perspectivas

Quinta-feira, 14 Maio 2015

Hoje fui contactado pelo SIS por causa de escrever “arquitectas” em vez de “arquitetas”

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 8:36 am

 

Os serviços secretos contactaram-me hoje de manhãzinha, ao romper da alba, admoestando-me pelo facto de eu estar a “arquitetar” uma revolução e uma sublevação popular contra o Estado. E já fui avisado que para a próxima vez serei chamado à rua António Maria Cardoso.

Domingo, 10 Maio 2015

Dever de desobediência à utilização do Acordo Ortográfico

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 10:06 am

 

Nas próximas eleições vou votar em uma qualquer força política que seja contra o Acordo Ortográfico, independentemente da ideologia dessa força política — porque o que está por detrás do Acordo Ortográfico é a ideologia mais desprezível que possamos conceber.

« “A norma que prevê “orwellianamente” que o AO90 seja utilizado em quaisquer documentos públicos ou privados é inconstitucional a vários títulos”, defende o jurista, segundo o qual esta questão não é prejudicada pelo facto de a aplicação do AO90 “ter sido antecipada parcialmente para certos sectores do Estado e da sociedade civil”, nomeadamente a Administração Pública, todo o sistema de ensino, incluindo o privado e cooperativo, e o Diário da República. »

Jurista defende “dever de desobediência” à utilização do Acordo Ortográfico

Domingo, 22 Março 2015

Depois da “presidenta”, temos a “modela”

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 6:06 am

 

 

A estupidez do Acordo Ortográfico não me deixa de surpreender, porque há nele muito de irracional. É certo que o Acordo Ortográfico não diz expressamente que se deve escrever “estudanta”, “presidenta” anta, “transeunta”, modela, etc., mas está implícito nele o libertinismo do caos ortográfico e da desagregação e decadência da língua portuguesa.

a-modela

Essa gente vai ter que pagar pelo que está a fazer.


Adenda: recebi a seguinte mensagem:

Caro Orlando Braga, boa tarde.

O meu nome é (segue-se o nome, que não divulgo) e sou eu que coordeno a plataforma Porta351 que mereceu a sua atenção no último dia por causa da “modela” Sara Sampaio.

Se leu o artigo por inteiro reparou, certamente, que de todas as vezes que a palavra foi repetida apareceu como “modelo” e não como “modela” mas a verdade é que tenho o meu corrector automático programado segundo o novo acordo ortográfico e ele decidiu mudar o “modelo” para “modela”. Onde vi, alterei mas, pelos vistos, escapou-me a “modela” do lead… Mea culpa, tão mea culpa. Ainda assim, penso que continua a haver uma diferença entre um erro e uma gralha.

Aproveito para lhe dizer também que partilho da sua opinião – ou, pelo menos, do que que acredito ser a sua opinião – em relação ao novo acordo ortográfico: é um erro crasso. Mas, ao que parece, é um erro com o qual teremos de saber viver pois não me parece que haja grande margem para o inverter. Oxalá eu esteja errada.

Por fim, termino agradecendo-lhe: apesar de pouco simpático, o seu texto chamou-me a atenção para a gralha e deu-me a oportunidade de a corrigir. Algo que gosto sempre de fazer quando me engano.
Desejo-lhe um resto de bom fim-de-semana.
Com os melhores cumprimentos,

Coordenação
Porta351

Afinal, “modela” é  mesmo uma palavra sancionada pelo Acordo Ortográfico! Inacreditável!

Domingo, 2 Novembro 2014

O fenómeno brasileiro do verbo “suponhetar”

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 8:59 am
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Suponhetemos” que não tivesse existido a migração da Corte portuguesa e a intervenção pombalina:

“Se não fosse pela migração da corte lusitana e a intervenção pombalina, poderíamos ter sido o maior país a desenvolver, de forma homogênea, uma língua indígena.”

Rosa Virgínia Mattos e Silva, autora de “O Português são dois”.

É certo que “Mattos Silva” parece ser um nome tupi-guarani. Mas suponhetemos que “Mattos Silva” era um nome português: nesse caso, teríamos que suponhetar que seria mais conveniente às virgo rosarum brasileiras mudar de nome.

No Brasil, o verbo “suponhetar” é muito utilizado pelas elites políticas e académicas. Por exemplo:

“Vamos suponhetar que, em lugar de o Brasil ter sido colonizado pelos portugueses, tivesse sido colonizado pelos ingleses”.

Quando o brasileiro suponheta, transforma a realidade de uma forma mais escorreita. Suponhetando, não é necessário trabalhar com afinco para a transformar. A elite brasileira, através do suponhetamento da História, vai tornando reais os acontecimentos que suponhetadamente nunca aconteceram.

Quarta-feira, 20 Agosto 2014

Esta gente tem mestrado (alvará de inteligência)

 

“A minha adoção do acordo ortográfico foi inteiramente utilitária. Tinha um limite máximo de 2000 caracteres com espaços para textos que escrevia para um jornal, bem como uma dissertação de mestrado a meio (no início, para ser sincera, e também com limite de caracteres) e, como sou tendencialmente palavrosa e pouco sintética (repararam na redundância?) e sofro sempre a cortar textos, lembrei-me: por que não livrar-me das consoantes mudas para poupar caracteres?”

O acordo ortográfico e eu

Segunda-feira, 18 Agosto 2014

Fernando Pessoa escrito segundo a novilíngua brasileira

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 7:44 pm
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“Depois qe as últimas xuvas deixaram o séu e ficaram na terra — séu limpo, terra úmida e espelhenta — a clareza maior da vida qe com o azul voltou ao alto, e na frescura de ter avido água se alegrou em baixo, deixou um séu próprio nas almas, uma frescura sua nos corasões.

Somos, por pouco qe o qeiramos, servos da ora e das suas cores e formas, súditos do séu e da terra. Aqele de nós qe mais se embrenhe em si mesmo, desprezando o qe o serca, esse mesmo se não embrenha pelos mesmos caminhos quando xove do qe quando o séu está bom. Obscuras transmutasões, sentidas talvez só no íntimo dos sentimentos abstratos, se operam porqe xove ou deixou de xover, se sentem sem qe se sintam porqe sem sentir o tempo se sentiu.

Cada um de nós é vários, é muitos, é uma prolixidade de si mesmos. Por isso, aqele qe despreza o ambiente não é o mesmo qe dele se alegra ou padece. Na vasta colónia do nosso ser á gente de muitas espécies, pensando e sentindo diferentemente. Neste mesmo momento, em qe escrevo, num intervalo legítimo do trabalho oje escaso, estas poucas palavras de impresão, sou o qe as escreve atentamente, sou o qe está contente de não ter nesta ora de trabalhar, sou o qe está vendo o séu lá fora, invizível de aqi, sou o qe está pensando isto tudo, sou o qe sente o corpo contente e as mãos ainda vagamente frias. E todo este mundo meu de gente entre si alheia projeta, como uma multidão diversa mas compacta, uma sombra única — este corpo qieto e escrevente com qe reclino, de pé, contra a secretária alta do Borges onde vim buscar o meu mata borrão, qe lhe emprestara.”

— Fernando Pessoa, “Livro do Desassossego”


Agora pergunto: um cidadão que necessita que a língua seja “simplificada” para aprender a ler e a escrever, ¿irá entender minimamente o que Fernando Pessoa escreveu?! Vem daqui a resposta:

“Quando algumas dessas regras forem simplificadas, haverá uma economia de tempo (250 horas-aula) e dinheiro (R$ 2 biliões por ano) e um aprendizado mais eficaz e prazeroso. Pode-se prever uma forte redução nos índices de analfabetismo e na taxa de rejeição ao estudo da língua, simultaneamente fortalecendo a inclusão social. E mais: a quantidade de cidadãos plenamente alfabetizados (capazes de ler e produzir textos mais profundos) pode ser multiplicada por dois, três, quatro ou cinco.

Isso significa dizer que na mesma proporção crescerá o número de leitores e autores, permitindo uma produção literária, intelectual e científica jamais vista, criando saber e riqueza suficientes para colocar estrategicamente nossos povos e países em estágio muito superior de respeito e influência internacionais.”

Ernani Pimentel (professor e presidente do Centro de Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa no Brasil)

¿Alguém acredita nisso?!

Sábado, 16 Agosto 2014

O Brasil prepara-se para impôr um novo Acordo Ortográfico

 

“A Comissão de Educação (CE) do Senado debate uma nova reforma ortográfica propondo uma maior “simplificação” da Língua Portuguesa. De acordo com nota divulgada no site do presidente da comissão, senador Cyro Miranda (PSDB-GO), a ideia é excluir o “h” inicial de palavras como “homem e “hoje”, abolir o “ch” substituído pelo “x”, como em “flecha” e, ainda, substituir “x” e “s” por “z” nas palavras com esse som, como “exemplo” e “analisar”. O “ç” seria outra norma da língua com os dias contados, com a “educação” passando a ser escrita como “educasão”.”

Comissão de “Educasão” do Senado estuda abolir “h” e “ç” do Português

No Brasil, a língua portuguesa não faz parte da cultura. Por isso é que o Brasil é um anão literário — não produz literatura na proporção da sua população, quando comparado com Portugal, por exemplo — já nem falando nos Estados Unidos.

O problema é que Portugal está a adoptar o princípio do divórcio brasileiro entre a cultura e a língua. Se, por exemplo, o Brasil adoptar o Tupi como língua oficial, os políticos portugueses secundariam imediatamente essa adopção.

Nós não temos políticos: temos invertebrados1, gente sem planta nenhuma, “gente menor” como dizia o professor José Hermano Saraiva; gente moralmente miserável que vende a História e a Cultura do seu país por um prato de lentilhas. Nós não temos políticos: temos um conjunto de “Josés de Vasconcelos”.

“Omem”, “qeijo” | Novo acordo ortográfico propõe suprimir letras de palavras

Onra aos omens onestos

Nota
1. O Pedro Santana Lopes bem pode limpar as mãos à parede!

Quarta-feira, 6 Agosto 2014

O Acordo Ortográfico e o terrorismo do Estado português contra a cultura portuguesa

Filed under: acordo ortográfico,educação,Maçonaria — O. Braga @ 8:37 am
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« 14,4% de “reprovados” na “prova de avaliação dos professores contratados” por “erros ortográficos”. Aliás, 62,8% do total de examinandos registaram “mais de três erros ortográficos” nesta “prova”. »

“Ninguém será abatido, preso ou punido”

O que estamos a assistir é um terrorismo de Estado contra a cultura portuguesa.

O Estado português reprova professores por não respeitarem o Acordo Ortográfico. Quem se recusa a escrever em brasileiro não tem lugar no ensino da língua e da cultura portuguesas. Estamos em presença de uma tentativa do Estado português em colonizar o seu próprio povo.

Isto tem que ter um fim, nem que seja seguindo o método dos anarquistas do princípio do século XX.

Quinta-feira, 24 Julho 2014

Portugal deve ponderar a saída da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa)

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 5:38 pm
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«Adriano Moreira, antigo presidente do CDS e especialista em Relações Internacionais, considera “absolutamente inaceitável” a inclusão da Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O “regime político” ditatorial, a sua “relação com os direitos do homem” e a fraca presença da língua portuguesa no país configuram um “desvio” à essência da CPLP, diz Adriano Moreira à Renascença.

“A CPLP é um valor tão importante para o futuro português que tudo aquilo que ofenda a essência do pensamento que organizou a CPLP pode prever-se que põe em risco interesses portugueses fundamentais porque muda a natureza da organização”, defende.»

Admitir a Guiné Equatorial na CPLP é “inaceitável”, diz Adriano Moreira


A CPLP (Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa) foi criada essencialmente para unir os países de fala portuguesa e, por isso, para a defesa da língua portuguesa no contexto internacional. Ora, o que acontece é que o Brasil, que apoiou e patrocinou a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, tudo tem feito não só para destruir o padrão culto da língua portuguesa, como tenta destruir os próprios fundamentos da organização quando a afasta dos seus propósitos originais.

Veja o leitor o seguinte quadro: o Brasil ostenta o argumento dos seus “200 milhões” para impôr a entrada da Guiné Equatorial na CPLP — mas contribui tanto como Portugal para a organização. Ou seja, o Brasil quer mandar na CPLP sem pagar mais por isso: é um pouco como o Zé Carioca: entra no baile de costas, fingindo que está saindo.

brasil cplp web

Dentro deste contexto, Portugal deve seriamente ponderar a sua saída da CPLP, ao mesmo tempo que se impõe desde já a revogação do Acordo Ortográfico tupiniquim.

Terça-feira, 24 Junho 2014

“Quinze magníficos séculos” de língua portuguesa

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 8:21 pm
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Com a devida vénia, transcrevo um texto de Fernando Venâncio publicado aqui:

«A norma linguística brasileira, tão marcada como a conhecemos, é, paradoxalmente, uma criação portuguesa. Ao impedir a imprensa em território brasileiro até inícios do século XIX, ao não ter fundado no Brasil uma só universidade (quando a Espanha, em finais de Quinhentos, já fundara várias no continente americano), ao ter permitido ‒ e bem ‒ o desenvolvimento, durante séculos, de uma chamada ‘língua geral’ ao longo da costa do Brasil, Portugal objectivamente estimulou o desenvolvimento de uma norma linguística brasileira.

Certo: nós podemos ler sem problema de maior a imprensa e a ficção brasileiras, e eles podem ler as nossas. Uma percepção ‘culta’ e tolerante não tropeça nas diferenças. Mas, para o consumidor comum, sobretudo o brasileiro, as diferenças são decisivas. O mercado livreiro português ainda admite, em certas circunstâncias, uma edição brasileira de literatura inglesa, espanhola ou outra. Mas o mundo brasileiro da edição não comercializa nenhuma tradução (literária ou técnica) europeia. O consumidor brasileiro não está disposto a pagar um livro técnico, de divulgação, ou de ficção, com a nossa sintaxe, o nosso léxico, a nossa semântica, a nossa fraseologia. Ele sente-os como marcas estrangeiras, e, para ele, são-no efectivamente. O Acordo Ortográfico não veio, nem virá, modificar nada neste cenário. A euforia inicial dos editores portugueses com o Acordo já se esvaiu, e eles sabem-se hoje enganados, descobrindo por si mesmos aquilo que os linguistas desde há dezenas de anos lhes afiançavam: que a questão não era ortográfica mas essencialmente linguística, e que só na cabeça dos ideólogos unitaristas, existia, ou existe, uma ‘norma internacional’ do português.

Insisto: Portugal nunca desenvolveu, menos ainda impôs, uma observância gramatical ou vocabular a que o Brasil deveria submeter-se para ser aceite e respeitado. Ainda que o quisesse ‒ e sabiamente não o quis ‒ não teria tido êxito.

Esse precedente brasileiro deve ser encarado como da maior relevância para o português em África. Ele oferece todo o espaço para que os países africanos de expressão oficial portuguesa desenvolvam, e mesmo estimulem, normas próprias. Não há motivos para recear uma ‘desagregação’ da língua portuguesa, como fazem os ideólogos unitaristas portugueses, e mesmo alguns brasileiros, saudosos da bela ordem gramatical europeia, ela própria um produto histórico de doutrinários do século XVIII, que ‒ como qualquer norma linguística ‒ nada tem de sagrado, de ‘natural’, de intrinsecamente correcto, que nos proporciona decerto uma confortável segurança, mas que é menos estável do que pudera supor-se. Sim, também a norma do português europeu está, ela própria, em movimento.

O Brasil avança hoje, pois, na dianteira da defesa de uma norma própria, a chamada «norma urbana culta» (surpreendentemente homogénea num tão imenso território), e são os melhores linguistas que sustentam essa dinâmica. A linguística brasileira assume, decididamente, o português como língua pluricêntrica. Assim poderão fazer, daqui em diante, os sábios de outros países, acolhendo, gerindo e até estimulando normas próprias, desatendendo as quimeras de um português ‘ideal’, que é, se virmos bem, uma fantasmagoria. Atentemos, antes, em mais essa originalidade da língua portuguesa, uma das suas virtudes também, que é a de ser descentralizada, e não refém de uma qualquer prepotência académica centralizadora.

Em suma: sobre o conjunto da língua portuguesa agem, saudavelmente, forças centrífugas, o que vem sendo assinalado até por linguistas portugueses, com destaque para Ivo Castro, da universidade de Lisboa, porventura o mais conceituado de todos, que fala numa «pulsão separativa» do português. São forças, essas, que nenhuma medida poderia contrariar, muito simplesmente porque ninguém, linguistas incluídos, saberia que medidas tomar para conservar uniforme o português. A realidade linguística é demasiado complexa para se dobrar a acções voluntaristas. Tudo o que podemos, e devemos, é tentar gerir essa realidade complexa e em movimento, alertando, sim, para tendências pontuais que reputemos menos merecedoras de estímulo. Globalmente, porém, as derivas são inelutáveis, irreversíveis mesmo, e nem um nem dez Acordos Ortográficos reaproximarão, um centímetro que seja, as normas do português já tão definidas ‒ normas que, mais que ortográficas, são fonológicas, gramaticais, lexicais, fraseológicas. Claro: a nossa linguagem ‘culta’ é ainda muito homogénea. Simplesmente, o idioma é bem mais do que o conservador jargão dos intelectuais. Vendo bem, o padrão português europeu acha-se, no Brasil, num processo de reelaboração, tal como, há séculos, no Sul de Portugal, o modelo nortenho e galego foi, ele também, reelaborado, para produzir esse mesmo padrão português europeu.

Não há, autenticamente, motivos para alarme. Tudo quanto estruturalmente nos distingue, e sempre distinguiu, de qualquer outro idioma está para durar. Nada, no espaço da língua portuguesa, ameaça as sete vogais tónicas, a preferência pelos ditongos decrescentes, os nossos produtivos e sugestivos sufixos, a extrema condensação das formas (só, nó, dó, pó / vir, voar / cor, dor), o emprego do infinito pessoal e do futuro do conjuntivo, a resposta em eco («Sabes? Sei»), mais os muitos vocábulos ‒ e são largas centenas de substantivos, de adjectivos, de verbos ‒ exclusivos nossos, bastantes deles enxertados no rico latim da velha Galécia.

Nenhuma deriva africana, brasileira ou portuguesa atentará contra esse sistema linguístico criado há mil e quinhentos anos. Ele, esse sistema, está de pedra e cal. É essa armação, essa firme arquitectura, que nos mantém, e manterá, juntos por muito tempo ainda. Os nossos pés estão em cima de quinze magníficos séculos de idioma.»

Segunda-feira, 9 Junho 2014

¿Por que não existe objecção de consciência em relação ao Acordo Ortográfico?

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 4:40 am

 

O acto de ensinar a escrita da língua portuguesa corrompida pelo Acordo Ortográfico deveria ser motivo razoável de objecção de consciência prevista na lei. Os professores deveriam poder invocar a objecção de consciência em relação ao ensino de uma corruptela degradante e decadente da língua portuguesa.

Ensinar a escrever conforme o Acordo Ortográfico é, metaforicamente, como que operar um aborto cultural; o professor está analogamente na posição do médico que pode invocar a objecção de consciência para não ter que cometer um crime moral, uma vez que já não é um crime legal.

O Acordo Ortográfico não é só a despenalização de um aborto cultural: é também a proclamação e celebração, por via da lei, de um processo considerado “virtuoso” que consiste em um etnocídio do português e de morte de uma língua culta. O Acordo Ortográfico é a vitória dos bárbaros contemporâneos em relação à civilização portuguesa.

Segunda-feira, 19 Maio 2014

Um dos argumentos a favor das alterações acorditas da escrita

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 5:41 am

 

Alguém escreveu o seguinte no FaceBook:

“A ortografia é uma mera representação simbólica da língua. Completamente exterior a ela. OK? Eu posso viver com a língua sem nunca a saber representar simbolicamente e ela não morre nem fica pobre por causa disso.”


1/ Se não houver escrita — ou aquilo a que se chamou ali “representação simbólica” —, a língua fica pobre com certeza, porque uma língua sem escrita reduz-se aos conceitos mais básicos. É a escrita que permite o desenvolvimento do pensamento abstracto. Uma língua sem escrita reduz os conceitos ao concreto (incluindo os mitos).

Portanto, temos aqui o primeiro erro da proposição.

2/ A escrita pode ser “fonética” — como é a nossa escrita — ou “simbólica”. Por exemplo, o chinês tem uma escrita simbólica; mas acontece que eu não sou chinês. Não sei se quem escreveu aquilo é meio achinesado, mas eu não sou.

No chinês, qualquer caracter escrito é um símbolo, porque o caracter chinês resume um determinado conceito. Por isso é que a escrita chinesa é “simbólica” (ou “ideográfica”, o que vai dar no mesmo).

Na escrita simbólica, existe um símbolo intermediário (leia-se, um caracter escrito) entre o conceito, em si mesmo, por um lado, e a escrita que o representa, por outro lado. Na escrita dita “fonética”, que é a nossa, esse símbolo intermediário não existe: é a palavra inteira (um conjunto de caracteres) que constitui o próprio símbolo e que representa o conceito — e por isso é que se diz que a nossa escrita é “fonética”. Por exemplo, quando eu escrevo:

“O porco merece esse nome porque é um animal pouco asseado”

Quando eu escrevo “porco”, a imagem mental (da sujidade) do porco é imediatamente colocada na mente de quem escreve e de quem lê. Ora, isto não acontece com a escrita “simbólica”, como é o caso do chinês. Uma reforma ortográfica na língua chinesa seria uma tarefa hercúlea.

Na escrita chinesa, o conceito de “porco” resume-se em um símbolo: 豬, ao passo que o conceito de “porco”, na nossa língua, traduz-se por um conjunto de letras agregadas, isto é, a palavra “porco”. Pode-se defender a ideia segundo a qual “o nosso alfabeto é arbitrário”, mas já não se pode defender a ideia de que a palavra, que traduz o conceito, seja arbitrária. Não devemos confundir o alfabeto, que pode ser arbitrário no seu fundamento e que é a base da escrita da palavra, com a palavra entendida em si mesma que constitui um símbolo.

3/ Um símbolo não é um sinal. Por exemplo, a letra “p” pode ser (pode-se de defender esta tese) um sinal, mas a palavra “porco” é um símbolo e não um sinal. A palavra “porco” tem um representado que é o respectivo animal ou o conceito do animal “porco”.

Um sinal é arbitrário: pode ser mudado sem que o seu significado seja alterado. Por exemplo, um sinal de trânsito pode ser mudado mantendo-se aquilo que ele significava antes da mudança.

Um símbolo não pode ser mudado sem que o seu significado, ou aquilo que ele representa, seja alterado. Por exemplo, se se mudar o símbolo da cruz, no Cristianismo, o seu representado (Jesus Cristo) desaparece ou é radicalmente alterado.

Na nossa escrita existem símbolos (as palavras), e não meros sinais (as letras). Ao alterar a escrita, estamos sempre a “mexer” com símbolos(estamos sempre a mexer com conceitos), e não com sinais. Confundir símbolo e sinal, ou é burrice, ou é má-fé.


Adenda:

Convém dizer que Ferdinand de Saussure não estava totalmente certo: hoje sabe-se que pelo menos um conjunto de línguas (ditas “indo-europeias”) tiveram uma origem comum. O que é convencionado é o alfabeto, mas não a origem das palavras que é comum.

Os acorditas confundem “símbolos” (que são as palavras, mesmo sem escrita), por um lado, com “sinais” (que são as letras do alfabeto convencionado), por outro lado.

O facto de as palavras (faladas) de várias línguas terem uma origem comum, embora se escrevam hoje de maneiras diferentes (com alfabetos diferentes), retira o carácter convencional e arbitrário da língua.

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