perspectivas

Terça-feira, 14 Agosto 2018

O Logos olha constantemente para o Pai, para que o mundo possa continuar a existir

Filed under: milagre,Quântica,religião — O. Braga @ 7:12 pm

 

1/ O Domingos Faria cita alguns teóricos a propósito do conceito cristão de “milagre”. Com todo o respeito, pelo menos um dos teóricos citados está errado.

“Ou, como defende Timothy McGrew (2016), se as leis da natureza são simples afirmações de regularidades naturais, então uma suposta “violação” seria mais naturalmente uma indicação de que aquilo que pensávamos que fosse uma lei, afinal não é realmente uma lei”.

¿Como definir “milagre”?

Uma “regularidade natural” não é “inviolável”; aliás, em princípio, não há nenhuma lei da natureza (do ponto de vista da ciência) que não admita a priori uma possível excepção, e essa possível excepção não a invalida só porque existe como tal (falsificabilidade) — desde logo porque as leis da natureza são verificadas no passado (estatística, observação, verificação e confirmação) e não há nenhuma garantia absoluta (certeza) de que manterão as mesmas características no futuro.

Não é porque uma determinada lei da natureza seja eventualmente “violada” que deixa de ser válida. Normalmente, os cientistas falam em “anomalia”; mas as “anomalias”, só por si, não invalidam as leis da natureza. Aliás, as “anomalias” (verificadas empiricamente) até corroboram as leis da natureza.

2/ Há que fazer a distinção clara entre o microcosmo (realidade quântica) e o macrocosmo (este último é o objecto da ciência experimental propriamente dita).

A força entrópica da gravidade, actuando na realidade quântica primordial, “está na origem” do macrocosmo (por assim dizer). Mas o macrocosmo tem leis objectivas que admitem (a priori) excepções. Por exemplo, a lei da gravidade é suposta actuar da mesma forma em qualquer ponto do universo; mas recentemente descobriu-se que as ondas sonoras têm uma massa negativa, ou seja, as ondas sonoras são uma forma de anti-gravidade: por outras palavras, “o som flutua para cima e não cai para baixo” — mas nem por isso a lei da gravidade deixa de ser válida.

3/ A ideia de que “o microcosmo é o veículo do milagre” não é nova: John Eccles já defendia essa tese há mais de 40 anos, quando aplicou o primeiro princípio da termodinâmica (Carnot-Clausius) a todo o universo (“o universo não é um sistema fechado”). E eu, há cerca de 10 anos, escrevi neste blogue um artigo acerca desse assunto.

O microcosmo (com a sua "função de onda quântica") é a “fronteira” entre a imanência e a transcendência.

Como defendeu Newton, e com toda a pertinência, o Criador actua constantemente no universo; ou como escreveu Orígenes, “o Logos olha constantemente para o Pai, para que o mundo possa continuar a existir”.

Essa acção do Logos ou do Criador sobre o macrocosmo é realizada através do microcosmo, sem perturbar o determinismo “relativo” das leis da natureza — é um determinismo “relativo” porque (obviamente) não é um determinismo absoluto: por exemplo, não devemos afirmar que “é impossível que a Terra deixe o movimento em torno do Sol e se passe a movimentar em torno de uma outra estrela qualquer”: o que podemos dizer é que a probabilidade de isso acontecer ser muito próxima de zero (quase nula).

4/ não é possível definir “milagre”, da mesma forma que não é possível definir “realidade”. O podemos ter é um conceito de “milagre”.


A nossa simples existência como um Eu consciente é um milagre. Dado que as propostas de solução materialistas não permitem explicar a nossa singularidade, da qual fazemos experiência, sinto-me obrigado a deduzir a singularidade do Eu, ou da alma, de uma criação espiritual sobrenatural. Para exprimi-lo em termos teológicos: cada alma é uma criação divina.”

John Eccles [1989, Evolution Of The Brain : Creation Of The Self.]

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Quarta-feira, 20 Dezembro 2017

O Carlos Fiolhais e a “prova” do milagre de Fátima

 

Richard Dawkins escreveu algures que se uma estátua de Nossa Senhora sair de uma igreja pelos seus próprios pés, tratar-se-ia certamente de um fenómeno natural. O Carlos Fiolhais é da mesma opinião.

O Carlos Fiolhais é demasiado estúpido para ser uma “referência da ciência” em Portugal. O rei vai nu.

Ele pode até ser uma referência do naturalismo; mas a ciência não se reduz nem se traduz na / à metafísica naturalista. Mas — obviamente — que o Carlos Fiolhais e quejandos não sabem a diferença entre uma coisa e outra. O Carlos Fiolhais é um técnico que se julga filósofo.

Diz o Carlos Fiolhais que “a ciência não vive de autoridade, mas antes vive de provas”. ¿O que é a “prova”?!

A verdade científica não pode ser “provada” com certeza, nem através da experiência e nem através da intuição intelectual, porque na ciência não existe nenhum indicador infalível para a verdade.

Por exemplo, na cosmologia: décadas de “provas” acumuladas não produziram o universo que a metafísica naturalista do Carlos Fiolhais tinha previsto e exigia. O Big Bang não nos levou a uma teoria com menor implicação teísta, e há indícios de um universo programado para a vida (Fine-tuned Universe).

Ou seja, a “prova naturalista” do Carlos Fiolhais é uma “batata sem grelo”. Ou, pelo menos, as provas “provam” exactamente o oposto do que o naturalismo pretendia “provar”.

A verdade científica não pode ser “provada” com certeza, nem através da experiência e nem através da intuição intelectual, porque na ciência não existe nenhum indicador infalível para a verdade.

Em bom rigor, não pode ser encontrada uma prova concludente para uma evidência tão simples como a existência de um mundo exterior a nós próprios. Kant chamou a isto o “escândalo da razão”.

A moderna teoria da ciência formula, com Karl Popper, uma versão mais moderada do “escândalo da razão” de Kant: segundo Karl Popper, “o mundo exterior [a nós próprios] é uma hipótese de trabalho para a ciência da natureza”.

Por isso é que o Carlos Fiolhais é estúpido. Não é uma acusação ad Hominem : é a constatação de um facto.

Um estúpido pode ser criativo: por exemplo, a teoria do Multiverso faz parte da metafísica naturalista e é bastante criativa — embora não necessite de “provas”. Os naturalistas (da laia do Carlos Fiolhais) defendem as “provas” quando lhes convém; mas quando não lhes convém, abraçam os dogmas do naturalismo enquanto religião secularista.

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