perspectivas

Sábado, 17 Junho 2017

Luís Reis Torgal é um exemplo dos burros que formatam a cultura em Portugal

 

Vemos um texto que eu acharia inverosímil de ser escrito acerca de Fátima, da autoria de um tal Luís Reis Torgal.

Desde logo a ideia do escriba segundo a qual “a História não julga, mas procura a interpretação objectiva”.

Ora, “interpretar” pode ter vários sentidos (várias definições reais): 1/ pode ser “tornar claro”, encontrar um sentido escondido, dar uma significação; 2/ ou pode ser deformar, desfigurar — por exemplo, dar a um texto ou a um acontecimento histórico um sentido que ele não tem; 3/ ou abordar uma obra ou um acontecimento de maneira a exprimir-lhe sentido.

Qualquer leitura da História implica a valorização de um sentido que não pode ser dissociado das orientações ou mesmo dos ensinamentos do historiador.

Sendo a História escrita por homens, e sendo que “interpretar” é compreender de maneira nova e diferente a cada instante, é falsa a proposição segundo a qual “a História não julga, mas procura a interpretação objectiva”.

No texto, a politização do fenómeno de Fátima é levada a um nível próprio de um mentecapto:

“Ficou claro — porque a História não julga, mas procura a interpretação objectiva — que a mensagem de Fátima se foi modificando desde 1917, tendo sempre como limites a própria política do Estado e da Igreja. Por isso, se ela é nacionalista (recordem-se os cânticos que se continuam a entoar nos templos e nas procissões) e anti-comunista, nunca foi antifascista e nem sequer antinazi, apesar da guerra, das perseguições racistas e do Holocausto”.

Existe aqui uma falsa dicotomia própria dos estúpidos como o Torgal: o facto de se ser eventualmente anti-comunista, não significa que se seja automática- e necessariamente “faxista” e nazi.

Fernando Pessoa, que foi contra a Igreja Católica (que ele chamava de “Cristismo”, em vez de Cristianismo) , escreveu o seguinte:

Ao contrário do catolicismo, o comunismo não tem doutrina. Enganam-se os que supõem que ele a tem. O catolicismo é um sistema dogmático perfeitamente definido e compreensível, quer teologicamente, quer sociologicamente. O comunismo não é um sistema: é um dogmatismo sem sistema — o dogmatismo informe da brutalidade e da dissolução. Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo quanto dorme nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós.

O comunismo não é uma doutrina porque é uma anti-doutrina, ou uma contra-doutrina. Tudo quanto o Homem tem conquistado, até hoje, de espiritualidade moral e mental — isto é, de civilização e de cultura — tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem.”

→ Fernando Pessoa, “Ideias Filosóficas”

Ora, isto não significa que Fernando Pessoa apoiasse o “faxismo” de Mussolini: pelo contrário, desancou nele quanto pôde. O facto de se ser anti-comunista não significa que “tomaticamente” se seja “faxista”. Mas Torgal vê a coisa a preto e branco, em um maniqueísmo próprio do puritanismo gnóstico modernista.

O texto do Torgal é um absurdo. Por exemplo, confunde e mistura “acidente” com a “essência” de um fenómeno — quando diz que

“é indubitável que Fátima é, acima de tudo, um fenómeno político, de oposição da Igreja ao laicismo e ao anticlericalismo republicanos (recorde-se, porém, que não há anticlericalismo sem haver clericalismo)”.

Desde 1832 que não havia em Portugal “clericalismo” propriamente dito — ou seja, clericalismo como força política e económica organizada.

O “anti-clericalismo” da I república era fictício; foi uma necessidade republicana de criação de um inimigo interno, como sempre acontece com as revoluções. A revolução francesa matou mais gente em apenas um mês e em nome do ateísmo, do que a Inquisição em nome de Deus durante toda a Idade Média e em toda a Europa”. (Pierre Chaunu, historiador francês).

Em suma: ó Torgal!: vai a bardamerda!


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