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Segunda-feira, 11 Novembro 2013

O tradicionalismo é hoje uma “sopa de pedra” (2)

Filed under: A vida custa,religiões políticas — O. Braga @ 7:52 pm
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António Sardinha assumiu-se como republicano no tempo da monarquia, e depois da implantação da república em 1910, assumiu-se como monárquico. Toda a gente pode errar, mas convenhamos que o erro não é propriamente uma polarização de posições. Mas os ditos "tradicionalistas" não vêem isto e continuam ainda hoje tão românticos quanto o Sardinha foi. Ora, o tradicionalismo é incompatível com o romantismo; aliás, o tradicionalismo é a antítese do romantismo. Se houve uma corrente filosófica (e artística) que destruiu o tradicionalismo, foi o romantismo.

Por definição, um romântico não pode ser tradicionalista. Para os românticos, qualquer adereço serve para enfeitar o seu romantismo: pode servir a monarquia e/ou o tradicionalismo, o marxismo, o nazismo, etc.. Os românticos adoram ver as feras em luta de morte: o pior é quando as grades da jaula se desfazem e as feras saltam cá para fora.

sopa_pedraA tradição não é uma ideologia política. Só os ignaros reduzem a tradição a um determinado sistema político, não se dando conta, eles próprios, que assim contribuem activamente para a erosão da tradição. A tradição é um conjunto de valores que pode não existir em uma situação em que o “rei governa mas não administra”, mas que pode existir em outra situação em “o rei reina mas não governa”. São os valores da tradição que são intemporais, e não a tradição entendida isoladamente e em si mesma. Quem separa a tradição, dos valores, adopta uma qualquer “tradição” adequada e limitada a cada espírito do tempo.

O Rei é um símbolo que tem um representado: a nação; e, por isso, a representação do Rei não pode ser arbitrária como pode ser um signo ou um sinal de trânsito — a não ser que destruam o povo que é a sua representação. E também por isso o Rei não pode ser reduzido a um mero instrumento de governação. Os símbolos são premissas, e não utensílios. O facto de o Rei governar, ou não, é um detalhe, um pormenor.

Quem reduz o símbolo, que é o Rei, à comezinha governança do Deve e do Haver das finanças públicas, compara-o com um qualquer ministro. Quando os tradicionalistas já perderam a noção do "símbolo real", e a tradição transformou-se na expressão de um ego romântico, então a defesa da monarquia passou a ser uma “sopa de pedra” que alberga os mais diversos condimentos ideológicos que de "tradicionalistas" têm nada.

A tentativa de destruição da ética por via do "dilema ético"

 

Uma das entropias culturais da nossa época é a recusa dos factos objectivos, e a tal ponto que a própria psiquiatria tende a abolir as doenças mentais — o que é um absurdo!: se não existirem doenças mentais, ¿para que serve a psiquiatria?!

A recusa ou negação dos factos objectivos é uma doença mental colectiva da nossa época, uma "psicose colectiva", por assim dizer. Estamos a viver uma época anti-científica que invoca a “ciência” para negar os fundamentos da própria ciência.

Essa psicose colectiva é induzida pelas ideologias políticas — a que Eric Voegelin chamou de “religiões políticas” — que, para além da negação dos factos objectivos, tende a relativizar a ética através de “dilemas” éticos, como por exemplo o “dilema do trólei” de Philipa Foot. É também o caso do “dilema do soldado nazi”, a que o blogue Famílias Portuguesas faz referência aqui:

“Tu és o homem ou a mulher que tem uma arma apontada à cabeça da mulher ou criança judia. Temes que, se não disparares, serás executado. O que é que esperas que seria a tua decisão?”

O dilema ético do “soldado nazi” e o dilema ético do “trólei” de Philipa Foot baseiam-se na validade de um mesmo princípio: o utilitarismo. Portanto, à partida, esse tipo de "análise ética" está enviesado: esses “dilemas éticos” partem de um possível e putativo caso excepcional, para depois generalizar esse eventual e putativo caso imaginado (falácia da generalização e negação do juízo universal), tentando assim colocar em causa qualquer ética que não seja a utilitarista. Imagina-se um caso extremo para depois se tentar extrapolar esse putativo caso no sentido de afirmar a validade exclusiva do utilitarismo.

A intenção destes “dilemas éticos” inventados é o de eliminar qualquer pressão psicológica contra a ética utilitarista. Por outras palavras, estes dilemas éticos servem apenas como “gadgets” retóricos para dissuadir as pessoas de defender determinados princípios éticos que não sejam apenas e só os utilitaristas. Ademais, temos o caso do Padre católico Maximiliano Kolbe que nos deu o exemplo da recusa da ética utilitarista.

Finalmente, a negação do holocausto nazi faz parte dessa psicose colectiva, na medida em que é a recusa de factos objectivos e historicamente documentados (longe de mim pensar que o blogue Famílias Portuguesas participa dessa doença mental!). Se foram assassinados 6 milhões de judeus ou 5 milhões, ou 1 judeu apenas, é tergiversação e delírio interpretativo. É conversa fiada.

Quinta-feira, 7 Novembro 2013

É impossível a um cristão branquear a ideologia nazi

Filed under: religiões políticas — O. Braga @ 8:24 pm
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Alguém que tente branquear (e já nem digo “adoptar”!) a ideologia e o comportamento nazi — como fazem, por exemplo, determinados membros do partido PNR — e o anti-semitismo, não podem ser cristãos. E muito menos católicos. Em todos os seus aspectos, a ideologia nazi, ou outra qualquer sua corruptela, é incompatível com o catolicismo.

Qualquer grupo político que se diga “católico” e, simultaneamente, tente branquear o nazismo, é “lobo com pele de cordeiro”. De "católico" não tem nada!

Domingo, 20 Outubro 2013

Edite Estrela: uma mulher execrável

 

Edite Estrela é a autora de um relatório que pretende transformar em lei, para todos os países da União Europeia:

1/ o aborto como um “direito humano”;

2/ a restrição, ou mesmo proibição, da objecção de consciência em relação ao aborto por parte dos profissionais de saúde;

3/ negação do princípio do papel principal dos pais na educação sexual dos seus filhos (ver § 47 do documento);

4/ e, finalmente, a imposição da “educação sexual” (dentro e fora da escola) segundo os critérios do chamado Standards for Sexuality Education in Europe, que reza assim:

Children aged 0-4 should be informed about: “enjoyment and pleasure when touching one’s own body”, “early childhood masturbation”,different family relationships”, “the right to explore gender identities”, “the right to explore nakedness and the body, to be curious”, etc. and they should develop “curiosity regarding own and others‘ bodies” and “a positive attitude towards different lifestyles”.

Children aged 4-6 should be informed about “enjoyment and pleasure when touching one’s own body”, “early childhood masturbation”, “same-sex relationships”, “sexual feelings (closeness, enjoyment, excitement) as a part of all human feelings”,“different kinds of (family) relationship”, “different concepts of a family”, and should develop “respect” for those different lifestyles and concepts.

Children aged 6-9 should go on learning about “enjoyment and pleasure when touching one’s own body (masturbation/self-stimulation)”, but they also should be informed about “different methods of conception” and “the basic idea of contraception (it is possible to plan and decide about your family)”

Children aged 9-12 should be informed about “first sexual experience”, “orgasm”, “masturbation”, and should learn to “make a conscious decision to have sexual experiences or not” and “use condoms and contraceptives effectively”.

Segunda-feira, 26 Agosto 2013

Sobre António Borges

Na hora da morte aparecem os encómios dos apaniguados ou o silêncio dos críticos. Eu não conheci António Borges para lhe fazer, enquanto pessoa, encómios ou críticas pessoais. Tudo me leva a crer que António Borges era uma boa pessoa e um bom paterfamilias. Além disso, era adepto do FC Porto, o que só lhe releva o bom gosto. E gostando das cores azul e branco, até se pode supôr que pudesse ser um simpatizante da causa monárquica.

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Quarta-feira, 7 Agosto 2013

Um aviso à direcção do CDS/PP

1/ Qualquer governo – seja este ou outro – só terá legitimidade para baixar as pensões de reforma – sejam públicas ou privadas – quando o Estado se desmarcar das PPP (Parcerias Público-privadas). O Estado tem duas opções: ou se desmarca das PPP (Parcerias Público-privadas) e deixa-as entregues ao sector privado, ou nacionaliza as PPP (Parcerias Público-privadas).

Enquanto essa demarcação não for feita, qualquer corte nas reformas dos cidadãos contribui para a morte acelerada do regime. O problema, antes de ser económico, é ético e moral.

2/ A privatização dos CTT transforma um monopólio do Estado num monopólio privado. Entre os dois males, é preferível o primeiro.

3/ A ideia segundo a qual “a História chegou ao fim“, e que o fim da História justifica tudo e mais alguma coisa, foi um dos erros políticos do espírito de cada tempo, sempre recorrentes desde Hegel. É impossível prever o futuro.

Sexta-feira, 19 Julho 2013

Os argumentos da adopção gay e a falácia da mediocridade

« O meu vizinho bateu na avó, matou o cão, deu uma coça na mulher, saiu de casa e abandonou o filho? Então, a adopção gay torna-se legítima, porque a criança do meu vizinho estará melhor entregue a um par de gays.

O fulano embebeda-se todos os dias, está desempregado, é pobre, desanca na mulher e maltrata os filhos? Ora aqui está uma boa justificação para a legalização da adopção gay!

A Liliana Melo é pobre, é muçulmana e recusa-se a laquear as trompas de falópio, e tem uma data de filhos? Então, há que retirar os filhos à Liliana Melo para os dar a adoptar por pares de gays. »

Os argumentos a favor da adopção gay assentam na falácia da mediocridade: nivela-se por baixo o comportamento dos pais biológicos para assim se poder justificar o injustificável.


E depois há a tal questão dos “estudos psicológicos”. Quem, no entanto, se deu ao trabalho de verificar esses “estudos” fica abismado com a desonestidade dos ditos “estudos científicos” realizados em contexto de militância política homossexualista – com as seguintes características, a ver:

  • amostragem estranhamente muito estrita;
  • a idade do indivíduos interrogados (infantes);
  • o facto de, na esmagadora maioria dos casos, os “pais” serem os únicos interrogados;
  • o facto de, na maioria dos casos, os “pais” em questão serem membros e militantes políticos de uma organização LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros];
  • o facto de, na maioria desses “estudos científicos”, a comparação ser feita exclusivamente com crianças educadas por uma mãe heterossexual, que vive só ou divorciada;
  • a escolha do método: questionários standard, exclusivamente comportamentalistas (behaviourismo) e funcionalistas;
  • a constante fluidez mantida à volta de palavras-chave (ideológicas): “pais”, “mãe”, “concepção”, etc.
  • o facto de todas as respostas dos estudos irem, sem excepção, no sentido da tese anunciada previamente pelos ditos estudos.

A maioria dos “estudos” americanos tomam em consideração crianças educadas por um pai ou por uma mãe a viver em partenariado homossexual, mas concebidas e nascidas no quadro de um casal heterossexual. Ou seja, esses estudos nada dizem acerca do que aconteceria a uma criança nascida num ambiente à partida homossexualizado, nomeadamente através da procriação medicamente assistida.

Quinta-feira, 11 Julho 2013

François Hollande, Mário Soares, o Partido Socialista e o neocontismo

« Para a esquerda a Igreja Católica pode existir desde que lhe adopte a cartilha. Caso contrário voltam ao espírito mata-frades de Afonso Costa. Mário Soares deu o tiro de partida no ataque ao novo cardeal. Agora é a vez do sector alegrista marcar terreno No mínimo o novo cardeal devia ter excomungado logo ali as alminhas que bateram palmas a Passos e a Cavaco. Palmas só se podem bater a Soares ou a Alegra. Ou já agora aos dois. Da leitura enviesada que fizeram dessas palmas deu conta Balbino Caldeira mas isso não interessa nada. Ou D. Manuel Clemente lhes presta vassalagem e vai a correr a uma lojinha saber o que deve dizer ou voltamos à cruz da igreja reaccionária, atávica etc etc »

Jacobinamente

É importante que os católicos e cristãos em geral compreendam que, com o exemplo paradigmático do regime de François Hollande em França, o chamado “socialismo de rosto humano” desapareceu da Europa e de Portugal. Estamos hoje em presença do retorno, sob outras vestes, do Positivismo de Augusto Comte que é uma religião política imanente. Chamemos a este novo fenómeno político de neocontismo , para não se confundir com o positivismo científico.

A François Hollande só lhe falta mudar o calendário gregoriano: por exemplo, hoje não seria Quinta-feira, 11 de Julho de 2013 d.C. ou Annum Domini, mas antes seria Tridi, 23 de Messidor de 221. E o 25 de Abril de 1974 não seria uma Quinta-feira, mas antes seria renomeado e passaria a ser o dia Quintidi, 5 de Floreal de 182. Estamos em presença de uma espécie de “novo islamismo”, de uma nova teocracia que confunde o Estado com a sociedade civil.

A influência do Partido Socialista francês no Partido Socialista português é total: basta que François Hollande dê um flato para que Mário Soares e o sibarita Tó-Zero lhe assumam o alívio fisiológico. E essa influência total está relacionada com a total subordinação maçónica do GOL (Grande Oriente Lusitano) ao Grande Oriente de França. Ambos os Partidos Socialistas são apenas o epifenómeno do enorme poder maçónico mafioso que controla grande parte dos países da União Europeia.

Domingo, 7 Julho 2013

Sobre a opinião da Professora Doutora Rita Lobo Xavier acerca da adopção de crianças por pares de invertidos

Estive a ver a audição (gravada) da Professora Doutora Rita Lobo Xavier, no Canal Parlamento, acerca da chamada “co-adopção” de crianças por pares de invertidos. Ouvi também os seguintes deputados: Pedro Delgado Alves (Partido Socialista), Andreia Neto (Partido Social Democrata), Teresa Anjinho (CDS/PP) e João Oliveira (Partido Comunista).

Há muito tempo que se sabe (pelo menos desde G E Moore) que não é possível e legítimo deduzir valores e normas através dos factos. E, apesar disso, quem o faz comete um “sofisma naturalista”.
Os factos não fundamentam quaisquer normas, embora as normas possam criar os factos. O problema aqui não é só jurídico: é essencialmente lógico e ético. E o que a esquerda está a fazer não é só negar a ética e minar o Direito: é também a negação da lógica

A primeira conclusão que devemos retirar – que eu retirei da audição – é que é absolutamente necessário não votar no Partido Socialista (já não falando na esquerda radical).

Em segundo lugar, o que está em causa, por parte da esquerda (que inclui o Partido Socialista e uma parte importante do Partido Social Democrata), é uma visão totalmente diferente do mundo e, por isso, uma visão radicalmente diferente acerca da família natural e que se aproxima da mundividência da família expressa na utopia da “República” de Platão – ou seja, a família natural tout cours é, implícita (PS) ou explicitamente (BE e PCP), repudiada pela esquerda.

O problema levantado pela esquerda é ideológico, e não propriamente jurídico; aliás, os próprios deputados referidos do Partido Socialista e do Partido Comunista fugiram à questão jurídica e, em vez disso, concentraram todos os seus argumentos na questão ideológica ou subjectivista para justificar a putativa bondade do projecto de lei da adopção de crianças por pares de invertidos.

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Terça-feira, 2 Julho 2013

A Escolástica do século XX

José Pacheco Pereira fala-nos aqui da “Escolástica do século XX”.

A dogmatização dos direitos humanos, transformando-os em uma forma de fazer política, para além de repudiar o que há de bom e positivo nas tradições, é a causa do aumento da tutela da organização burocrática (por exemplo, na cúpula do leviatão da União Europeia), em que a afirmação retórica, obsessiva e repetida da singularidade das pessoas concretas é acompanhada pela sua equivalência abstracta num anonimato generalizado; e em que o reconhecimento social de todas as espécies de direitos – “casamento” gay, adopção de crianças por pares de invertidos, eutanásia “a pedido do freguês”, aborto livre “porque sim”, pedofilia como “orientação sexual”, teoria de género, feminismo, etc. – e liberdades tem como contraponto o retraimento narcísico dos indivíduos e o seu desinteresse pela coisa pública (ou seja, diminuição da coesão social), e em que a omnipresente encenação política de liberalização dos costumes esconde a propensão para um mimetismo na cultura antropológica, um seguidismo e um conformismo sem precedentes que abre caminho a uma nova forma de totalitarismo.

Exceptuando alguns poucos pensadores medievais católicos – como, por exemplo, Anselmo de Aosta ou S. Tomás de Aquino -, a Escolástica, em geral, passou o tempo a discutir o sexo dos anjos. De um modo semelhante, também existiu uma Escolástica no século XX, que já vinha da revolução francesa, da utopia positivista que evoluiu para o socialismo francês pela mão do utilitarismo de Bentham, e que teve em Karl Marx o seu corolário.

Paradoxalmente, a religião que Karl Marx criticou deu origem a um Ersatz da religião, a uma religião política imanente e moderna que também teve os seus relapsos, os seus “protestantes” e a sua “Reforma”: mas sempre a discutir o sexo dos anjos. O que se passa hoje, em grande parte da Europa e nomeadamente em França , é, de facto, o retorno às origens da Escolástica moderna; uma espécie de “vira o disco e toca o mesmo”.

José Pacheco Pereira fala de “humanismo” e de “anti-humanismo”. Mas ¿o que significa “humanismo”?

O termo “humanismo” sofreu tantas definições que já não se sabe bem o que é. O próprio marxismo ortodoxo, que se dizia “anti-humanista”, acabou por reclamar a herança do humanismo e, por isso, paradoxalmente, ser também – embora involuntariamente – “humanista”. Se considerarmos “humanismo” aquilo que saiu do Iluminismo – porque também existe um outro “humanismo” que saiu do Renascimento, para além do “humanismo” do personalismo cristão, e etc. -, esse humanismo iluminista é sinónimo de racionalismo; mas racionalismo não é a mesma coisa que racionalidade; mas durante muito tempo pensou-se que os dois conceitos eram equivalentes.

Dizia Albert Camus que “Nietzsche era grego e Karl Marx, cristão”. O que separa, realmente, Karl Marx do Cristianismo é a ausência de um fundamento último da teoria. Ou seja, o marxismo é construído sem alicerces na metafísica, sem uma axiomática que o prenda ao Real; neste sentido, é uma espécie de Escolástica medieval invertida ou do avesso.

Do racionalismo humanista do iluminismo, muitas vezes irracional, não poderíamos esperar outra coisa senão a construção do “Homem abstracto”, por exemplo, mediante uma “política dos direitos humanos” criticada profeticamente por Marcel Gauchet em princípios da década de 1980.

Existe aqui um paradoxo: os “direitos humanos”, assumidos como uma política em si mesma, diluiu qualquer tipo de humanismo – incluindo o personalismo cristão que sempre foi concreto (pelo menos em tese) por sua própria natureza. Vivemos numa época de paradoxos decorrentes de uma racionalização política que é, no fundo, uma tentativa (propositada!) de irracionalizar a sociedade e a cultura.

Os paradoxos da relação entre indivíduo e sociedade, por um lado, e por outro lado entre o indivíduo e o Estado, são mitigados (aparentemente) pela invocação ritualizada (por exemplo, pelo socialismo dos Khmers Rosa de François Hollande ) da liberdade, e da igualdade entendida como uma aplicação prática de uma espécie de ideologia de Procrustes.

A dogmatização dos direitos humanos, transformando-os em uma forma de fazer política, para além de repudiar o que há de bom e positivo nas tradições, é a causa do aumento da tutela da organização burocrática (por exemplo, na cúpula do leviatão da União Europeia), em que a afirmação retórica, obsessiva e repetida da singularidade das pessoas concretas é acompanhada pela sua equivalência abstracta num anonimato generalizado; e em que o reconhecimento social de todas as espécies de direitos – “casamento” gay, adopção de crianças por pares de invertidos, eutanásia “a pedido do freguês”, aborto livre “porque sim”, pedofilia como “orientação sexual”, teoria de género, feminismo, etc. – e liberdades tem como contraponto o retraimento narcísico dos indivíduos e o seu desinteresse pela coisa pública (ou seja, diminuição da coesão social), e em que a omnipresente encenação política de liberalização dos costumes esconde a propensão para um mimetismo na cultura antropológica, um seguidismo e um conformismo sem precedentes que abre caminho a uma nova forma de totalitarismo.

Foi nisto que desembocou a “Escolástica do século XX”.

Ministro socialista francês defende uma “religião republicana” oficial do Estado

Quando o muro de Berlim caiu, pensámos que o inferno tinha acabado; mas o que aconteceu depois foi que o jacobinismo radical maçónico e o Positivismo do século XVIII de Augusto Comte ressurgiram e estão a tomar conta da Europa.

O ministro da educação da França socialista de François Hollande, Vincent Peillon, lançou um livro com o sugestivo título: “A Revolução Francesa Não Está Ainda Terminada”. Se a moda pega, vamos ver os republicanos socialistas portugueses, como por exemplo, Manuel Alegre e companhia limitada, a medir as cabeças dos jesuítas para tentar apurar a sua inferioridade ontológica.

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Republicanos portugueses medindo a cabeça de um jesuíta, para tentar perceber o atraso mental

O alvo do ministro francês e dos Khmers Rosa de François Hollande é a Igreja Católica. E a forma que o ministro encontrou para combater a Igreja Católica é a politização da escola, tal qual os estalinistas e maoístas fizeram no passado infernal que julgávamos ter tido um fim com a queda do muro de Berlim. Eis que se ergue um novo muro da vergonha na Europa, desta vez um muro da irracionalidade maçónica e jacobina.

O grande problema da democracia na Europa é que este tipo de gente chega ao Poder sem revelar ao povo, a priori, o tipo de ideologia que defendem; e só depois de eleitos revelam o verdadeiro cariz do seu pensamento político. Neste sentido, podemos dizer que a democracia foi subvertida na Europa.

O ministro francês defende a ideia segundo a qual a religião cristã – neste caso, a católica – deve ser substituída por uma “religião republicana” de Estado cujo fundamento é o laicismo. Segundo o ministro dos Khmers Rosa ,

“a revolução implica o esquecimento de tudo o que precede a revolução. E aqui a escola tem um papel fundamental, porque a escola deve erradicar , do aluno, todo o seu legado pré-republicano e ensiná-lo a ser um cidadão. É como um novo nascimento, há uma transubstanciação que opera, na escola e pela escola, a nova igreja com os seus novos sacerdotes, a nova liturgia e a nova tábua dos mandamentos da lei”.

Este tipo de discurso é messiânico e clama por uma metanóia (de tipo hitleriano ou estalinista), por um lado, e por outro lado parte do princípio de que é possível a qualquer um construir uma religião como a cristã meramente através da acção política. Esta gente não compreende o fenómeno do Cristianismo e transforma-o em uma mera ideologia política substituível por qualquer outra. Hitler, ou Lenine e Estaline não poderiam estar mais de acordo com os Khmers Rosa de François Hollande.

Ou seja, estamos em presença de germes de um novo projecto político totalitário na Europa equivalente ao comunismo ou ao nazismo. Como é evidente, uma religião implica a existência de fé, de rituais, de dogmas, do sagrado e do profano. E os totalitarismos do século XX foram caracterizados por uma qualquer fé dogmática imanente (que ultrapassa a simples crença) e de rituais políticos; a elite política revolucionária foi transformada no sagrado da religião política imanente, e o profano era tudo o que se passava nos “passos perdidos” da política, ou seja, no recato recôndito do lar.

Nunca foi tão urgente ler Eric Voegelin como agora.

Segunda-feira, 17 Junho 2013

Nem sábios, nem Esquerda, nem esta Direita

«Um sábio, que não seja bacharel, recebe esse grau de uma universidade, e os de licenciado e doutor, para poder entrar nessa universidade, que é hábil e competente para o fazer, por ter capacidade de saber, e por ser devido apenas a circunstâncias especiais que o sábio não possuía nenhum diploma científico oficial. Mas, sem dúvida, pareceria muito paradoxal, e até muito ridículo, que um grupo de indivíduos sem diplomas universitários conferissem a alguém, por exemplo, o grau de doutor em matemática. A competência por colação dos incompetentes não tem certamente senso comum.»A competência por colação

Um grau de uma universidade não produz necessariamente mais competência. Por isso é que Marinho Pinto (e muito bem!) exige um exame da Ordem dos Advogados para os novos licenciados em Direito. Um grau de uma universidade pode conceder a alguém um estatuto social que possibilite exactamente essa competência por colação de que nos fala a citação supra, por um lado, e por outro lado, o grau de uma universidade pode produzir alvarás de inteligência. Acontece que a concessão de um alvará de inteligência a um cidadão, por uma universidade, não tem senso-comum, porque a inteligência não é coisa que se compre, se venda, ou que se concessione à exploração comercial por alguns anos.

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