perspectivas

Sexta-feira, 8 Julho 2022

Só é possível ser reaccionário dentro de parâmetros católicos tradicionalistas

Filed under: catolicismo,filosofia,Hannah Arendt — O. Braga @ 7:30 pm

Devo dizer que eu não concordo, em muita coisa, com as ideias de António José de Brito — nomeadamente com o hegelianismo (de Direita) que ele apostolou. Durante toda a primeira metade do século XX, Hegel esteve na moda na Europa; e até uma certa Esquerda actual (por exemplo, com José Pacheco Pereira) foi influenciada por Hegel.

O monismo de Hegel é veneno ideológico. Ademais, a única forma de ser (realmente) “reaccionário” traduz-se na adopção de determinadas premissas católicas fundamentais e tradicionais.

Acerca deste texto de António José de Brito: naturalmente que ele tem razão quando critica a censura da opinião — o que não significa que todas as opiniões devam ou possam ser ensinadas ou divulgadas nos estabelecimentos de ensino pré-universitários — como escreveu Hannah Arendt (e eu concordo), a educação das crianças deve ser conservadora (no Ocidente, no sentido cristão):

“Porque a criança tem necessidade de ser protegida contra o mundo, o seu lugar tradicional é no seio da família.” (Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro, 2006, pág. 196)

(…)

“A própria responsabilidade alargada pelo mundo que a educação assume, implica, como é óbvio, uma atitude conservadora.” (idem, pág. 202)


O professor António José de Brito escreve:

“Em nome da liberdade de opinião numerosas opiniões são banidas, sob o pretexto que não são opiniões. O monolitismo doutrinário instala-se sob a égide da luta contra o monolitismo doutrinário.”

Porém, o argumento do António José de Brito é o de Reductio ad Absurdum em relação ao conceito de “liberdade de opinião”; o raciocínio dele, mutatis mutandis, é o seguinte: “se a liberdade de opinião não existe de facto, fica então justificada a defesa da censura da opinião defendida pela ultra-direita”. Em António José de Brito, a crítica à “liberdade de opinião que não existe” é uma crítica determinista.

Uma das características principais do hegelianismo, é o determinismo. Uma das características principais do Cristianismo é o livre-arbítrio (liberdade).

O determinismo é a ideologia das perversões humanas: para poder abusar da sua liberdade, o ser humano necessita de se converter a doutrinas deterministas. O determinismo é invocado para exorcizar a Graça: com a ideia absolutista de “causa/efeito”, abafamos o nosso medo e emudecemos a nossa culpa. O determinismo histórico é ideologia de doutrinas que recusam a paternidade dos seus crimes.

O determinismo hegeliano, universal, seria concebível se não existisse a sua noção.

Sábado, 2 Abril 2022

A ideologia e os seus lugares-comuns

Filed under: Hannah Arendt — O. Braga @ 7:32 pm

Um “cliché”, ou “lugar-comum” em bom português, é uma expressão linguística que foi — outrora — inovadora, mas que perdeu a sua novidade e originalidade devido a um excesso de uso.

Um “slogan” publicitário também pode ser considerado um “lugar-comum”, por exemplo: por exemplo, a frase de Fernando Pessoa, referindo-se à Coca-cola: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se".

Os slogans políticos (os clichés ideológicos) também são “lugares-comuns” cunhados originalmente por ideólogos, mas que são repetidos ad Nauseam pelos seguidores da ideologia.

A forma de pensar através de clichés (ou de “lugares-comuns”) é característica de pessoas que seguem fielmente uma determinada ideologia — sendo que uma ideologia é uma redução e/ou simplificação de uma determinada corrente filosófica que, não tendo o estatuto de ciência, também não é possível decidir da sua exclusão do domínio dos conhecimentos regidos pela relação entre a teoria e a prática.


A professora Helena Serrão transcreve aqui um texto de Hannah Arendt acerca do nazi Eichmann que, segundo esta, se expressava constantemente através de lugares-comuns (ou clichés). A expressão sistemática através de clichés revela, por um lado, uma mente com limitações cognitivas, e por outro lado revela o espírito de um burocrata — o que vai dar no mesmo: um burocrata é quase sempre (em juízo universal) limitado no que diz respeito ao Coeficiente de Inteligência.


Porém, convém dizer que nem sempre o uso de lugares-comuns é negativo; por exemplo, é positivo quando são utilizados pontualmente para estabelecer uma sincronização comunicacional imediata com uma plateia ou com os leitores.


O que a Hannah Arendt se refere, no texto, é ao uso sistemático dos lugares-comuns, que é característica do espírito do burocrata (neste caso, do burocrata nazi Eichmann).

Segundo Hannah Arendt, todo o pensamento ideológico (as ideologias políticas) contém três elementos de natureza totalitária:

1/ a pretensão de explicar tudo;
2/ dentro desta pretensão, está a capacidade de se afastar de toda a experiência;
3/ a capacidade de construir raciocínios lógicos e coerentes (clichés) que permitem crer em uma realidade fictícia a partir dos resultados esperados por via desses raciocínios — e não a partir da experiência.

Por exemplo, a ideia de “transformar o mundo” (Karl Marx), que é um cliché progressista e revolucionário de tipo “Pacheco Pereira”, significa ultimamente, de facto, burocratizar o Homem. Não tenho dúvidas que este cliché poderia ter sido utilizado por Eichmann. Por exemplo, o marxismo cultural (ou politicamente correcto que o Pacheco Pereira nega que exista) é a burocratização do espírito do nosso tempo.

Quando uma burocracia cativa ou controla um sistema político — que é o que está acontecer hoje, por exemplo, na União Europeia —, seguem-se as revoluções que são os seus partos sangrentos. Eichmann já era um burocrata do sistema político alemão, antes da revolução nazi de 1933.

Uma situação semelhante acontece com a democracia portuguesa: está a burocratizar-se rapidamente.

Por exemplo, o espírito da Constituição portuguesa já perdeu o seu valor simbólico (por exemplo, com a legalização da eutanásia), e foi substituído pelos clichés anónimos e anódinos de uma classe de burocratas politicamente instalada, que custa muitíssimo mais ao povo português do que custaria uma aristocracia (entendida enquanto escol).

As decisões despóticas do Estado socialista português são finalmente tomadas por um burocrata anónimo, subalterno, pusilânime, e provavelmente cornudo.


Hannah Arendt lies web

Sábado, 14 Março 2020

O efeito “cebola” do Bloco de Esquerda: a Hannah Arendt é que os topa ao longe

Filed under: António Costa,Bloco de Esquerda,Hannah Arendt — O. Braga @ 9:14 pm

O Insurgente João Cortez escreve um artigo com o título “Retrato do Bloco de Esquerda em Tempo de Crise”, com tuites do Bloco de Esquerda e outras imagens (convém clicar para ver), e remata o artigo da seguinte forma: “que este partido reúna cerca de 10% dos votos em Portugal é um mistério para mim”.


«Em oposição quer aos regimes tirânicos quer autoritários, a imagem mais adequada do governo e organização totalitários parece-me ser a estrutura de uma cebola, em cujo centro, numa espécie de espaço vazio, está situado o líder; o que quer que este faça — quer integre o corpo político como numa hierarquia autoritária, quer oprima os seus súbditos à maneira de um tirano — fá-lo a partir de dentro, e não de cima ou de fora.

coronavirus_beToda a extraordinária diversidade de partes deste movimento — as organizações e as várias agremiações profissionais, os membros do partido e a burocracia do mesmo, as formações de elite e os grupos de polícia — estão relacionadas de tal como que cada uma forma uma fachada numa direcção e o centro noutra, ou seja, desempenha o papel de um mundo normal exterior numa das faces, e o de um radicalismo extremo noutra.

A grande vantagem deste sistema é que, mesmo numa situação de governo totalitário, o movimento fornece a cada uma das suas camadas a ficção de um mundo normal e, ao mesmo tempo, consciência de ser diferente dele e mais radical.

Assim, os simpatizantes nas chamadas organizações de fachada, cujas convicções só em intensidade diferem das dos membros do partido, rodeiam todo o movimento e providenciam uma enganadora fachada de normalidade para o mundo exterior devido à sua ausência de fanatismo e de extremismo, ao mesmo tempo que representam o mundo normal para o movimento totalitário, cujos membros acabam por acreditar que as suas convicções só em grau diferem das crenças das outras pessoas e que, desse modo, nunca precisam de ser conscientes do abismo que separa o seu mundo do mundo que de facto o rodeia.

A estrutura em forma de cebola faz com que , do ponto de vista da organização, todo este sistema seja invulnerável à factualidade do mundo real. »

(Hannah Arendt, “Entre o Passado e O Futuro”, 2006, página 113)


A “casca da cebola” do partido Bloco de Esquerda dá uma aparência de um partido político benigno, igual aos outros, ou provavelmente igual ao Partido Socialista de António Costa. O Bloco de Esquerda passa a mensagem, nos me®dia, segundo a qual votar no Bloco de Esquerda não é muito diferente que votar no Partido Socialista.

É claro que a influência do Bloco de Esquerda na sociedade portuguesa, com os seus 10% de votos, ainda não atingiu um ponto de não-retorno (que é, numa primeira fase da revolução, o Estado de Polícia, em lugar do Estado de Direito), mas o apoio (ou, pelo menos, a abstenção crítica) de António Costa ao Bloco de Esquerda amplia a influência deste partido na sociedade portuguesa.

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Sexta-feira, 26 Maio 2017

Hannah Arendt e o Islamismo

 

O Paulo Tunhas escreveu um artigo acerca do xeique Munir (ou xeque Munir) que eu considero (o artigo) benevolente. É compreensível que assim seja, porque ele (o Paulo) não é um bloguista e, portanto, não tem a liberdade que nós temos em dizer a verdade acerca do Islamismo e do xeique de Lisboa.

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Hannah Arendt escreveu o seguinte (os sublinhados são meus):

«Em oposição quer aos regimes tirânicos quer autoritários, a imagem mais adequada do governo e organização totalitários parece-me ser a estrutura de uma cebola, em cujo centro, numa espécie de espaço vazio, está situado o líder; o que quer que este faça — quer integre o corpo político como numa hierarquia autoritária, quer oprima os seus súbditos à maneira de um tirano — fá-lo a partir de dentro, e não de cima ou de fora.

Toda a extraordinária diversidade de partes deste movimento — as organizações e as várias agremiações profissionais, os membros do partido e a burocracia do mesmo, as formações de elite e os grupos de polícia — estão relacionadas de tal como que cada uma forma uma fachada numa direcção e o centro noutra, ou seja, desempenha o papel de um mundo normal exterior numa das faces, e o de um radicalismo extremo noutra. A grande vantagem deste sistema é que, mesmo numa situação de governo totalitário, o movimento fornece a cada uma das suas camadas a ficção de um mundo normal e, ao mesmo tempo, consciência de ser diferente dele e mais radical.

Assim, os simpatizantes nas chamadas organizações de fachada, cujas convicções só em intensidade diferem das dos membros do partido, rodeiam todo o movimento e providenciam uma enganadora fachada de normalidade para o mundo exterior devido à sua ausência de fanatismo e de extremismo, ao mesmo tempo que representam o mundo normal para o movimento totalitário, cujos membros acabam por acreditar que as suas convicções só em grau diferem das crenças das outras pessoas e que, desse modo, nunca precisam de ser conscientes do abismo que separa o seu mundo do mundo que de facto o rodeia.

A estrutura em forma de cebola faz com que , do ponto de vista da organização, todo este sistema seja invulnerável à factualidade do mundo real. »

(“Entre o Passado e O Futuro”, 2006, página 113)


 


No Islamismo, o “líder”, por assim dizer, é o Alcorão, os Hadith e a Sira (a estória da vida do Maomerdas), por um lado, e, por outro lado, o Islamismo dito “radical” que está no “centro da cebola” da religião política totalitária.

O xeque munir desempenha o papel de um mundo normal exterior numa das faces da cebola, ao passo que o radicalismo extremo desempenha outro papel.

Assim, os simpatizantes nas chamadas organizações islâmicas de fachada (a que pertence o xeque Munir), cujas convicções só em intensidade diferem das dos radicais islâmicos, rodeiam todo o movimento islâmico e providenciam uma enganadora fachada de normalidade para o mundo exterior devido à sua ausência de fanatismo e de extremismo, ao mesmo tempo que representam o mundo normal para o movimento totalitário islamita, cujos membros acabam por acreditar que as suas convicções só em grau diferem das crenças das outras pessoas e que, desse modo, nunca precisam de ser conscientes do abismo que separa o seu mundo do mundo que de facto o rodeia.


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