perspectivas

Domingo, 8 Junho 2008

O Sincretismo Ideológico socrático

Desde que Sócrates assumiu o poder (e já antes, começando em Cavaco e até Durão e Santana, mas agora é mais acentuada a tendência), tenho aqui falado no sincretismo do neoliberalismo económico / marxismo cultural. Algumas pessoas que passam por aqui têm achado esta “união ideológica” um absurdo — “como pode o marxismo, seja em que aspecto for, conciliar-se com Hayek? Absurdo!” Porém, esse sincretismo é real, e os neoliberais (PS de Sócrates, PSD e algum CDS) aliam-se hoje aos marxistas culturais (Bloco de Esquerda e algum PS), com compromissos que não transparecem na opinião pública e que se traduzem em cedências mútuas na área da educação e cultura, e na área da economia (“uma mão lava a outra”). Porém, o fenómeno não é só português: Sócrates copiou catequisticamente a ideologia sincrética a partir dos senhores da Europa.

Mercedes Rosúa, no seu livro “O Arquipélago Orwell”, escreve:

«Os reaccionários entregam-se a uma inversão da História, apropriam-se das descobertas e das invenções dos trabalhadores, defendem a “preponderância dos especialistas” para ajudar a burguesia a assegurar o seu monopólio da ciência e da técnica: pregam a “superioridade da teoria”, comercializam o ensino, fazem deste, e deliberadamente, um mistério, e encarecem-no para favorecer assim o reino dos intelectuais burgueses nas escolas: afirmam o “papel decisivo das condições materiais e técnicas”, negam esse factor determinante que é o homem e reprimem a imensa força criadora das massas populares (…) Nós compreendemos perfeitamente que o invencível pensamento de Mao Tsé Tung é a arma ideológica fundamental na redacção dos novos manuais para o ensino.» — Directiva do Comité Central do PC Chinês, durante a Revolução Cultural ( 1968 )


Três décadas depois, os tópicos invocados deixam, no leitor europeu, uma curiosa sensação de déjà vu, em datas ― por certo ― recentes. Se se substitui o invencível pensamento de Mao Tsé Tung pela invocação de alguma suposta lei genial ou reforma educativa, o ataque a tudo quanto enriquece e diversifica o pensamento humano parece ser o tópico de cumprimento obrigatório, e a devastação produzida pelas suas aplicações depende simplesmente da força de que disponha o sector no poder, em determinado momento.
A situação também evoca o conflito geral da universidade em relação ao sistema. Nos diversos países e regimes, enfrentam-se os defensores desta como centro de formação em sentido amplo e crítico, com tendência universal e associado à tradição humanística — com os partidários da universidade-escola especializada que produzirá, num mínimo de tempo e com um mínimo de despesas, os indivíduos necessários, seja para os grandes monopólios e firmas capitalistas, seja para o Estado planificador e patrão. Os primeiros podem ser considerados elitistas e separados da vida quotidiana; os segundos de alienatórios e manipuladores do indivíduo em prol da economia, da burocracia e do trust.
Boa parte das fórmulas maoístas têm ― salvaguardando as abismais distâncias de natureza de regime ― paralelos nas experiências das universidades norte-americanas e europeias, no que respeita à formação fora das aulas, fraccionamento e redução dos períodos lectivos e intercalação de semanas ou meses de actividades independentes. A tendência a reduzir os custos e o tempo da educação leva a confundir e a desvirtuar a iniciativa que caracteriza os estudos superiores e o conceito da própria universidade, com a intenção, supostamente democratizadora, de distribuir diplomas que não correspondem ao que por tal nível se deveria entender.

Quando vemos cada vez mais licenciados que mal sabem escrever a língua, esse fenómeno reflecte o actual sincretismo neoliberal/marxista que forma carne para canhão; nivela por baixo; castra a iniciativa individual (embora digam o contrário); passa a ideia de que o sucesso do indivíduo depende não tanto do seu valor, mas essencialmente da forma como ele se “encaixa” no sistema.

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Terça-feira, 3 Junho 2008

O Arquipélago de Orwell


Mercedes Rosúa

Estou a ler “O Arquipélago Orwell” , da espanhola Mercedes Rosúa. Infelizmente, não temos uma tradução em português do livro — ver no site da APEL; tive que o mandar vir de Espanha pelo correio — porque as ideias de Rosúa vão contra o pensamento correcto instalado no Poder em Portugal.
Mais adiante, escreverei sobre o livro e farei um resumo, mas desde já adianto tratar-se de uma crítica extremamente inteligente ao pensamento único que alguns regimes adoptaram, que se apodera de alguns outros país e que ameaça a Europa.

«Las sociedades democráticas contienen elementos totalitarios que es necesario sacar a la luz. Su presencia y su intensidad los convierten en la primera amenaza contra las libertades y los derechos de los ciudadanos y, no obstante, a menudo la opinión pública los utiliza y la legislación los sanciona.» — El Archipiélago Orwell

Entretanto, recebo este comentário a este postal, que traduz o perigo do pensamento único. Nem de propósito: o pensamento único não ataca ou critica ideias: sataniza as ideias “não correctas”, mas nunca apresenta argumentos contra elas — o que simbolicamente se traduz na “legitimidade” da queima dos livros das ideias dos outros, tanto na Alemanha nazi, como na Revolução Cultural da China de Mao.

O pensamento único é propagado pelos me(r)dia ao serviço do sistema orwelliano que nos ameaça, com protagonistas subsidiados pelo sistema, e um exemplo disto foi o programa “Aqui e Agora” da SIC integrado no Jornal da Noite da SIC, em que a liberdade de expressão — baseada em factos e na lógica — é considerada como sendo “perigosa”: é o sistema de pensamento único, que se pretende afirmar, e que assim se protege.

Adenda: a ler: “Os perigos da SIC: a distorção pública do que é um blogger.”

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