perspectivas

Quarta-feira, 20 Abril 2011

O determinismo protestante e a liberdade católica (3)

Antero de Quental atacou a Igreja Católica com violência e brutalidade inauditas, responsabilizando o catolicismo por aquilo a que ele chamou de “atraso” por parte da Europa do sul em relação à Europa do norte. Deveria ser permitido a Quental ver a Europa actual, e verificar que os eventuais avanços em algumas áreas da sociedade implicaram necessariamente o retrocesso em outras áreas. Sob ponto de vista humano, a Europa retrocedeu e muito; a Europa sacrificou o valor das relações humanas em favor do chamado “progresso protestante do dever social” que evoluiu paulatinamente, e desde a Reforma, para uma espécie de “Estado do Sol” de Campanella.
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Sábado, 1 Agosto 2009

Antero de Quental

Filed under: filosofia — O. Braga @ 6:17 pm
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antero-de-quentalNa minha opinião (e não só), Antero de Quental foi o maior filósofo português dos últimos duzentos anos. Ao ler as obras dele vejo um homem que se pode ombrear com os maiores vultos da filosofia europeia do século XIX.

Infelizmente, Antero de Quental é praticamente desconhecido entre os portugueses e na Europa.

Numa altura em que Richard Dawkins nos pretende impôr o monismo naturalista, Antero de Quental escrevia em 1873:

«O monismo naturalista é um sistema ou uma construção filosófica em que o a priori representa um papel preeminente: numa palavra, apesar dos elementos científicos que contém, não é uma doutrina científica, mas uma hipótese filosófica. (…) Com efeito, se o universo evolve por que é que evolve? Pois bem: se as ciências nada têm que ‘ver’ com a interrogação, a filosofia é que tem muito e tudo.

A ideia de evolução implica necessariamente a de finalidade; esta contém a explicação racional daquela, que, só por si, é ininteligível e até contraditória. Se o movimento, acto essencial da matéria, é autónomo ― e é esta a tese monista fundamental ― tal movimento não pode ser concebido senão como um impulso espontâneo, por conseguinte, como uma verdadeira determinação voluntária: ora onde há determinação voluntária sem móbil, sem fim? Por isso, a ideia de finalidade é a pedra angular de toda a construção filosófica no terreno da natureza.

(…)

  1. A finalidade pode ser concebida como imanente à matéria;
  2. Não só o movimento em geral ― o movimento em si, independentemente de qualquer ideia de desenvolvimento ― é racionalmente inexplicável e, por conseguinte, inconcebível sem a ideia de finalidade ou de causa final, mas que mais particularmente a evolução, isto é, o movimento como hierarquia ou desenvolvimento, implicando a ideia de um tipo, que as formas evolvendo, tendem a realizar, implica por isso mesmo uma finalidade;
  3. O tipo é realizado na série, não é um produto dela: pois, se fosse um produto, como se explicaria a série?
  4. Quem diz evolução diz progresso. Ora o progresso que não tende para coisa alguma, que não tem um tipo e um fim não se compreende. Se não há tipo, não há medida ou termo de comparação na série, não há, por conseguinte, hierarquia: há variedade de formas paralelas e equivalente, mas não desenvolvimento.»

Antero de Quental ― “A filosofia da natureza dos naturalistas”

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