perspectivas

Quinta-feira, 26 Julho 2018

Ser liberal, hoje, é ser anti-liberal

Filed under: liberalismo,Nancy Fraser,Nuno Melo,Passos Coelho — O. Braga @ 7:03 am

 

O Nuno Melo pode ser comparado a José Pedro Aguiar-Branco : um homem que me pareceu ter boas ideias, mas que soçobrou pragmaticamente às pressões do sistema político vigente. Aguiar-Branco também tinha uma carreira política promissora em um PSD que nada tinha a ver com o actual de Rui Rio; mas o pragmatismo político prevaleceu talvez sobre as suas próprias ideias.

“O político nunca diz aquilo em que acredita, mas antes diz aquilo que julga ser eficaz.” — Nicolás Gómez Dávila

kapo-webAguiar-Branco parecia ser uma excepção à regra; mas, para não dizer aquilo em que acredita, ele remeteu-se ao silêncio de um governo caninamente subserviente a Angela Merkel.

O grande erro de Passos Coelho não foi o de instaurar uma política de austeridade (que era e ainda é necessária): o erro dele foi o de se apanascar em relação a Angela Merkel, e, com essa sua posição de amouco político, ou de Kapo de um Konzentrationslager, Passos Coelho representou o apanascamento da nação portuguesa. Ora, isto nunca lhe perdoo. Passos Coelho chegou ao ponto de menosprezar os portugueses reais (porque para ele, os portugueses pareciam ser uma entidade abstracta) em nome do apanascamento à ideologia imposta pela desequilibrada Angela Merkel.

A política de austeridade não implica necessariamente o apanascamento político.

A actual situação política no Ocidente é muito complexa, e por isso é absolutamente necessária uma simplificação das ideias, ou seja, é preciso ideologia. Infelizmente, isto já não vai com abstracções de intelectuais de urinol.

“Os portugueses sempre adoraram o concreto: entendem o abstracto, mas procuram traduzi-lo imediatamente em concreto.” — Agostinho da Silva

A complexidade da situação política ocidental pode ser resumida da seguinte forma: o conceito de Nancy Fraser de “Neoliberalismo Progressista” (de que falei aqui) é pertinente, faz todo o sentido.

Ou seja, verificamos que quase tudo o que a Esquerda radical (passo a redundância) defende (com excepção das premissas económicas), é imediatamente adoptado pelo chamado “liberalismo”.

É assim que uma certa “Direita” dita “liberal” (por exemplo, a de Rui Rio), que se manifesta muito na SIC do Bilderberger Pinto Balsemão, faz a apologia do partido Democrático dos Estados Unidos e apaparica sistematicamente o Obama e a Hillary Clinton, contra Donald Trump.

A diferença entre Rui Rio e a Catarina Martins é a de que o primeiro não acredita que a economia possa ser exclusivamente baseada em um capitalismo de Estado.

É apenas a economia que os separa. Em tudo o resto, embora não sejam idênticos, os dois são indiscerníveis. Por exemplo, na política cultural, não conseguimos distinguir Rui Rio de Catarina Martins.

A situação política portuguesa — e Ocidental — seria histriónica, se não fosse grave.

É neste contexto da indiscernibilidade cultural entre a Esquerda radical e os liberais, que surge o fenómeno político do chamado “populismo”, de Donald Trump, do Brexit, de Nigel Farage, de Geert Wilders, de Marine Le Pen, de Viktor Órban, da Polónia e da república Checa, de Matteo Salvini, etc.. Nancy Fraser tem razão neste aspecto.

A indiscernibilidade política entre a Esquerda radical e o liberalismo, manifesta-se, por exemplo, na política de fronteiras: é assim que (por exemplo) Angela Merkel ou Hillary Clinton, ou o bilionário liberal George Soros (e os neocons e liberais em geral), “concordam” com a Esquerda radical trotskista em relação a uma política permissiva de imigração.

Ser irracional é hoje uma condição política essencial. Ser irracional voltou a estar na moda. Quem não se mostra irracional não vinga no actual cenário político Ocidental.

O chamado “populismo” vem exactamente introduzir uma certa racionalidade no debate político — e por isso é que é imediatamente rechaçado, tanto pela Esquerda radical como pelos liberais. Se virmos, por exemplo, o canal de televisão da SICn, diremos que se trata de uma extensão me®diática do Bloco de Esquerda; aliás, toda a me®dia está tomada pela Esquerda, e com a bênção dos liberais. Neste contexto, a seguinte proposição de Nuno Melo foi considerada “fassista”:

“O espaço europeu pode ser um destino de acolhimento para outros povos, mas estes devem respeitar as nossas leis, valores e costumes, de forma a não nos sentirmos sequestrados na nossa casa”.

Por exemplo, a liberal Angela Merkel não subscreveria esta proposição de Nuno Melo; a liberal Hillary Clinton diria, a propósito, que Nuno Melo é um herege — porque, como diz Nancy Fraser, o liberalismo entrou em competição com a Esquerda radical no sentido do controlo da política cultural. Ou seja, o liberalismo deixou de ser racional.

Hoje, ser liberal é não ter a mínima ideia da sociedade que se pretende construir; é emular a Esquerda nas políticas culturais, minando assim a estrutura metafísica, ética, cultural, política e económica da sociedade. Ser liberal, hoje, é imitar a sociopatia da Esquerda. Ser liberal, hoje, é ser anti-liberal.

Quarta-feira, 25 Julho 2018

Nancy Fraser e Catarina Martins

Filed under: Bloco de Esquerda,Catarina Martins,Esquerda,Nancy Fraser — O. Braga @ 6:48 am

 

O marxismo (socialismo) não tem qualquer hipótese de vingar em qualquer tipo de sociedade, por duas razões principais:

  1. não considera a verdadeira importância do mercado;
  2. ignora a aplicação do Princípio de Pareto e da Lei Natural.


O Princípio de Pareto, baseado na observação empírica da realidade, constata que (grosso modo) 80% dos efeitos derivam de 20% de causas.

Wilfredo Pareto constatou, por exemplo, que 80% das terras em Itália pertenciam a 20% da população; ou que apenas 20% das ervilheiras do seu jardim continham 80% das ervilhas.

Hoje sabemos empiricamente, por exemplo, que 80% das vendas de uma empresa são realizadas em 20% dos clientes. Ou que 80% das reclamações recebidas em um empresa vêm de 20% dos clientes; ou que 80% da produtividade de uma empresa têm origem em 20% dos empregados; ou que 80% das vendas de uma empresa são realizadas por apenas 20% dos vendedores.

A dinâmica da economia (em qualquer tipo de organização social) conduz inexoravelmente à concentração de riqueza (não há volta a dar a isto!); mas, em um sistema político socialista — para além da subversão do mercado que origina uma economia paralela — é muito mais difícil retirar à elite socialista a sua parte da concentração da riqueza: verificamos isso mesmo com Fidel Castro (ou mesmo com Nicolas Maduro, na Venezuela), que foi um dos homens mais ricos do mundo e sem que existisse qualquer possibilidade política de o Estado cubano interferir com a sua acumulação de riqueza.

O socialismo não acaba com os ricos: apenas acaba com os ricos decentes.


Uma figura que não devemos ignorar é a de Nancy Fraser — a nova coqueluche da Esquerda Caviar: já ouvi e li, várias vezes, a Catarina Martins referir-se a Nancy Fraser. Contudo, o discurso ideológico de Nancy Fraser não coincide com o discurso político do Bloco de Esquerda em particular, e o da Esquerda em geral.

Não devemos ignorar Nancy Fraser, não porque ela tenha algum valor especial e assinalável, mas antes porque ela está na moda. Em política, as modas têm que ser analisadas seriamente. Como dizia Nicolás Gómez Dávila: “Nas Ciências da Natureza, onde impera o princípio da falsificabilidade, arquivam-se apenas os erros; nas ciências humanas, onde impera a moda, arquivam-se também os acertos”. Ou ainda: “A moda adopta filosofias que se esquivam cautelosamente dos problemas”.


Nancy Fraser aparece com um neologismo: o de “Neoliberalismo Progressista”. Podemos ver esse conceito — o de Neoliberalismo Progressista — nesta entrevista de Nancy Fraser, traduzida para o castelhano.

catarina-martins-neanderthal-webSegundo a Nancy Fraser, o Neoliberalismo Progressista é uma espécie de associação do Rui Rio + Assunção Cristas, com um caldinho de António Costa e José Sócrates: também está na moda; mas segundo a Nancy Fraser, o Neoliberalismo Progressista tem os dias contados com o advento de uma nova forma de populismo, que se espelha em Donald Trump, em Marine Le Pen, no Brexit, em Matteo Salvini, na Polónia, na Hungria, república Checa, etc.. Mas, segundo Nancy Fraser, o populismo não é mau de todo! (ao contrário do que diz a Catarina Martins e o José Pacheco Pereira, entre outras luminárias), porque é (alegadamente) uma manifestação política de afrontamento ao Neoliberalismo Progressista.

O Neoliberalismo Progressista é “assim a modos que” uma espécie de neoliberalismo clássico (globalismo, deslocalização das economias ocidentais, o “livre comércio” que é tudo menos livre, etc.) ao qual foi adicionado uma carrada de direitos de braguilha.

É assim que, por exemplo, a Assunção Cristas está orgulhosa por o Adolfo Mesquita Nunes ter assumido fanchona- e publicamente os seus direitos de braguilha, está orgulhosa das quotas para mulheres na gestão de empresas; ou que o Rui Rio ou o António Costa defendem a adopção de crianças por pares de invertidos.

O Neoliberalismo Progressista pega na ideologia identitária da Esquerda gramsciana (leia-se, Bloco de Esquerda), e adapta-a ao seu próprio programa ideológico — o que tem conduzido a uma radicalização progressiva do Bloco de Esquerda que tenta desmarcar-se do programa cultural do Neoliberalismo Progressista.

E à medida que o Bloco de Esquerda radicaliza à esquerda, os partidos da agenda do Neoliberalismo Progressista (Bilderberg + Pinto Balsemão + Durão Barroso, António Costa, Rui Rio, e mesmo a Assunção Cristas) vão também adoptando políticas culturais radicalizadas, como por exemplo a legalização da eutanásia. Se a Catarina Martins um dia defender a reintrodução legal da pena-de-morte, é certo que Rui Rio e a Assunção Cristas irão atrás dela.

A Nancy Fraser não é adepta da política identitária (da Esquerda marxista cultural) como estratégia principal da Esquerda — porque ela já viu que o Neoliberalismo Progressista tem vindo a substituir a Esquerda marxista cultural (por exemplo, com George Soros, Hillary Clinton, Obama, os plutocratas americanos em geral, etc.).

“En este contexto, una porción significativa de lo que podría haber sido la izquierda se ha pasado al liberalismo. Sólo hay que pensar en el feminismo liberal, el antirracismo liberal, el multiculturalismo liberal, el “capitalismo verde” y demás. Estas son hoy las corrientes dominantes de los nuevos movimientos sociales cuyos orígenes eran, si no directamente de izquierdas, al menos izquierdistas o proto-izquierdistas. Hoy, sin embargo, carecen de la más mínima idea de una transformación estructural o de una economía política alternativa. Lejos de tratar de abolir la jerarquía social, toda su postura tiene como objetivo conseguir que más mujeres, gais y personas de color entren en las élites. Por supuesto en los EUA pero también en otros lugares, la izquierda ha sido colonizada por el liberalismo”.

Ora cá está o epitáfio da Catarina Martins, decretado pela Nancy Fraser. Ademais, Nancy Fraser também não subscreve a estratégia ortodoxa do Partido Comunista da “nacionalização dos meios de produção”.

Em alternativa à política identitária do Bloco de Esquerda e à ortodoxia económica marxista do Partido Comunista, Nancy Fraser defende a aplicação do conceito vago de “reformas não reformistas”, segundo a ideia de André Gorz.

Porém, não existe sequer uma noção do que sejam as “reformas não reformistas” : é apenas um conceito, e muito lato e vago. É um conceito ideológico e intelectual do nosso Zeitgeist (e o intelectual não é aquele que pensa: é aquele que opina); e cada época baptiza absolutamente a sua anedota ideológica, como é o caso actual do conceito de “reformas não reformistas”.

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