perspectivas

Como uma certa ‘direita’ vê a direita

“Quando o episteme está arruinado, os homens não param de falar sobre a política; mas agora expressam-se em modo de doxa”
— Eric Voegelin, “Nova Ciência da Política”

(Nota: este texto é longo. Quem não gosta, frequente o Twitter ou o FaceBook)

Mesmo que eu não seja budista, e não concorde com a religião budista, sendo de direita defendo a ideia de que os símbolos do Budismo devem estar presentes na praça pública.
Mesmo que eu não seja judeu, e não siga a religião judaica, sendo de direita defendo a ideia de que os símbolos do Judaísmo devem estar presentes na praça pública. E assim por diante.

Este texto, que pretende demarcar as fronteiras entre a direita e a esquerda, em vez de fazer essa distinção baralhou ainda mais as reais diferenças entre esquerda e direita (ou aquilo a que se convencionou chamar esquerda e direita). Pessoas como José Pacheco Pereira, que dizem que o Partido Social Democrata não é de direita nem de esquerda e “antes pelo contrário”, ficam certamente deliciadas com tamanha confusão.

Por exemplo, quando se diz: “O primeiro e mais significativo de todos os critérios diferenciadores é o da forma como esquerda e direita olham para o homem. Enquanto que a direita vê nele o indivíduo, a esquerda tem-no como cidadão.” Perguntem a um qualquer militante consciente do Bloco de Esquerda se não é tanto ou mais defensor da aplicação radical e enviesada do princípio da autonomia do indivíduo , quando comparado com qualquer neoliberal hayekiano mais radical!

¿Qual é o problema da definição de esquerda e direita por parte do escriba bovinotécnico?

O problema é que ele não coloca a sua análise em perspectiva histórica, ou seja, exprime-se em modo de doxa que é a opinião sem nexo causal. Acontece que nem todas as opiniões são equivalentes, desde logo porque algumas têm em conta, mais ou menos, o nexo causal (episteme) e outras não (doxa). Ele faz uma análise presentista da política e das ideias, e fá-lo porque não lhe convém (politicamente e ideologicamente) fazer de outro modo, ou porque não sabe.

Tanto a direita Goldman Sachs como a esquerda caviar têm em comum uma visão enviesada da autonomia do indivíduo (embora por razões de base diferentes), em que a liberdade negativa do indivíduo é sobrevalorizada, e em que o estatuto de cidadão-legislador é menorizado. Kant é, assim, deturpado.

Na exacta linha pensamento de Kant, Isaiah Berlin opõe a liberdade negativa do indivíduo (ou a do cidadão enquanto indivíduo que é) – a liberdade de se exprimir sem censura, por exemplo – à liberdade positiva que é o poder de tomar parte nas decisões políticas e públicas, e de participar no exercício da autoridade em geral. Berlin defende, e com razão, que estes dois aspectos da liberdade deveriam sempre coincidir, porque aquele que exerce o poder não pode querer anular-se a si próprio. Porém, os dois tipos de liberdade estão hoje radicalmente separados em função da acção progressiva da diferentes ideologias políticas (ou religiões políticas) desde as revoluções (século XVII e século XVIII), e a liberdade positiva é hoje apenas a afirmação reivindicativa de “direitos” legítimos ou estapafúrdios, enquanto se manteve intacta a liberdade negativa.

Portanto, a pretensa dicotomia indivíduo/cidadão é falsa, e a diferenciação entre esquerda e direita situa-se a outro nível.

“Nesta perspectiva, o homem é, para a direita, por si mesmo, sujeito e objecto de direitos face ao poder político, enquanto que, para a esquerda, ele existe essencialmente na sua relação com a coisa pública, sendo esta que lhe garante os direitos (e impõe as obrigações) que a direita vê como naturais e inerentes à sua condição.”

Eu vou tentar abster-me o mais possível de adjectivos. Mas a verdade é que se invoca no trecho a lei natural para dizer que “os direitos do indivíduo não têm nada a ver directamente com o bem-comum”. Ou seja, o conceito de lei natural (ou de Direito Natural) é deturpado, porque a lei natural sempre – desde Aristóteles mediante o seu princípio da equidade! – foi considerada (por exemplo, pelos estóicos) como “lei racional“. Esta forma de distinguir a direita da esquerda, para além de ser repugnante, refuta-se a si mesma porque é irracional.


É preciso começar a dizer insistentemente a esta gente da “direita” que o darwinismo só se aplica às pequenas mutações adaptativas (micro-mutações em função das mudanças do meio-ambiente), e que em tudo o resto a teoria de Darwin é falsa! A “direita”, assim como a esquerda, parte de paradigmas falsos (como a teoria da evolução darwinista) mas de tal forma subliminares ao raciocínio, e entranhados na cultura “intelectual”, que todo o pensamento subsequente se revela também falso. “Se um princípio está errado, toda a teoria está errada” (Aristóteles).


Portanto, a lei natural é uma lei racional. E uma lei racional não separa radicalmente o indivíduo da comunidade , nem faz a distinção radical entre indivíduo e cidadão. ¿Com uma “direita” destas quem precisa da esquerda?!

“A esquerda entende que o “mundo” pode ser transformado por golpes de vontade e é o resultado de forças inteligentes e direccionadas.”

¿O que é o conceito – da “direita” liberal – de “mão invisível” senão o resultado de “forças inteligentes e direccionadas“? Repare bem o leitor: tanto uma certa “direita”, dita liberal, como a esquerda padecem de uma fé metastática ; são duas faces do mesmo problema. Essa “direita” não se dá conta de que é apenas um instrumento do processo dialéctico da esquerda . Se atentarmos à política de Vítor Gaspar podemos verificar a existência dessa fé metastática que consiste em acreditar que a realidade se transmuta, como que por milagre e por acção de uma “mão invisível”, depois de tomadas determinadas decisões a nível ideólogico e macroeconómico. A lei natural, entendida como lei racional, não é tida em conta nem à esquerda nem nessa “direita”.

“Esta última distinção estabelece uma diferença subtil, mas substantiva, quanto à forma como a esquerda e a direita olham para a razão humana. Diferenciam, assim, o racionalismo político de uma e de outra, isto para os ramos das duas famílias que adoptam o racionalismo como critério fundamental da natureza humana. Enquanto que para a direita a razão é sempre atributo do indivíduo, com o qual ele pode aprender, descobrir e tomar decisões para a sua vida, para a esquerda existe uma razão colectiva das coisas e dos movimentos da História que pode ser conhecida e manipulada por quem governa a sociedade e os homens.”

Desde logo, é erro dizer que “o racionalismo é um critério fundamental da natureza humana”, porque se confunde racionalismo com racionalidade. Racionalismo não é a mesma coisa que racionalidade. Existe por aí muito racionalista irracional!

Depois, volta-se à falsa dicotomia entre “o indivíduo que é de direita, e o cidadão ou o colectivo que é de esquerda” – quando se sabe que a corrente política-filosófica chamada de “comunitarista” não tem nada a ver com esquerda.
O erro do escriba bovinotécnico consiste em instituir uma relação de causa/efeito entre a defesa do individualismo e a direita, por falsa contraposição em relação à esquerda que, alegadamente, não tem essa característica — e o que é absolutamente falso.
À esquerda, a actual e consciente do que está a fazer, interessa absolutamente a atomização da sociedade (a transformação do cidadão ou do indivíduo num átomo, mediante, nomeadamente, a pulverização de novos “direitos” a torto e a direito, e através da transformação dos “direitos humanos” em uma política em si mesma), e a “direita do indivíduo individualista”, ou seja, a direita Goldman Sachs, não faz mais nada do que alimentar esse desiderato de esquerda. É esta a razão por que a próxima revolução será a nível global, se não se alterar o conceito de “direita”, e com urgência.

A verdadeira liberdade só existe se o indivíduo estiver inserido em comunidades que se coloquem entre ele, enquanto indivíduo, e o Estado. Um indivíduo isolado face ao Estado (atomizado), não é livre – nem segundo a direita Goldman Sachs, nem segundo a esquerda marxista cultural.

É mais de direita um aborígene da Austrália do que um neoliberal em Portugal.

A verdadeira diferença entre a direita e a esquerda tem a ver com as diferentes mundividências fundamentais, conforme descrita aqui . E antes de ser política (ideologia) ou económica, a diferença é metafísica e ética. Quem não percebe isto não percebe nada! Por isso, a direita não tem apenas e só que tolerar as religiões: tem que as apoiar e promover na praça pública.

Mesmo que eu não seja budista, e não concorde com a religião budista, sendo de direita defendo a ideia de que os símbolos do Budismo devem estar presentes na praça pública. Mesmo que eu não seja judeu, e não siga a religião judaica, sendo de direita defendo a ideia de que os símbolos do Judaísmo devem estar presentes na praça pública. E assim por diante. Com o Hinduísmo, o Siquismo, etc., idem (mantenho reservas quanto ao Islamismo, porque não é apenas uma religião: é também um princípio de ordem política, o que não acontece em geral com as religiões propriamente ditas). Em lugar de um laicismo que é característica da esquerda, a direita defende o secularismo saudável.

A diferença fundamental entre a esquerda e a direita é axiológica e metafísica: a primeira não tem uma cosmovisão (ou a sua cosmovisão é sub-lunar e restrita ao mundo abaixo dos satélites artificiais), enquanto que a segunda tem (ou deveria ter) uma cosmovisão baseada na evidência de uma cosmogonia. E é esta diferença que faz toda a diferença (é mais de direita um aborígene da Austrália do que um neoliberal em Portugal).

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