se, que não haja sociedades parciais dentro do Estado, e cada cidadão pense apenas por si; tal é o sublime e único sistema estabelecido pelo grande Licurgo”. (“Contrato Social” de Rousseau)

Como podemos verificar, Rousseau defende, através do conceito de “vontade geral”, a atomização da sociedade e a instituição dos totalitarismos do século XX. Há quem diga que ele não teve culpa — como há quem diga que Nietzsche não teve culpa do surgimento do nazismo — mas, para mim, isso é treta. As ideias têm consequências.

Quinta-feira, 28 Fevereiro 2013

Autoridade e sensibilidade moral

Um médico contou-me uma história verídica de uma jovem mulher, com cerca de 20 anos de idade, que se dirigiu ao hospital para fazer um aborto. O médico teve a preocupação de lhe fazer um TAC (ou uma ecografia; não sei bem o termo técnico adequado) em que mostrou à jovem o embrião/feto (com cerca de 10 semanas de gestação, o coração está formado e já bate). Perante a imagem da ecografia, a jovem exclamou, divertida: “Tão engraçado!”. Mas a imagem do embrião/feto não a coibiu de fazer o aborto.

Estamos em presença, em relação a essa jovem, de uma falta de sensibilidade moral. Trata-se de uma analfabeta moral.

A sobrevivência da democracia depende da prevalência da autoridade moral na nossa sociedade, o que significa a necessidade de uma educação das nossas crianças consentânea com o combate ao analfabetismo moral que tende a atomizar a sociedade, e que é o esteio de um novo tipo de totalitarismo iminente e imanente.

De forma idêntica, é hoje relativamente vulgar que, na nossa cidade qualquer que seja, pessoas ajam de forma moralmente insensível — por exemplo quando alguém cai na rua com um ataque epiléptico. Nestes casos como noutros, há sempre alguém que olha para a cena de uma forma neutra, não compreende a urgência da situação e a necessidade de acudir de qualquer modo a essa pessoa que sofre o ataque epiléptico. É normal observar pessoas que passam ao lado da pessoa caída sem lhe prestar atenção, e há mesmo gente que se ri da situação como se de um caso anedótico se tratasse — essa gente é incapaz de ver o que a situação exige deles próprios. Estamos, nestes casos, em presença de analfabetos morais.

kindergarten webUm analfabeto moral não é necessariamente diminuído de raciocínio; pode ser um engenheiro da NASA, um médico de família que trabalha para o Estado, um juiz do Tribunal Constitucional, ou um Nobel da física. Ele simplesmente não adquiriu a sensibilidade moral necessária, ou porque é inatamente insensível à empatia e às emoções (o que é raro), ou porque sofreu uma metanóia psico-ideológica que lhe iniba a expressão da sua sensibilidade moral (por exemplo, os altos quadros do partido nazi alemão), ou, o que é hoje cada vez mais vulgar, porque não foi educado, na sua infância, de forma a adquirir essa sensibilidade moral (v. John McDowell).

Um analfabeto moral pode ser um indivíduo altamente inteligente, com grande capacidade de raciocínio e com um alto coeficiente de inteligência lógica-matemática. Ele simplesmente não teve pleno acesso, no seu processo de educação, às verdades morais que motivam por si mesmas a acção do indivíduo e independentemente do desejo [subjectivo]. A acção moral não depende apenas de uma deliberação racional, mas antes e sobretudo, é da ordem da percepção imediata e intuitiva de um estado de coisas (ibidem).

Para um analfabeto moral, uma situação de urgência moral não é um facto semelhante ou idêntico a um facto tal qual concebido por outra pessoa com sensibilidade moral. Sendo que um facto é algo que adquiriu uma estrutura através da nossa consciência, para um analfabeto moral, o facto de uma determinada situação de urgência moral não existe enquanto tal.

Hannah Arendt teve um momento escasso de lucidez — embora sempre ambígua como é sua característica — quando escreveu o seguinte:

“Desde então [desde a fundação da Igreja Católica] percebeu-se, e esse facto diz muito sobre a estabilidade de tal fusão [a fusão das regras morais e da política], que sempre que um dos elementos da trindade romana composta por religião, autoridade e tradição fosse posta em dúvida ou eliminada, as outras duas sofriam um forte abalo. Assim, Lutero enganava-se ao pensar que o seu desafio à autoridade temporal da Igreja e o seu apelo a um julgamento individual sem guias, deixariam intactas a religião e a tradição. Similar foi o erro de Hobbes e dos teólogos políticos do século XVII ao acreditarem que a autoridade e a religião poderiam ser preservadas na ausência da tradição. Semelhante, também, o erro dos humanistas ao acreditarem que era possível permanecer no seio de uma intacta tradição da civilização ocidental sem religião nem autoridade.” — Entre o Passado e o Futuro, 2006, página 141.

criança rezando webA partir do Iluminismo, todas as tendências culturais e mundividências psicóticas (utópicas) do movimento revolucionário (que não é só de Esquerda, ou daquilo a que chamamos de “esquerda”) desenvolveram-se acriticamente no Ocidente, minando a autoridade e criando progressivamente esse analfabeto moral a que chamamos “homem moderno”. Em Portugal, e desde o 25 de Abril de 1974, o processo revolucionário de fomento do analfabetismo moral tomou finalmente conta do processo de educação das nossas crianças nas escolas, separando a cultura antropológica tradicional, por um lado, da ideologia política que nega a religião, mina a autoridade e destrói a tradição, por outro lado.

Desde Aristóteles que sabemos que a educação das crianças é de primordial importância não só na formação do cidadão, mas também e sobretudo na formação do sujeito moral. E o que as nossas escolas têm feito, e principalmente na última década, é formar analfabetos morais. E o pior é que o analfabetismo moral é o orgulho da nossa classe política: leis como a do aborto, ou do divórcio unilateral e na hora, enchem de orgulho a classe política que temos. Simultaneamente, e de forma absolutamente irracional, a nossa classe política queixa-se de “falta de autoridade”, e alguns analistas políticos mais radicais relacionam a “falta de autoridade” com o “excesso de liberdade”: não conseguem ver que a “falta de autoridade” que grassa na nossa sociedade é uma “falta de autoridade moral”, e pouco tem a ver com a liberdade tornada disponível pela política — ou, como escreveu Nicolás Gómez Dávila: “Ninguém se revolta contra a autoridade, mas antes contra aqueles que a usurpam.”

Como escreveu Hannah Arendt, os adultos não se educam, o que significa que os estragos feitos pela intervenção do movimento revolucionário na educação dos nossos actuais adultos é apenas um mal que devemos tentar remediar. O que devemos fazer é reverter o actual processo de degradação da educação das nossas crianças promovida pelo movimento revolucionário (que inclui a maçonaria), nem que isso provoque o choro, baba e ranho de determinadas minorias políticas com claras tendências totalitárias (que inclui o lóbi político homossexualista).

A sobrevivência da democracia depende da prevalência da autoridade moral na nossa sociedade, o que significa a necessidade de uma educação das nossas crianças consentânea com o combate ao analfabetismo moral que tende a atomizar a sociedade, e que é o esteio de um novo tipo de totalitarismo iminente e imanente.

Quarta-feira, 31 Março 2010

A intervenção directa da política na educação das nossas crianças

A classificação do bullying como crime público, por parte deste governo e da ministra da educação (que pertence à maçonaria feminina), revela a total e completa desorientação por parte do que se considera ser hoje a “civilização laica”. Estamos, de facto, a viver num mundo governado por gente totalmente louca.

A partir de agora, pode passar a ser comum a polícia entrar numa escola e prender um miúdo de 10, 11, 12 ou 13 anos. E a coberto desta decisão de transformar o bullying em crime público, pretende-se significar que se reforça a autoridade dos professores, quando essa decisão vai exactamente no sentido contrário: a partir de agora, o professor chama a polícia e tira o “problema” de cima das suas costas; a escola transforma-se cada vez mais em “ensino sem educação”, e a área da educação, que é por sua natureza, pré-política, transforma-se num espaço de intervenção da política. Está tudo louco. Em vez de se dar meios de actuação à escola e ao corpo de professores, mete-se a polícia e política lá dentro.
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Quinta-feira, 18 Março 2010

A construção apocalíptica das religiões políticas

Eric Voegelin é, na minha opinião e não só, um dos maiores pensadores do século XX porque conseguiu pensar a História ― e consequentemente, a Humanidade ― fora de um determinado tempo, isto é, preocupando-se em não estar agarrado aos conceitos e preconceitos da época em que viveu (século XX). Neste sentido, podemos dizer que Eric Voegelin teve uma visão holística da História, da filosofia e da política ― a visão de quem analisa os fenómenos humanos a partir de um ponto de observação externo que não é nem a perspectiva do tempo histórico observado nem o tempo histórico na perspectiva do observador. Isto não significa que ele tenha pretendido formatar a História atribuindo-lhe um sentido formal (eidos da História); pelo contrário, a sua posição de observador externo permitiu-lhe perceber que a História não tinha acabado ― ao contrário do que defenderam as religiões políticas surgidas do Iluminismo, como o marxismo, o comteanismo, o hegelianismo, o nazismo, ou o neoliberalismo hayekiano de Francis Fukuyama.
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Segunda-feira, 8 Março 2010

O fenómeno do bullying nas escolas : uma perspectiva conservadora

« Em circunstâncias normais, no seu habitat normal, os animais selvagens não se auto-mutilam, não se masturbam, não atacam a sua prole, não desenvolvem úlceras no estômago, não se tornam fetichistas, não sofrem de obesidade, não formam laços de parceria homossexual, ou não cometem assassínios. Entre os humanos citadinos é escusado dizer que todas estas coisas ocorrem.

(…)

O animal do zoológico numa jaula exibe todas estas anormalidades que nós conhecemos tão bem nas nossas companhias humanas. Claramente, a cidade não é uma selva de cimento mas é um jardim zoológico humano. »

Desmond Morris, zoólogo.

O fenómeno do bullying juvenil sempre existiu mesmo antes de existir um ensino estatal oficial e obrigatório. O problema é que aquilo que era uma manifestação da competição entre os jovens, controlada dentro de certos limites, passou para uma violência muitas vezes extrema. Portanto, o problema não é o bullying que sempre existiu e nunca deixará de existir senão através de uma repressão que terá, por sua vez, as suas consequências imprevisíveis no comportamento dos jovens.

Prefiro o bullying benigno e competitivo que sempre existiu ao superlativo do bullying actual — que resulta da sua repressão e recalque — que consiste nos assassínios em massa com armas de fogo perpetrados por jovens nas escolas dos Estados Unidos e da Finlândia. Os países “desenvolvidos” reprimem o bullying mais benigno e aparecem fenómenos muitíssimo mais negativos e devastadores nas escolas.

Resumindo: a) não é possível alterar a essência do ser humano senão por via da repressão que terá sempre consequências imprevisíveis; b) é necessário controlar ― e não reprimir com violência ― o bullying nas escolas.
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Sábado, 6 Março 2010

Religião, tradição, autoridade

Se eu fosse militante do bloco de esquerda ou do partido comunista, defenderia essencialmente duas coisas: a primeira, a abertura total e inquestionada da imigração de origem islâmica; a segunda, a repressão de manifestações nos mídia por parte das igrejas cristãs. As esperanças dos novos totalitarismos gnósticos dependem muito do desenvolvimento político que o próprio multiculturalismo actual trará à Europa do futuro, e da repressão das expressões religiosas autóctones.

Um dos slogans atribuídos ao regime de Salazar era o de “Deus, Pátria, Autoridade” o que, em certa medida, coincide com a trilogia que dá o título a este postal. Porém, “autoridade” não é “autoritarismo”; um regime político autoritarista não é necessariamente promotor cultural da autoridade. Pelo contrário, o autoritarismo mina o fundamento da autoridade que é o da obediência sem o recurso à força da violência. Portanto, o Estado Novo apropriou-se de um conceito que não lhe pertencia. Por detrás do regime de Salazar existia claramente uma religião política. Aliás, o movimento que esteve na base da implantação do Estado Novo em 1926 era tão revolucionário como o movimento que implantou a república em 1910 ― Portugal tem vindo a sofrer várias revoluções gnósticas desde 1910.
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