perspectivas

Segunda-feira, 7 Novembro 2022

O problema complexo da interpretação da realidade

Filed under: A vida custa,filosofia — O. Braga @ 3:36 pm

O Ludwig Krippahl fala aqui acerca das “discussões” nas redes sociais (por exemplo, FaceBook) que, bastas vezes, conduzem a cortes abruptos nas conversas, e recusa sistemática em aceitar a opinião alheia.

A verdade é que o importante (em uma discussão nas redes sociais) não é convencer o antagonista; o importante (em uma discussão no FaceBook, por exemplo), é ajudar à formação de opinião das pessoas que “assistem” à discussão — porque os antagonistas obedecem (em juízo universal), cada um deles, a uma interpretação pré-racional da realidade, que, se for colocada em causa, pode levar a uma (muito) desconfortável Dissonância Cognitiva.

A Razão é baseada na construção de conceitos.

Porém, se a interpretação (da realidade, ou dos factos) se baseasse somente em uma dedução conceptual de novos conceitos, a partir de conceitos anteriores (modus ponens), então e neste caso, qualquer tentativa de interpretar a realidade seria inútil.

Ou seja, todas as manifestações da vida individual (humana) são precedidas de uma interpretação do mundo (da realidade, dos factos), ou/e de uma hipótese de fundo que não é produto de uma reflexão racional acerca do sentido da vida e/ou sobre o valor das coisas que são desejáveis.

Quero dizer: cada ser humano vive a partir de uma determinada cosmovisão; e esta (cosmovisão) nunca é resultado de reflexões racionais.

Essa cosmovisão é sempre resultado de uma interpretação pré-racional das experiências feitas (pelo indivíduo) no mundo; e nunca é possível comprová-la (a essa cosmovisão individual) em termos experimentais ou científicos. Segue-se que essa interpretação pré-racional (individual) está intrinsecamente relacionada com a idiossincrasia espiritual de cada indivíduo (S. Tomás de Aquino), e não com a experiência em si e propriamente dita.

Por exemplo: se alguém pensar que a vida não obedece a nenhum valor superior; ou que a vida não tem qualquer sentido; ou que não existe, na vida, nada absolutamente seguro; ou que tudo depende do ponto de vista que se assume (sofismo); ou mesmo que nem sequer vale a pena viver, ou que a morte é o fim absoluto de tudo —, então, dentro de cada um destes referidos juízos, a Existência é sempre interpretada em relação à Totalidade do conceito de Realidade. Quando, por exemplo, alguém goza a vida sem quaisquer limitações éticas e físicas (ou seja, “à tripa forra”), também já fez uma interpretação pré-racional da Existência.

Este juízo interpretativo (individual) é pré-racional (sensibilidade); não é resultado de uma reflexão racional do indivíduo. E, muitas vezes, esse juízo interpretativo só pode ser alterado mediante uma metanóia resultante de uma situação-limite (por exemplo, a experiência de felicidade e de sofrimento, de nascimento e de morte, de desejo e de satisfação, de velhice e de despedida; o conceito de “limite” inclui o facto de existir uma continuação para além desse limite, assim como a linha do horizonte é um limite que pressupõe a existência de algo para além dela).

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