perspectivas

Terça-feira, 5 Outubro 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (13)

Em um série de postais sobre o gnosticismo moderno, defendi aqui a tese (com o título genérico “A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna”) segundo a qual o gnosticismo (tanto o da antiguidade tardia como o moderno) tem como característica um gene recessivo cultural do paleolítico superior e do neolítico das religiosidades da Mãe-Terra. Isto significa que em termos culturais e religiosos, o gnosticismo atira a sociedade moderna para uma espiritualidade paleolítica.

Nem de propósito, fiquei a saber que o governo inglês reconheceu o druidismo — que como se sabe, é uma religiosidade da Mãe-Terra característica do paleolítico superior e do neolítico — como sendo uma religião comparável não só às religiões superiores da História como equivalente às religiões universais (Budismo, Hinduísmo, Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, etc.).

Para quem dizia que eu era maluco quando escrevi essa série de postais, aqui fica a prova provada de que nem sempre quem tem razão é maluco.

Domingo, 4 Julho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (12)

Todos os internautas conhecem, pelo menos de ouvir falar, o mundo virtual do “Second Life”, em que uma pessoa inventa uma personagem, muitas vezes com características pessoais diferenciadas do seu autor, personagem essa que actua em um mundo diferente daquele em que o internauta vive na realidade concreta e objectiva. Essa realidade virtual do “Second Life” é, de facto, uma “segunda realidade”, embora o internauta normal tenha a plena consciência de que essa “segunda realidade” não é verdadeira.
(more…)

Quinta-feira, 24 Junho 2010

O gnosticismo moderno e a liberdade

O problema da liberdade de expressão coloca-se hoje na Europa em geral com especial acuidade. Se é verdade que não existe um cultura e uma civilização sem tabus, o problema será sempre o de saber se os tabus que existem têm um fundamento na realidade.

Politicamente correcto

Se os tabus têm o seu fundamento na realidade terão, mesmo assim, de ser sujeitos ao crivo de um julgamento ético, sendo que a ética que preside a esse julgamento terá sempre que ter uma raiz histórica; não é possível inventar uma ética a partir do nada e fundamentar nela o sistema de tabus, ou inverter, de forma irracional, uma ética existente só para fundamentar os tabus que pretendemos — assim como não é racional que se criem leis “à medida” para legitimar atitudes e comportamentos de uma elite.

A humanidade tem uma História, e a evolução da ética ao longo dessa História não pode ser ignorada em nome de um assalto presentista ao poder político. Quaisquer alterações da ética herdada da História têm que ser fundamentadas racionalmente, o que pressupõe uma discussão livre, ou seja, a liberdade de expressão. Porém, a liberdade de expressão não pode ser utilizada politicamente para acabar com a liberdade de expressão — que é o que está acontecer por toda a Europa, nuns países mais do que noutros.
(more…)

Terça-feira, 22 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (11)

Num postal sobre José Saramago, alguém colocou o seguinte comentário:

« A um homem “normal” (O. Braga) não é possível compreender um Homem Extraordinário! [José Saramago] Por isso escreve, ele sim com ódio, o que escreve. Mas O. Braga é “normal”. Por isso não é de espantar. »

A ideia do comentarista é esta: o ódio de Saramago em relação à ordem cósmica e à estrutura fundamental da realidade, é positiva porque ele é um “homem extraordinário” — um super-homem e um exemplo de um Aeon gnóstico moderno. Eu, que critico o gnosticismo de Saramago, é que tenho ódio porque sou um Hílico moderno, ou seja, um “normal”. Segundo o gnosticismo moderno — e em analogia com o gnosticismo antigo —, os “normais” nunca conseguirão a “salvação”.
(more…)

Segunda-feira, 21 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (10)

Filed under: gnosticismo,religiões políticas — O. Braga @ 8:32 am
Tags:

A blogosfera é dinâmica. Um comentário no último postal fez com que eu voltasse atrás e tente agora aprofundar a ideia da evolução religiosa do neolítico para as religiões superiores, e destas para o monoteísmo. (more…)

Domingo, 20 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (9)

O desaparecimento da personagem José Saramago veio alterar a ordem temática que eu pretendia para esta série de postais.

É possível que seja difícil, para alguns leitores, distinguir a religião normal e saudável, da religiosidade gnóstica, e que seja confuso estabelecer uma ligação de continuidade entre o gnosticismo antigo e o moderno. As pessoas pensam mais ou menos assim: “se Saramago se dizia ateu, como pode ele ter alguma coisa a ver com o gnosticismo antigo que era eminentemente metafisico ?”
(more…)

Sexta-feira, 18 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (8)

Filed under: cultura,gnosticismo — O. Braga @ 7:18 am
Tags: , , ,

No postal 4 desta série, descreveu-se a crença em Marduk e a forma como este deus babilónico “matou” os seus “pais” para formar o cosmos. (more…)

Quinta-feira, 17 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (7)

— A diástase História / Natureza, a tensão existencial e a Metaxia.

Do gnosticismo antigo e medieval, evoluiu-se na modernidade para duas formas diferentes mas complementares de gnosticismo moderno: um que se baseia no determinismo da natureza que reduz o ser humano a um ser meramente material e sem alma (através do cientismo), e outro que se baseia no determinismo da História (através das religiões políticas). (more…)

Quarta-feira, 16 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (6)

Já vimos duas características do gnosticismo antigo: a sua raiz anticósmica e o unanimismo como exigência de pertença. Também falámos das diferenças entre as religiões superiores e as religiões universais. (more…)

Domingo, 13 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (5)

A afirmação do indivíduo e as religiões universais

Com o processo de diferenciação cultural das religiões superiores, tornou-se mais distinto o que sempre existiu no ser humano, embora de forma mitigada, reprimida e homogeneizada no paleolítico e neolítico : a individualização religiosa.
(more…)

Sexta-feira, 11 Junho 2010

O sofisma naturalista e o gnosticismo de Peter Singer

Eu tenho vindo a escrever uma série de postais com o título genérico “A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna”, e ainda vou no 4º postal e no prelúdio das religiões superiores, quando dou com este artigo: pergunta o professor universitário e “filósofo” Peter Singer : «Por que não esterilizar a raça humana e festejarmos a extinção ? » (Why Not Sterilize the Human Race and Party into Extinction?). Desde logo, seria óptimo que Peter Singer se esterilizasse a si próprio , e se possível, que desse um tiro na cabeça para nos dar o exemplo.

Peter Singer

Peter Singer é o expoente máximo do radicalismo gnóstico da actualidade. Não me queria agora adiantar na série de postais sobre o gnosticismo, falando do fim quando ainda não cheguei sequer ao meio. Mas por uma questão de oportunidade e actualidade, não poderia deixar de mencionar o artigo.

Gnósticos como Peter Singer, ou o seu homólogo sul-africano David Benatar, conseguem ultrapassar em radicalismo o gnosticismo mais corriqueiro dos marxistas mais extremistas. O radicalismo gnóstico de Singer é total e aproxima-se da espécie de radicalismo gnóstico dos séculos II, III e IV da nossa era, através da negação de qualquer valor à vida humana e de uma posição radical anti-cósmica. Entre os gnósticos antigos e gnósticos actuais como Singer, existe em comum o auto-convencimento da genialidade e da originalidade, e a ideia de que fazem parte de uma plêiade de iluminados que se destacam do vulgo humano a quem desprezam. Na sequência dos referidos postais veremos como a idiossincrasia gnóstica evoluiu desde o princípio da nossa era até hoje.


Peter Singer parte de um pressuposto errado quando se refere ao “sofrimento humano”— ou melhor: incorre em um sofisma naturalista, visto que não se pode tirar conclusões morais de um facto e, o que é sobretudo importante, ele pressupõe que existe um consenso acerca do valor e dos custos convenientes (que inclui a quantificação do sofrimento) de uma vida humana ― consenso esse que não existe.

A opinião de Peter Singer é apenas uma opinião, mas ele admite que a sua opinião defenda a obliteração de toda a humanidade; e esta posição de um auto-iluminado e de um auto-convencido da sua excepcionalidade em relação ao comum dos mortais (que para Peter Singer são inferiores a vermes) é uma característica permanente e uma marca-de-água do gnosticismo no decurso dos últimos milénios.

O problema foi que se permitisse que gente como Peter Singer chegasse a lugares de cátedra; gente desta nunca deveria sair da vulgaridade aonde pertencem. E a tarefa da humanidade será destronar este tipo de gente, reduzindo-o à sua merecida insignificância.

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (4)

Filed under: cultura,gnosticismo — O. Braga @ 2:03 pm
Tags: , ,

O problema da culpa

Com a auto-consciência, o ser humano toma consciência da sua originalidade neste mundo ao mesmo tempo que concretiza a sua inserção na realidade natural. Estes são os dois pressupostos das concepções religiosas. A princípio, o objecto de veneração religiosa eram as próprias forças impessoais da natureza (com atributos femininos), que de certo modo espelhavam uma ordem que o ser humano estava submetido.

Marduk e Tiamat

Com a diferenciação cultural, e a partir das civilizações agrícolas desde o fim do neolítico até às culturas superiores (incluídas), o objecto de veneração passou a ser personificado em deusas objectivas e antropomorfizadas, mas que não deixavam de estar relacionadas com as forças impessoais da natureza.

Mais tarde, e já na História, foram aparecendo figuras masculinas de deuses com os quais as deusas formavam pares (Ísis e Osíris, Ishtar e Dumuzi, etc.). A formação de pares de deuses, para além de introduzir o masculino nos panteões, catalisou uma diferenciação cultural no sentido de separar a veneração em relação às forças impessoais da natureza terrestre (as forças ctónicas femininas), reconduzindo essa veneração para as forças cósmicas (astros e sol).

As forças impessoais da natureza e da fertilidade passaram progressivamente para um segundo plano e, numa fase ulterior — quando o ser humano se organizou em cidades muralhadas — foram mesmo consideradas como uma ameaça ao ser humano. As religiões superiores passaram, então, a caracterizar-se por um henoteísmo (adoração especial por um deus masculino, pessoal e antropomórfico, embora sem eliminar todos os outros deuses e deusas que assumem um papel secundário no panteão).


No entanto, o ser humano sempre teve um sentimento de culpa em relação à depredação da natureza. Quando o homem do paleolítico superior e do neolítico caçava para se alimentar, a morte dos animais causava um sentimento de culpa que era exorcizado através dos ritos religiosos de penitência. Com o desenvolvimento da agricultura e do trabalho dos metais, o antigo sentimento de culpa em relação à violação da natureza, manteve-se. As actividades humanas, e desde os tempos mais remotos e primordiais, sempre foi encarado como uma espécie de ultrapassagem dos limites impostos pela natureza, e portanto, de violação blasfema dos tabus relativos à natureza sagrada.

No cântico babilónico da Criação, “Quando lá em cima” ou “Enûma elish”, os deuses surgem de forças caóticas primordiais associadas à água, e as suas actividades perturbaram a paz existente na natureza até então. Os pais desses novos “deuses activos” queriam pôr cobro à confusão criada por estes; reza o cântico: “Haja silêncio, queremos dormir”, pediram os deuses primordiais aos novos deuses activos. Foi então que Marduk, o deus da cidade da Babilónia, matou os seus pais (os deuses primordiais, que existiam antes dos “deuses activos” que surgiram de forças caóticas primordiais associadas à água, como é o caso do próprio Marduk), formando o céu e a terra a partir dos cadáveres dos seus pais mortos. Assim, o cosmos carrega uma culpa desde o seu início, culpa essa que é partilhada pelo ser humano. O deus Marduk criou o ser humano a partir do sangue do deus Kingu, que se tornara culpado perante os outros “deuses activos” — e assim, o ser humano carrega uma culpa fundamental.

Este detalhe acerca da culpa e da cosmogonia babilónica de Marduk , é importante para se perceber a evolução do gnosticismo até aos nossos dias.

Estas concepções de “assassínio primordial” são comuns a várias culturas superiores e sem ligação entre si (não se trata apenas de uma concepção babilónica). Poderia dar aqui outros exemplos mas o espaço é curto.

Página seguinte »

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: